"Ela Gastou Seus Últimos Reais no Natal da Filha… Sem Saber Que Um Milionário Observava Tudo!" Capítulo 1 — A Última Ceia de Natal
— Vinte e oito reais e cinquenta centavos. É tudo o que tenho.
Marina Oliveira espalhou as moedas sobre o balcão. Do lado de fora, uma tempestade de verão transformava as ruas de Campinas em rios escuros.
A atendente olhou para o dinheiro, depois para a menina de vestido amarelo que apertava um coelho de pelúcia contra o peito.
— Dá para uma ceia infantil? — Marina perguntou.
Dona Célia, proprietária do pequeno restaurante, assentiu devagar.
— Arroz, frango, farofa e uma fatia de panetone. Pode escolher uma mesa.
— Obrigada. De verdade.
Sofia correu até a janela enfeitada com estrelas de papel. Tinha sete anos e uma alegria que a mãe se esforçava para preservar.
— Mamãe, olha! Tem uma árvore de Natal de verdade!
— É bonita, não é, meu amor?
Marina sorriu, embora seus pés doessem dentro das sandálias molhadas. Na bolsa, restavam uma escova de dentes, dois documentos e a chave de um carro velho.
Numa mesa próxima, Augusto Monteiro observava a cena. Aos cinquenta e nove anos, comandava uma das maiores construtoras da região. Naquela noite, porém, não conseguia terminar uma simples xícara de café.
O celular vibrou novamente. Beatriz, sua irmã, ligava pela quarta vez.
Ele recusou a chamada.
Três anos antes, Helena, sua esposa, morrera depois de uma doença repentina. Desde então, as festas tinham se transformado em compromissos que ele preferia evitar.
A casa no condomínio Gramado continuava iluminada, decorada e vazia. Havia presentes comprados por funcionários e nenhum abraço que ele desejasse receber.
— O senhor quer que eu esquente o café? — perguntou Célia.
— Não precisa.
A ceia chegou à mesa de Marina. Sofia juntou as mãos, encantada.
Antes de chegar ao restaurante, Marina tentara telefonar para uma antiga colega. A chamada caiu na caixa postal. Na tela rachada do celular, a bateria marcava cinco por cento. Ela desligou o aparelho para economizar energia.
— Tem frango! Igual nos comerciais!
Marina cortou a carne em pedacinhos e empurrou o prato inteiro para a filha.
— Come enquanto está quentinho.
Sofia ergueu o garfo, mas parou.
— E você, mamãe?
— Já comi antes de sair.
A mentira saiu delicada, quase convincente. Augusto, entretanto, tinha visto a mulher contar as moedas três vezes.
A menina separou o maior pedaço de frango.
— Esse é seu. Você sempre guarda o melhor para mim.
— Hoje é sua noite, princesa.
— Mas Natal é para dividir.
Marina engoliu em seco. Aceitou uma pequena porção, apenas para não entristecer a filha. Enquanto Sofia comia, ela bebeu água para disfarçar o vazio no estômago.
Augusto desviou os olhos. Lembrou-se de Helena dizendo que uma mesa farta não significava nada quando alguém era deixado de fora.
Ele chamou Célia discretamente.
— Pode mandar mais comida para elas? E coloque na minha conta.
— A moça não gosta de receber favor — advertiu a proprietária. — Já recusou até uma sobremesa.
Augusto pensou por um instante.
— Então diga que é uma lembrança de Natal da casa. Sem mencionar meu nome.
Célia levou uma travessa pequena, duas rabanadas e suco de uva.
O Corsa fora comprado usado quando Sofia ainda era bebê. Durante anos, servira para levar a menina à escola e buscar compras no mercado. Agora era o único teto que Marina conseguia oferecer. Ela escondia essa verdade dos antigos vizinhos por vergonha, não por orgulho.
— Presente do restaurante. Feliz Natal.
Marina ficou desconfiada.
— Dona Célia, não posso pagar por isso.
— Ninguém está cobrando, menina. Hoje eu quero ver essa pequena sorrir.
Sofia bateu palmas. Marina agradeceu, sem perceber que Augusto apertava as mãos debaixo da mesa para conter a emoção.
Pouco depois, um homem de camisa social entrou no restaurante e sacudiu o guarda-chuva.
— O carro azul ainda está lá fora? — perguntou ao balcão. — O estacionamento vai fechar.
Marina levantou a cabeça imediatamente.
