"O Chefe da Máfia Salvou Seu Primeiro Amor Primeiro… Três Anos Depois, Sua Esposa Voltou com um Filho" Capítulo 3 — Três Anos de Culpa
Três anos depois, Dante ainda acordava ouvindo a explosão.
Naquela madrugada, levantou antes do sol e atravessou a mansão silenciosa até o quarto que deveria ter sido de Gabriel. Nada fora retirado. O berço permanecia montado, os brinquedos cobertos por uma camada fina de poeira e um pequeno macacão azul descansava sobre a poltrona.
Rafael apareceu à porta.
— O carro está pronto.
— Cancele a reunião.
— Você já cancelou duas.
Dante tocou a madeira do berço.
— Então eles sabem como funciona.
Nos negócios, ele se tornara mais frio. Comprara a companhia responsável pela manutenção do jato e demitira todos os diretores. Financiara uma unidade de resgate aeromédico em nome de Aurora. Destruíra homens por erros menores do que o próprio.
Nada disso trazia a esposa de volta.
Sophia continuava aparecendo em eventos da família, sempre recebida por Beatriz Montenegro, mãe de Dante, como uma sobrevivente da tragédia. A sociedade transformara os dois em uma história interrompida: o viúvo e o primeiro amor que ele salvara.
Dante nunca confirmou essa narrativa.
Também nunca revelou publicamente que Sophia mentira sobre o tornozelo. A verdade não devolveria Aurora e exporia o nome Montenegro a um escândalo capaz de transformar sua esposa morta em espetáculo.
Naquela manhã, Sophia o esperava na sala de jantar.
— A gala do Instituto Aurora é hoje — lembrou. — Os patrocinadores esperam que entremos juntos.
— Entre com minha mãe.
— Dante, já se passaram três anos.
Ele colocou a xícara sobre a mesa.
— Para você.
— Para todos.
— Não fale por todos. Principalmente por uma mulher que não pode responder.
Sophia respirou fundo.
— Eu cometi um erro naquela aeronave. Pedi perdão centenas de vezes.
— Você pediu absolvição. É diferente.
— E até quando vai me punir?
Dante inclinou-se sobre a mesa.
— Enquanto eu lembrar de Aurora perguntando se haveria tempo para eu voltar.
Sophia saiu com os olhos úmidos. Na garagem, ligou para Sérgio.
— Ele vai à gala. Preciso que verifique a lista de convidados.
— Há quase seiscentos nomes.
— Verifique mulheres chamadas Aurora. Qualquer idade, qualquer sobrenome.
— Depois de três anos, ainda acredita que ela aparecerá?
Sophia olhou para as janelas do quarto infantil.
— Não acredito. Tenho medo.
Em Paraty, Aurora fechava a mala enquanto Gabriel tentava esconder brigadeiros no bolso do paletó infantil.
— Eu vi isso, senhor Gabriel Nascimento.
O menino abriu um sorriso. Tinha os mesmos olhos de Dante, o mesmo cabelo escuro e a mesma expressão ofendida quando era contrariado.
— É para a viagem.
— O hotel em São Paulo terá comida.
— Mas pode não ter brigadeiro bom.
Aurora se agachou diante dele. O coração apertou. Aos três anos, Gabriel já perguntava por que não tinha pai nas apresentações da escola. Ela dizia que o pai morava longe e ainda não sabia como encontrá-los.
Não era a verdade inteira. Também não era uma mentira completa.
Aurora não voltava a São Paulo por Dante. Nos últimos anos, estudara gestão hoteleira à noite, ajudara a pequena pousada de Renata e transformara o negócio numa rede de experiências sustentáveis. O projeto ganhara um prêmio nacional.
O convite para apresentá-lo na gala do Instituto Aurora parecia uma ironia cruel.
Ela só descobrira que a fundação pertencia a Dante depois de aceitar. Cancelar significaria perder o investimento que garantiria emprego a dezenas de mulheres da costa verde.
— Mamãe está com medo? — Gabriel perguntou.
— Um pouco.
Ele tocou a face dela.
— Eu seguro sua mão.
Aurora sorriu e o abraçou.
— Foi para isso que eu criei um homem corajoso?
— Não. Foi para comer brigadeiro escondido.
