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"O Apocalipse Despertou Minhas Tatuagens. Carrego Todos os Deuses nas Costas." Capítulo 1

正文开头

Vendi meu império antes que ele virasse cinzas

Débora jogou a chave do depósito no ralo antes de me deixar para morrer.

Eu estava no chão, com uma perna quebrada e a garganta tão seca que mal conseguia insultá-la. Do outro lado da porta, ouvi o motor do carro e sua última risada.

"Agora vê se algum dos seus milhões vem salvar você."

Quando a criatura entrou pelo telhado, meus milhões já não compravam um copo de água. A quinta lua vermelha iluminou as garras que me prenderam contra o concreto.

Minha mão parou perto de uma faca.

Não consegui alcançá-la.

A morte veio com cheiro de ferrugem e o desejo de ter feito uma única tatuagem quando ainda existia tempo.

Abri os olhos numa cama limpa.

Meu braço estava inteiro. Minha perna também. Havia uma mulher ao meu lado, gritando meu nome, e luz de manhã atravessando uma cortina que eu lembrava ter visto apodrecer sob a chuva.

Agarrei o celular.

Primeiro de agosto de 2035.

Faltava um mês.

Levantei tão depressa que Lívia se afastou, puxando o lençol.

"Você teve um pesadelo?"

Abri a janela. Porto Sereno estava viva. O mar azul. As avenidas lotadas. Um homem discutia com o porteiro porque não queria deixar a encomenda na recepção.

Senti vontade de rir até cair.

Apoiei as duas mãos no vidro e respirei. Não precisava entender quem me devolvera o tempo. Precisava usá-lo.

"Rafael?"

Virei para Lívia, a comissária que conhecera no voo da véspera.

"Você consegue sair da cidade antes de setembro?"

"Consigo. Por quê?"

"Vai para um lugar alto, com água e comida. E faz uma tatuagem. Um animal forte."

Ela me encarou.

"Você está falando sério?"

"Mais do que falei qualquer coisa ontem."

Transferi dinheiro para que resolvesse a viagem. Não tentei convencê-la com um discurso. Se a informação lhe parecesse loucura, o dinheiro pelo menos compraria uma chance.

Quando a porta fechou, liguei para Marcelo Duarte.

"Bom dia, chefe."

"Bom dia custa tempo. Pega uma caneta."

Ele obedeceu.

Mandei transformar minha cobertura e as duas casas nas colinas em refúgios independentes. Comida, água, remédios, energia, filtragem de ar, portas reforçadas. Nas casas, depósitos subterrâneos. Equipes diferentes trabalhando ao mesmo tempo.

"Preciso do orçamento."

"Vai ter hoje. Preciso do prazo."

"Vinte e cinco dias, se a gente pagar bem."

"Paga muito bem."

Pedi também uma tatuadora. A melhor que pudesse encontrar, alguém capaz de reproduzir mitologia com precisão, não um profissional escolhido porque tinha muitos seguidores.

Marcelo começou a fazer perguntas.

"Você quer saber por quê ou quer receber para resolver?"

"Resolver."

"Ótimo. Faz isso."

Às dez, entrei na sede do Grupo Vasconcelos.

Augusto Ferraz me recebeu na sala que pertencera ao meu pai. Seus colegas estavam reunidos, provavelmente esperando outra assinatura que me mantivesse rico, inútil e afastado das decisões.

Débora estava junto à janela.

Ver aquela mulher com as duas mãos limpas foi a parte mais estranha da manhã.

正文1

"Rafa", disse Augusto. "Finalmente apareceu."

Sentei sem cumprimentar a filha dele.

"Quero vender minhas ações."

Ninguém se mexeu.

Então um diretor começou a rir.

"Comprou algum iate novo?"

Deixei uma folha sobre a mesa.

Quarenta por cento do grupo. Trezentos milhões de reais. Pagamento rápido, por compradores capazes de mobilizar os recursos.

Era muito menos do que a participação valia.

Era dinheiro suficiente para que eu jamais precisasse pedir comida a Débora.

Augusto leu duas vezes.

"Você sabe o que está entregando?"

"Sei exatamente."

"Essa empresa é o legado do seu pai."

"E vocês passaram três anos tentando me tirar dela. Estou poupando trabalho."

O diretor que rira ficou sério.

Débora se aproximou.

"Você não precisa fazer isso. Meu pai só está tentando ajudar."

Olhei para ela.

"Que bom. Então ele pode ajudar assinando."

O silêncio voltou, agora menos confortável.

Augusto pediu que os outros saíssem. Débora ficou.

"Algum credor está pressionando você?", perguntou.

"Estou me desfazendo de um problema."

"O grupo?"

"A necessidade de ter essa conversa de novo."

Ele entendeu a ofensa. Também entendeu o desconto.

Naquela tarde, meu advogado revisou os documentos e os compradores transferiram a primeira parcela. A estrutura que Augusto preparara para tomar meu lugar funcionou com uma velocidade impressionante quando eu concordei em sair.

Na garagem, ouvi dois diretores comentando que eu tinha enlouquecido.

Continuei andando.

Um mês depois, eles poderiam comer as ações se achassem nutritivas.

Débora me alcançou antes do carro.

"Você nem olha mais para mim."

"Estou olhando agora."

"O que eu fiz?"

Ela ainda não fizera o que eu lembrava. Mas a mão que tentou segurar meu rosto era a mesma que um dia escolheria onde eu sentiria dor.

Afastei-a.

"Não vem atrás de mim."

Débora perdeu o sorriso.

"Você acha que vai encontrar alguém melhor?"

"Acho que vou encontrar uma saída."

Entrei no carro.

Meu telefone vibrou antes que eu chegasse em casa. Marcelo tinha encontrado Clara Lin, uma tatuadora premiada, brasileira de família chinesa, conhecida por trabalhos mitológicos.

Confirmou que ela podia vir naquela noite.

Parei num sinal e olhei minhas mãos sobre o volante.

Na outra vida, eu tinha perdido tudo devagar. Primeiro os recursos. Depois a casa. Depois a liberdade. Cada perda me ensinara alguma coisa tarde demais.

Agora as lições chegaram antes do desastre.

Usei o resto da tarde para escrever o que lembrava: datas, animais, rotas, cristais, níveis. Fiz cópias separadas. Deixei uma lista de compras que incluía coisas de que jamais precisara cuidar sozinho.

Quando Marcelo perguntou por que eu queria três estoques em vez de um enorme, respondi:

"Porque uma porta pode cair. Não quero minha vida inteira atrás dela."

Às oito, Clara entrou com uma mala de equipamento e tênis amarelos. Não elogiou o apartamento. Conferiu a luz, o espaço e a limpeza da mesa.

"Qual é o primeiro desenho?"

Mostrei a lista.

Ela passou os olhos pelos nomes. O movimento parou em Pangu. Depois em Nüwa. Em Xingtian. No Rei Dragão. Na fênix. Em Cérbero.

"Isso é uma referência ou você quer todos?"

"Todos."

Clara colocou a folha na mesa.

"Não cabem todos numa única vida."

Tirei a camiseta.

"Então ainda bem que essa é minha segunda tentativa."

Ela não riu.

Puxou uma cadeira, olhou minha pele sem marcas e falou devagar:

"Se eu fizer isso, você pode morrer tentando acordar o que vai carregar."

Lembrei da chave no ralo.

Da dor e da fome.

Dos dentes sob a lua.

"Se você não fizer, eu sei como morro. Começa pelo dragão."

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