"O Apocalipse Despertou Minhas Tatuagens. Carrego Todos os Deuses nas Costas." Capítulo 1
O Apocalipse Despertou Minhas Tatuagens. Carrego Todos os Deuses nas Costas.
Vendi meu império antes que ele virasse cinzas
Débora jogou a chave do depósito no ralo antes de me deixar para morrer.
Eu estava no chão, com uma perna quebrada e a garganta tão seca que mal conseguia insultá-la. Do outro lado da porta, ouvi o motor do carro e sua última risada.
"Agora vê se algum dos seus milhões vem salvar você."
Quando a criatura entrou pelo telhado, meus milhões já não compravam um copo de água. A quinta lua vermelha iluminou as garras que me prenderam contra o concreto.
Minha mão parou perto de uma faca.
Não consegui alcançá-la.
A morte veio com cheiro de ferrugem e o desejo de ter feito uma única tatuagem quando ainda existia tempo.
Abri os olhos numa cama limpa.
Meu braço estava inteiro. Minha perna também. Havia uma mulher ao meu lado, gritando meu nome, e luz de manhã atravessando uma cortina que eu lembrava ter visto apodrecer sob a chuva.
Agarrei o celular.
Primeiro de agosto de 2035.
Faltava um mês.
Levantei tão depressa que Lívia se afastou, puxando o lençol.
"Você teve um pesadelo?"
Abri a janela. Porto Sereno estava viva. O mar azul. As avenidas lotadas. Um homem discutia com o porteiro porque não queria deixar a encomenda na recepção.
Senti vontade de rir até cair.
Apoiei as duas mãos no vidro e respirei. Não precisava entender quem me devolvera o tempo. Precisava usá-lo.
"Rafael?"
Virei para Lívia, a comissária que conhecera no voo da véspera.
"Você consegue sair da cidade antes de setembro?"
"Consigo. Por quê?"
"Vai para um lugar alto, com água e comida. E faz uma tatuagem. Um animal forte."
Ela me encarou.
"Você está falando sério?"
"Mais do que falei qualquer coisa ontem."
Transferi dinheiro para que resolvesse a viagem. Não tentei convencê-la com um discurso. Se a informação lhe parecesse loucura, o dinheiro pelo menos compraria uma chance.
Quando a porta fechou, liguei para Marcelo Duarte.
"Bom dia, chefe."
"Bom dia custa tempo. Pega uma caneta."
Ele obedeceu.
Mandei transformar minha cobertura e as duas casas nas colinas em refúgios independentes. Comida, água, remédios, energia, filtragem de ar, portas reforçadas. Nas casas, depósitos subterrâneos. Equipes diferentes trabalhando ao mesmo tempo.
"Preciso do orçamento."
"Vai ter hoje. Preciso do prazo."
"Vinte e cinco dias, se a gente pagar bem."
"Paga muito bem."
Pedi também uma tatuadora. A melhor que pudesse encontrar, alguém capaz de reproduzir mitologia com precisão, não um profissional escolhido porque tinha muitos seguidores.
Marcelo começou a fazer perguntas.
"Você quer saber por quê ou quer receber para resolver?"
"Resolver."
"Ótimo. Faz isso."
Às dez, entrei na sede do Grupo Vasconcelos.
Augusto Ferraz me recebeu na sala que pertencera ao meu pai. Seus colegas estavam reunidos, provavelmente esperando outra assinatura que me mantivesse rico, inútil e afastado das decisões.
Débora estava junto à janela.
Ver aquela mulher com as duas mãos limpas foi a parte mais estranha da manhã.
"Rafa", disse Augusto. "Finalmente apareceu."
Sentei sem cumprimentar a filha dele.
"Quero vender minhas ações."
Ninguém se mexeu.
Então um diretor começou a rir.
"Comprou algum iate novo?"
Deixei uma folha sobre a mesa.
Quarenta por cento do grupo. Trezentos milhões de reais. Pagamento rápido, por compradores capazes de mobilizar os recursos.
Era muito menos do que a participação valia.
Era dinheiro suficiente para que eu jamais precisasse pedir comida a Débora.
Augusto leu duas vezes.
"Você sabe o que está entregando?"
"Sei exatamente."
"Essa empresa é o legado do seu pai."
"E vocês passaram três anos tentando me tirar dela. Estou poupando trabalho."
O diretor que rira ficou sério.
Débora se aproximou.
"Você não precisa fazer isso. Meu pai só está tentando ajudar."
Olhei para ela.
"Que bom. Então ele pode ajudar assinando."
O silêncio voltou, agora menos confortável.
Augusto pediu que os outros saíssem. Débora ficou.
"Algum credor está pressionando você?", perguntou.
"Estou me desfazendo de um problema."
"O grupo?"
"A necessidade de ter essa conversa de novo."
Ele entendeu a ofensa. Também entendeu o desconto.
Naquela tarde, meu advogado revisou os documentos e os compradores transferiram a primeira parcela. A estrutura que Augusto preparara para tomar meu lugar funcionou com uma velocidade impressionante quando eu concordei em sair.
Na garagem, ouvi dois diretores comentando que eu tinha enlouquecido.
Continuei andando.
Um mês depois, eles poderiam comer as ações se achassem nutritivas.
Débora me alcançou antes do carro.
"Você nem olha mais para mim."
"Estou olhando agora."
"O que eu fiz?"
Ela ainda não fizera o que eu lembrava. Mas a mão que tentou segurar meu rosto era a mesma que um dia escolheria onde eu sentiria dor.
Afastei-a.
"Não vem atrás de mim."
Débora perdeu o sorriso.
"Você acha que vai encontrar alguém melhor?"
"Acho que vou encontrar uma saída."
Entrei no carro.
Meu telefone vibrou antes que eu chegasse em casa. Marcelo tinha encontrado Clara Lin, uma tatuadora premiada, brasileira de família chinesa, conhecida por trabalhos mitológicos.
Confirmou que ela podia vir naquela noite.
Parei num sinal e olhei minhas mãos sobre o volante.
Na outra vida, eu tinha perdido tudo devagar. Primeiro os recursos. Depois a casa. Depois a liberdade. Cada perda me ensinara alguma coisa tarde demais.
Agora as lições chegaram antes do desastre.
Usei o resto da tarde para escrever o que lembrava: datas, animais, rotas, cristais, níveis. Fiz cópias separadas. Deixei uma lista de compras que incluía coisas de que jamais precisara cuidar sozinho.
Quando Marcelo perguntou por que eu queria três estoques em vez de um enorme, respondi:
"Porque uma porta pode cair. Não quero minha vida inteira atrás dela."
Às oito, Clara entrou com uma mala de equipamento e tênis amarelos. Não elogiou o apartamento. Conferiu a luz, o espaço e a limpeza da mesa.
"Qual é o primeiro desenho?"
Mostrei a lista.
Ela passou os olhos pelos nomes. O movimento parou em Pangu. Depois em Nüwa. Em Xingtian. No Rei Dragão. Na fênix. Em Cérbero.
"Isso é uma referência ou você quer todos?"
"Todos."
Clara colocou a folha na mesa.
"Não cabem todos numa única vida."
Tirei a camiseta.
"Então ainda bem que essa é minha segunda tentativa."
Ela não riu.
Puxou uma cadeira, olhou minha pele sem marcas e falou devagar:
"Se eu fizer isso, você pode morrer tentando acordar o que vai carregar."
Lembrei da chave no ralo.
Da dor e da fome.
Dos dentes sob a lua.
"Se você não fizer, eu sei como morro. Começa pelo dragão."
A mulher que colocou um exército na minha pele
Clara não ligou a máquina imediatamente.
"Não vou fazer isso porque você joga dinheiro na mesa. Preciso saber se entende o que está pedindo."
"Uma vantagem."
"Você quer uma guerra dentro do corpo."
Puxei a cadeira e sentei diante dela.
"Explica. Eu presto atenção enquanto você prepara o material."
Minha disposição para ouvir pareceu surpreendê-la mais do que a lista.
Clara abriu a mala.
Sua família tinha uma técnica que fazia mais do que prender tinta sob a pele. As imagens mantinham uma ligação com aquilo que representavam. Um desenho comum podia decorar um braço. O dela precisava ser suportado por alguém.
"O primeiro tem uma proteção", explicou. "Um pacto antigo. Os outros dependem do portador."
"Então o primeiro continua sendo o dragão."
"Por que ele?"
"Porque vou precisar atravessar muita água."
Ela me olhou, esperando a brincadeira.
Não encontrou.
O Rei Dragão nasceu no meu braço esquerdo naquela noite. Cada escama tinha uma posição. As garras pareciam agarrar o ar. Quando Clara terminou os olhos, o desenho me devolveu um calor que chegou até o peito.
Um segundo depois, era tinta outra vez.
A tatuadora afastou a mão.
"Você sentiu?"
"Senti. Agora sabemos que escolhi a pessoa certa."
Ela não pareceu satisfeita com o elogio. Estava examinando a própria agulha.
"Esse tipo de resposta não deveria acontecer agora."
"Você também pode aprender alguma coisa comigo."
Clara ergueu uma sobrancelha.
"Até aqui, aprendi que você fala demais quando está nervoso."
Ri.
Fazia meses, contando a primeira vida, que ninguém me respondia sem querer alguma coisa em troca.
Combinamos uma semana de trabalho intensivo, com pausas determinadas por ela. Paguei a reserva da agenda inteira, o material e um valor que eliminava qualquer dúvida sobre o tamanho da encomenda.
Clara recusou um quarto dentro da minha suíte e escolheu o mais distante.
"Meu trabalho está na sua pele. Minha vida continua sendo minha."
"Ótimo. Cuida das duas até terminar."
No dia seguinte, Cérbero apareceu na minha coxa direita. Clara desenhou uma cabeça e deixou as outras sugeridas no contorno, como portas esperando abertura.
"Por que não três de uma vez?"
"Porque a imagem também precisa reconhecer o caminho. Essa é a forma inteira, mas você não vai conseguir sustentar tudo no começo."
Era exatamente o que eu lembrava dos despertares.
Não lhe disse.
A fênix abriu as asas no peito. O dragão de gelo percorreu a coluna. Pangu ocupou as costas com uma força que parecia maior que o espaço disponível. Nüwa veio ao lado, olhando para cima. Xingtian carregava sua arma sem precisar de uma cabeça para continuar lutando.
Clara percebia quando a dor começava a atrapalhar minha respiração.
"Pausa."
"Continua."
Ela desligava a máquina.
"Não estou discutindo."
Eu precisava daquele resultado mais do que precisava vencer a conversa. Comia, bebia, caminhava e voltava.
No quarto dia, meu telefone tocou.
Débora.
Deixei chamar.
