"Meu Marido Me Enterrou Grávida: “Quando Aprender a Obedecer, Eu Te Tiro Daí.”" Capítulo 2
A casa continuou funcionando
Tentei alcançar o botão lateral. O telefone escorregou um pouco, e meu dedo passou por cima dele.
Prendi a respiração, com medo de empurrá-lo para longe.
"Agora resolveu me encarar?", Camila perguntou.
Baixei os olhos.
O aparelho estava preso entre a palma e a terra. Eu podia tocá-lo, mas não tinha espaço para fazer a sequência do pedido de socorro. Forcei o pulso. Uma dor aguda subiu até meu ombro.
Eduardo voltou com uma garrafa.
"Abre a boca."
Afastei o rosto por reflexo.
"Mariana. Não começa."
Ele despejou água depressa demais. Engasguei. Parte escorreu pelo meu pescoço, levando terra para dentro da blusa.
Camila riu.
"Nem para beber água ela facilita."
"O bebê", consegui dizer.
Eduardo tampou a garrafa.
"Você devia ter pensado nele antes de armar aquele escândalo."
"É uma menina."
Não sei por que corrigi. Talvez porque eu precisasse lembrar a ele que havia uma criança ali. Nossa filha. Uma menina para quem ele tinha escolhido um móbile de estrelas duas semanas antes.
Seu rosto não mudou.
"Então pensa na nossa filha e acaba com isso."
Tereza chamou os dois para dentro. O telefone de Camila tocava na mesa da varanda. Fiquei sozinha por alguns minutos, ouvindo-a contar a alguém que estava passando um sábado tranquilo com a família.
Tentei outra vez.
Dobrei a ponta do indicador, procurei o botão e apertei. O celular vibrou. Reconheci a vibração curta do atalho de gravação que eu havia configurado.
Eu tinha alcançado o botão errado.
Quis chorar de raiva. O gesto que funcionava tão bem sentada na cama não tinha nada a ver com aquilo. Meu dedo estava dormente. O plástico estava molhado. A mão presa não obedecia como antes.
Ouvi passos e parei.
Tereza trouxe uma fatia de pão num prato. Deixou na mesinha, longe demais.
"Você pode comer dentro de casa. É só dizer ao Eduardo que passou dos limites."
Olhei para o pão.
"Me tira daqui."
"Você ouviu o que eu disse."
"Não consigo respirar direito."
Ela soltou um suspiro impaciente.
"Consegue falar, consegue respirar."
Voltou para a varanda levando o prato.
O celular continuava gravando.
Não me trouxe alívio. Eu queria uma ligação, uma sirene, alguém abrindo o portão. Aquela gravação era apenas o que minha mão tinha conseguido fazer.
No fim da tarde, Eduardo veio verificar se eu havia mudado de ideia.
"Você não vai ganhar isso", disse.
Eu estava olhando para a janela da cozinha. Havia uma xícara minha no escorredor, com uma lasca na borda. De manhã, tinha tomado café nela enquanto pensava no que faltava comprar para a maternidade.
"Não quero ganhar. Quero sair."
"Então admite."
"Admitir o quê?"
Ele se agachou.
"Que você provocou tudo isso. Que eu tentei conversar."
Abri a boca. Pensei em dizer qualquer coisa que ele quisesse.
Mas Eduardo continuou:
"Amanhã você vai ligar para sua irmã e explicar que teve outra crise. Na minha frente."
Olhei para ele.
Não bastava pedir desculpa. Eu teria de ajudá-lo a apagar o que estava acontecendo.
"Depois a gente vê se você pode sair", acrescentou.
O sol desapareceu atrás do muro.
A casa acendeu. Ouvi talheres, água na pia, a televisão. O cheiro de alho refogado chegou até mim, e meu estômago se contraiu.
Mais tarde, Camila passou pela porta e perguntou se ele me deixaria ali a noite inteira.
"Ela sabe como resolver", respondeu Eduardo.
Comecei a mover o indicador devagar, sem parar. Pequenos movimentos para soltar a terra ao redor da mão. Minha unha quebrou. O pulso queimava. Às vezes eu precisava descansar porque a dor me fazia perder o ar.
Não sabia quanto tempo havia passado quando consegui virar o telefone o suficiente para encontrar sua lateral.
Esperei Eduardo entrar. Apertei uma vez. Parei. Ainda não.
Reposicionei a ponta do dedo e tentei a sequência que havia ensaiado meses antes.
Cinco pressões rápidas.
O aparelho vibrou de outro jeito.
Depois ouvi um som baixo de chamada, abafado pelo plástico.
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