"Minha Filha Entrou no Escritório Proibido do Bilionário… E Mudou Nossas Vidas." Capítulo 1
O REI NA MÃO DELA
"O senhor está rindo."
Foi a única coisa que consegui dizer quando encontrei minha filha sentada no tapete do escritório proibido de Henrique Avelar.
Lili segurava o rei preto do xadrez dele numa mão e uma bolinha de papel-alumínio na outra. Meu patrão estava no chão, de pernas dobradas, com o paletó aberto e uma expressão que eu nunca tinha visto em três anos de trabalho naquela casa.
Ele ria de verdade.
Não aquele sorriso educado que oferecia aos convidados antes de desaparecer. Ria a ponto de baixar a cabeça, como se também não soubesse o que fazer com o som.
Atrás de mim, uma das camareiras esbarrou na outra. Dona Lourdes apertou meu cotovelo.
"Respira, Marina."
Eu não podia respirar. Minha filha tinha invadido o único cômodo da mansão onde ninguém entrava sem ser chamado, pegado uma peça que provavelmente custava mais do que meu carro e, pelo visto, tomado meu empregador como refém.
O aluguel venceria na sexta-feira. A mensalidade da escolinha tinha aumentado. No porta-luvas do meu carro, um orçamento de dentista esperava por uma coragem financeira que eu ainda não possuía.
"Lívia. Venha aqui. Agora."
Ela virou o rosto, os laços amarelos tortos nas duas marias-chiquinhas.
"Mamãe! Ele não sabia brincar. Eu ensinei."
Henrique passou a mão pela boca. Ainda havia riso nos olhos dele.
"Estou aprendendo. Aparentemente, as regras mudam durante a partida."
"Só quando você erra", explicou minha filha.
Ele olhou para mim.
Eu quis desaparecer entre os livros de capa de couro.
"Peço desculpas, senhor. A escola avisou hoje cedo que houve um vazamento e não receberia as crianças. Dona Lourdes permitiu que ela ficasse na copa. Eu estava conferindo uma entrega e achei que..."
Parei antes de dizer que achara que três minutos seriam suficientes.
Três minutos eram tempo bastante para uma criança de três anos encontrar problemas que um adulto levaria meses procurando.
"Ela estava comigo", disse Lourdes. "Fui buscar o lanche. Quando voltei, segui a risada."
Henrique ergueu a bolinha amassada que Lili lhe entregou.
"Isto caiu no corredor. Ela veio atrás."
"Eu bati assim."
Lili levantou o braço para demonstrar.
"Não precisa repetir", pedi depressa.
No movimento, ela quase acertou o rei no próprio joelho. Ajoelhei ao lado dela e estendi a mão.
"Devolve a peça. Com cuidado."
Minha filha apertou os dedos.
"Mas ele está preso."
"Quem?"
"O rei. Ficava ali parado. Eu tirei."
Olhei para o tabuleiro sobre a mesa baixa. Havia uma casa vazia entre as peças pretas.
"É um jogo, meu amor. Ele fica ali até a pessoa jogar."
"Ninguém estava jogando."
Henrique deixou de sorrir por um instante.
Eu conhecia aquele tabuleiro. Tirava o pó da mesa quando ele viajava, sempre com Lourdes ao lado. Nunca tínhamos permissão para mudar nada de lugar. Nem o marcador no livro. Nem o porta-retratos virado na direção da poltrona. Nem as peças.
Desde a morte de Cecília, dois anos antes, o escritório parecia uma sala à espera de alguém que não voltaria.
"Ela não entende o valor", falei baixo. "Se tiver riscado, eu posso..."
Não terminei. Podia o quê? Pagar em quarenta parcelas? Vender o carro que precisava para trabalhar?
Henrique estendeu a mão, mas não para mim.
"Posso examinar o prisioneiro?"
Lili entregou o rei depois de alguma consideração.
Ele girou a peça entre os dedos. As mãos eram grandes, cuidadosas. Eu as conhecia segurando telefone, pasta, xícara. Não me lembrava de tê-las visto na altura dos joelhos de uma criança.
"Nenhum ferimento", anunciou.
"Eu cuido."
"Percebi. Entretanto, seria bom negociar antes do próximo sequestro."
"Posso pegar a rainha amanhã?"
Dona Lourdes virou o rosto. Os ombros dela se mexeram.
