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"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 11

正文开头

Eu Não Era a Mulher Errada

Por alguns segundos, ninguém no tribunal respirou direito.

Vitória Valença continuava de pé.

O braço estendido.

O dedo apontado para Marcelo.

"Eu sei onde ele escondeu o dinheiro que ninguém encontrou."

Marcelo não desviou os olhos.

Mas o rosto dele mudou.

Foi quase nada.

Um músculo na mandíbula.

Uma tensão no pescoço.

Para Helena, bastou.

Vitória tinha acabado de acertar onde doía.

O juiz ergueu a mão.

"Senhora Valença, qualquer proposta de colaboração deverá ser formalizada pelos meios adequados."

Vitória respondeu:

"Então formalize."

O advogado dela se levantou.

"Excelência, peço cinco minutos para conversar com minha cliente."

Vitória virou para ele.

"Você teve três meses."

"Vitória."

"Três meses me dizendo para ficar calada."

Ela olhou novamente para Marcelo.

"Enquanto ele preparava a própria defesa em cima de mim."

Marcelo falou pela primeira vez.

"Você está cometendo outro erro."

Vitória riu.

"Outro?"

A voz dela ficou mais alta.

"O primeiro foi confiar em você."

O salão começou a murmurar.

O juiz bateu o martelo.

"Silêncio."

Lavínia Albuquerque permanecia sentada alguns lugares adiante.

Seu rosto estava pálido.

Helena percebeu quando ela olhou para Vitória.

Depois para Marcelo.

Depois para o próprio advogado.

Medo.

Não o medo de ser descoberta.

O medo de ser a última a falar.

Lívia se aproximou da bancada da acusação.

"Excelência, o Ministério Público não se opõe à suspensão temporária da sessão para avaliar eventual colaboração."

Marcelo virou.

"Isso é ridículo."

O juiz respondeu:

"O senhor não foi consultado."

Marcelo ficou em silêncio.

Helena observava.

Durante meses, aquele homem controlara horários, contas, pessoas, servidores, advogados, narrativas.

Agora estava sentado entre dois agentes.

E não decidia nem quando a audiência fazia intervalo.

Talvez fosse pouco.

Mas Helena gostou.

A primeira reunião de Vitória com o Ministério Público durou seis horas.

Ela falou sobre contas.

Empresas.

Senhas.

Intermediários.

Políticos que haviam recebido doações legais misturadas a estruturas financeiras ilegais.

Executivos que assinaram documentos sem perguntar.

Outros que perguntaram e foram pagos para esquecer.

Mas o principal veio no fim.

"Marcelo nunca deixava todo o dinheiro na mesma estrutura."

Lívia perguntou:

"Por quê?"

"Porque ele dizia que banco não tem lealdade."

"Então onde?"

Vitória respirou fundo.

"Parte estava fora do sistema que vocês encontraram."

"Quanto?"

"Eu não sei exatamente."

"Estimativa."

"Entre vinte e cinco e quarenta milhões."

Helena estava atrás do vidro, acompanhando.

Gabriel permanecia ao lado dela.

Ele soltou o ar devagar.

"Ainda tinha tudo isso?"

Helena respondeu:

"Provavelmente."

Vitória continuou.

"Havia uma fundação privada no Uruguai."

Lívia perguntou:

"Nome?"

"Fundación Mar de Plata."

"Beneficiário?"

"Não aparecia Marcelo."

"Quem aparecia?"

Vitória olhou para a mesa.

"Um procurador."

"Nome."

"Álvaro Rios."

Helena franziu a testa.

Gabriel perguntou:

"Conhece?"

"Não."

Ele pensou.

"Eu conheço."

Helena virou.

"De onde?"

"Foi consultor do grupo há anos."

"Área?"

"Patrimônio familiar."

Helena sentiu a peça encaixar.

"Claro."

Lívia continuou o interrogatório.

"Há outras estruturas?"

Vitória assentiu.

"Uma em Lisboa."

"Nome."

正文1

"Oriente Participações."

"Mais."

"Uma truste nas Ilhas Virgens."

"Mais."

Vitória fechou os olhos.

"Uma carteira de ativos digitais."

Helena se inclinou.

"Ela sabia disso?"

Gabriel respondeu:

"Pelo jeito."

Vitória continuou.