Ela mandou uma fotografia minha entrando no hotel onde eu ficaria durante as obras. Depois uma mensagem:
"Seu pai teria vergonha do que você está fazendo."
Clara viu meu maxilar apertar.
"Não se mexe."
Respirei.
Respondi à mensagem com uma fotografia do comprovante de pagamento pela minha saída do grupo.
"Seu pai parece bem satisfeito."
Débora ligou outra vez.
Bloqueei o número.
Clara voltou à pele.
"Ex?"
"Uma pessoa que confunde recusa com ofensa."
"Entendo."
Não perguntou mais.
Na última sessão, sua mão mudou de direção e registrou quatro símbolos no antebraço. Abaixo deles, uma sequência menor, como uma ligação entre marcas.
"Isso não estava na lista."
Clara parou.
Examinou os sinais e anotou tudo num papel.
"Eu sei ler. Mas não planejei escrever."
Pela primeira vez, vi medo em seu rosto.
"O que significam?"
"Os elementos. E uma convocação. Vou procurar a origem exata. Não vou inventar uma resposta para você."
Guardei aquela honestidade.
Quando me levantei diante do espelho, não vi apenas um corpo tatuado. Vi recursos que não poderiam ser congelados num banco, tomados numa assembleia ou arrancados de mim por uma fechadura.
Clara apareceu atrás.
"Não tente acordar todas juntas."
"Nem mesmo se estiver cercado?"
"Você pode abrir uma força maior por um instante, se tiver o vínculo. Mas o preço vai sair do seu corpo. Abrir todas é oferecer tudo."
Toquei os símbolos.
Não precisava de tudo naquele momento.
Precisava chegar vivo a setembro.
Clara foi embora na manhã seguinte. Quando levantou a mala, vi parte das duas serpentes tatuadas em suas costas. Uma branca, outra verde. A pele ao redor estava vermelha.
Ela puxou a gola.
"Da minha mãe."
"Também vão responder?"
"Já respondem a coisas que você não conhece."
Deixei que mantivesse seu segredo. Ela deixara que eu mantivesse o meu.
Marcelo tomou conta das obras enquanto eu me instalava no hotel. Os depósitos recebiam mantimentos. As casas ganhavam sistemas independentes. Eu conferia cada etapa e treinava até meus braços não conseguirem fingir que dinheiro resolvia cansaço.
Então fui ao clube de tiro de Débora.
Reservei sessões, materiais e horários por um valor que nenhum gerente recusaria. Queria consumir o estoque imediato que ela usaria para organizar sua primeira tropa. Não precisava destruir o clube; precisava obrigá-lo a passar semanas dependendo de reposição.
Débora apareceu no segundo dia.
"Você me bloqueia e vem para cá?"
"Seu clube aceita clientes ou só pretendentes?"
O gerente olhou para o chão.
Ela chegou perto demais.
"Está querendo me provocar."
"Estou querendo terminar o que paguei."
Débora tentou cancelar os horários. Mostrei a confirmação assinada e pedi ao gerente que ligasse para Augusto. O dinheiro da reserva já tinha sido distribuído entre fornecedores.
A expressão dela mudou quando percebeu que desfazer aquilo custaria mais do que aceitar.
"Vai se arrepender."
"Você anda dizendo isso com frequência."
Fui embora no último dia com a certeza de que seu poder de fogo começaria menor.
Na primeira vistoria da cobertura, encontrei caixas que não correspondiam às notas. Pedi que Marcelo abrisse tudo diante de mim.
Havia substituído equipamento caro por versões inferiores e guardado a diferença.
Ele tentou explicar que seria temporário.
Coloquei os comprovantes sobre a bancada.
"Devolve o dinheiro, troca o material e termina. A segunda conversa vai ser com meu advogado."
O homem perdeu a cor.
Corrigiu antes do prazo.
Na vistoria final, mudei os códigos principais pessoalmente. Passei a guardar cópias das entregas em outro lugar. Ter um assistente competente não me obrigava a ter um inimigo informado.
Na noite de trinta e um de agosto, sentei na cobertura reforçada.
As três reservas estavam prontas.
Os diretores que me chamavam de louco tinham ações. Eu tinha água, comida, energia e uma pele que começava a aquecer.
Cérbero ardeu primeiro.
Através da janela, vi um cachorro do condomínio parar diante do portão e rosnar para o céu vazio.
Minha preparação tinha terminado.
A deles nem começara.
Eles vieram buscar meu estoque
Quando o relógio marcou sete, o céu rasgou.
Os primeiros relâmpagos atravessaram Porto Sereno sem chuva. Na televisão, o apresentador interrompeu uma reportagem e ficou ouvindo a direção pelo ponto eletrônico. Nas câmeras da cobertura, as pessoas do condomínio correram para as janelas.
Eu já estava longe da minha.
Conferi as portas e os filtros. Os sistemas permaneceram funcionando.
Marcelo ligou.
"Chefe, isso é no país inteiro."
"Fecha as janelas."
"Você sabia?"
"Estou ocupado garantindo que amanhã ainda exista para mim. Faz o mesmo."
Desliguei.
A lua vermelha apareceu meia hora depois.
Ninguém no grupo do condomínio conseguiu explicar por que parecia maior. Um vizinho disse que tinha bebido pouco para aquilo. Outro escreveu que sairia para filmar.
Mandei uma mensagem pedindo que permanecessem dentro de casa.
O homem respondeu com uma gargalhada.
A névoa engoliu o jardim antes que eu terminasse de ler.
Fechei a comunicação com o grupo e acompanhei as câmeras. Um porteiro vomitou. Uma mulher caiu ao lado da piscina. A água refletia vermelho onde a névoa deixava passar a luz.
Meu estoque não era mais extravagância.
Era vantagem.
Quando o ar clareou, abri uma transmissão no telefone. Nanda, uma influenciadora hospedada no centro, mostrava pessoas reunidas na frente do hotel.
Vi a senhora machucada antes de ela virar a câmera para o ferimento.
Uma mordida de gato. Pele escurecendo. Mandíbula rígida.
Digitei: "Afasta dela. A mordida não é o único problema."
Nanda leu e fez uma careta.
"Tem gente que só sabe espalhar medo."
Ajoelhou junto à mulher.
Um usuário chamado Bonitão do Mirante começou a me insultar. Pediu meu endereço. Prometeu me ensinar a ter coragem.
Eu reconheci a torre na fotografia dele.
A senhora agarrou Nanda.
O grito da influenciadora atravessou o telefone no instante em que minha coxa começou a queimar.
Larguei o aparelho.
A dor subiu pelo corpo e me derrubou junto à cadeira. Cérbero estava abrindo uma passagem que não existia em nenhuma aula de anatomia.
Clara avisara sobre a resistência.
Eu tinha treinado durante um mês. Tinha comido, dormido e preparado tudo que conseguia preparar. Agora só faltava a parte que ninguém podia fazer por mim.
Segurei a base da cadeira.
Ela quebrou.
Minha respiração virou um ruído baixo. A mandíbula doeu. Os olhos enxergaram mais do que cabia numa sala.
Não desisti.
Quando consegui me levantar, o mundo estava mais próximo. Ouvi a discussão no andar de baixo, o elevador descendo e o barulho de unhas raspando uma porta a duas torres dali.
A marca de Cérbero queimou de novo.
"Sai."
A criatura surgiu ao meu lado, enorme, negra, com uma única cabeça e dentes capazes de fazer qualquer ameaça humana parecer ridícula.
Olhou para mim.
Estendi a mão.
Os pelos endurecidos amoleceram sob meus dedos.
"Demorou, parceiro."
Ele encostou a testa na minha palma.
Uma ligação se abriu no peito, firme e sem dúvidas. Não precisei ensinar meu nome. Não precisei perguntar se ficaria.
No telefone, o Bonitão continuava escrevendo. Agora estava em uma chamada com três homens armados. Eu tinha recebido uma fotografia da minha porta, compartilhada por alguém do grupo.
"Aquele herdeiro vendeu a empresa e encheu a casa de comida. Vamos buscar."
Não vinha mais sozinho.
Ativei a gravação das câmeras e guardei os trechos da chamada. Se alguém ainda quisesse fingir que eles eram vizinhos inocentes, não teria muito espaço.
Antes que organizassem a subida, fui até o apartamento do Bonitão.
Ele me recebeu com um taco e uma faca.
Cérbero ocupou a porta.
"Você avisou que vinha", falei. "Preferi adiantar."
O taco quebrou na minha mão. A faca caiu no chão. Ele caiu logo depois, quando tentou alcançar uma arma atrás do sofá.
Os companheiros chegaram minutos mais tarde, carregando material roubado e falando de mulheres que pretendiam procurar naquela noite.
Viram o corpo e levantaram as armas.
Cérbero respondeu à minha ordem.
A conversa acabou.
Voltei ao pátio enquanto meu cachorro apagava os vestígios com uma chama que não queimava paredes. Na entrada da torre dezoito, Luana segurou meu braço.
O namorado mais velho já a havia abandonado.
"Você mora na cobertura?"
"Moro."
"Tem espaço?"
"Não estou alugando."
Ela olhou para um ponto atrás de mim, onde Cérbero ainda não aparecia.
"Talvez eu possa ser útil."
Guardei o detalhe.
"Talvez. Hoje não."
Na primeira vida, eu teria oferecido uma solução imediata. Agora preferia conhecer a pergunta inteira.
Às onze, Cérbero farejou o tigre que saíra do zoológico. A criatura estava evoluindo depois de atacar um grupo de animais e pessoas nas ruas do campus técnico.
Chegamos antes que rompesse o portão do alojamento.
Eu sabia onde atacar. Cérbero sabia como segurar.
Mesmo assim, Apolo me lançou contra uma grade com uma força que quase arrancou o ar dos pulmões. A diferença entre conhecer uma luta e vencê-la me custou o sangue da boca.
Levantei.
Quando o tigre abriu a mandíbula para lançar fogo, recuei com meu parceiro. Esperamos o jato terminar e entramos pela lateral exposta.
Apolo morreu diante do portão que não conseguiu atravessar.
Retirei o cristal azul e mostrei a Cérbero.
"Agora começa a parte boa."
Absorvi a esfera na cobertura. A dor era diferente, acompanhada por frio, calor e uma pressão que aumentou meus sentidos quando terminou.
Primeiro nível.
Cérbero abriu a boca e produziu uma chama mais densa.
Eu ainda estava sorrindo quando o interfone tocou.
Na tela, um homem de jaqueta preta olhava para a câmera. Tinha uma tatuagem de touro no pescoço e quatro acompanhantes com armas.
Mauro.
Reconheci o segurança do clube de Débora.
"Ela mandou buscar o material que você comprou usando o nome do clube", disse.
Não era verdade. Não precisava ser.
"Então manda ela mostrar a nota."
