"Ela Era Só Minha Faxineira. Declarei Guerra Por Ela." Capítulo 1 — O sangue no meu brasão
Capítulo 1 — O sangue no meu brasão
Helena estava sangrando pela boca quando Raul atravessou a porta da minha casa com ela nos braços.
O sangue havia escurecido o brasão bordado no uniforme. A cabeça dela pendia contra o ombro dele, e um dos tênis estava faltando.
Antes que eu chegasse perto, ela abriu os olhos.
Não olhou para a escadaria, para os homens armados ou para o sangue que pingava sobre o mármore.
Olhou para mim.
“Meu irmão.”
A voz saiu tão baixa que precisei me abaixar.
“Protege meu irmão.”
Eu já tinha ouvido homens implorarem pela própria vida. Alguns haviam oferecido fortunas. Outros, nomes de amigos.
Helena Duarte mal conseguia respirar e estava pensando em outra pessoa.
“Qual é o nome dele?”
“Gabriel.”
Peguei o telefone sem desviar os olhos dela.
“Raul, endereço. Agora.”
Ele ditou uma rua no Campo Limpo. Passei a informação para o homem que atendia do outro lado.
“Leve um carro acessível. Tem um rapaz chamado Gabriel Duarte nessa casa. Ninguém entra lá antes de vocês. A mãe também deve estar no endereço. Quero os dois em segurança.”
Helena apertou minha manga com os dedos da mão esquerda.
“Ele não vai... com desconhecidos.”
Devolvi o telefone ao ouvido dela.
“Você consegue falar com ele?”
Esperei três chamadas.
“Lena? Você esqueceu a chave de novo?”
Ela tentou responder, mas a dor interrompeu a primeira palavra.
O rapaz percebeu imediatamente.
“O que aconteceu?”
“Gabi... vai com o Raul.”
“Raul quem?”
“O da casa. Não discute.”
Os olhos dela se fecharam.
Peguei o aparelho antes que caísse.
“Gabriel, meu nome é Dante Bellandi. Sua irmã está ferida. Está recebendo atendimento. Vou mandar pessoas buscar você e sua mãe.”
“Ferida como?”
“Eu ainda não sei tudo.”
“Então não fala comigo como se soubesse que ela vai ficar bem.”
Aquilo me fez ficar em silêncio por um segundo.
“Você tem razão. Assim que o médico avaliar, eu ligo de novo.”
Do outro lado, ouvi uma cadeira se mover.
“Ela pediu para eu ir?”
“Pediu.”
“Então eu vou. Mas quero falar com ela.”
“Vai falar.”
Encerrei a chamada quando o doutor Afonso entrou, seguido por dois profissionais com uma maca.
“Dante, saia da frente.”
Eu obedeci.
Em outros dias, qualquer pessoa que usasse aquele tom comigo teria provocado uma reação. Naquela noite, afastei os móveis para abrir passagem.
Bianca desceu correndo.
Parou no último degrau.
“Meu Deus. Helena?”
Minha irmã levou a mão à boca e depois se aproximou da maca.
“Eu falei para ela ficar.”
“Quando?”
“Antes de sair. Ela estava tonta. Nem tinha almoçado direito.”
O médico cortou a manga molhada para examinar o braço. Helena gemeu e tentou se afastar.
“Você está em casa”, Bianca disse. “Ninguém vai tocar em você para machucar.”
Em casa.
Não era a casa dela.
Até aquela noite, eu teria corrigido a expressão sem pensar.
Helena trabalhava ali havia quatorze meses. Chegava antes das sete, limpava os ambientes do térreo e saía pela entrada de serviço. Nunca deixava uma xícara fora do lugar. Nunca pedia adiantamento.
Eu sabia que tomava café sem açúcar porque a tinha visto, certa manhã, comer um pão em pé na lavanderia.
Sabia que usava o mesmo par de tênis quase todos os dias.
Sabia que, quando achava que ninguém estava olhando, massageava o pulso direito.
Não sabia o nome do irmão até cinco minutos antes.
“Dante.”
Raul me chamou para longe da maca.
A chuva escorria do cabelo dele. Havia sangue no punho da camisa.
“Onde?”
“Numa rua lateral, perto do ponto em que ela pega o ônibus. Eu estava voltando da revisão do carro. Vi uma pessoa caída entre uma caçamba e o muro.”
“Ela estava sozinha?”
“Quando cheguei, sim.”
“Câmeras?”
“Já mandei preservar as imagens dos comércios.”
Olhei para a porta.
Quatro quadras.
Tinham feito aquilo a quatro quadras da minha casa.
“Por que você trouxe ela para cá?”
“Afonso estava aqui, terminando o atendimento do senhor Ernesto. Seria mais rápido do que atravessar a cidade. Liguei para ele no caminho.”
O médico levantou o rosto.
“Ela precisa de exames. Já acionei o hospital e o transporte.”
Assenti.
Eu não ia transformar meu orgulho em mais um risco para Helena.
Aproximei-me enquanto prendiam uma faixa de monitoramento no dedo dela.
“Helena.”