"Marcelo dividia tudo."

"Por quê?"

"Se uma parte caísse, as outras continuavam."

"Quem tinha as chaves?"

"Ele."

"Mais alguém?"

Vitória hesitou.

"Eu tinha uma."

Lívia parou.

"Você tinha acesso?"

"Parcial."

"Então por que não movimentou?"

Vitória deu uma risada amarga.

"Porque ele me fazia acreditar que eu era importante."

Ela levantou os olhos.

"Eu não era."

Helena sentiu a frase atravessar.

Vitória sempre parecera a mulher que mandava em todos.

No hospital, entrara como se fosse dona do quarto.

Dona do dinheiro.

Dona de Gabriel.

Dona até do destino de Helena.

Agora admitia que também tinha sido uma peça.

Uma peça cruel.

Uma peça criminosa.

Mas ainda assim, peça.

Lívia perguntou:

"Por que está falando agora?"

Vitória demorou.

"Porque ele ia me deixar apodrecer na prisão."

"Isso não é arrependimento."

"Eu não disse que era."

Pela primeira vez, a resposta foi honesta.

Lavínia pediu para falar no dia seguinte.

Quando soube que Vitória entregara as estruturas internacionais, chamou o advogado antes mesmo do café da manhã.

Lívia entrou na sala com Helena.

Lavínia olhou para ela.

"Ela contou sobre o Uruguai?"

Helena não respondeu.

Lívia disse:

"Você está aqui para falar do que sabe."

Lavínia apertou os lábios.

"Vitória sempre foi impulsiva."

Helena quase sorriu.

"Você mandou R$ 300 mil para pagar meu atropelamento."

Lavínia perdeu a expressão.

Helena continuou.

"Talvez não seja uma boa hora para discutir impulsividade."

Lavínia desviou o olhar.

"Eu não mandei atropelar você."

"Você pagou."

"Vitória disse que seria intimidação."

"Rogério ouviu outra coisa."

Lavínia ficou em silêncio.

"Marcelo também estava envolvido."

"Eu sei."

Helena percebeu.

"Quanto?"

Lavínia respirou fundo.

"Mais do que eu contei."

Lívia puxou uma cadeira.

"Começa."

Lavínia falou por quase quatro horas.

Confirmou que o noivado com Gabriel tinha função financeira.

A união pública entre as famílias facilitaria uma incorporação.

Criaria estabilidade para investidores.

Permitiria reorganizar ativos sem provocar suspeita imediata.

Depois, quando o rombo aparecesse, os documentos falsificados colocariam Gabriel como responsável.

"Por que Gabriel?"

Lívia perguntou.

Lavínia respondeu:

"Porque era perfeito."

Helena sentiu a ironia.

"O herdeiro perfeito."

Lavínia assentiu.

"Conhecido."

"Visível."

"Com assinatura em quase tudo."

"Uma pessoa que o mercado acreditaria ter poder suficiente para fazer."

Helena perguntou:

"E Marcelo?"

Lavínia olhou para ela.

"Marcelo nunca queria aparecer."

"Então usou vocês."

Lavínia deu um sorriso fraco.

"Nós também o usamos."

"Para quê?"

"Para chegar ao Grupo Valença."

Lívia perguntou:

"Seu pai sabia?"

Lavínia ficou em silêncio.

"Meu pai sabia que existiam operações agressivas."

"Sabia que eram ilegais?"

"Não sei."

"Você sabe."

Lavínia abaixou os olhos.

"Ele escolheu não perguntar."

Helena conhecia aquela resposta.

Era o idioma preferido de famílias poderosas.

Não vi.

Não perguntei.

Não assinei.

Não sabia.

Até o dinheiro chegar.

Nas semanas seguintes, as informações de Vitória e Lavínia abriram novas portas.

正文2

Contas que pareciam mortas voltaram a aparecer.

Procurações antigas foram localizadas.

Bancos estrangeiros responderam às ordens.

A fundação uruguaia foi congelada.

A estrutura em Lisboa também.

A carteira de ativos digitais foi apreendida depois que um dos códigos entregues por Vitória foi validado.

R$ 8,4 milhões.

Depois R$ 13 milhões.

Depois R$ 6,7 milhões.

Valores que Marcelo acreditava enterrados começaram a voltar.