Ele apontou para a porta.
"Abre e a gente resolve."
Cérbero se levantou.
Ouvi uma explosão no corredor. Os homens haviam arrebentado o acesso técnico, tentando contornar a entrada principal. Mauro avançou primeiro, coberto por uma força maior do que a que eu encontrara naquela noite.
O touro tinha outra marca escondida, uma armadura capaz de proteger seu corpo.
Ele viu Cérbero e riu.
"Uma tatuagem só? Ela achou que você tinha se preparado melhor."
Deixei o cachorro recuar para que os tiros não o atingissem durante a materialização.
Mauro colocou a bota dentro da minha sala.
Os símbolos do antebraço acenderam.
Nas costas, alguma coisa ergueu uma arma.
Olhei para o invasor e puxei a camiseta acima do peito.
As risadas pararam.
Atrás de mim, uma sombra sem cabeça se levantou até tocar o teto.
Mauro recuou, tarde demais.
"Quem colocou todos esses deuses em você?"
Um golpe foi suficiente
"Você não vai viver o bastante para pedir o endereço."
A arma de Xingtian desceu.
Mauro cruzou os braços. A armadura tatuada brilhou sobre a pele, formando uma proteção que havia resistido a tiros naquela mesma noite.
Não resistiu ao golpe.
A força atravessou sua defesa e o jogou de volta ao corredor. O piso rachou sob seus pés. A arma que segurava partiu ao meio.
Os homens atrás dele tentaram atirar.
Cérbero saiu da minha sombra.
A chama envolveu as armas antes que conseguissem apontá-las direito. Dois soltaram tudo e correram. O terceiro insistiu. Meu cachorro o derrubou.
Eu dei um passo e senti o sangue descer do nariz.
Xingtian desapareceu.
Um golpe.
Era o limite que meu corpo suportava naquele nível.
Mauro percebeu o desaparecimento e tentou sorrir, apesar do braço inutilizado.
"Acabou seu truque."
"Acabou a necessidade dele."
Agarrei sua jaqueta e o ergui contra a parede. O touro ainda existia dentro dele, mas a proteção que sustentava sua confiança tinha sido rompida.
Com o primeiro cristal, eu já deixara de ser o homem que ele esperava encontrar.
"Débora sabe onde você está?"
Ele tentou acertar minha garganta.
Segurei sua mão.
Não precisou de outro movimento para entender.
Entregou o telefone.
Débora respondeu ao primeiro toque.
"Conseguiu entrar?"
Mostrei Mauro pela câmera.
Vi a satisfação desaparecer do rosto dela.
"Rafael."
"Não manda outro."
"Você não sabe o que está fazendo."
Inclinei o aparelho para que visse as armas queimadas e o corredor destruído.
"Aprendi bastante hoje. Você devia aproveitar a informação."
Ela desligou.
Mauro tentou negociar sua liberdade com a localização do arsenal. Depois tentou me atacar quando virei o telefone.
Cérbero terminou a luta.
Não mandei mensagem para Débora. A ligação já tinha feito o trabalho.
Recolhi armas, munições e dois rádios. Guardei uma lista de homens que ela havia convocado depois da lua. Quanto mais informação trouxessem para me roubar, mais recursos eu retiraria deles.
Fechei o acesso técnico, instalei uma barreira provisória e conferi o resto da casa.
O ataque não chegara aos depósitos.
Marcelo havia comprado material suficiente para reforçar a passagem duas vezes. Pela primeira vez, fiquei satisfeito por sua tendência a exagerar algumas encomendas.
Cérbero voltou a mim enquanto eu lavava o sangue do rosto.
No espelho, a marca de Xingtian estava cinzenta. Não desaparecera. Apenas parecia mais distante, como uma porta fechada depois de uma visita perigosa.
Eu sabia o que tínhamos feito.
O símbolo permitira chamar uma força maior por alguns segundos, queimando minha própria energia. Não havia transformado meu primeiro nível no poder completo de um deus.
Repetir aquilo sem recuperação me mataria.
Usei o caderno para registrar o custo e coloquei um aviso acima da cama: primeiro fortalecer o corpo, depois exigir mais da pele.
Não tinha renascido para morrer tentando parecer invencível.
À manhã seguinte, saímos.
Porto Sereno já era outra cidade. Soldados bloqueavam avenidas, animais atacavam viaturas e pessoas feridas tentavam esconder mordidas dos vizinhos.
Cérbero localizou uma criatura de primeiro nível num estacionamento. Um porco enorme havia tomado o acesso a um mercado.
Não precisei de Xingtian.
Meu parceiro atraiu o animal para o lado, e eu o atingi quando expôs o pescoço. A luta terminou com menos esforço do que o tigre exigira.
Primeiro cristal do dia.
Numa rua estreita, uma serpente tentou me prender junto à motocicleta. Cérbero lançou fogo antes que ela concluísse o movimento.
Segundo.
Uma ave caiu de uma marquise quando tentou atacar por cima. Eu tinha aprendido a ouvir o bater das asas antes de olhar.
Terceiro.
Nenhuma vitória tornou a seguinte automática. Eu mudava a posição, observava a criatura e aprendia a usar aquilo que meu cachorro me entregava pelo vínculo.
Antes do meio-dia, tínhamos seis.
Ao entrar numa padaria, Cérbero parou de procurar inimigos e foi direto a uma prateleira.
Puxou um pacote de bolo de mel com uma delicadeza ofensiva para quem tinha acabado de arrancar a cabeça de um monstro.
"Você está com fome?"
Sentou.
Esperei uma resposta que não viesse apenas da expressão. Recebi a lembrança de bolos deixados junto a mortos, oferendas por uma travessia segura.
Meu parceiro não precisava comer.
Gostava de ser lembrado.
Abri o pacote e dei um pedaço.
O entusiasmo dele quase me derrubou através da ligação.
"Está bem. Vamos levar mel também."
No mercado, encontramos frascos suficientes para meses. Peguei farinha, ingredientes e recipientes menores. O espaço que começava a surgir dentro de Cérbero ainda era limitado, então distribuí o peso na motocicleta.
Quando voltei ao condomínio, os vizinhos me observavam pelas janelas.
Um homem perguntou se a cidade estava segura.
"Não."
"Então por que você saiu?"
"Porque esperar que fique segura não vai encher sua geladeira."
Dessa vez, ninguém riu.
Uma foto minha começou a circular no grupo. Alguém identificou o rapaz que vendera a própria empresa. Outro lembrou as obras da cobertura.
As piadas do mês anterior desapareceram.
Em seu lugar surgiram perguntas sobre o que eu sabia.
Não dei acesso ao estoque para provar que estava certo.
Dei três informações: permanecer longe de animais, evitar mordidas e buscar mantimentos antes que o tempo mudasse.
Quem quisesse usar a chance, usaria.
À tarde, saímos para completar o conjunto de dez cristais. Voltamos ao anoitecer com os últimos quatro e uma pata de Cérbero marcada por uma criatura que não parecera forte até abrir a boca.
Ele se recuperou dentro da tatuagem.
Eu absorvi os cristais no banheiro, com os acessos fechados e o caderno ao alcance. A transformação apertou meus ossos e fez a água da banheira tremer.
Quando terminou, o braço machucado estava inteiro.
Segundo nível.
Cérbero surgiu com duas cabeças.
Elas se olharam, se cheiraram e depois viraram para mim, cobrando alguma coisa ao mesmo tempo.
"O bolo. Eu sei."
Queimei a primeira tentativa. Ele comeu o meio e empurrou as bordas para o prato vazio.
"Você podia ser menos sincero."
Meu cachorro balançou duas cabeças com a mesma convicção.
O telefone vibrou.
Luana.
"Sei quem matou os homens da torre dezoito."
Enviei os trechos gravados em que planejavam invadir apartamentos e atacar mulheres. Não lhe dei um segredo para segurar; dei o contexto inteiro.
Ela respondeu com rapidez:
"Não estou defendendo eles. Estou dizendo que vi seu cachorro. Mesmo quando ninguém vê."
Fiquei atento.
Perguntei como.
"Tenho uma tatuagem. Um olho. Enxergo o que as pessoas escondem."
O Olho da Morte.
Uma habilidade que permitiria localizar despertares e medir perigos antes de entrar em combate.
"E o que quer?"
"Um lugar onde eu possa dormir sem pôr um armário na porta."
Eu precisava de informação. Ela precisava de proteção. Um acordo podia ser útil, desde que eu conhecesse as condições.
"Vem conversar. Sem arma."
Ela chegou às dez com uma bolsa e um sorriso treinado.
Antes de abrir, pedi a Cérbero que prestasse atenção à marca do olho.
Ele ergueu as duas cabeças.
Havia fogo escondido atrás dela.
Ela trouxe a traição dentro da bolsa
Luana entrou olhando tudo.
A luz. O ar-condicionado. A porta. A quantidade de armários na cozinha.
Tentava parecer discreta, mas estava contando recursos antes de conhecer as regras.
Cérbero se sentou entre ela e o corredor.
"Ele deixa você dormir?", perguntou.
"Melhor do que muita gente."
Ofereci água e pedi que sentasse.
Luana mostrou o pequeno olho tatuado junto às costelas. Disse que via presenças, forças escondidas e marcas que ainda não haviam se materializado.
"Você tem muito mais coisa do que esse cachorro."
"Eu sei."
"Algumas estão dormindo."
"Também sei."
Ela pareceu desapontada por não ser a única pessoa informada na sala.
"Você podia me deixar ajudar."
"É por isso que está aqui. O que tem na bolsa?"
"Roupa."
"Abre."
O sorriso perdeu um pouco da segurança.
Luana tirou duas camisetas, um estojo e um carregador. Manteve a mão no fundo da bolsa.
Cérbero sentiu o cheiro antes que eu pedisse novamente.
Peguei o recipiente pequeno escondido na divisória.
Não tinha rótulo.
Coloquei sobre a mesa.
"Isso também é roupa?"
"Remédio."
"Para quem?"
Ela hesitou.
Eu não lhe dera motivo para tocar em minha comida. Mesmo assim, sua primeira pergunta depois de entrar fora sobre a cozinha.
Peguei o telefone dela, que vibrara três vezes desde a chegada. A tela mostrava uma mensagem de um número bloqueado no meu aparelho.
Débora.
"Quando ele apagar, manda a foto da porta."
Virei a tela para Luana.
Não precisou ler em voz alta.
Ela deixou de tentar sorrir.
"Você não entende. Ela disse que tem gente, armas, uma casa inteira."
"E eu tenho uma porta para você sair. Use enquanto pode."
Luana olhou para Cérbero. Depois para meu braço. Depois para a saída.
Eu a deixei escolher.
Sua mão foi à cintura.
A fênix se abriu atrás dela.
