"Ela Foi Demitida por Salvar uma Vida" Capítulo 1 — A Enfermeira Que Disse Não
Capítulo 1 — A Enfermeira Que Disse Não
O alarme da bomba de infusão começou a tocar às 22h47, três segundos antes de Lívia Azevedo perceber que alguém podia morrer.
Ela atravessou a emergência do Hospital Santa Augusta desviando de uma maca, dois residentes e uma família que discutia com a recepcionista. Do lado de fora, a chuva transformava Botafogo numa parede cinzenta. Dentro, o ar cheirava a álcool, café queimado e cansaço.
No leito doze, seu Orlando, sessenta e oito anos, dormia sob o efeito dos analgésicos. Tinha saído de uma cirurgia abdominal havia menos de duas horas e apresentava histórico de hemorragia digestiva.
Lívia conferiu a tela da bomba.
Depois conferiu de novo.
O número continuava ali.
Dez vezes acima da dose registrada na prescrição original.
O tubo transparente já estava conectado ao acesso venoso do paciente. A mão enluvada do doutor Álvaro Nogueira pairava sobre o botão de confirmação.
Lívia segurou o pulso dele.
"Não aperte."
O cirurgião virou o rosto devagar. Álvaro era o médico mais fotografado do Santa Augusta, presença frequente em programas matinais e jantares beneficentes. Não estava acostumado a ser tocado. Muito menos impedido.
"Solte meu braço, enfermeira."
"A dose está errada. Se esse medicamento entrar nessa velocidade, ele pode sangrar até morrer."
Dois residentes pararam junto à porta. Camila Rocha, a farmacêutica do plantão, levantou os olhos do carrinho de medicação.
Álvaro soltou uma risada curta.
"Eu fiz a prescrição."
"E alguém alterou o valor depois."
Lívia puxou o tubo para fora da bomba antes que ele pudesse confirmar a infusão. O alarme aumentou, estridente.
"Você acaba de interromper uma conduta médica diante da minha equipe."
"Interrompi uma dose que mataria o paciente."
O monitor cardíaco de seu Orlando acelerou. A esposa dele apareceu no corredor carregando dois copos de café.
"Está acontecendo alguma coisa?"
Lívia se colocou entre a mulher e a discussão.
"Estamos conferindo a medicação. Seu marido continua estável."
Álvaro se aproximou tanto que ela sentiu o cheiro amargo de menta em seu hálito.
"Você não vai trabalhar em outro hospital particular nesta cidade quando eu terminar com você."
Lívia sentiu medo. Não o medo abstrato de uma ameaça, mas o medo concreto do aluguel vencendo em nove dias, das parcelas do curso de especialização e do dinheiro que enviava à mãe todos os meses.
Mesmo assim, pegou o celular corporativo, fotografou a tela da bomba e o histórico da prescrição.
"Então é melhor o senhor sorrir para a foto."
Álvaro tentou arrancar o aparelho de sua mão. Camila se moveu por instinto e colocou o carrinho entre os dois.
"Doutor", disse a farmacêutica, quase sem voz, "a enfermeira tem razão. Esse lote saiu com a dose padrão. Houve alteração no sistema."
Por um instante, ninguém falou.
Lívia aproveitou o silêncio. Abriu o formulário eletrônico de segurança do paciente, anexou as imagens e enviou uma cópia ao canal externo de conformidade. Quando a confirmação chegou, guardou o número do protocolo na memória.
Álvaro observou tudo.
Não havia raiva em seus olhos agora.
Havia cálculo.
Quarenta minutos depois, dois seguranças esperavam por Lívia diante da sala de Heitor Bastos.
O diretor executivo do Santa Augusta não lhe ofereceu uma cadeira. Sentado atrás de uma mesa larga demais, ele alinhou as abotoaduras enquanto a tempestade tremia nas janelas.
"Insubordinação grave, exposição indevida de um membro do corpo clínico e violação de protocolo", leu.
"Eu impedi um erro de medicação."
"Você criou um ambiente hostil."
"O senhor leu o relatório?"
"Li o relatório do doutor Nogueira."
"Eu perguntei sobre o meu. Protocolo SA-4471."
Heitor ergueu os olhos. A pausa foi pequena, mas suficiente.
Ele sabia do protocolo.