Helena acompanhava cada recuperação.

Não porque gostasse de ver o número crescer.

Mas porque sabia de onde tinha saído.

Uma tarde, Lívia colocou uma nova planilha diante dela.

"Quer ver?"

Helena olhou.

O total recuperado já permitia cobrir quase integralmente o déficit identificado nos fundos diretamente afetados.

Ela ficou em silêncio.

"Quanto falta?"

"Menos do que imaginávamos."

"Com juros?"

"Parte."

"E os aposentados?"

"Começam a receber a recomposição em fases."

Helena apoiou as mãos na mesa.

"Tem data?"

"Primeiro lote no mês que vem."

Ela fechou os olhos.

Durante tanto tempo, tudo havia sido investigação.

Crimes.

Servidores.

Ameaças.

Prisões.

Por alguns segundos, finalmente apareceu o outro lado.

Reparação.

Lívia percebeu.

"Você devia estar feliz."

"Estou."

"Não parece."

Helena sorriu de leve.

"É que eu ainda lembro de quando eram só linhas numa planilha."

"E agora?"

"Agora têm nomes."

O primeiro grupo a receber ressarcimento reuniu-se numa agência bancária em São Paulo.

Não havia tapete vermelho.

Nenhum executivo do Grupo Valença apareceu.

Helena preferiu assim.

Dona Célia, setenta e dois anos, segurava um envelope com o novo extrato.

Trabalhara trinta e oito anos numa empresa ligada ao grupo.

"Eu pensei que nunca ia ver esse dinheiro."

Helena respondeu:

"Eu sei."

A senhora apertou a mão dela.

"Você fez isso?"

Helena balançou a cabeça.

"Muita gente fez."

"Mas foi você que achou."

"Eu comecei uma parte."

Dona Célia olhou para Teresa, que estava atrás.

"Ela é sua mãe?"

"É."

Teresa sorriu.

A senhora estendeu a mão.

"Obrigada também."

Teresa se emocionou.

"Eu devia ter falado antes."

Dona Célia apertou os dedos dela.

"Mas falou."

Teresa ficou em silêncio.

Helena observou.

Durante meses, tinha lutado com a raiva.

A mãe havia escondido tudo.

Tinha se calado.

Tinha deixado anos passarem.

Mas também era verdade que Teresa fora uma jovem ameaçada.

Uma mulher grávida colocada diante de uma estrutura criada para esmagar quem não tivesse poder.

Helena não precisava transformar a mãe em santa.

Nem em criminosa.

Podia enxergá-la inteira.

Com medo.

Com falhas.

Com coragem tardia.

Mas coragem.

O julgamento principal começou oito meses depois.

Rogério entrou sob proteção.

Vitória não conseguiu olhar para ele.

Ele sentou diante do juiz e confirmou cada detalhe.

O encontro em Moema.

As ordens.

O dinheiro.

A voz de Vitória.

A presença de Marcelo.

A instrução para fazer Helena desaparecer.

O advogado de Marcelo tentou destruí-lo.

"Senhor Batista, o senhor recebeu dinheiro para cometer um crime."

"Sim."

"Mentiu para a polícia."

"Sim."

"Escondeu provas."

"Sim."

"Então por que alguém deveria acreditar no senhor?"

Rogério ficou em silêncio por um momento.

正文3

Depois respondeu:

"Porque eu fui covarde."

O advogado pareceu satisfeito.

Rogério continuou.

"E covarde guarda seguro contra gente pior."

Algumas pessoas no salão prenderam o riso.

O juiz pediu silêncio.

Rogério apontou para os arquivos.

"Eu guardei as mensagens porque sabia que um dia iam tentar dizer que fui eu sozinho."

Helena sentiu a frase atingir o centro de tudo.

Era exatamente assim que a estrutura funcionava.

Sempre havia alguém menor pronto para carregar o peso.

O motorista.

A contadora.

A funcionária de auditoria.

O herdeiro manipulável.

Qualquer pessoa servia.

Desde que o topo permanecesse limpo.

Só que, daquela vez, os pequenos haviam guardado provas.

Teresa também testemunhou.

Entrou devagar.

Sem roupas caras.

Sem advogado ao redor.

Sem sobrenome famoso.

Contou como encontrou as primeiras transferências.

Como procurou ajuda.