Renata entrou rindo. Depois do acidente, deixara a aviação e se tornara sócia de Aurora. Era a única pessoa, além de Lígia, que sabia toda a verdade.
— Podemos recusar — disse, quando Gabriel saiu. — Ainda dá tempo.
— Passei três anos fugindo de Sophia.
— E de Dante.
Aurora fechou a mala.
— Dante fez uma escolha. Eu fiz a minha.
— Ele acredita que vocês morreram.
— Porque Sophia garantiu que continuasse acreditando.
Renata abriu no celular uma pasta protegida por senha. Ali estavam cópias do prontuário de Aurora, a fotografia de Sérgio no hospital e os comprovantes do pagamento feito ao funcionário da clínica. Durante três anos, elas haviam reunido cada rastro sem alertar Sophia.
— Se você entrar naquele salão — advertiu Renata —, não haverá mais vida anônima em Paraty.
Aurora observou Gabriel tentar fechar sozinho os botões do paletó.
— A vida anônima deixou de ser segura quando fotografaram meu filho na escola. Agora preciso que a verdade seja pública demais para desaparecer.
Meses antes, Aurora encontrara provas de que Sérgio pagara um funcionário da clínica para rastrear Gabriel. Também descobrira que Sophia interceptara um relatório de sobreviventes enviado à empresa de Dante na semana do acidente.
Aurora não sabia se o documento chegara às mãos dela por acaso ou por ordem. Mas sabia que Sophia conhecia a verdade desde o início.
— Na gala, entrego a prova à imprensa — disse Aurora. — Depois disso, ela não poderá ameaçar Gabriel em silêncio.
— E Dante?
— Vai descobrir que tem um filho diante de todo mundo, assim como eu descobri diante do fogo que lugar ocupava na vida dele.
Ao entardecer, o salão do Palácio Tangará brilhava sob lustres dourados. Jornalistas, empresários e políticos reuniam-se para celebrar o terceiro aniversário do Instituto Aurora Montenegro de Resgate Materno.
Um retrato enorme de Aurora grávida ocupava o palco.
Dante entrou sozinho. Os flashes dispararam. Sophia, vestida de verde-esmeralda, aproximou-se e passou o braço pelo dele antes que pudesse impedi-la.
— É melhor para as fotografias — murmurou.
Dante retirou o braço.
— Não use o nome dela para fabricar o nosso.
Do outro lado do salão, Sérgio recebeu no celular a lista atualizada dos projetos finalistas. Leu o nome “Aurora Nascimento” e derrubou a taça.
Ligou imediatamente para Sophia.
— Ela está aqui.
Sophia parou de respirar.
— Onde?
— Representa uma pousada de Paraty. Veio com uma criança.
Sophia olhou ao redor. Centenas de rostos passavam entre as colunas, mas nenhum era o que ela temia.
— Tire os dois daqui antes que Dante veja.
— Há imprensa em todas as portas.
— Então provoque um problema. Um alarme. Qualquer coisa.
No corredor de serviço, Aurora segurou a mão de Gabriel e avançou em direção ao salão. Vestia um longo azul-marinho simples, comprado para a ocasião. Não tinha joias além de um pequeno medalhão com a primeira fotografia do filho.
Gabriel parou diante do retrato no palco, visível pela porta entreaberta.
— Mamãe, aquela mulher é você.
Aurora sentiu as pernas falharem.
— Era eu.
— Por que colocaram você lá?
Antes que respondesse, um segurança se aproximou.
— Senhora Nascimento? Houve um problema com sua credencial. Preciso que venha comigo.
Aurora reconheceu no crachá o logotipo da empresa de Sérgio.
— Minha credencial foi aprovada.
O homem segurou seu braço.
— Não complique.
Gabriel mordeu a mão do segurança.
— Solta minha mãe!
O homem gritou. Gabriel escapou e correu pelo corredor, atravessando a porta do salão.
Aurora tentou alcançá-lo, mas o segurança a bloqueou.
— Gabriel!
O menino entrou entre vestidos e ternos, olhando para trás. Bateu contra alguém e quase caiu.
Duas mãos fortes o seguraram pelos ombros.
Dante baixou os olhos para a criança.
O salão pareceu desaparecer.
O menino tinha seu rosto.
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