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"Minha Filha Entrou no Escritório Proibido do Bilionário… E Mudou Nossas Vidas." Capítulo 5

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O HOMEM QUE PERDIA PARA UM CAVALO

"Este cavalo está errado."

Lili segurava a peça na altura do nariz de Henrique. Ele tinha conseguido trocar o paletó por uma camisa azul, mas conservava a expressão séria de quem ainda acreditava poder ensinar alguma coisa.

"É um cavaleiro."

"Cadê o homem?"

"É uma representação."

Minha filha olhou embaixo da peça.

"Caiu?"

Eu escondi a boca atrás da xícara. Estávamos numa mesa menor, perto da janela do escritório, porque Henrique decidira que jogar no chão acabaria com as costas dele antes de acabar com a energia de Lili.

"Marina", chamou, "você podia colaborar."

"Eu concordo com a pergunta dela."

"Ótimo. Duas contra um."

Lili colocou o cavalo sobre uma casa preta e empurrou um peão por três quadrados.

"Esse não pode fazer isso", explicou Henrique.

"Já fez."

"O fato de conseguir mover uma peça não significa que o movimento seja permitido."

Ela empurrou outro peão.

"Esse também conseguiu."

Uma mensagem iluminou o telefone dele. Henrique leu, digitou uma resposta e virou o aparelho para baixo.

Eu sabia que tinha uma reunião. O assessor ligara para a administração perguntando se ele já havia chegado.

"Não precisa ficar", falei. "Eu estava terminando uma coisa. Posso levar Lili para a copa."

"A reunião começa às seis."

"Disseram cinco."

Ele me olhou por um instante.

"Agora começa às seis."

Minha filha bateu o cavalo no tabuleiro.

"Anda, Henrique."

A naturalidade com que ela dizia o nome dele ainda me surpreendia. Eu o ouvia em ligações, noticiários e conversas baixas de funcionários. Na boca dela, parecia o nome de alguém que devia pegar um copo no armário.

Henrique examinou a posição impossível das peças.

"Não tenho certeza de quem está ganhando."

"Eu."

"Como sabe?"

"Porque você não sabe."

Ele virou o rosto para mim, derrotado, e eu ri antes de conseguir me conter.

Sua expressão mudou. Não muito. Só o bastante para que eu percebesse que estava me olhando em vez de procurar ajuda.

Baixei a xícara.

"O café está bom?", perguntou.

"Está."

Era uma pergunta comum demais para justificar o calor no meu rosto. Cruzei as pernas e me arrependi quando o olhar dele desceu por um breve segundo antes de retornar aos meus olhos.

Lili derrubou o próprio rei.

"Ele cansou."

"Compreendo perfeitamente", disse Henrique.

Lourdes apareceu com o bolo e me salvou da obrigação de responder a uma coisa que não tinha sido dita.

Havia uma tigela de banana em rodelas e um garfinho pequeno na bandeja. Lili reconheceu o desenho do cabo.

"É igual ao da minha escola."

"Dona Lourdes encontrou", disse Henrique.

Lourdes olhou para ele, depois para mim, mas não o desmentiu.

Lili tentou cortar a banana com a lateral do garfo. Henrique segurou a tigela para que não escorregasse. Ela não agradeceu imediatamente, ocupada com a tarefa; ele não pareceu precisar.

Eu comecei a guardar os biscoitos abertos na bolsa.

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"Pode deixar isso aqui", disse ele.

"Prefiro levar. Esqueço e estraga."

"Podemos separar uma prateleira."

Parei com a mão no fecho.

"Para os biscoitos?"

"Para as coisas dela."

Olhei para minha filha, que acabava de oferecer ao cavalo uma rodela de banana, apesar de todas as explicações anteriores.

"Ela só fica um pouco no fim da tarde."

"Eu sei."

Ele não insistiu. Mesmo assim, passei o restante do lanche pensando numa prateleira que ainda não existia.

Às seis, Henrique foi para a reunião, e eu levei Lili para a pequena sala ao lado da administração. Ela desenhou enquanto eu terminava o pedido mensal de material. Quando ergui os olhos, tinha feito três figuras de mãos dadas.