Como foi seguida.

Como ouviram que ela e a filha poderiam desaparecer.

Como recebeu R$ 150 mil.

O advogado de Marcelo levantou-se.

"A senhora aceitou dinheiro."

Teresa respondeu:

"Sim."

"Então foi comprada."

"Não."

"Ficou calada."

"Fiquei."

"Por dinheiro."

"Por medo."

"É fácil dizer agora."

Teresa abriu a bolsa.

Lívia já tinha preparado o documento.

O extrato da aplicação original apareceu na tela.

O valor principal permanecera intocado por décadas.

Teresa olhou para Marcelo.

"Se eu quisesse o dinheiro de vocês, teria gastado."

Silêncio.

"Eu guardei porque um dia queria provar de onde veio."

Marcelo desviou os olhos.

Helena sentiu as mãos tremerem.

Quando Teresa saiu do banco das testemunhas, mãe e filha se abraçaram.

Sem discurso.

Não precisavam.

Gabriel testemunhou por último entre as testemunhas principais.

Entregou ao tribunal todos os registros ligados às próprias credenciais.

Confirmou que Marcelo tinha acesso ao cofre executivo.

Explicou como a chave de autenticação podia ser clonada.

Admitiu que crescera num ambiente onde os erros da família eram resolvidos internamente.

O promotor perguntou:

"O senhor sabia dos desvios?"

"Não."

"Suspeitava?"

"Não antes de Helena."

"Protegeu Vitória no passado?"

Gabriel demorou.

"Sim."

"Em situações criminais?"

"Não que eu soubesse."

"Mas evitou que ela enfrentasse consequências."

"Sim."

"Por quê?"

Gabriel olhou para Vitória.

"Porque eu achava que família significava proteger."

Pausa.

"Eu estava errado."

Helena observou em silêncio.

Ele continuou.

"Às vezes proteger alguém das consequências é ajudar essa pessoa a ficar pior."

Vitória abaixou a cabeça.

Helena sentiu uma tristeza estranha.

Talvez, em outra família, Vitória pudesse ter aprendido limites muito antes.

Mas pena não apagava escolha.

Ela mandara um carro contra Helena.

Arrancara o acesso intravenoso.

Tentara comprar silêncio.

Havia coisas que precisavam ter nome.

E consequência.

As sentenças vieram meses depois.

Marcelo recebeu a condenação mais pesada.

Organização criminosa.

Lavagem de dinheiro.

Fraude financeira.

Obstrução da Justiça.

Falsidade documental.

Corrupção privada em diversas operações.

Participação no planejamento de violência contra testemunha.

A tentativa de eliminar Helena tornou-se peça central da acusação.

Vitória também recebeu pena severa.

Tentativa de homicídio.

Conspiração.

Agressão.

Coação.

Intimidação de testemunha.

Participação no esquema financeiro.

A colaboração reduziu parte da pena.

正文4

Não apagou o que fizera.

Lavínia foi condenada por fraude, lavagem, conspiração e obstrução.

A colaboração também pesou a favor.

Mas o dinheiro usado para financiar o ataque permaneceu contra ela.

No dia em que ouviu a sentença, Lavínia chorou.

Vitória não.

Marcelo ficou imóvel.

Como se ainda estivesse numa reunião do conselho.

Como se alguém pudesse entrar e resolver.

Ninguém entrou.

O Grupo Valença não desapareceu.

Helena nunca quis que desaparecesse.

Milhares de pessoas trabalhavam ali.

Pessoas que não tinham participado de crime algum.

A companhia passou por intervenção, auditoria externa e reestruturação.

Executivos foram substituídos.

Contratos revistos.

Conselheiros afastados.

O sobrenome perdeu poder.

A empresa, aos poucos, deixou de ser uma extensão da família.

Gabriel renunciou ao conselho definitivamente.

Também ofereceu parte de suas ações para um fundo de reparação destinado aos aposentados prejudicados.

Quando contou a Helena, ela ficou em silêncio.

"Você não precisa fazer isso."

"Eu sei."

"Não foi você que roubou."

"Eu sei."

"Então por quê?"

Gabriel respondeu:

"Porque eu herdei valor construído dentro da mesma estrutura."

Helena olhou para ele.

"Isso não apaga o passado."

"Não quero apagar."