O calor estourou um copo sobre a mesa, e a primeira chama veio na direção do meu rosto. Afastei a cadeira e passei por baixo do braço que ela levantava.
Cérbero interceptou o fogo.
Uma de suas cabeças prendeu o pulso de Luana. A outra segurou a força da fênix antes que as asas terminassem de se formar.
Ela tinha um desenho poderoso e nenhum cristal sustentando o corpo.
Eu já estava no segundo nível.
A diferença decidiu a luta, não a beleza da imagem.
Luana tentou abrir a passagem até a porta. Usei a própria mesa para bloquear o caminho e a derrubei quando voltou a atacar.
A fênix perdeu o contorno.
"A gente pode negociar", disse, quase sem ar.
Mostrei o telefone.
"Você fez a negociação antes de entrar."
Ela lançou uma última chama.
Cérbero a recebeu.
Quando a luta terminou, Luana não respirava mais.
Meu parceiro incorporou o Olho da Morte e a afinidade do fogo. As duas cabeças ergueram os olhos na mesma hora, e o mundo ganhou outra camada através do vínculo.
As forças ao redor tinham intensidade, direção e distância.
Eu não precisava mais entrar numa rua para descobrir que alguém escondia um despertar nela.
A armadilha de Débora entregara exatamente o recurso que me faltava.
Usei o telefone de Luana para mandar uma fotografia do recipiente e da tela com a ordem.
"Sua segunda tentativa terminou. Guarda a terceira para quando eu chegar."
Não esperei resposta.
Na manhã seguinte, a cidade amanheceu sob um calor brutal. Protegi os equipamentos, organizei as reservas e entreguei a Cérbero os itens que não podia perder se a cobertura fosse destruída.
Ele guardou documentos, cristais extras e mantimentos no espaço que começava a expandir dentro de si.
Enquanto fazia isso, senti uma presença no sexto andar.
Bianca Prado.
A atriz aparecera no grupo pedindo notícias de voos, hospitais e resgate. Tinha um cachorro pequeno e uma gata, ambos ainda sem sinais de mutação. Alguns animais domésticos, mantidos longe da névoa, haviam escapado da transformação inicial.
Não contava com essa sorte para sempre.
No quarto dia, a chuva começou.
Vi a garagem desaparecer. Ouvi os vizinhos arrastando malas pelas escadas. A energia acabou pouco antes do amanhecer, e meu gerador entrou em funcionamento sem interromper a geladeira.
A previsão que todos chamaram de delírio estava batendo nas janelas.
Orlando, morador do oitavo andar, reuniu os sobreviventes. Abriu apartamentos vazios e organizou um grupo para cada torre. Até aí, tinha utilidade.
Quando começou a exigir inventários e a decidir quais recursos pertenciam a todos, descobri o limite do serviço.
Ele subiu com Leandro, um vizinho que transformava medo em agressividade.
"Precisamos registrar sua comida", disse Orlando.
"Não."
"É para o bem da torre."
"Podem registrar a comida que vocês compraram."
Leandro tentou olhar para dentro.
Fechei a porta.
Pela percepção, ouvi os dois conversando na escada. Orlando chamou minha cobertura de reserva para quando os outros mantimentos acabassem. Pediu que não contassem às outras torres.
A solidariedade do homem tinha endereço e senha.
Na reunião seguinte, fui conhecer o grupo.
Bianca estava junto à janela, pálida, com uma jaqueta sobre a camiseta. A televisão não mostrava a maneira como observava portas antes de escolher onde ficar.
Orlando propôs centralizar os alimentos. Os homens buscariam recursos. As mulheres fariam tarefas internas. Ele e um pequeno grupo controlariam as porções.
"E quem não entregar?", perguntou Leandro.
"Não pode continuar usufruindo da proteção coletiva."
Olharam para mim.
Pedi que explicassem qual proteção tinham me oferecido contra o tigre, Mauro ou a fênix.
Ninguém respondeu.
Leandro levantou.
"Você acha que é melhor do que todo mundo."
"Acho que vocês querem abrir uma porta que não conseguem defender."
Bianca ergueu os olhos.
Orlando tentou recuperar a conversa usando o nome do meu pai.
Apoiei a mão na mesa. A madeira rachou junto aos meus dedos.
Não precisei falar mais alto.
"Meu pai não está participando da reunião. Eu estou. E minha resposta continua sendo não."
Saí antes que inventassem outro direito sobre minha despensa.
No corredor, Bianca me alcançou.
"Você poderia ajudar sem fazer um espetáculo."
"E você poderia guardar parte dos seus mantimentos antes de entregar tudo."
Ela apertou o telefone.
"Você não sabe o que eu guardei."
"Ótimo. Não conta para eles."
Passei meu contato.
"Quando mudarem as regras, fala comigo antes de perder a saída."
Bianca não agradeceu.
Não precisava.
Na cobertura, Cérbero estava olhando para a água que subia entre os prédios.
Através de seus olhos, vi uma força de segundo nível se aproximar.
Uma carpa gigante, coberta de escamas douradas, vinha para o condomínio.
Olhei para o antebraço.
Os símbolos estavam apagados.
Dessa vez, eu não precisaria deles.
Eles descobriram quem estava protegendo a torre
A carpa vinha pelo caminho que antes era uma avenida.
Suas costas douradas cortavam a água, e cada movimento levantava ondas contra as janelas do terceiro andar. O condomínio tinha pessoas demais e comida de menos para resistir àquela criatura.
Eu tinha uma necessidade diferente.
Um cristal do segundo nível.
Cérbero saltou da janela. Fui atrás, alcancei suas costas na água e seguramos a direção até o animal parar de avançar.
A carpa havia nos percebido.
Abriu a boca, puxando água e destroços. Uma porta arrancada de algum apartamento desapareceu entre seus dentes.
Desci do dorso de Cérbero antes que a corrente nos arrastasse juntos.
Meu parceiro foi pela direita.
Eu mergulhei pela esquerda.
A criatura tinha vantagem dentro da água. Precisávamos impedir que usasse a mesma força contra os dois ao mesmo tempo.
Quando Cérbero alcançou a cauda, a carpa girou para mordê-lo. O movimento expôs uma região entre as escamas do pescoço.
Atingi o ponto e me afastei antes que virasse.
Ela reagiu rápido. A cauda me acertou e me lançou contra uma placa submersa. Senti a lateral do corpo abrir.
Cérbero puxou a atenção de volta.
Voltei para a superfície, respirei e procurei a posição pelo vínculo.
Meu parceiro tinha as duas cabeças presas ao monstro. O fogo corria por baixo da água como uma luz que não precisava do ar para existir.
A carpa tentou descer.
Não deixamos.
Mergulhei outra vez, alcancei o ferimento e completei o golpe enquanto Cérbero segurava o corpo.
Quando o animal perdeu força, a água se acalmou ao redor.
Subi nas costas douradas, ofegante.
Cérbero entregou o cristal.
Maior. Mais intenso. Diferente dos primeiros.
Eu o levantei diante dos olhos.
"Um de dez."
Uma cabeça do cachorro se inclinou para o meu ferimento.
"Ainda dá para voltar."
Ele não gostou da frase e me carregou como se eu fosse muito menos pesado do que a teimosia.
Na cobertura, lavei a lateral machucada e usei um fragmento de energia acumulada para estabilizar a recuperação. Cristais menores já não provocavam avanço, mas continuavam úteis como reserva.
Registrei essa diferença no caderno.
Não comi a recompensa imediatamente. Dez cristais do nível certo consolidariam a mudança; um impulso isolado não valia perder o conjunto.
Durante a semana seguinte, caçamos à noite. Cérbero detectava criaturas em evolução, e eu escolhia combates nos quais podíamos controlar o terreno.
Uma cobra nos entregou o segundo cristal. Um felino mutante, o terceiro. Depois vieram mais sete, alguns arrancados de lutas que deixaram cicatrizes e exigiram recuar antes de voltar.
No décimo segundo dia, alcancei o terceiro nível.
As tatuagens ficaram mais nítidas.
O calor de Xingtian voltou ao lugar certo, sem que eu precisasse chamá-lo.
Cérbero surgiu com três cabeças.
A terceira farejou o bolo antes de farejar a sala.
"Você nem chegou e já está cobrando."
As outras duas pareceram concordar comigo. Por um segundo. Depois foram as três para a cozinha.
Eu ri enquanto colocava outro recipiente no forno.
Quando o telefone tocou, Orlando queria saber se eu tinha remédios.
Respondi que poderia trocar alguns por baterias e informação sobre as torres. Não lhe entreguei a lista inteira.
Ele aceitou.
A primeira troca aconteceu no corredor, com testemunhas. Dei exatamente o combinado. Recebi exatamente o combinado. Um rapaz levou o medicamento à mãe e começou a entender que negociar comigo era diferente de tentar me convencer a abrir a despensa.
Orlando não gostou da mudança.
Perdia utilidade se os vizinhos pudessem falar diretamente comigo.
Dois dias depois, ouvi Bianca gritar.
Orlando exigia seus animais. Alegava que não havia alimento suficiente para preservar gatos e cachorros enquanto preparava uma incursão contra minha casa.
Ela ofereceu sua própria porção.
Leandro a derrubou quando tentou impedir que descessem ao sexto andar.
Eu estava longe da torre, encerrando uma luta contra uma criatura que começara a roer a estrutura do edifício vizinho. O grito chegou por Cérbero. Voltei assim que consegui, mas a perda já havia acontecido.
Bianca estava trancada no décimo andar.
Orlando reunia homens para subir.
A fome não explicava os sacos de arroz que ele mantinha escondidos atrás de um armário.
As informações recolhidas pelo Olho da Morte não eram apenas sobre monstros. Cérbero atravessava cheiros, presenças e espaços que um líder de condomínio acreditava controlar.
Deixei a câmera preparada.
Os invasores vieram com facas, barras e combustível.
Leandro bateu antes de começar a forçar a porta.
"Abre. Não faz a gente perder tempo."
Ativei o interfone.
"Vocês já estão perdendo desde o oitavo andar."
Tentaram arrombar.
Não conseguiram.
Orlando ofereceu uma última oportunidade de me juntar ao grupo. Depois ordenou que queimassem o acesso.
Quando desceram para buscar mais material, saí pela passagem que já tinha reparado e esperei junto à escada.
Leandro me encontrou atrás de si com o isqueiro na mão.
"Você é rápido para alguém que disse que estava morrendo de fome."
Ele puxou uma faca.
Quebrei a arma contra o corrimão e o derrubei no chão. Os outros atacaram ao mesmo tempo.
Pela primeira vez, mostrei à torre o que o terceiro nível significava.