— É meu. Eu já vou tirar.
Augusto notou o susto. Também percebeu que ela não perguntara onde poderia estacionar durante a noite.
Sofia bocejou e apoiou a cabeça no ombro da mãe.
— A gente vai ver as luzes antes de dormir?
— Se a chuva deixar.
— E o Papai Noel encontra a gente mesmo sem chaminé?
Marina beijou seus cabelos.
— Encontra, sim. Ele conhece todos os caminhos.
A frase pareceu atravessar o peito de Augusto. Ele nunca tivera filhos. Durante vinte e quatro anos de casamento, prometera a Helena que pensariam nisso depois da próxima obra.
A próxima obra sempre chegava primeiro.
Às dez e meia, Célia começou a apagar as luzes do salão. Marina ajudou a recolher os guardanapos, apesar dos protestos da proprietária.
— Não precisa trabalhar pela ceia — disse Célia.
Célia conhecia Marina havia apenas duas semanas. A jovem aparecera procurando serviço de limpeza, e a proprietária lhe oferecera alguns turnos. Naquela noite, porém, o movimento era fraco e não havia trabalho. Célia compreendia por que a moça insistia em pagar a refeição.
— Eu sei. Só queria agradecer.
Augusto deixou uma gorjeta generosa sem chamar atenção. Depois esperou sob a marquise, enquanto a chuva diminuía para uma garoa pesada.
Marina saiu com Sofia pela mão. A menina carregava um saquinho com o panetone que guardara para o café da manhã.
Elas atravessaram o estacionamento e pararam diante de um Corsa antigo, com pintura descascada e um vidro remendado por fita transparente.
Augusto viu Marina abrir a porta traseira. Tirou sacolas do banco, estendeu uma manta fina e acomodou o coelho de pelúcia junto ao encosto.
Sofia entrou sem reclamar, como quem conhecia aquela rotina.
— Hoje a gente vai dormir no carro de novo, mamãe?
Augusto ficou imóvel.
Marina ajeitou o travesseiro improvisado, feito com uma blusa dobrada.
— Só mais uma noite, meu amor. Amanhã a mamãe encontra um lugar.
— Você promete?
— Prometo que vou tentar com todas as minhas forças.
A menina tocou o rosto da mãe.
— Não fica triste. Eu gostei do nosso Natal.
Marina fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, encontrou Augusto a poucos passos, segurando um guarda-chuva.
— Desculpe — ele disse. — Não queria assustar vocês.
Ela se colocou imediatamente entre o desconhecido e a filha.
— O senhor precisa de alguma coisa?
— Meu nome é Augusto. Eu estava no restaurante. Posso ajudar?
— Estamos bem.
No bolso do paletó, Augusto carregava a foto desde o funeral. Helena ria com a cabeça inclinada, segurando uma tesoura de jardinagem. Ele nunca conseguira escolher outra fotografia para a carteira. Aquela mostrava a mulher que existia antes dos hospitais e dos despedidas.
Um trovão fez Sofia se encolher. A água escorria pela borracha solta da janela e pingava sobre a manta.
Augusto olhou para o banco molhado, mas não avançou.
— Não parece seguro passar a noite aqui. Posso chamar a dona Célia? Talvez ela conheça um lugar.
Marina hesitou. A proposta não parecia uma ordem. Ainda assim, a experiência ensinara que toda gentileza podia trazer uma cobrança.
— Eu não aceito nada que depois seja usado contra minha filha.
— Nem eu pediria isso.
Ao procurar o telefone, Augusto deixou cair uma fotografia antiga que guardava na carteira. Helena aparecia sorrindo diante de um jardim cheio de crianças.
Sofia se inclinou para enxergar.
— Moço, espera!
Ele recolheu a foto.
— O que foi, pequena?
A menina apontou para o rosto da mulher.
— Por que o senhor tem uma foto da dona Helena?
Augusto sentiu o mundo parar.
— Você conhece essa mulher?
Sofia assentiu com naturalidade.
— Conheço. Ela ficava na parede do lugar onde a mamãe trabalhava.
Marina perdeu a cor.
— Sofia, entra no carro, por favor.
Mas Augusto já tinha ouvido o suficiente. Pela primeira vez em três anos, o nome da esposa morta acabara de surgir na boca de uma criança desconhecida, no meio de um estacionamento alagado.
E o medo no rosto de Marina dizia que aquela coincidência escondia alguma coisa.
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