"Então o que quer?"

"Parar de fingir que só quem assinou o crime tem responsabilidade sobre o que veio dele."

Helena sentiu algo mudar.

Não era perdão total.

Nem esquecimento.

Era respeito.

Talvez um começo.

Gabriel respirou fundo.

"Eu também queria te perguntar outra coisa."

Helena ergueu a sobrancelha.

"Se for casamento, não."

Ele parou.

Depois riu.

"Eu nem perguntei."

"Seu rosto perguntou."

"Meu rosto é péssimo."

"É."

Gabriel sentou.

"Tá bom."

"Tá bom o quê?"

"Não vamos casar agora."

Helena olhou para ele.

"Você está bravo?"

"Não."

"Decepcionado?"

"Um pouco."

Ela segurou a mão dele.

"Eu te amo."

Gabriel respondeu:

"Eu sei."

"Mas eu não vou sair de uma guerra contra uma família que protege erros para entrar numa nova vida fingindo que você já terminou de sair disso."

Ele ficou quieto.

Helena continuou.

"Você precisa aprender quem é sem o conselho."

"Sem o sobrenome abrindo porta."

"Sem a culpa fazendo você tentar salvar todo mundo."

Gabriel assentiu.

"E depois?"

Helena sorriu.

"Depois você pergunta de novo."

Dezoito meses depois do atropelamento, Helena entrou sozinha no fórum.

Sem cadeira de rodas.

Sem bengala.

Ainda havia uma pequena diferença na passada.

Os médicos disseram que provavelmente ficaria.

Helena não se importava.

Cada passo era dela.

Do lado de fora, uma viatura aguardava transferência de presos.

Vitória apareceu algemada.

Os cabelos estavam mais curtos.

O rosto, mais magro.

Por acaso, as duas se olharam.

Helena parou.

Vitória também.

Nenhuma falou.

Por um instante, Helena voltou ao hospital.

Ao quarto trancado.

Ao NDA manchado de sangue.

À voz de Vitória.

"Volte para o lugar de onde você veio."

Na época, Vitória acreditava saber qual era aquele lugar.

Um apartamento simples.

Zona Leste.

Roupas de brechó.

Uma mulher pequena demais para entrar no mundo dos Valença.

Helena poderia responder agora.

正文5

Poderia dizer que Vitória estava errada.

Poderia lembrar que era ela quem entrava no fórum livre.

Que era Vitória quem usava algemas.

Não disse nada.

Virou.

E foi embora.

Foi melhor assim.

Três anos depois, uma placa discreta apareceu na entrada de um prédio reformado na região central de São Paulo.

Instituto Duarte de Contabilidade Forense e Proteção Financeira.

Helena odiou o nome no começo.

"É enorme."

Lívia respondeu:

"É claro."

"Não cabe direito na placa."

"Problema da placa."

"Eu queria algo menor."

"Você passou anos dizendo que gente simples some no meio do sistema."

Helena olhou para ela.

"E?"

"Então coloca seu nome."

O instituto atendia vítimas de fraude.

Idosos pressionados a assinar contratos.

Mulheres financeiramente controladas por parceiros.

Pequenos empresários extorquidos.

Famílias enganadas por administradores.

Aposentados.

Trabalhadores.

Pessoas que tinham dinheiro levado porque alguém apostara que elas nunca entenderiam os documentos.

Helena entendia.

E ensinava outros a entender.

Teresa aparecia duas vezes por semana.

Oficialmente, para ajudar com arquivos.

Na prática, levava bolo para todo mundo.

Rogério, depois de cumprir parte da pena e permanecer sob proteção, enviou uma carta.

Não pediu perdão.

Helena preferiu assim.

Apenas escreveu que estava trabalhando numa oficina e tentando ser alguém que a filha pudesse visitar sem vergonha.

Helena guardou a carta.

Vitória, Lavínia e Marcelo continuaram cumprindo suas penas.

Sem jatos.

Sem coletivas.

Sem reuniões fechadas.

Sem pessoas suficientes para apagar seus erros.

O casamento aconteceu numa tarde de setembro.

No jardim da casa de Teresa.

Vinte e duas pessoas.

Nenhum jornalista.

Nenhum executivo.

Nenhuma família financeira.

Algumas flores brancas.

Mesas simples.

