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"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 10

正文开头

A minha vez de contar

Ana levou três semanas para aceitar conversar com nossa mãe por vídeo.

Eu fiquei no início da ligação, a pedido das duas. Depois saí para a varanda da residência. Pela janela, via Sofia segurando o aparelho com as duas mãos. Não escutei as palavras.

Quando voltei, ela chorava. Também sorria.

"Vamos nos ver", contou.

A visita aconteceu no mês seguinte. Ana veio de avião e me pediu que fosse buscá-la. No carro, ajeitou a bolsa quatro vezes e reclamou do ar-condicionado. Eu reduzi, depois aumentei. Ela percebeu que estava fazendo aquilo e começou a rir.

"Estou insuportável?"

"Um pouco. É bom saber que tem coisas que não mudaram."

Ela me deu um tapa leve no braço.

Sofia esperou na mesma sala onde eu a encontrara. Levantou-se quando a filha entrou. Nenhuma das duas avançou de imediato.

Ana olhou para o rosto da nossa mãe e depois para suas mãos.

"Eu lembro que você desceu a escada atrás de mim", disse.

Sofia começou a chorar.

"Eu devia ter feito muito mais do que isso."

"Eu sei."

"Quero ouvir tudo que você quiser me dizer. Mesmo que seja difícil."

Ana puxou uma cadeira.

Eu fui buscar água e deixei que conversassem sem mim.

Vicente não participou daquele encontro. Ana preferiu vê-lo mais tarde, e eu ainda precisava de distância. Ele me mandava mensagens curtas, perguntando se podia telefonar. Às vezes eu aceitava; às vezes, não. Começou a respeitar as respostas.

Um dia, encontrei-o sentado nos degraus da varanda. Avisara que viria deixar documentos e não entrara.

Sentei-me ao lado dele.

"Você pode falar", eu disse.

Vicente apoiou os cotovelos nos joelhos.

"Passei tanto tempo tentando evitar que você me odiasse que continuei fazendo coisas que davam motivo para isso."

Olhei para as árvores. Não queria que uma frase bem escolhida me empurrasse para um perdão que ainda não sentia.

"Eu contei que não suportava ficar acordado. Você continuou entrando no meu quarto."

"Eu sei."

"Não basta dizer que o Sérgio mandou."

"Eu sei disso também. Entreguei ao seu advogado as mensagens e os comprovantes que faltavam. Inclusive os que eu achei que iam me prejudicar mais."

Ficamos calados por algum tempo.

Ele parecia mais velho sem o hábito de controlar a conversa. Lembrei do rapaz que me ensinara a andar de bicicleta depois que nossa mãe saiu de casa. Eu tinha amado aquele irmão. Ainda o amava, e não sabia como aproximá-lo do homem que me traíra.

"Não vou prometer que vai ficar tudo como antes", falei.

Vicente assentiu.

"Eu gostaria que ficasse melhor do que antes. Mas entendo que não sou eu quem decide se isso é possível."

Naquela tarde, deixei que entrasse para tomar café. Foi apenas isso.

Os encaminhamentos sobre Sérgio e Elisa seguiram seu curso. Houve documentos a assinar, depoimentos, perguntas às quais precisei responder mais de uma vez. Meu advogado me mantinha informado. Não tive de transformar cada jantar numa atualização do caso, mas também não permiti que encerrassem o assunto em meu nome.

正文1

Meu sono voltou aos poucos.

Tive noites ruins depois de dias bons. Algumas vezes acordei com a lembrança da biblioteca. Em outras, não havia lembrança alguma, apenas o corpo assustado. Beatriz acompanhava minha saúde, e comecei a conversar com uma terapeuta sem nenhuma ligação com os Moretti.

Aprendi a dizer quando não entendia uma orientação. Também aprendi que podia pedir companhia sem estar fracassando.

Lia continuava aparecendo com livros, agora sempre acompanhada da mãe ou anunciada por ela. Raquel deixara claro que a filha não era responsável pelo meu sono. Eu concordara antes que precisasse terminar a frase.

As histórias eram uma visita, não uma obrigação.

Às vezes, Lia estava ocupada demais com seus brinquedos e me mandava um desenho no lugar. Eu o colocava na mesa e ligava para Ana. Ou assistia a alguma coisa. Ou simplesmente aceitava que aquela noite demoraria mais a passar.

Quando a menina vinha, o dragão do supermercado geralmente também aparecia. Já havia conseguido uma promoção, embora Lia não soubesse explicar para qual cargo.

"Ele manda nos carrinhos", decidiu certa vez.

"Parece um bom começo."

"É, porque antes ele comia. Agora ele cuida."

Raquel e eu rimos. Lia exigiu saber o motivo e não aceitou nossa explicação.