Uma barra bateu no meu ombro e caiu entortada. Tirei outra da mão de um homem antes que percebesse que eu já estava perto. Cérbero apareceu atrás deles, preenchendo o corredor com três cabeças e uma sombra enorme.
Os que não tinham participado recuaram para os apartamentos.
Os invasores ficaram.
Orlando tentou dizer que só queriam conversar.
Pedi que a câmera repetisse sua ordem para incendiar minha porta.
O som saiu pelo interfone.
Toda a escada ouviu.
"Agora a conversa tem testemunhas", falei.
Leandro começou a pedir desculpas. Orlando olhou para ele como quem descobria que um seguidor tinha pés próprios.
Mandei todos descerem.
Não para lhes dar comida.
Para abrir o armário que o velho escondia dos vizinhos.
No décimo andar, derrubei a porta do depósito. Os sacos de arroz, as latas e as porções reservadas para Orlando apareceram diante de gente que tinha passado dois dias tomando água para enganar o estômago.
Leandro foi o primeiro a gritar.
Orlando tentou pegar uma arma escondida entre os mantimentos.
Apontei para ele.
"Foi assim que preparou todo mundo para repartir?"
O homem atirou no próprio aliado quando Leandro avançou.
A sala explodiu em movimento. Os seguidores se viraram contra o líder. A esposa tentou fugir com uma sacola. Outro homem agarrou o saco de arroz e levou uma facada de quem segundos antes chamava de irmão.
Afastei quem não estava armado e ocupei a passagem.
Não precisaram de uma ordem minha para se destruir.
As mentiras de Orlando fizeram isso quando deixaram de ter portas fechadas.
No quarto do fundo, Bianca bateu e pediu que a soltassem.
Teresa, que ajudara a prendê-la, arrancou a tranca por fora antes que eu alcançasse o corredor.
Segurou a atriz pelos cabelos e colocou uma faca junto à sua garganta.
"Sua comida pela vida dela", gritou para mim.
Cérbero parou.
Olhei a distância entre minha mão e a lâmina.
Teresa apertou o braço.
"Dessa vez, você vai abrir a porta."
Ninguém tocou nela outra vez
Teresa olhou para Cérbero.
Foi o erro.
Percorri a distância antes que seus olhos voltassem a mim. Segurei a lâmina, afastando o corte da garganta de Bianca, e quebrei o pulso que a sustentava.
Minha mão sangrou.
A dela soltou a arma.
Puxei Bianca para trás e a entreguei à proteção do cachorro. Teresa tentou alcançar outra faca junto ao cinto.
Não chegou.
Caiu contra a parede e perdeu os sentidos.
Na sala, Orlando estava morto. Leandro também. Dois dos homens que haviam subido para me incendiar a casa tentavam se arrastar para a porta, feridos na disputa pelo depósito.
Tirei-lhes as armas.
Separei os mantimentos escondidos e mandei os sobreviventes que não tinham participado da invasão recolherem o que conseguiriam levar.
Não fundei um governo no décimo andar.
Desmontei o de Orlando.
Bianca estava sentada com as mãos agarradas ao pelo de Cérbero. Uma cabeça permanecia junto ao rosto dela; as outras vigiavam o corredor.
Ajoelhei a uma distância que não a obrigasse a recuar.
"Consegue subir?"
Ela olhou minha mão.
"Você se machucou."
"Vai fechar."
"Minha garganta podia ter aberto."
"Não abriu."
Bianca respirou. O ar saiu aos pedaços.
"Meus animais..."
Não lhe dei uma promessa impossível.
Sentei ao lado até conseguir falar de novo.
Quando levantou, veio comigo.
Na cobertura, pediu primeiro um banheiro. Não comida, não perguntas. Um espaço onde ninguém pudesse segurá-la pela nuca.
Mostrei o quarto e a chave.
"Eu vou estar na cozinha."
Ela entrou, trancou e ficou mais de uma hora longe de mim.
Nesse tempo, guardei as armas, lavei o ferimento e terminei uma refeição simples. Cérbero permaneceu diante do quarto, sem exigir que a porta abrisse.
Bianca voltou usando uma camiseta minha e uma calça de reserva. Tinha lavado o sangue do pescoço, mas a marca da corda nos pulsos continuava visível.
Sentou diante do prato.
"Você sabia que eles iam fazer isso?"
"Sabia que iam mudar as regras quando a comida acabasse. Não sabia o que escolheriam primeiro."
Ela ficou olhando o arroz.
"Eu achei que você só queria me assustar."
"Queria que guardasse uma saída."
"Você fala como se tivesse visto tudo antes."
Peguei minha caneca.
"Já vi coisa suficiente."
Bianca não aceitou a resposta inteira, mas tinha outras necessidades mais urgentes.
Comeu devagar no começo. Depois parou de tentar parecer uma pessoa que não estava faminta.
Dei água e deixei que terminasse.
"Por que me trouxe?", perguntou.
"Porque você estava amarrada, não armada. E porque ainda pode fazer alguma coisa aqui além de morrer esperando."
"Que coisa?"
"Cuidar da casa enquanto eu saio. Aprender os equipamentos. Cozinhar se quiser. Brigar comigo quando eu errar, pelo visto."
A atriz ergueu uma sobrancelha.
"Não precisa me dar autorização para isso."
Gostei da resposta.
Não lhe disse.
Na manhã seguinte, encontrei café feito e uma panela que ela tinha decidido lavar duas vezes porque desconfiava da água armazenada.
Expliquei os filtros.
Ela conferiu as etiquetas.
"Você não comprou isso depois da lua."
"Não."
"Nem as portas. Nem os geradores."
"Também não."
Bianca me encarou, entendendo que havia uma parte da história que eu ainda guardava.
Em vez de exigir, apontou para a cozinha.
"Seu cachorro quer alguma coisa."
As três cabeças observavam um frasco de mel.
Mostrei a receita que tentara seguir.
Bianca leu, olhou o forno e me mandou sair da frente.
"Você queimou porque colocou calor demais. Não porque o universo está contra você."
"Uma explicação muito decepcionante."
Ela soltou a primeira risada.
Quando o bolo saiu, Cérbero se deitou com uma atenção que jamais me oferecera durante a cozinha.
"Traidor", murmurei.
Bianca deu o primeiro pedaço a ele e o segundo a mim.
"Ainda tem espaço para você."
Na primeira noite em que assumi a cozinha, o gerador auxiliar parou e uma parte da casa ficou escura. Bianca foi ao depósito antes de eu terminar de procurar a chave.
Tinha decorado onde guardávamos lanternas, baterias e o equipamento de reserva.
Quando alcancei o corredor, ela já havia iluminado a passagem e separado o necessário para a troca.
"Você não estava prestando atenção só na comida", falei.
"Eu presto atenção nas coisas que não quero perder."
A resposta veio acompanhada de um olhar que demorou em mim antes de voltar aos equipamentos.
Cérbero encostou a cabeça no seu joelho.
Na manhã seguinte, entreguei a Bianca uma chave do depósito principal.
Ela girou o metal entre os dedos.
"Está me promovendo?"
"Estou economizando perguntas."
"Claro. Não podia admitir que sou útil."
Guardou a chave no bolso, satisfeita demais para continuar discutindo.
Passei a ensiná-la a usar ferramentas, reconhecer rotas e conservar as armas que trouxera dos invasores. Ela pediu facas antes de pedir uma pistola.
"Usei lâminas falsas em cena. Pelo menos sei onde a mão começa."
Corrigi sua postura.
Ela aprendeu rápido.
A tarde do avanço do mar nos encontrou na sala.
Vi a água ultrapassar a praia e tomar as avenidas como se os quarteirões fossem peças pequenas demais. Bianca ergueu o binóculo, viu a onda chegar ao condomínio e deixou o aparelho cair.
Seu sexto andar desapareceu.
Segurei-a antes que os joelhos falhassem.
"Está aqui agora."
Ela agarrou minha camisa e esperou a água parar de subir naquela primeira investida.
Eu a deixei ficar.
Não fiz brincadeira sobre medo.
À noite, bateu à porta do meu quarto.
"Não consigo dormir sozinha."
Afastei o cobertor.
Bianca deitou mantendo espaço entre nós. Pouco depois, encontrou minha mão no escuro. Seus dedos pararam sobre a palma que Teresa abrira.
"Você se colocou na frente da faca."
"Era o lugar que resolvia."
Ela virou o rosto para mim.
"Você precisa sempre estragar a parte bonita?"
"Depende de quanto tempo ela dura."
Beijou-me para interromper a resposta seguinte.
Naquela noite, deixamos a tempestade do lado de fora. Pela manhã, ela não parecia outra mulher. Parecia a mesma, com uma razão a mais para guardar a chave daquele quarto.
O problema veio da quarta torre.
Três homens tinham começado a invadir apartamentos e ameaçar famílias. Pelo Olho da Morte, Cérbero detectou as armas, os movimentos e a violência antes que chegassem perto de nós.
Bianca viu uma mulher ser arrastada junto à janela e pegou o binóculo.
"A gente vai ficar esperando eles virem?"
Eu observei a passagem entre os prédios.
Aqueles homens precisavam atravessar um espaço aberto para mudar de torre. Não tínhamos de aceitar o terreno que escolheriam.
Entreguei uma das facas a Bianca.
"Não. Vamos deixar que pensem que escolhem."
Cérbero nos levou até um apartamento vazio na torre vizinha. A mulher ameaçada conseguiu fugir por uma escada que abrimos antes de os invasores perceberem. Dois vizinhos saíram com ela, protegidos por uma das cabeças do cachorro.
Quando os três homens chegaram à porta seguinte, me encontraram esperando.
Reconheceram Bianca atrás de mim.
O mais novo sorriu.
"Melhorou o passeio."
Minha companheira não recuou.
Levantou a faca na posição que treináramos.
"Você vai ter um péssimo fim de tarde."
O antigo dono veio pedir comida
O mais novo entrou primeiro.
A faca dele não chegou a Bianca. Prendi seu braço e o derrubei contra o batente. O irmão seguinte tentou atacar por cima do meu ombro.
Minha companheira girou para o lado e o atingiu antes que completasse o movimento.
Não foi uma cena de cinema.
Foi curta, feia e suficiente.
O mais velho viu os dois caírem e puxou uma pistola.
Cérbero tomou a passagem.
Ele não conseguiu disparar.
Retirei as armas, encostei a porta e pedi a Bianca que conferisse a escada. A família ameaçada já estava longe.
Os três homens começaram a falar ao mesmo tempo.
Um dizia que não tinha feito nada. Outro que a mulher inventara. O mais velho pedia um acordo.
Mostrei a gravação que o celular de um deles ainda guardava. Tinham registrado parte das próprias ameaças como troféu.
O acordo desapareceu.
Quando o caçula tentou puxar Bianca pelo tornozelo para recuperar a faca, ela respondeu sem esperar uma ordem minha.
