"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" EXTRA 2 — O diploma e o homem
EXTRA 2 — O diploma e o homem
Durante o terceiro ano da faculdade, Helena encontrou uma fotografia de Augusto que não reconheceu de imediato.
Estava procurando um livro na estante do escritório em São Paulo. Atrás de uma moldura maior, havia outra menor, com um grupo de rapazes e moças de beca.
O Augusto da imagem era jovem, tinha o cabelo um pouco mais comprido e sorria como se alguém tivesse contado uma piada no instante errado.
Helena aproximou a moldura do rosto.
Conhecia o nome da instituição no fundo. A Universidade de São Paulo ocupava, desde seus anos de escola, o lugar das coisas que ela respeitava antes mesmo de compreender direito.
Seu pai falava de estudo como uma maneira de aprender a perguntar melhor. Helena, quando pequena, traduzira aquilo de forma menos sofisticada: alguém que estudasse numa universidade importante devia saber muito mais sobre quase tudo.
Olhou a fotografia novamente.
Aquele homem, infelizmente, era Augusto.
Naquela tarde, quando ele voltou, encontrou uma xícara oferecida pessoalmente e perguntas que raramente apareciam em sequência.
"Seu dia foi bom?"
"Foi."
"Está cansado?"
"Um pouco."
"Quer comer alguma coisa?"
Augusto recebeu a xícara com cuidado.
"Aconteceu alguma coisa?"
Helena olhou para a cozinha.
"Não pode ser só educação?"
"Pode. Estou apenas tentando entender por que ganhou essa urgência toda."
Ela se afastou antes de responder.
Mais tarde, bateu à porta do escritório. Augusto levantou os olhos do computador e encontrou Helena apontando a fotografia que agora estava à frente das outras.
"Você estudou na USP?"
"Estudei."
Ela ficou tão quieta que ele acrescentou:
"Administração. É isso que queria perguntar?"
"É."
"Por quê?"
Helena apertou os lábios.
"Nada. Só estava olhando."
Ele acompanhou sua saída com uma expressão que começou curiosa e terminou divertida.
Na sala, Helena abriu o livro e leu a mesma linha três vezes. Não estava surpresa por descobrir que ele estudara. Já conhecia sua competência, as línguas que falava, a rapidez com que entendia números e pessoas.
O problema era a fotografia reunir duas imagens que ela preferia manter separadas: uma instituição que lhe parecia quase sagrada e o homem que não ouvira suas recusas quando isso contrariava sua vontade.
Augusto apareceu à porta.
"O livro ficou ruim de repente?"
Ela marcou a página com um dedo.
"Não."
"Então sou eu."
"Um pouco."
Ele se sentou na poltrona oposta.
"Essa parte eu já sabia. O que mudou?"
Helena hesitou, mas a perplexidade venceu o hábito de guardar tudo.
"Quando era mais nova, eu imaginava que pessoas que estudavam em lugares assim fossem..."
"Melhores?"
Ela olhou para ele.
"Eu ia dizer diferentes. Mas você entendeu."
Augusto levou a mão à boca, contendo um sorriso.
"Você está decepcionada com a universidade por minha causa?"
"Não ri."
"Estou tentando."
Helena fechou o livro.
"Meu pai era professor. Eu cresci respeitando quem ensinava. Você pega uma coisa dessas e mistura com todo o resto. Fica esquisito."
Ele deixou de sorrir.
"Seu pai estava certo em respeitar o estudo. O resto é responsabilidade das pessoas."
"Muito conveniente você conseguir separar tão bem."
Augusto aceitou a observação sem responder de imediato.
"Quer conhecer o campus?"
Helena levantou a cabeça.
"Agora?"
"Amanhã. Tenho uma manhã livre."
Ela olhou para a fotografia no escritório, visível pela porta entreaberta.
"Dá para entrar?"
"Podemos passear nas áreas abertas. E posso perguntar ao Gilberto se ele vai estar por lá."
O nome conhecido tirou a proposta do lugar de uma tentativa genérica de agradá-la. Helena pensou por alguns segundos e assentiu.
"Quero. Mas você não vai transformar isso numa visita de trabalho."
"Vou tentar me comportar como visitante."
"Sem telefonema andando na minha frente."
Ele levantou as duas mãos, como quem aceitava condições razoáveis demais para discutir.
Na manhã seguinte, Helena escolheu sapatos confortáveis e levou uma bolsa pequena. Augusto comentou que parecera se preparar menos para viagens internacionais.
"Porque nessas viagens você faz tudo antes de eu descobrir o destino", ela respondeu.
