"Minha Filha Entrou no Escritório Proibido do Bilionário… E Mudou Nossas Vidas." Capítulo 2
ELE NÃO ME MANDOU EMBORA
Afastei as mãos do teclado como se a planilha estivesse quente.
"Eu encontrei uma coisa."
Henrique olhou para o monitor, depois para as anotações.
"Nesta pasta?"
"Veio junto dos comprovantes da casa. Eu não estava procurando dados da empresa."
Ele se aproximou. Eu me levantei tão depressa que a cadeira bateu no armário atrás de mim.
"Não precisa ficar em pé."
Continuei em pé.
Henrique puxou a outra cadeira, sentou e voltou os olhos para a tela. A tranquilidade dele me assustava mais do que uma bronca. Eu sabia lidar com gente irritada. Podia pedir desculpas, explicar, corrigir. Aquele silêncio não me dava onde me segurar.
"O que encontrou?"
Apontei a coluna.
"O Programa Laços não foi encerrado?"
"As novas adesões foram suspensas."
"O comunicado dizia encerrado. Eu recebi. Lourdes também."
Ele ergueu o rosto.
"Você tem esse comunicado?"
"Deve estar no meu e-mail. Mas o problema é este desconto. Se as pessoas não recebem mais o benefício, por que continuam contribuindo?"
Ele leu algumas linhas.
"Pode ser uma competência antiga."
"Também pensei nisso. A referência é deste mês. Há descontos no mês anterior e no outro."
Henrique estendeu a mão para o mouse. Parei de respirar por um instante quando o braço dele passou perto da minha cintura.
Ele abriu a segunda aba. A concentração substituiu qualquer traço de informalidade.
"Quantas pessoas?"
"Neste relatório, quatrocentas e oitenta e duas. Não sei o total."
"Você trabalha com isso?"
"Trabalhei. Folha, contas a pagar, conciliação. Antes de vir para cá."
Ele olhou para mim de novo, agora de um jeito que doeu um pouco.
Como se aquela informação não combinasse com a mulher que lhe perguntava a que horas deveria chegar o técnico do ar-condicionado.
"Por que saiu?"
"O escritório fechou. Eu estava com uma bebê pequena. Esta vaga apareceu, o salário era certo e Lourdes precisava de alguém que organizasse as contas."
Fiz uma pausa.
"Eu precisava mais do salário do que do nome do cargo."
Ele não respondeu imediatamente. Pegou o telefone, mas antes que discasse eu falei:
"Preciso que uma coisa fique clara."
Henrique esperou.
"Não entrei num sistema escondido. Não tirei documentos daqui. Vi um desconto que não fazia sentido. Só isso."
"Está com medo de perder o emprego."
"Estou com medo de não conseguir sustentar minha filha."
A frase saiu sem proteção. Eu não podia recolhê-la.
Ele pousou o telefone na mesa.
"Você não vai ser demitida por me mostrar um problema."
"O senhor ainda não sabe quem causou o problema."
"Não. E você não vai descobrir sozinha."
Por um segundo, achei que ele fosse fechar a planilha e mandar que eu esquecesse tudo. Mas Henrique me pediu o caminho do arquivo e ligou para uma pessoa de fora da empresa.
Falou pouco. Pediu uma revisão independente, preservação dos registros e discrição. Não mencionou meu nome durante a ligação.
Quando desligou, virei a tela do meu celular para ele. Tinha encontrado o comunicado.
Ele leu o texto inteiro. A mandíbula ficou tensa.
"Não foi isso que autorizei."
"Talvez tenham mudado o plano depois."
"Talvez."
Havia alguma coisa naquela palavra que me fez sentir falta do homem que perdera uma negociação para Lili.
Uma hora depois, uma mulher de cabelo curto chegou acompanhada de um assistente. Renata Bastos não parecia impressionada com a casa, com Henrique ou com o preço do vaso que quase derrubei ao levantar.
Ela me pediu que contasse tudo desde o começo.
Contei. Mostrei a pasta original, minhas poucas anotações e a mensagem de encerramento. Renata conferiu a sequência antes de permitir que alguém mudasse qualquer coisa.