Os outros morreram tentando resistir.
Minha companheira permaneceu em pé até guardarmos as armas. Depois se sentou no chão, com as mãos abertas sobre os joelhos.
"Minha mão não para."
Sentei diante dela.
"Vai parar. Não tenta esconder de mim."
Ela me olhou.
"Você fala isso como se eu fosse uma arma com defeito."
"Falo porque quero que continue inteira."
O silêncio depois daquela frase durou mais do que eu pretendia.
Cérbero encostou uma cabeça no ombro dela.
Bianca segurou meu pulso, respirou e esperou o tremor diminuir.
Voltamos com mantimentos que os homens haviam roubado e os rádios que usavam para procurar alvos. Entregamos parte às pessoas que conseguimos tirar da torre; levamos o resto para reforçar nossa reserva.
Durante os dois dias seguintes, Bianca treinou com insistência.
Eu a fazia parar antes que o cansaço estragasse o movimento. Ela reclamava, tomava água e voltava.
Não confundia mais coragem com atravessar uma porta sem olhar.
Saímos para reconhecer outras torres. Cérbero localizava ameaças; eu abria passagens; Bianca ajudava os grupos que conseguiam mover os próprios mantimentos.
Não cabia todo o condomínio na minha cobertura.
Mas limpar uma rota, entregar uma arma e impedir um saque não exigia que eu carregasse cada vida nas costas.
Na última torre, dois homens esperaram Bianca atrás de uma porta. Eu senti o risco pelo cachorro antes que ela entrasse.
Chamei seu nome.
Ela parou com a mão na maçaneta.
Fiz sinal para que recuasse.
Os homens abriram de repente, frustrados por perder a emboscada. Um tentou agarrá-la. Ela torceu o corpo para o lado certo e o obrigou a tropeçar na própria aproximação.
Eu peguei o segundo.
As armas deles ficaram conosco.
Quando voltamos, Bianca estava irritada por ter quase caído na armadilha.
"Eu não vi."
"Agora sabe onde olhar."
"Você sempre tem o cachorro."
"E você tem a capacidade de me ouvir antes de fazer besteira. Usa enquanto estou perto."
Ela me empurrou com o ombro.
"Arrogante."
"Vivo."
"As duas coisas."
Cérbero caminhou entre nós, satisfeito com a discussão que terminava sem gritos.
Na terceira manhã, três barcos apareceram vindos do centro.
Vinte e duas pessoas. Armas. Três despertares. Um deles no primeiro nível, perto de consolidar o segundo.
Augusto Ferraz estava sentado no barco da frente.
Eu o reconheci antes que levantasse o rosto.
O homem que comprara minhas ações por uma fração do valor agora vinha atravessando uma cidade afogada para procurar o que eu comprara com o dinheiro.
Bianca colocou o binóculo sobre a bancada.
"Você conhece?"
"Ele está com a empresa que eu vendi."
"Não parece que ela alimentou todo mundo."
Peguei o casaco.
"Vamos ouvir o relatório."
Desci ao décimo andar com minha força contida. Não queria que fugissem antes de explicar quais informações tinham levado até nós.
Augusto abriu os braços.
"Rafa. Eu sabia que ia encontrar você."
Olhei os homens armados.
"Trouxe uma equipe grande para um abraço."
Ele engoliu a resposta.
Lúcio, o antigo chefe da segurança do grupo, apresentou-se como líder. Tinha uma tatuagem de dragão no peito e dois aliados com marcas parecidas.
"Viemos colaborar", disse.
Perguntei o que ofereciam.
"Proteção. Organização. Gente para trabalhar."
"E o que pedem?"
"Metade dos alimentos. Acesso aos geradores. Um andar de hospedagem para a equipe."
Bianca soltou uma risada curta atrás de mim.
Lúcio olhou para ela e a reconheceu.
A intenção em seu rosto me fez dar um passo à frente.
"Ela não está na proposta."
Augusto tentou suavizar a conversa.
"Ninguém quis dizer isso. Somos pessoas que ajudaram seu pai."
"Meu pai ajudou vocês a enriquecer. Depois vocês compraram minha saída. A conta está encerrada."
O velho perdeu a expressão de tio preocupado.
"Você recebeu trezentos milhões. Todo mundo sabe o que comprou."
"E todo mundo pode comprar o próprio almoço."
Lúcio bateu na mesa.
Sua pele mudou. As escamas começaram a subir pelo pescoço. Os companheiros assumiram formas menores, apoiados nas marcas que carregavam.
"Você devia ter aceitado enquanto era conversa."
Eu sorri.
"Você devia ter perguntado quem derrubou Mauro."
O nome mudou o rosto de Augusto.
Lúcio avançou.
Deixei seu golpe passar e o levei para a janela aberta. Ele me seguiu até o telhado porque acreditava que espaço aumentaria a força do dragão.
Aumentaria a minha também.
Cérbero enfrentou os dois acompanhantes. A terceira cabeça apareceu, e o entusiasmo deles desapareceu antes de entenderem a diferença de nível.
Lúcio tentou me atingir com as garras.
Segurei uma delas.
Soltei o poder que havia contido.
Ele caiu de joelhos sem que eu precisasse empurrar.
A água ao redor do telhado parecia escutar a marca do meu primeiro dragão, mas ainda não podia obedecer.
Lúcio viu o desenho no meu braço.
"Um Rei Dragão..."
"Clara fez melhor do que seu tatuador."
Ele tentou fugir.
A luta terminou antes que alcançasse a borda.
Ao morrer, sua marca deixou fragmentos luminosos que foram atraídos pelo meu braço. Cérbero me trouxe os restos de força dos outros dois.
O dragão aqueceu.
Não era suficiente para despertar.
Era suficiente para saber o que faltava.
No décimo andar, Bianca e a proteção que eu deixara com Cérbero haviam impedido os homens comuns de avançar. Alguns jogaram as armas no chão. Os que insistiram foram derrubados.
Ordenei que os sobreviventes fossem embora sem os equipamentos que tinham trazido.
Augusto tentou sair junto.
Um homem ferido apontou para ele.
"Foi esse velho que prometeu. Disse que a comida era nossa."
O grupo se voltou contra quem lhes vendera a cobertura como recompensa. Augusto puxou uma pistola escondida e tentou me atingir no peito.
Peguei seu braço antes do disparo.
A arma caiu.
Augusto se lançou atrás dela enquanto eu afastava Bianca da linha de tiro. Alcancei a pistola primeiro. Ele puxou outra lâmina da cintura e veio contra meu peito.
Disparei.
O homem caiu junto à parede, ferido, perdendo o pouco de autoridade que lhe restava.
"Seu pai...", começou.
"Sua conversa com meu pai acabou há três anos. Agora responde pelo que fez comigo."
Seus olhos procuraram Bianca, as armas perdidas, o acesso que não tomaria.
"Débora", sussurrou. "Não vai atrás dela."
Toquei o telefone que guardava as ordens enviadas a Luana.
"Ela já veio atrás de mim duas vezes. Agora é minha vez."
Débora recebeu a resposta
Augusto morreu sem conseguir terminar outra ameaça.
Deixei as armas com Bianca e fui conferir os barcos. Tinham combustível, ferramentas e mantimentos que o velho não mencionara quando começou a pedir comida.
Acrescentamos tudo à nossa reserva.
Cérbero guardou o que não precisávamos usar imediatamente.
Na manhã seguinte, saímos para a região oeste.
Débora tinha uma casa elevada, parte do estoque do clube e informações sobre pessoas que ainda circulavam no centro. Eu tinha os endereços que Mauro entregara, mensagens enviadas a Luana e um caminho direto até o portão.
Bianca colocou as facas no cinto.
"Dessa vez, ela sabe que você vai?"
"Sabe que pode acontecer. Não sabe quando."
"Parece um presente."
"Ela me ensinou a não devolver só uma parte."
Atravessamos a cidade sem disputar avenidas que já não existiam. O Olho da Morte mostrou rotas, criaturas e três homens que observavam a entrada da casa.
Débora se preparara depois das tentativas frustradas.
Não se preparara para o terceiro nível.
Cérbero passou por baixo de uma varanda e alcançou os vigias antes que levantassem as armas. Eu entrei pelo lado oposto. Bianca veio atrás, protegendo nossa passagem.
O primeiro disparo atingiu meu casaco.
O segundo não saiu.
Arranquei a arma da mão do homem e o derrubei contra a parede.
Débora apareceu no corredor com uma espingarda.
Me reconheceu e atirou.
A força do impacto me fez parar, mas a proteção da pele segurou o suficiente para que eu continuasse.
Ela começou a recarregar.
Cheguei antes.
Tirei a arma, derrubei-a e pressionei seu ombro contra o piso.
"A terceira tentativa foi pessoal. Melhorou a coragem."
Débora tentou me cuspir no rosto.
Não acertou.
Sua mãe puxou uma pistola perto da cozinha. Bianca afastou uma funcionária do caminho antes que o tiro atingisse o batente. Cérbero ocupou a passagem e a mulher perdeu a arma.
As funcionárias não quiseram lutar. Saíram pela porta dos fundos com o que conseguiram carregar.
Nós não as impedimos.
Uma voz chamou Bianca da sala lateral.
Renata.
Minha companheira reconheceu a amiga antes de chegar à porta. Encontrou-a grávida, presa num quarto onde havia passado os últimos dias sem assistência, usada pela família de Augusto como motivo para disputa.
Débora a tinha ferido durante uma discussão naquela manhã.
Bianca me chamou.
Eu entrei e compreendi a gravidade pelo cheiro, pela respiração e pelo movimento quase inexistente da mulher. Meu corpo resistia a coisas que o dela não podia resistir. Meus deuses ainda não eram um hospital que eu soubesse abrir.
Tentamos estancar a perda e manter sua consciência.
Renata segurou a mão da amiga e pediu que não a deixasse sozinha.
Bianca não deixou.
O medo do parto, da cidade e do filho que não veria crescer foi cedendo enquanto falavam de uma escola que já não existia para nenhuma das duas.
Quando Renata parou de responder, Bianca continuou segurando seus dedos.
Cérbero se aproximou.
Pelo vínculo, senti a passagem que sua natureza protegia. Ele cobriu a despedida com uma chama baixa, diferente da que usava em luta.
Bianca levantou o rosto para mim.
Não pediu desculpas por chorar.
Não lhe pedi que parasse.
Voltei a Débora depois que minha companheira conseguiu se levantar.
A mulher presa no corredor tentou me convencer de que Renata havia provocado tudo.
Mostrei a ordem enviada a Luana.
Mostrei as mensagens para Mauro.
Depois perguntei pelo depósito atrás do clube.
O rosto dela mudou.
"Você entrou lá?"