Ele não discutiu.
Caminharam devagar, observando os prédios, estudantes sentados em grupos e gente apressada com mochilas que pareciam pesadas demais para o corpo.
Não havia nada de solene nos rapazes discutindo um trabalho junto a uma entrada. Uma menina comia distraída, olhando o telefone; alguém procurava uma sala e perguntava a direção a uma pessoa tão perdida quanto ela.
Helena se pegou sorrindo.
"O que foi?", Augusto perguntou.
"Nada. Só parece uma universidade."
"Uma descoberta importante."
Ela bateu levemente no braço dele.
Gilberto os recebeu por um tempo curto, entre compromissos. Cumprimentou Helena com atenção e perguntou pelo curso de Letras.
Ela explicou o trabalho que preparava sobre narradores pouco confiáveis. Falou mais do que costumava falar diante de pessoas que considerava importantes, porque ele ouvia sem tentar terminar suas frases.
Augusto permaneceu ao lado, estranhamente paciente.
Na despedida, Gilberto olhou para ele.
"Você também entregava trabalhos no último minuto. Não faça cara de quem nasceu organizado."
Helena virou imediatamente o rosto.
"É verdade?"
"Há exageros na memória", Augusto respondeu.
Gilberto riu e lhes desejou um bom passeio.
Do lado de fora, ela pediu detalhes. Augusto contou sobre uma apresentação que fizera com um material tão ruim que precisara passar metade do tempo defendendo a ideia sem olhar para a tela.
"O professor percebeu?"
"Percebeu. Disse que eu sabia falar melhor do que sabia preparar."
Helena riu alto.
Ele contou também sobre colegas que discutiam até tarde, convencidos de que resolveriam o mundo antes da prova de segunda-feira. Um deles certa vez esquecera a carteira e tentara pagar uma refeição oferecendo ajuda com um trabalho que ninguém precisava fazer.
"Você também era chato?", ela perguntou.
"Depende de quem responder."
"Vou procurar alguém que não trabalhe para você."
Augusto sorriu.
Almoçaram sem pressa. Helena reparou que não tinha olhado a fotografia mental do diploma durante vários minutos. Estava interessada no rapaz que esquecera uma entrega, no amigo que discutira uma nota, na pessoa comum que havia existido antes de se tornar um homem acostumado a ter razão.
Isso não tornava suas decisões posteriores melhores. Apenas retirava da universidade uma responsabilidade que nunca pertencera a ela.
Dias depois, em Curitiba, Helena levou um trabalho até a mesa onde Augusto lia documentos durante uma visita.
"Posso perguntar uma coisa?"
Ele fechou a pasta imediatamente.
"Pode."
Ela explicou uma dúvida sobre a forma como seu texto estava organizado. Augusto leu o primeiro parágrafo e perguntou o que ela queria que o leitor soubesse naquele ponto.
Helena respondeu, ouviu a observação e riscou uma frase.
"Não reescreve tudo", avisou. "Quero sua opinião, não uma aquisição do trabalho."
Ele entregou a folha de volta.
"Então minha opinião é que a segunda frase explica melhor o que você quer."
Ela releu, concordou e voltou à mesa com uma pequena surpresa: pedir uma opinião não tinha, daquela vez, lhe custado o direito de fazer diferente.
Augusto ficou olhando a porta depois que ela saiu.
Mais tarde, durante uma conversa de trabalho com Bianca, perguntou sobre programas e aplicativos que as pessoas da idade de Helena gostavam de acompanhar.
A pergunta veio depois de contratos, datas e uma revisão de orçamento, tão deslocada que Bianca precisou confirmar se tinha entendido.
"O senhor quer uma indicação para ela?"
"Quero entender por que ela acha graça em certas coisas."
Bianca manteve a expressão profissional.
"Talvez perguntar a ela seja mais eficiente."
Augusto fez uma pausa.
"Já perguntei. Ela disse que eu precisava assistir antes de avaliar."
"Parece um bom conselho."
Ele assentiu, sério, e encerrou a reunião.
Bianca só começou a rir quando fechou a porta da própria sala.
Naquela noite, Helena encontrou Augusto diante da televisão, tentando acompanhar uma comédia que ela havia indicado. Sentou perto e perguntou se ele entendia a história.
"Acho que sim."
"Então por que essa cara?"
"Ainda estou decidindo se gosto."
Helena lhe entregou metade da almofada e não exigiu entusiasmo.
Pela primeira vez em muito tempo, ficaram juntos diante de algo que nenhum dos dois precisava dominar.
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