"Não haverá amanhã", garanti. "Ela volta para a escola. Isso não vai se repetir."
Lili me examinou e, pela primeira vez, percebeu alguma coisa errada.
"Mamãe, você está brava?"
Eu alisei a barra da blusa amarela dela.
"Você precisa pedir antes de entrar nos lugares."
Ela olhou para Henrique.
"Desculpa."
"Aceito."
"Você estava triste?"
O corredor ficou quieto.
"Lili."
"Porque a sua risada parece quebrada."
Senti o calor subir pelo meu pescoço. Estendi o braço para puxá-la, mas Henrique soltou um som inesperado e cobriu os olhos.
Estava rindo outra vez.
Minha filha esperou, muito séria, até ele conseguir responder.
"Fazia tempo que eu não usava."
"Tem que usar todo dia. Senão estraga."
Ele baixou a mão. O olhar passou por ela e veio até mim.
Eu tinha trinta anos e uma experiência considerável em evitar olhar homens que poderiam complicar minha vida. Mesmo assim, demorei a desviar.
De perto, sem a mesa entre nós, ele parecia menos distante. Aos trinta e quatro, carregava cansaço demais na testa. Mas o sorriso mudava o rosto inteiro, deixava aparecer uma pequena marca perto da boca e fazia alguma coisa muito inconveniente no meu estômago.
"Vou levar você para lanchar", falei à minha filha.
Henrique devolveu o rei à mão dela.
"Até a hora de ir embora. Depois conversamos sobre a devolução."
"Obrigada."
"De nada."
Levantei depressa. Meu joelho tinha prendido a saia do uniforme, e perdi o equilíbrio por um segundo. Henrique se ergueu antes de mim e segurou meu antebraço.
"Devagar."
"Estou bem."
Ele soltou quando me firmei. A manga curta pareceu insuficiente para esconder o calor que ficou na minha pele.
No corredor, Lourdes me entregou a bolsa da escola.
"Não diga nada", pedi.
"Eu ia dizer para dar água à menina."
Ela esperou um segundo.
"E tomar um pouco também. Você está vermelha."
Passei o restante do dia esperando ser chamada para uma conversa sobre limites profissionais. Organizei as notas das compras, conferi a entrega de flores e respondi ao fornecedor da lavanderia. Toda vez que meu celular vibrava, meu coração batia mais forte.
Às cinco, Henrique apareceu na copa.
Lili estava sentada diante de um prato de banana, com o rei ao lado do copo.
"Viemos negociar", disse ele.
Minha filha cobriu a peça com a mão.
"Ele vai dormir lá em casa."
"Não vai", respondi.
"Por uma noite", propôs Henrique.
Olhei para ele, espantada.
"Senhor, não precisa. Ela tem brinquedos."
"Eu sei. Estou tentando recuperar minha reputação como negociador."
"Você perdeu", disse Lili.
Ele inclinou a cabeça.
"Estou começando a perceber."
Naquela noite, minha filha dormiu abraçada à mochila que guardava o rei. Eu fiquei acordada, encarando a tela do celular. A escola tinha confirmado a reabertura. O aluguel continuava esperando. Minha vida era a mesma.
Mas, quando fechei os olhos, vi meu patrão sentado no tapete.
Três dias depois, estava ajudando Lourdes a fechar os reembolsos da casa quando encontrei uma planilha anexada à pasta errada. O documento tinha o cabeçalho da Avelar Tecnologia e uma coluna que eu reconheci dos meus quatro anos trabalhando com folha de pagamento.
Contribuição Programa Laços.
Franzi a testa. O programa de auxílio à educação infantil tinha sido encerrado havia oito meses. Eu me lembrava do aviso. Tinha lido duas vezes, na esperança inútil de haver entendido errado.
Conferi a data do relatório. Era da semana anterior.
Desci a página. Havia centenas de registros, pequenas deduções ainda ativas. Uma só quase passaria despercebida. Centenas, repetidas durante meses, eram outra coisa.
Puxei uma folha de papel e anotei os códigos, sem copiar nomes. Precisava entender se estava olhando para um relatório antigo reemitido ou para dinheiro realmente descontado.
Ouvi passos no corredor.
Minha mão parou sobre o teclado.
O reflexo na tela escura mostrou primeiro uma camisa branca, depois o rosto do homem atrás de mim.
"Marina. O que você está fazendo?"
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