"A administração concluiu que sua permanência representa um risco institucional. Seu contrato está encerrado a partir de agora."
Ele empurrou um envelope sobre a mesa.
"E o paciente?"
"Não é mais responsabilidade sua."
"O paciente tem nome. Orlando Ribeiro."
"Deixe o crachá e não faça uma cena. O setor de saúde é menor do que parece, Lívia. Uma recomendação ruim atravessa a ponte até Niterói antes do amanhecer."
Ela retirou o crachá do bolso. Por seis anos, aquele pedaço de plástico abrira todas as portas que importavam em sua vida.
Lívia o colocou sobre a mesa, mas não pegou o envelope.
"Se ele tivesse morrido, o senhor teria chamado de complicação."
Heitor não respondeu.
"Mas eu vou chamar pelo nome certo", continuou ela. "Tentativa de esconder um erro."
O rosto dele endureceu.
"Acompanhem a senhora Azevedo até a saída."
Às 23h38, Lívia estava na calçada com uma caixa de papelão amolecendo sob a chuva. Dentro havia um estetoscópio, um par de tênis, duas canetas e uma caneca que dizia EU NÃO FAÇO MILAGRES, APENAS PLANTÕES.
Seu saldo bancário era de R$ 63,20. O aplicativo cobrava cento e oitenta pela corrida até Catete.
Ela começou a andar.
Não chorou. Ainda não.
Mandou uma mensagem para a mãe dizendo que o plantão terminaria tarde e colocou o celular no modo de economia. Depois anotou o número do protocolo num recibo e escondeu o papel dentro da capa do aparelho.
Três quarteirões adiante, as luzes da rua piscaram.
Então apagaram.
Lívia ouviu primeiro o ronco dos motores. Grave, sincronizado, próximo demais. Faróis brancos cortaram a chuva e cercaram o cruzamento.
Um utilitário preto subiu parcialmente na calçada, bloqueando seu caminho. Duas caminhonetes fecharam a rua atrás dela. Homens de terno saíram dos veículos sem pressa.
A caixa escapou das mãos de Lívia. A caneca bateu no asfalto e se partiu.
Um homem alto, com uma cicatriz atravessando a sobrancelha, aproximou-se.
"Lívia Azevedo?"
Ela recuou um passo.
"Se querem meu celular, podem levar."
"Você é a enfermeira que impediu a dose no Santa Augusta?"
O sangue pareceu deixar o corpo dela.
"Quem quer saber?"
O vidro traseiro do primeiro carro desceu poucos centímetros.
Uma voz masculina atravessou a tempestade.
"O homem cujo irmão vai morrer se você continuar discutindo na chuva."
Lívia encarou a faixa escura da janela.
"Levem-no a um hospital."
"Foi dentro de um hospital que prepararam a morte dele."
O homem da cicatriz abriu a porta traseira.
O cheiro de sangue chegou antes da imagem.
Um jovem estava estendido no banco de couro, o rosto sem cor, a camisa encharcada de vermelho. Ao lado dele, um homem de terno escuro mantinha as duas mãos pressionadas contra o ferimento.
Lívia reconheceu Caio Ferraz pelas fotos dos jornais: dono de terminais, contratos milionários e silêncios que nunca chegavam aos tribunais.
Ela não entrou imediatamente.
"Quero um kit de trauma, oxigênio e acesso a um banco de sangue. Sem isso, vocês só estão me convidando para assistir à morte dele."
Caio ergueu o rosto. Seus olhos escuros não demonstraram surpresa, mas suas mãos estavam cobertas pelo sangue do irmão.
"Temos tudo."
"E um cirurgião."
"Temos um endereço."
"Não foi o que perguntei."
Por um segundo, o cruzamento inteiro pareceu esperar pela resposta dele.
"Ainda estamos tentando localizar um."
Lívia olhou para o jovem, contou as respirações rasas e viu o tremor involuntário das pálpebras.
Tomou uma decisão que não podia desfazer.
Subiu no carro e arrancou a gravata de Caio.
"Dobre isso e pressione onde eu mandar."
Ele obedeceu.
Antes que a porta se fechasse, Caio falou junto ao ouvido dela:
"Você foi demitida porque estava certa. É exatamente por isso que eu vim buscar você."
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