Seus olhos abriram com dificuldade.
“Você consegue me dizer quem fez isso?”
Bianca me lançou um olhar de advertência.
“Uma pergunta”, eu disse.
Helena moveu a língua sobre o lábio ferido.
“Dois.”
“Você conhecia algum?”
Um movimento mínimo de cabeça.
Não.
“Eles levaram sua bolsa?”
“Celular. Dinheiro.”
Uma lágrima escorreu pela lateral do rosto. Ela pareceu irritada com aquilo, como se até chorar exigisse uma energia que não podia desperdiçar.
“Eu entreguei.”
Ajoelhei-me ao lado da maca.
“Eu sei.”
“Não briguei.”
“Você não precisa justificar nada.”
Ela olhou para o próprio peito.
Para o bordado.
Então compreendi que ainda não havia terminado.
“Viram isso.”
Meus dedos se fecharam contra o joelho.
“E depois?”
“O homem... segurou minha camisa.”
Respirou de maneira curta.
“O outro riu.”
Esperei.
“Disse que eu limpava a casa do homem errado.”
Atrás de mim, Raul ficou imóvel.
“Alguma marca? Alguma coisa que você tenha visto?”
“Uma cobra.”
Ela tentou erguer a mão direita. O médico a impediu.
“No pulso dele. Aqui.”
Afonso verificou o acesso e fez sinal para que eu encerrasse.
Mas Helena puxou minha manga outra vez.
“Orlov.”
Não precisei perguntar se tinha certeza.
O medo no rosto dela mudou quando pronunciou o nome. Não era apenas a lembrança de dor. Era o receio de que aquela palavra pudesse causar outra.
“Disseram... para contar.”
Fiquei de pé.
Bianca ocupou imediatamente meu lugar e acompanhou a maca até a ambulância.
Eu fui no mesmo veículo, diante do protesto inútil de um dos meus seguranças.
Durante o trajeto, Helena abriu os olhos uma vez.
Olhou para mim, depois para a porta fechada.
“Não conta para minha mãe assim.”
“Assim como?”
“Com sangue.”
Desci o olhar.
Minha camisa tinha a marca da mão dela.
“Vou trocar antes de falar com sua mãe.”
Ela pareceu aliviada.
Aquilo me incomodou mais do que o nome de Orlov.
Mesmo naquela situação, Helena organizava o sofrimento dos outros antes do próprio.
No hospital, Afonso assumiu a conversa com a equipe. Bianca chegou logo depois com uma muda de roupa para mim e uma bolsa para Helena.
Raul me encontrou numa sala reservada enquanto eu abotoava a camisa limpa.
“Gabriel e Teresa estão no apartamento da Vila Mariana. A mãe quis vir para cá. Estamos trazendo os dois assim que terminarem de se acomodar.”
“Ela sabe?”
“Sabe que houve uma agressão. Não dei detalhes.”
Meu telefone recebeu uma fotografia.
Na imagem, Gabriel estava sentado numa cadeira de rodas, com uma mochila no colo. Teresa, magra e usando um lenço na cabeça, segurava uma sacola de remédios.
Olhei por tempo demais.
Raul percebeu.
“Bianca já tinha comentado sobre a família.”
“Tinha.”
A doença da mãe. O acidente do irmão. As três jornadas de trabalho.
Eu tinha ouvido tudo como quem recebe uma informação sobre a manutenção de uma casa.
Agora conhecia o rosto das pessoas que dependiam dela.
Afonso entrou quase uma hora depois.
“Duas costelas fraturadas, fratura no punho e contusões. Ela vai ficar em observação. Neste momento, está estável.”
“Ela pode receber a família?”
“Por pouco tempo. E sem interrogatórios.”
“Entendido.”
Quando fui ao quarto, Helena estava acordada.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, perguntou:
“Gabriel?”
“Está seguro. Sua mãe também. Vêm para cá.”
Os ombros dela relaxaram um pouco.
“Eu vou pagar o transporte.”
“Não.”
Seu olhar endureceu apesar do inchaço.
“Não estou pedindo dinheiro.”
“Eu sei.”
Puxei uma cadeira, mantendo distância da cama.
“Você foi atacada por usar um uniforme com o meu nome. O transporte não vai sair do seu salário.”
“Eu trabalho para você. Não faço parte das suas brigas.”
A frase me atingiu com precisão.
“Não devia fazer.”
Ela sustentou meu olhar.
Pela primeira vez em quatorze meses, não tentou desaparecer quando eu estava perto.
“Então descobre quem decidiu me colocar nelas.”
Eu poderia ter prometido vingança.
Prometi algo mais útil.
“Vou descobrir.”
Saí do quarto e encontrei Raul junto ao elevador.
Ele me mostrou uma imagem de câmera de segurança. Dois homens atravessavam a rua em direção a uma caminhonete cinza.
O passageiro mantinha o braço para fora.
Uma cobra enrolava-se no pulso.
“Identificamos a placa”, Raul disse.
“Orlov?”
Ele demorou a responder.
“A caminhonete está registrada na Bellandi Logística.”
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