Durante os meses seguintes, reformamos a passagem antiga. Não quis mantê-la escondida nem permitir que continuasse como atalho para os quartos. Otávio acompanhou cada mudança. A escada danificada foi retirada, o acesso ao closet fechado de verdade e o corredor incorporado a uma pequena sala de leitura.

Na parede, coloquei uma cópia do cachorro de capa que Ana desenhara.

Ela pendurou pessoalmente e reclamou da moldura.

"Você gastou dinheiro demais para exibir um cachorro com três patas."

"A quarta está atrás da capa."

"Você sempre foi um crítico generoso."

No primeiro almoço com todos, Sofia deixou cair o guardanapo duas vezes. Ana discutiu com Vicente porque ele tentou servir vinho numa taça que ela ainda não decidira usar. Dona Rosa mandou que os dois tirassem as mãos da travessa quente. Raquel trouxe Lia, que tinha acabado de fazer quatro anos e considerava o aniversário uma mudança importante de autoridade.

Eu observava a mesa quando ela puxou minha manga.

"O senhor está triste?"

"Não. Só estou olhando."

"Então olha comendo. A dona Rosa vai reclamar."

Peguei o garfo.

Houve momentos difíceis naquele almoço. Uma lembrança que meu irmão contava como engraçada fez Ana se calar. Sofia precisou descansar antes da sobremesa. Ninguém fingiu que tudo estava resolvido. Ainda assim, ao sair, minha irmã perguntou quando seria a próxima visita.

Seis meses depois da primeira noite de Lia no meu quarto, dormi sete horas seguidas.

Não anunciei o resultado à casa inteira. Fiquei sentado na cama, olhando a luz entrar pela cortina, com uma felicidade quieta que eu quase tinha medo de perturbar.

Naquela semana, ela veio me contar uma história sobre um rei que morava num castelo e não conseguia dormir.

正文2

"Isso parece conhecido", observei.

Lia estava na poltrona, de meias iguais, com o coelho ao lado. Raquel lia perto da janela.

"O rei é ruivo", respondeu a menina. "O senhor não é."

"Nesse caso, retiro minha suspeita."

O rei tentou dormir numa banheira, em cima de uma árvore e dentro de uma caixa. Nenhuma tentativa funcionou. Lia fechou o livro, embora ainda faltassem páginas.

"Como ele resolveu?", perguntei.

"Chamou a irmã. Ela falou que ele estava deitado no sapato."

Raquel começou a rir antes de mim.

"O sapato estava onde?", ela quis saber.

"Na cama, mamãe. Você não está prestando atenção."

Eu ri até precisar enxugar os olhos. Lia nos observou, orgulhosa e um pouco ofendida com a falta de seriedade.

Raquel a levou de volta para casa pouco depois. Passei a mão no lugar onde o livro ficara e apaguei a luz.

Na madrugada seguinte, ouvi uma batida na porta.

Meu corpo reagiu antes que eu pensasse. Abri os olhos, sentei, procurei o relógio.

"Seu Domenico?", chamou Raquel, baixinho. "A Lia acordou assustada. Estamos passando pela sala e ela quis saber se o senhor também ouviu a chuva. Se estiver dormindo, eu levo ela de volta."

Levantei-me e abri.

Lia segurava a mão da mãe. O coelho estava espremido debaixo do outro braço.

"Eu sonhei que ele caía na água", contou, mostrando o bicho.

Ajoelhei diante dela.

"Mas ele está aqui. Quer que eu confira se está molhado?"

Ela assentiu. Examinei as patas, a barriga e a orelha com os pontos amarelos.

"Parece seco."

Lia encostou o rosto no meu ombro.

Olhei para Raquel.

"Podemos ficar um pouco na sala de leitura?"

Ela concordou.

Acendi o abajur. Raquel se acomodou numa ponta do sofá, e Lia subiu entre nós. Escolheu um livro da prateleira, abriu no começo e o colocou nas minhas mãos.

"Agora o senhor conta."

Eu não lembrava a história direito. Troquei o nome de um personagem e fui corrigido. Esqueci de fazer a voz do lobo, e Lia me ensinou como.

Na terceira página, ela já pesava contra meu braço.

Continuei lendo até Raquel tocar de leve meu ombro.

A menina dormia de boca entreaberta, com uma mão fechada na minha manga. O coelho ficara atravessado nos nossos joelhos.

Raquel se ofereceu para pegá-la. Pedi mais um minuto.

Do lado de fora, chovia. Na parede à nossa frente, o cachorro de capa protegia um castelo desenhado por uma adolescente que eu finalmente podia visitar.

Minha mãe me ligaria pela manhã para perguntar se eu tinha tomado café. Ana provavelmente mandaria uma fotografia do gato. Vicente aguardava uma resposta sobre o almoço de domingo, e eu ainda estava decidindo.

Nada precisava ser resolvido antes do amanhecer.

Baixei a voz e terminei a página, enquanto Lia dormia encostada em mim.

FIM

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