"Conheço até a torneira quebrada."
Débora ficou olhando para mim.
Eu lhe contei detalhes que ninguém deveria saber: a cadeira, o cadeado, a luz que permanecia acesa. Seu espanto foi a primeira coisa sincera que me ofereceu naquele dia.
"Eu nunca levei você para lá."
"Não teve tempo desta vez."
Ela começou a negociar.
Dinheiro. Armas. Rotas de saída. O nome de homens que poderiam vir atrás de mim.
Pedi os nomes.
Entregou.
Quando terminou, tentou alcançar uma lâmina escondida na bota.
Minha mão fechou sobre seu pulso.
Na outra vida, eu havia implorado por uma porta aberta. Naquela, Débora procurou alguma coisa no meu rosto que pudesse usar como chave.
Não encontrou.
A luta terminou ali.
Não precisei reconstruir meses de tormento para encerrar a pessoa que os tornara possíveis. Levei os recursos, destruí as armas que não podia transportar e apaguei o acesso que ela usava para convocar homens contra mim.
Quando saí, Bianca lavava as mãos na chuva.
Sentei ao seu lado.
"Não vou deixar Renata aqui", disse.
Cérbero tinha guardado uma caixa com seus poucos pertences. Entregou-a à minha companheira.
Ela reconheceu uma fotografia antiga entre as roupas.
Apertou a caixa contra o peito.
Naquela noite, escolhemos não voltar à minha casa daquela região. Havia outra reserva no sul. Eu a preparara justamente para que uma perda não decidisse todas as escolhas seguintes.
Antes, precisávamos de armas melhores para Bianca e de marcas semelhantes para meu dragão.
As duas coisas estavam num quartel ocupado pelo Dragão Negro.
O grupo controlava depósitos e havia aprisionado mulheres num edifício separado. Seus homens usavam tatuagens iguais. Agora transformavam aquela marca de pertencimento em vantagem contra quem não tinha força nenhuma.
Cérbero ouviu uma patrulha receber ordens para buscar mais mulheres.
Bianca fechou a caixa de Renata e ergueu os olhos.
"Vamos resolver antes de eles saírem."
Mudamos o plano.
Ela ficou junto ao barco, fingindo procurar um lugar seguro. Eu e Cérbero nos escondemos onde a patrulha precisaria passar.
Reconhecer a atriz fez os homens esquecerem de observar o resto do cenário.
Um deles prometeu comida. Outro disse que ela seria tratada muito bem pelo chefe. O terceiro tentou segurá-la pelo braço quando se afastou.
Bianca girou no movimento que treinara.
A lâmina entrou antes que ele chamasse os companheiros.
Eu saí das árvores.
Cérbero apareceu pelo lado oposto.
A patrulha não teve tempo de transformar a emboscada em batalha organizada. Os despertos tentaram sustentar dragões menores, mas o terceiro nível os atingiu antes que completassem as formas.
Recolhi quatro fragmentos luminosos.
Meu braço aqueceu.
Ainda faltava.
O líder do quartel percebeu as mortes e veio à entrada com os demais.
A primeira coisa que viu foi Bianca passando por trás de mim, com as armas retiradas de seus homens.
A segunda foi Cérbero ocupando o portão.
A terceira foi a marca do Rei Dragão respondendo no meu braço.
Ele tentou assumir a forma de uma criatura negra enorme.
Sorri antes de avançar.
"Você trouxe exatamente o que eu estava procurando."
Meu assistente tentou tomar meu lugar
O líder do Dragão Negro abriu as garras e mandou os homens me cercarem.
Não se apresentou.
Não precisava.
A tatuagem negra cobria seu peito, e o segundo nível sustentava uma transformação maior do que a dos companheiros. Ele confiava na quantidade de gente, nas armas e na distância entre o quartel e qualquer autoridade que ainda existisse.
Eu confiava no que já tinha vencido para chegar ali.
Cérbero foi pelos dois homens da esquerda.
Eu fui direto ao líder.
Ele tentou me acertar com a cauda. Saltei sobre o movimento e alcancei seu braço. A defesa de escamas resistiu ao primeiro golpe, mas não resistiu à pressão mantida no mesmo ponto.
A mão abriu.
A arma caiu.
O homem recuou para deixar os outros atacarem.
Cérbero atravessou a linha com as três cabeças e rompeu o grupo antes que completassem o cerco.
O líder tentou me usar como escudo.
Pegou apenas o casaco.
Saí do tecido, girei e o atingi onde a transformação precisava manter contato com o corpo. A marca brilhou com força, tentando recuperar a forma.
Não deixei.
Quando caiu, o dragão negro perdeu o desenho.
Os fragmentos luminosos vieram para o meu braço.
O Rei Dragão respondeu.
Toda a chuva ao redor parou por um segundo.
Bianca ergueu o rosto. Os homens que ainda seguravam armas ficaram olhando os espaços vazios entre as gotas, incapazes de entender por que a água esperava.
Então o dragão saiu.
Branco, cercado de ouro, com garras que pareciam segurar a tempestade pelo avesso.
Sua cabeça atravessou o espaço acima do quartel. As escamas refletiram uma luz que não existia no céu.
Cérbero abaixou as três cabeças.
Eu quase caí.
Uma força maior do que meu corpo tentou tomar o lugar dos meus pensamentos. Ordenei que o dragão parasse de crescer, mas a ordem veio fraca.
Bianca me alcançou antes que os joelhos tocassem o chão.
"Rafael. Olha para mim."
Segurou meu rosto.
Atrás dela, uma correnteza se erguia em forma de outra criatura, feita apenas de água. Eu podia sentir cada gota e não conseguia separar minha vontade daquele oceano de informação.
"Você está no quartel", disse. "O cachorro está aqui. Eu estou aqui. Não vai sair do corpo para me irritar depois."
A última frase me trouxe de volta o suficiente para rir.
Agarrei sua mão.
Contive a expansão, respirei com ela e obriguei o vínculo a reconhecer limites. O Rei Dragão se aproximou, observando sem disputar.
Meu primeiro pacto encontrara sua forma.
Não me tornara o décimo nível de um deus.
Ganhara uma força imensa que precisava aprender a conduzir.
Quando a pressão cedeu, Bianca estava ajoelhada ao meu lado, molhada de chuva e sem intenção de me soltar.
"Obrigado."
Ela piscou.
"Vou registrar. Nunca sei quando acontece de novo."
Cérbero encostou uma cabeça em cada um de nós e deixou a terceira vigiar o depósito.
O quartel era nosso por tempo suficiente para retirar as ameaças e abrir as portas.
Bianca entregou armas às mulheres libertadas. Organizamos mantimentos, explicamos o que conseguíamos explicar e lhes deixamos a escolha de permanecer no terreno elevado ou procurar outros grupos.
Uma representante perguntou qual seria o pagamento.
"Vocês não trabalham para mim", respondi.
Bianca olhou para a caixa de Renata guardada no barco.
Pela primeira vez naquele dia, sua expressão perdeu a dureza.
Levamos equipamento, munição e reservas. Cérbero ampliara o espaço interno com os avanços e guardou parte do material sem que precisássemos lotar o barco.
Na volta, a tempestade já não dificultava meus movimentos como antes.
A água podia me carregar.
O dragão podia abrir caminho.
E alguém tinha aproveitado nossa ausência para incendiar minha casa.
Vi o fogo antes de alcançar o condomínio.
Bianca tomou o binóculo.
"É a cobertura."
"É."
Na torre vizinha, Marcelo assistia com um rádio e um recipiente vazio de combustível.
Tinha descoberto que eu saíra.
Sabia onde estavam os equipamentos.
Só não sabia o que eu trazia de volta.
Sua serpente alada apareceu atrás do telhado e golpeou minha torre.
O edifício cedeu na região já destruída pelo fogo.
Meu quarto desapareceu.
As cortinas, o sofá, a cozinha onde Bianca começara a fazer o bolo direito, tudo caiu num ruído de concreto e água.
Ela apertou a borda do barco.
"Você tem outra casa."
Olhei para ela.
Não tentava me lembrar dos recursos. Tentava impedir que eu esquecesse a saída.
Toquei sua mão.
"E vou continuar tendo."
Deixei-a numa área protegida e entrei na água com Cérbero.
O dragão me levou até o telhado sem que eu precisasse disputar a correnteza.
Marcelo percebeu a presença e virou.
Seu sorriso perdeu um pouco da força quando me viu sair da água.
"Demorou."
"Você construiu a casa. Achei que ia cuidar melhor dela."
Ele ergueu o rádio.
"Também construí as outras. Sei onde vai se esconder."
"Então devia lembrar que troquei os códigos."
O rosto dele endureceu.
A serpente alada abriu as asas atrás de seu corpo. Tengshe. Uma marca de grande linhagem, escolhida por quem não pretendia continuar pequeno.
"Eu trabalhei para você durante anos. Quando a lua veio, percebi o que aqueles pedidos significavam. Você ia me deixar morrer."
"Você já desviava dinheiro antes da lua. Não usa o desastre para reescrever sua parte."
Ele lançou o recipiente vazio na minha direção.
A água o interceptou.
Marcelo olhou a parede líquida.
Olhou meu braço.
Pela primeira vez, entendeu que a diferença não estava apenas em termos três cabeças contra uma serpente.
Mesmo assim, avançou.
Asas escuras surgiram de uma segunda tatuagem. Seu corpo ganhou velocidade, e o primeiro golpe rompeu parte da água que eu levantara.
Ele tinha aprendido.
Eu também.
Concentrei a correnteza em vez de espalhá-la. A próxima investida encontrou uma defesa menor, mais densa. Desviei o impacto e o mandei de volta contra a laje.
Cérbero levou a serpente para o lado oposto do telhado.
Marcelo tentou alcançar meu pescoço por cima.
O dragão me ergueu antes que suas garras fechassem.
"Você sempre olha para mim de baixo", falei. "Hoje nem precisava insistir."
Ele gritou e abriu a terceira marca.
Xuanwu surgiu como uma muralha, tartaruga e serpente reunidas, esmagando parte da estrutura entre nós.
Era seu último recurso.
Eu o reconheci antes de atacar.
Não mirei onde a defesa era mais forte. Esperei o vínculo precisar reorganizar o corpo do portador e concentrei a água na junção.
A proteção se abriu.
O Rei Dragão atravessou.
Cérbero derrubou Tengshe no mesmo instante.
Marcelo caiu.
Cheguei antes que deslizasse da borda. Agarrei seu casaco e o deixei sobre a parte intacta do telhado.
Ele tentava respirar.
"Você não podia ter evoluído tão depressa."
Ajoelhei diante dele.
"Podia, porque não comecei hoje."
Mostrei a mão inteira.
"Essa já foi arrancada. Já perdi a casa, o dinheiro e a liberdade. Morri oito meses depois da primeira lua."