Reconheci a mim pelo cabelo preso e a ela pelos laços gigantes.

"Quem é esse?"

"O Henrique."

Ele era quase do tamanho da casa no desenho.

"Por que ele tem um braço tão comprido?"

"Para pegar coisa alta."

Uma explicação perfeitamente prática. Eu é que precisava parar de procurar significados nas coisas.

Às sete, chovia forte. Lourdes recomendou que esperássemos a pior parte passar e ofereceu jantar. Eu já aceitara em outras ocasiões, sentada com a equipe na cozinha, mas naquela noite ela pôs três pratos na mesa da copa menor.

Henrique entrou enquanto eu cortava o frango da minha filha.

"Ainda estão aqui."

"Estamos esperando a chuva diminuir."

"Ótimo. Estou com fome."

Ele lavou as mãos na pia e se sentou. Lili examinou as cadeiras, insatisfeita, e bateu na que ficava entre ela e Henrique.

"Mamãe, aqui."

"Eu já estou sentada."

"Mas aqui eu alcanço você."

Troquei de lugar. Henrique afastou o copo para eu apoiar o prato.

O jantar começou com Lili descrevendo um colega que comia cola. Ele ouviu com uma atenção que nenhum relatório meu jamais recebera. Perguntou se a cola era gostosa e ganhou um olhar indignado.

"Não pode comer, Henrique."

"Então retiro a pergunta."

Quando ela se distraiu contando as ervilhas, ele se voltou para mim.

"Como foi no mecânico?"

Expliquei o defeito e o orçamento. Ele perguntou se o carro tinha ficado pronto, sem oferecer comprar outro. Relaxei tanto que comecei a contar a história do antigo dono, que me garantira que o veículo nunca dera problema enquanto o filho dele empurrava o portão para eu sair.

Henrique riu.

"Você comprou mesmo assim?"

"Eu tinha o dinheiro e ele tinha um carro. Foi uma coincidência perigosa."

Lili pegou uma ervilha com os dedos.

"O nosso carro tosse."

"Agora não tosse mais", garanti.

Henrique ergueu o copo na minha direção.

"À recuperação dele."

Toquei meu copo no dele, uma bobagem pequena que me deixou estranhamente feliz.

Depois do jantar, Lili adormeceu no sofá da sala de televisão. Henrique estava mais perto. Antes que eu chegasse, ela escorregou para o lado e apoiou a cabeça na perna dele.

Ele ficou imóvel.

"Posso tirar", sussurrei.

"Por quê?"

Olhei para a mão dele, pousada no estofado para não acordá-la.

"Sua reunião. Seu trabalho."

"Terminou."

Sentei na outra ponta e esperei a chuva amansar. Havia um desenho animado passando sem som. Lili respirava de boca entreaberta. Henrique pegou a manta que eu alcançara e cobriu as pernas dela.

Quando nossas mãos se tocaram sobre o tecido, nenhum dos dois recuou imediatamente.

Foi apenas um segundo. Ainda assim, ouvi o próprio coração.

"Ela sujou sua calça", murmurei, vendo uma marca de banana.

Ele olhou para baixo.

"Já tive reuniões que causaram mais estrago."

Sorri, mas não consegui sustentar a leveza. Estava gostando demais de estar ali, e isso me assustava.

Quando a chuva diminuiu, levantei para pegar a bolsa. Henrique carregou Lili até o carro e esperou que eu ajustasse o cinto.

Na volta para o portão, agradeci pelo jantar.

"Boa noite, senhor Avelar."

Ele manteve a porta aberta por um instante.

"Henrique."

Ergui os olhos.

"Quando estivermos assim, pode me chamar de Henrique."

"Assim como?"

Ele olhou para o banco de trás, depois para mim.

"Sem ninguém precisando trabalhar."

Segurei a chave com mais força.

"Boa noite, Henrique."

O sorriso veio devagar, e eu precisei olhar para o painel antes de ligar o carro.

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