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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 11

正文开头

Um lugar à mesa

Caio demorou a escolher onde guardar a fotografia da mãe.

Na primeira semana fora do hospital, deixou-a debaixo do travesseiro. Depois, dentro da gaveta das meias. Certa manhã, pediu a Clara uma moldura pequena e colocou a foto sobre a escrivaninha, virada para a porta.

"Assim eu vejo quando entro", explicou.

Clara havia alugado uma casa perto da escola de Davi. Não levara Caio para a antiga residência dos Azevedo. Vicente conhecia cada cômodo de lá, e ela própria já não conseguia entrar sem lembrar das conversas que deixara pela metade.

A nova casa tinha quartos suficientes para os dois meninos. Caio escolheu o menor porque sua janela dava para uma árvore. Na primeira noite, pediu que Clara não fechasse completamente a porta. Na segunda, escondeu dois pães na gaveta. Ela os encontrou quando procurava uma meia que desaparecera na lavagem.

Não o repreendeu. Colocou uma caixa com alimentos embalados numa prateleira ao alcance dos dois irmãos e avisou que podia pedir comida sempre que sentisse fome.

Na semana seguinte, Caio ainda guardou pão. Aos poucos, passou a deixá-lo sobre a mesa.

Davi adotou o hábito de anunciar quando saía de casa e quando voltaria. Fazia isso mesmo para ir à padaria da esquina.

"Dez minutos", dizia. "Se demorar, mando mensagem."

No começo, Caio respondia apenas com um aceno. Um mês depois, começou a pedir pão de queijo.

O acordo de cuidados com Caio ainda era provisório. Os profissionais responsáveis acompanhavam sua recuperação, avaliavam as pessoas próximas a ele e ouviam seus desejos conforme a idade permitia. Clara não o apresentou como filho nem pediu que a chamasse de mãe. Quando alguém perguntava qual era sua relação, ela dizia:

"Sou a pessoa com quem ele está morando agora. Davi é irmão dele."

Caio parecia gostar daquela resposta. Não exigia dele sentimentos que ainda não sabia nomear.

As contas do Instituto Caminhos levaram meses para ser organizadas. A auditoria confirmou pagamentos sem comprovação adequada para obras e serviços. Parte do dinheiro havia seguido para empresas ligadas a pessoas próximas de Vicente e Osvaldo. Os responsáveis pela investigação continuaram apurando quem autorizara cada transferência e qual valor poderia ser recuperado.

O conselho afastou Vicente definitivamente da direção. Renata permaneceu apenas durante a reorganização e criou um processo para que os coordenadores dos abrigos confirmassem o recebimento de materiais antes de qualquer pagamento final. As duas reformas que haviam servido de fachada começaram de verdade, sob acompanhamento de pessoas que trabalhavam nos locais.

Clara não voltou a administrar o instituto. Entregou todas as pastas que encontrara, respondeu sobre cada assinatura e iniciou o divórcio. O processo relativo às contas seguiu seu curso sem que seu pedido de separação o resolvesse por ela.

Também procurou a família de Lívia.

A irmã mais velha dela, Sandra, aceitou recebê-la numa tarde de sábado. Clara levou cópias do antigo comunicado do instituto e da declaração em que reconhecera seu erro. Não levou Caio. Aquele encontro dizia respeito à amizade que perdera antes que ele pudesse escolher o que fazer com ela.

正文1

"Você devia ter atendido o telefone", Sandra disse depois de ouvir Clara.

"Devia."

"Lívia ficou esperando que você ligasse de volta."

Clara não pediu perdão. Contou o que já havia feito para corrigir o registro público e perguntou se Sandra queria receber notícias da investigação diretamente, sem passar por jornais ou redes sociais. Sandra aceitou, mas não a convidou a ficar para o café.

Clara saiu sabendo que havia dito a verdade tarde demais para Lívia. Ainda assim, não voltaria a deixá-la enterrada sob uma acusação.

