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"A Canção Que Eu Ainda Não Cantei Para Você" CAPÍTULO 11 — A CANÇÃO QUE FINALMENTE CANTAMOS

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CAPÍTULO 11 — A CANÇÃO QUE FINALMENTE CANTAMOS

Noah não saiu correndo à minha procura.

Essa foi a primeira prova de que ele realmente havia mudado.

Ele leu meu bilhete, respirou fundo e caminhou para o palco. Não transformou minha ausência em emergência, nem decidiu que eu precisava ser encontrada e salva.

Confiou na escolha que eu tinha deixado.

A casa estava lotada. Não era uma arena, e isso tornava tudo mais importante. Cada rosto estava perto o bastante para Noah enxergar quem havia esperado por ele.

Do lado de fora, pessoas sem ingresso acompanhavam a transmissão em celulares. Dentro, não havia painéis com o logotipo da Aurora. Os equipamentos tinham sido alugados com o dinheiro da pré-venda; cada contrato estava em nome da nova equipe independente de Noah.

Bia atravessava os bastidores com uma prancheta e dois rádios. Dona Helena distribuía café aos técnicos como se o retorno internacional do filho fosse apenas mais uma noite movimentada na lanchonete.

Quando uma assistente perguntou se ela estava nervosa, respondeu:

“Estou. Por isso trouxe comida.”

“Durante muito tempo”, disse ao microfone, “eu achei que voltar significava provar que nada tinha me quebrado.”

Olhou para a estrutura acima do palco.

“Hoje eu sei que voltar é escolher mesmo sabendo onde ainda dói.”

A banda começou.

Noah cantou a primeira música sem playback. Errou uma nota e sorriu. O público devolveu a frase. Na segunda, apresentou cada músico pelo nome.

Quando chegou a Ainda Aqui, a tela atrás dele permaneceu escura.

Então meu documentário começou.

Não mostrei nosso beijo.

Mostrei suas mãos tremendo antes do primeiro ensaio e, depois, firmes sobre o teclado. Mostrei Davi discutindo sobre o surdo, Bia desligando uma câmera durante a crise e Dona Helena embalando pão de queijo para um filho que fingia não esquecer de comer.

Mostrei Noah dizendo que o silêncio antes do refrão precisava respirar.

Na sequência final, os nomes de todos os técnicos, músicos, tradutores e assistentes ocuparam a tela. Nenhuma pessoa desaparecia atrás da imagem do ídolo.

Noah assistiu aos créditos do próprio palco.

Só depois da última linha terminar eu apareci na mesa de direção.

Tinha passado as horas anteriores confirmando o depósito final da demo autenticada em servidores independentes, com cópias sob custódia dos advogados e do órgão de gestão autoral. Nenhuma empresa voltaria a controlar sozinha aquela memória.

Noah me viu.

Não interrompeu a música.

Cantou até o último refrão.

Então estendeu a mão na direção da mesa.

“Essa canção tem uma frase que eu não escrevi sozinho.”

A plateia se virou para mim.

Peguei o microfone da direção.

“Os créditos terminaram?”

Noah olhou para a tela.

“Todos.”

“Tem certeza? Até o estagiário de cabo?”

Uma risada atravessou a casa.

“Especialmente ele.”

Subi ao palco.

Não era cantora. Minha voz tremeu no primeiro verso. Noah reduziu o volume para me acompanhar, mas não cantou por mim.

Terminamos juntos a frase que nascera no chão de um apartamento dois anos antes.

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Meses depois, Marcelo foi desligado definitivamente da Aurora e passou a responder pela falsificação da autorização e pelo uso indevido das credenciais. A investigação confirmou a participação dele na transferência da demo e na pressão sobre Noah.

O procedimento de autoria reconheceu a precedência da demo. A antiga empresa coreana aceitou corrigir o catálogo depois que os laudos chegaram aos parceiros de distribuição. O grupo que lançara a versão comercial manteve os direitos de intérprete, mas os compositores indicados sem contribuição comprovada perderam aquela parcela de crédito.

Não houve uma sentença mágica capaz de apagar dois anos em uma tarde. Houve retificação, retenção de valores, auditoria e acordos que levaram meses. Cada etapa devolveu um pedaço do que tinha sido tomado.

Camila perdeu o cargo e a participação de gestão na produtora. Cooperou como testemunha e começou de novo como profissional autônoma. Isso não apagou o que fez. Apenas impediu que sua pior escolha fosse seguida por outra mentira.

Os créditos de Ainda Aqui foram corrigidos. A parte musical voltou para Noah. A contribuição na letra em português ficou registrada em meu nome. Os royalties passaram a contas separadas, de acordo com a divisão documentada.

De Volta ao Palco foi selecionado para uma mostra brasileira de filmes musicais. Pela primeira vez, meu nome apareceu numa programação sem vir depois da expressão “ex de Noah Han”.

Na sessão, uma estudante perguntou se o documentário era uma história de amor.

“Também”, respondi. “Mas é principalmente uma história sobre quem tem o direito de assinar aquilo que criou.”

Noah, sentado na última fileira, não pareceu ofendido por não ser a resposta inteira.

Noah recusou o retorno ao antigo modelo de agência. Organizou uma pequena turnê independente por São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Na noite da estreia, encontrei-o sozinho nos bastidores.

“Você ainda não respondeu”, ele disse.

“Sobre?”

“Nós.”

“Achei que cantar no palco fosse uma resposta.”

“Sou compositor. Tenho obsessão por confirmação verbal.”

“Você passou um ano evitando palavras.”

“Estou compensando.”

Noah não se ajoelhou. Não exibiu anel. Apenas ficou diante de mim, sem câmeras, deixando espaço suficiente para que eu pudesse ir embora.

“Posso caminhar ao seu lado desta vez?”

“Pode.”

O alívio iluminou seu rosto.

Segurei a gola de sua jaqueta antes que ele se aproximasse.

“Mas sem desaparecer.”

“Sem desaparecer.”

“Sem decidir por mim.”

“Sem decidir por você.”

“E quando tiver medo?”

“Eu digo que estou com medo.”

“Mesmo se achar que vai me perder?”

“Principalmente se eu achar que vou perder você.”

“E sem rimar ‘coração’ com ‘paixão’ em nenhuma música.”

Ele pareceu ofendido.

“Isso é censura artística.”

“É controle de qualidade.”

Dessa vez, quando nos beijamos, não havia uma janela aberta para a rua.

Um ano depois, Noah fazia uma transmissão do pequeno estúdio montado sobre a lanchonete de Dona Helena. Os fãs votavam entre duas melodias para a próxima música.

Eu editava o novo documentário fora do enquadramento.

“Essa frase está dramática demais”, falei.

Noah parou de tocar.

“Ninguém perguntou à diretora.”

“A diretora tem corte final.”

Ele leu os comentários, fingiu indignação e apontou para onde eu estava.

“Vocês querem ouvir a versão dela?”

Milhares de respostas afirmativas subiram pela tela.

Noah mudou um acorde, olhou para mim e sorriu daquele jeito tranquilo que já não precisava esconder medo atrás de silêncio.

“Então fica”, disse. “Essa eu ainda não cantei para você.”

FIM

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