Comida feita por uma pequena equipe de bairro.

Gabriel usava um terno azul escuro.

Helena escolheu um vestido sem marca famosa.

Quando Teresa perguntou de onde era, ela respondeu:

"Brechó."

A mãe arregalou os olhos.

"Você vai casar com vestido de brechó?"

Helena sorriu.

"Com orgulho."

Gabriel ouviu.

"Quanto custou?"

"Não é da sua conta."

"Já começamos bem."

"Você ainda pode desistir."

"Não posso."

"Pode."

"Não quero."

Eles se casaram sem diamantes Valença.

Sem anúncios.

Sem contrato de fusão.

Sem fotógrafo de revista.

Depois da cerimônia, quando quase todos já estavam comendo, Helena entrou na casa.

Voltou segurando uma pequena caixa.

Gabriel reconheceu.

"O relógio."

Ela abriu.

A tela continuava quebrada.

O vidro rachado atravessava o visor.

O mesmo relógio que Vitória arrancara de seu pulso.

O mesmo que ativara a transmissão.

Gabriel tocou a borda da caixa.

"Ainda dói olhar para isso?"

Helena respondeu:

"Não."

"Tem certeza?"

"Tenho."

"Então por que guardou?"

Helena ficou olhando para a tela destruída.

"Porque durante muito tempo eu achei que esse relógio tinha salvado minha vida."

"E não salvou?"

"Em parte."

Ela fechou a caixa.

"Mas ele só registrou o que eles escolheram fazer."

Gabriel assentiu.

Helena continuou.

"Vitória podia ter saído daquele quarto."

"Podia."

"Podia ter deixado o contrato e ido embora."

"Sim."

"Lavínia podia ter desligado o telefone."

"Sim."

"Marcelo podia ter parado antes de mandar o carro."

正文5

Gabriel ficou em silêncio.

"Mas ninguém parou."

Helena olhou para ele.

"Eles achavam que podiam fazer qualquer coisa porque ninguém importante estava olhando."

Gabriel sorriu de leve.

"Você estava."

Helena respondeu:

"Eu não era importante para eles."

"Esse foi o erro."

Ela assentiu.

No dia seguinte, Helena levou o relógio para um centro de formação de investigadores.

Não como troféu.

Como material de treinamento.

Foi colocado numa caixa simples de evidências.

Ao lado, havia apenas a descrição técnica do caso.

Nada sobre heroísmo.

Nada sobre impérios.

Nada sobre vingança.

Helena gostou assim.

Os novos investigadores aprenderiam a importância de preservar gravações.

De construir cadeias de custódia.

De não depender de uma única fonte.

De ouvir pessoas que pareciam pequenas demais para importar.

Porque tinha sido exatamente isso que derrubara Marcelo.

Não apenas Helena.

Rogério guardara o cartão de memória.

Teresa guardara códigos por décadas.

Aposentados mantiveram extratos.

Funcionários antigos lembraram de nomes.

Caio exportou um log em segundos.

Gabriel entregou a própria credencial para análise.

Lívia preservou provas.

Rafael continuou perguntando.

Cada pessoa carregava uma parte.

Marcelo acreditava que poder significava controlar tudo.

Mas ninguém controla todas as pessoas para sempre.

Helena saiu do centro de treinamento e ficou alguns segundos na calçada.

São Paulo estava barulhenta.

Ônibus.

Buzinas.

Gente andando depressa.

O telefone vibrou.

Mensagem de Teresa.

"O bolo acabou."

Helena respondeu:

"Eu avisei."

Outra mensagem.

"Gabriel comeu três pedaços."

Helena sorriu.

Guardou o celular.

E começou a caminhar.

Sem cadeira.

Sem bengala.

Sem segurança.

Sem olhar para trás.

Durante anos, os Valença tinham acreditado que ela era a mulher errada.

A mulher pobre.

A mulher fácil de comprar.

A mulher que aceitaria R$ 250 mil e desapareceria.

A mulher da Zona Leste que deveria agradecer por ter entrado num apartamento de luxo.

A mulher que poderia ser atropelada, ameaçada e silenciada.

Nunca entenderam quem estava diante deles.

Eles pensaram que eu era pobre demais para enfrentá-los.

Nunca perceberam que eu era a mulher que seguia cada centavo deles.

FIM

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