A revisão da morte de Lívia encontrou limites. Algumas imagens de câmeras não existiam mais; certos registros telefônicos já não podiam ser recuperados. O relato de Joana e os documentos do sítio ajudaram a reconstruir as horas anteriores ao acidente, mas não permitiram afirmar que a colisão fora provocada por outra pessoa. A investigação permaneceu aberta para novas informações.

Caio recebeu essa notícia sentado à mesa da cozinha, com Clara e uma profissional que o acompanhava. Ficou decepcionado. Fez perguntas, ouviu o que podia ser respondido e pediu para ficar sozinho durante um tempo.

Mais tarde, apareceu na sala segurando a fotografia emoldurada.

"Minha mãe tentou vir", disse a Clara. "Isso eles sabem?"

"Sabem que planejava procurar ajuda e que havia anotado meu endereço."

"Então não esqueceram dela."

"Não."

Ele levou a foto de volta ao quarto. Na manhã seguinte, pediu para visitar o lugar onde ela estava enterrada. Sandra aceitou acompanhá-los quando chegou o dia.

Vicente continuou negando que tivesse ordenado a Osvaldo que agredisse Caio. As mensagens, porém, mostravam que fora avisado do ferimento e decidira não procurar atendimento naquele momento. Osvaldo respondeu pelas próprias ações; Vicente teve de responder pelo que fizera, pelos pagamentos e pelo que escolhera ignorar. Nenhum dos processos terminou depressa.

Davi não quis falar com o pai quando lhe ofereceram a possibilidade de uma conversa acompanhada. Clara respeitou a decisão. Disse apenas que ele poderia voltar a pensar sobre isso no futuro sem precisar fazê-lo para agradar a ninguém.

Caio também não pediu outro encontro. Guardou a lembrança da camisa azul sem guardá-la consigo.

Quase um ano depois da noite do leilão, os irmãos passaram em frente ao hotel onde tudo começara. Tinham saído de uma consulta para acompanhar a recuperação do pulso de Caio. Davi reconheceu a entrada e parou.

"Quer entrar?", perguntou.

Caio olhou para o salão através do vidro.

"Para quê?"

"Tem um restaurante. Você disse que nunca provou a massa que eu ia buscar."

Na festa, Davi oferecera pão porque era o que conseguira alcançar primeiro. Caio não tivera tempo de sentar para jantar antes que todos começassem a fazer perguntas.

Clara esperou enquanto ele decidia.

"Se a comida for ruim, a culpa é sua", Caio falou ao irmão.

Entraram os três. Não havia fotógrafos nem painel do instituto. Um garçom os levou a uma mesa perto da janela. Caio escolheu macarrão; Davi pediu o mesmo, embora quase sempre preferisse arroz e feijão.

Quando os pratos chegaram, Caio pegou o garfo e começou a comer. Na metade, percebeu que Davi o observava.

"O quê?"

"Você disse que ia me contar por que guardou aquele guardanapo da festa."

Caio ficou vermelho.

"Porque foi nele que você embrulhou o pão."

"Eu sei. Mas por que ainda tem ele?"

Caio enrolou um pouco de massa no garfo antes de responder.

"Naquela noite, eu não sabia se você voltaria quando saísse da sala. Guardei para lembrar que alguém tinha me dado comida sem pedir nada."

Davi baixou os olhos para o próprio prato. Empurrou a cesta de pães para o meio da mesa, ao alcance dos dois.

"Eu voltei", disse.

"Eu sei."

Clara os viu continuar a refeição. Caio não colocou pão no bolso. Davi não precisou insistir para que ele pegasse mais um pedaço. Entre eles, a cesta permaneceu aberta, como qualquer coisa que pertencesse à mesa inteira.

Quando terminaram, Caio deixou o último pão diante do irmão.

"Agora é sua vez."

Davi partiu o pão ao meio e devolveu uma metade.

Caio a aceitou.

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