Seus olhos pararam.
"Você voltou."
"Voltei."
Não havia outra pessoa ouvindo. Bianca estava longe, protegida. O segredo acabaria naquela laje.
Marcelo perdeu a força de me insultar.
Olhou para a serpente destruída, a defesa rompida e a torre que derrubara para tomar meu lugar.
Eu não precisei mostrar outra tatuagem.
Tudo que preparara terminava diante da vantagem que não tinha conseguido copiar.
Morreu antes de a chuva apagar o incêndio.
Cérbero guardou a força residual de Tengshe e moldou parte da proteção de Xuanwu num revestimento para Bianca.
Quando voltei ao barco, ele apresentou o presente antes que eu falasse.
"Você está ficando muito exibido", disse.
Minha companheira abraçou uma de suas cabeças.
"Alguém precisa."
O Rei Dragão nos levou pelo céu até a casa do sul.
A cobertura estava perdida.
Os documentos, os cristais e as reservas essenciais tinham viajado dentro de Cérbero.
Abri a nova porta, acendi a luz e ouvi Bianca respirar aliviada.
Marcelo destruíra um endereço.
Não destruíra minha saída.
Os deuses não se ajoelharam
Clara apareceu no portão ao amanhecer.
Suas serpentes estavam despertas. Uma branca, outra verde, formando arcos atrás dos ombros. Havia cortes em seu rosto e uma mala pequena na mão.
Reconheci-a antes que Cérbero precisasse confirmar.
"Vi meu dragão no céu", disse.
Bianca estava junto à porta da cozinha e não parecia disposta a entregar o espaço sem conhecer a visita.
Apresentei as duas.
Clara entrou sem procurar o melhor quarto. Queria olhar minhas marcas.
Tocou os símbolos do antebraço e mostrou o papel onde os registrara.
"Descobri a ligação. A sequência chama as imagens juntas. Os elementos dão uma forma à passagem."
"Foi o que trouxe Xingtian."
Ela levantou os olhos.
"Você abriu?"
"Por um golpe. Quase não fiquei em pé depois."
Clara assentiu como quem encontrava uma confirmação desagradável.
"Seu corpo paga o espaço que não consegue oferecer. Uma imagem é um custo. Todas juntas..."
"Eu lembro do aviso."
Bianca se aproximou.
"Pode aprender sem precisar fazer?"
"Pode", respondeu Clara. "E devia."
Minha companheira olhou para mim.
"Ouviu?"
Peguei a caneca.
"As duas têm muito pouco tempo de convivência para concordar tão rápido."
Clara sorriu pela primeira vez. Bianca não tentou esconder o próprio.
A casa tinha luz, comida e pessoas capazes de discutir comigo sem colocar combustível na porta.
Eu devia ter conseguido descansar.
Mas a chuva continuava.
O Rei Dragão sentia algo acima das nuvens. Uma resistência que não pertencia à água. Cada vez que eu buscava a origem dos temporais pelo vínculo, encontrava a mesma pressão distante.
A segunda lua ainda estava semanas à frente.
Na primeira vida, eu só esperara sua chegada.
Desta vez, podia procurar o lugar de onde vinham as ordens.
Saí depois do café.
Bianca ajeitou a gola do meu casaco.
"Vai olhar. Não inventa outra guerra."
"Vou olhar."
Ela segurou minha mão por mais um segundo.
O dragão nos levou para cima, comigo e Cérbero sobre seu dorso.
A nuvem não acabava.
Atravessamos relâmpagos, camadas escuras e uma pressão que obrigou meu parceiro a reduzir o corpo. A proteção do Rei Dragão manteve ar e espaço ao nosso redor, mas meus sentidos começaram a perder alcance.
Continuamos.
Muito acima de qualquer tempestade natural, encontramos uma parede.
Eu a toquei.
Transparente, fria, flexível quando a mão descansava. Dura como nada que eu conhecesse quando tentei empurrar.
Cérbero lançou fogo.
A superfície ficou vermelha e voltou ao normal.
O dragão tentou com uma descarga que fez a nuvem inteira brilhar.
Nada.
Minha cidade, meus três refúgios e todas as rotas que eu planejara estavam debaixo da mesma prisão.
O entendimento foi simples e furioso.
Os monstros continuariam chegando. O clima continuaria mudando. Cada vitória compraria apenas o direito de entrar numa luta maior.
Alguém tinha colocado um teto sobre a Terra e transformado a sobrevivência numa disputa sem saída.
Eu não precisava conhecer seu nome para saber que ele seria meu inimigo.
Um rugido atravessou a escuridão.
O guardião apareceu com quatro braços, armas diferentes e uma presença capaz de me dobrar sobre o dorso do dragão.
Cérbero reconheceu sua natureza e me entregou a informação pelo vínculo.
Décimo nível.
Eu estava no terceiro.
A criatura me observou sem pressa.
"Retorne."
Sua voz surgiu dentro da minha cabeça.
A pressão chegou em seguida. O dragão encolheu. Cérbero baixou as três cabeças, resistindo sem conseguir avançar.
Eu segurei uma das escamas e mantive o rosto erguido.
"Foi você que fechou isso?"
O guardião apontou para baixo.
"Continue no seu lugar."
Na primeira vida, eu aceitara lugares demais.
O chão do depósito.
A rua depois de perder minha casa.
A fila em que trocava trabalho por comida insuficiente.
Desta vez, chegara até o teto.
Não desceria para fingir que não o tinha encontrado.
A criatura aproximou a arma.
Uma linha de luz ligou seu braço à barreira.
Percebi o que precisava atingir.
O muro e o guardião eram parte da mesma força.
Toquei os símbolos.
Cérbero virou para mim de repente. Sua recusa veio antes de qualquer imagem: sabia o que eu considerava fazer.
O dragão também sabia.
Eu os olhei.
Não dei uma ordem fingindo que seria fácil.
"Uma vez. Tudo que temos."
Cérbero encostou as três cabeças ao meu corpo, uma depois da outra. O dragão levantou o rosto apesar da pressão.
Meu exército tinha começado com um cachorro que queria bolo de mel.
Terminaria comigo até onde o caminho deixasse.
Abri o primeiro símbolo.
O guardião parou.
A água ao nosso redor se transformou num arco. O fogo de Cérbero atravessou a escuridão sem consumir o ar. As marcas da minha pele começaram a responder em sequência.
A fênix abriu as asas.
O dragão de gelo ergueu o corpo ao longo da coluna.
Xingtian voltou, maior do que a sombra que salvara minha cobertura.
Meu coração perdeu um compasso.
Abri os outros.
Pangu surgiu com uma presença que fez a própria barreira vibrar. Nüwa levantou as mãos diante da superfície. Os deuses que Clara reunira no espaço das minhas costas encontraram passagem através do corpo que eu começava a deixar de sentir.
O guardião recuou.
Pela primeira vez, sua voz perdeu a ordem.
"Você não pode sustentar isso."
"Não preciso sustentar para sempre."
Ele ergueu as quatro armas.
Xingtian recebeu a primeira e a partiu.
O dragão de gelo prendeu o movimento seguinte antes que chegasse ao Rei Dragão. A fênix atravessou a terceira investida, transformando a sombra da arma em luz.
Pangu atingiu a ligação entre o guardião e o muro.
Uma rachadura vermelha apareceu.
Eu senti a resposta dentro dos ossos.
A dor não me derrubou porque já não havia chão para alcançar.
O monstro tentou nos empurrar para baixo. Sua pressão esmagou parte da corrente luminosa e atingiu meu peito.
Cérbero ficou entre nós.
As três bocas lançaram fogo sobre a força que o oprimia.
Meu cachorro, limitado pelo corpo que eu oferecera durante tantas lutas, recebeu por um instante a liberdade que eu comprava com o fim desse corpo.
Avançou.
O Rei Dragão veio com ele, abrindo a tempestade pelo meio.
Nüwa tocou a rachadura.
A superfície reconheceu uma vontade mais antiga do que a prisão e começou a ceder.
O guardião tentou reparar a ligação.
Eu concentrei o que restava.
Não tinha mais mão suficiente para agarrar uma arma. Tinha a convocação aberta e meus companheiros na posição certa.
Apontei tudo para o mesmo ponto.
O golpe de Pangu chegou primeiro.
Xingtian atravessou a defesa rompida.
O fogo, o gelo e a água seguiram juntos.
O guardião perdeu uma arma, depois outra. Sua voz tentou formar uma nova ordem, mas o rugido do Rei Dragão ocupou o espaço antes dela.
A criatura que me mandara continuar no meu lugar caiu contra a própria barreira.
Não se ajoelhou.
Não teve tempo.
A luz atravessou seu corpo e rompeu a força que mantinha o mundo fechado.
O estrondo foi maior do que qualquer trovão que eu ouvira.
A parede se abriu.
As nuvens começaram a desaparecer, rasgadas pela luz do sol. A chuva perdeu a ordem que a mantinha caindo. A pressão saiu do meu peito, e, por um segundo, respirar não exigiu luta.
Vi Porto Sereno.
Não a cidade inteira de antes. Ruínas, água, telhados e gente que ainda precisava reconstruir.
Mas havia sol.
Não haveria uma segunda lua mandando novas criaturas para repetir a sentença.
A água começou a procurar seus caminhos sem uma força alimentando o desastre.
Nenhum morto voltou.
Eu também não voltaria.
Senti o custo terminar de atravessar o corpo. As imagens deixavam minha pele, retornando a uma existência que eu não podia acompanhar.
Cérbero permaneceu perto enquanto conseguiu.
Pelo vínculo, alcancei a casa do sul uma última vez.
Bianca estava no jardim com Clara. As serpentes da tatuadora perdiam o contorno. Minha companheira olhava para cima, protegendo os olhos da luz que não via havia semanas.
Levou a mão à boca.
Eu quis lembrar onde guardara o café, a cópia do caderno e a chave do segundo depósito.
Então percebi que ela já sabia.
Aprendera a casa.
Aprendera a lutar.
Não lhe deixava apenas uma despensa.
Cérbero encostou a testa na minha palma, tão suave quanto na primeira noite.
"Bom parceiro", pensei.
A resposta foi uma certeza quente, suficiente para me acompanhar até o fim.
Uma faixa dourada atravessou o céu aberto e seguiu além da Terra. Não encontrei nela outra cama, outra data ou uma terceira vida esperando.
Encontrei a distância que ninguém mais podia fechar sobre nós.
Bianca continuava junto ao portão.
Não consegui pedir que parasse de esperar.
Só consegui ver o sol tocar seu rosto antes de tudo desaparecer.
Vendi meu império para não morrer de joelhos.
Quando a última porta se abriu, o mundo inteiro saiu comigo.
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