"Você fez bem em parar aqui", disse. "Daqui em diante, nossa equipe examina os registros completos."
"Então eu posso voltar ao meu trabalho?"
Ela olhou para Henrique.
"Pode", ele respondeu. "Mas, se alguém perguntar sobre este arquivo, me avise."
Aquilo me trouxe um medo novo.
Ele percebeu.
"Não estou esperando que aconteça nada. Só não quero que precise explicar isso dez vezes."
Assenti. Minha garganta parecia apertada demais para palavras.
Saí para buscar água e encontrei Lourdes no corredor, com Lili pela mão. Minha vizinha tinha buscado a menina na escola e a deixado na portaria, como fazia nas tardes em que eu precisava terminar o fechamento.
"A mamãe está trabalhando muito", anunciou Lili.
"Eu sei, amor. Já vou."
Ela espiou pela porta aberta e viu Henrique.
"Você veio buscar o rei?"
Ele ergueu os olhos.
"Esse assunto ainda está em discussão."
"Ele está na mochila. Mas está dormindo."
Renata abaixou o rosto sobre um papel. Henrique olhou para a mochila roxa como se considerasse a possibilidade de exigir uma prova de vida.
"Não vou acordá-lo."
Lili se aproximou e observou a mesa coberta de documentos.
"Você está fazendo o quê?"
"Tentando encontrar um dinheiro."
"Você perdeu?"
"Mais ou menos."
"Olha no bolso."
O assistente de Renata soltou um ruído e fingiu tossir.
Henrique enfiou a mão num bolso, depois no outro. Tirou o celular, uma chave e nada mais.
"Não está aqui."
Minha filha soltou um suspiro de quem precisava resolver tudo naquela casa.
"Então pede para a mamãe. Ela acha tudo."
Senti vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.
Lili dizia aquilo porque eu encontrava a meia debaixo da cama, o coelho atrás do sofá, a tampa do copo dentro da caixa de brinquedos. Não sabia quantas vezes eu passava a noite procurando uma saída que não aparecia em lugar nenhum.
Henrique me olhou por cima da cabeça dela.
"Foi o que eu fiz."
Baixei os olhos antes que ele percebesse o efeito de uma frase tão pequena.
Saímos da mansão já perto das sete. No estacionamento, coloquei Lili na cadeirinha e precisei tentar duas vezes para ligar o carro. Quando o motor finalmente pegou, Henrique estava a alguns metros, sob a luz da entrada.
Não veio perguntar se eu precisava de um carro novo. Não fez nenhum comentário. Apenas esperou que eu desse ré e levantou a mão quando passamos.
Lili respondeu pela janela, animada.
"Ele vai ficar sozinho?", perguntou depois.
"Tem gente trabalhando na casa."
"Mas não tem ninguém no tapete."
Apertei o volante.
"Hoje ele precisa trabalhar."
Na manhã seguinte, encontrei um bilhete de Lourdes sobre minha mesa: Henrique queria conversar antes de ir para a empresa.
Ele estava na varanda, com duas xícaras de café e uma pasta fechada. Levantou quando me aproximei.
"Renata confirmou que os descontos continuam. Ainda estão levantando o valor e quantas pessoas foram afetadas."
Sentei apenas quando ele indicou a cadeira.
"E o dinheiro?"
"Pelo que encontraram até agora, permanece numa conta vinculada ao programa. Não foi distribuído."
"Então por que ninguém devolveu?"
Henrique empurrou a segunda xícara na minha direção. Não havia açúcar. Era assim que eu tomava, embora não lembrasse de ter lhe dito.
"É isso que vamos descobrir."
O vento moveu as páginas sob a mão dele. Vi um nome numa cópia antiga antes que ele fechasse a pasta.
Cecília Avelar.
"Ela criou o Laços", disse ele, seguindo meu olhar. "Minha mulher."
Eu soube, pelo jeito como segurou a xícara sem beber, que aquela conversa acabava de se tornar muito mais difícil.
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