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"Naquela Noite, o Bilionário Me Escolheu" Parte 1 — “Tragam Ela Até Mim”

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Parte 1 — “Tragam Ela Até Mim”

Henrique Valença se levantou no camarote, apontou para mim e disse:

“Tragam ela até mim.”

O homem da mesa mais próxima parou com o copo na boca. Uma mulher virou o rosto. Até o segurança ao lado do palco pareceu esperar para ter certeza de que tinha ouvido direito.

Eu tinha ouvido.

E, vinte minutos antes, aquele mesmo homem havia olhado para o meu tênis gasto e mandado me tirar da entrada.

Agora queria que eu fosse até ele.

Apertei os seiscentos reais escondidos sob a faixa do figurino e recuei para trás da cortina.

Não tinha dinheiro suficiente para passar o mês.

Mas ainda podia escolher quem me dava ordens.

Márcia, a gerente, me encontrou tentando soltar a máscara de renda.

“Você está bem?”

“O seu patrão acabou de me apontar como se estivesse escolhendo uma garrafa no bar.”

Ela olhou para o salão.

“Eu vi.”

“Então avisa que acabou o expediente.”

O nó estava preso no meu cabelo. Quanto mais eu puxava, pior ficava.

Márcia afastou minhas mãos.

“Deixa comigo. E respira.”

Eu precisava daqueles seiscentos reais. Precisava tanto que, quando ela havia oferecido o pagamento por uma apresentação curta, eu fiz as contas antes de sentir vergonha.

Três meses de aluguel atrasado.

Duas colegas de apartamento que tinham ido embora levando até o botijão de gás.

Cento e dezessete reais na conta.

E uma mensagem do meu padrasto dizendo que o quarto antigo continuava me esperando.

Eu preferia dormir numa rodoviária.

Tinha chegado à Vértice procurando uma vaga de garçonete. Na calçada, sob a placa iluminada, reconheci Henrique Valença pelas fotografias que apareciam nas notícias de negócios.

Ao vivo, ele era pior.

Mais alto. Mais bonito. Mais consciente de que as pessoas abriam caminho antes de ele precisar pedir.

A camisa branca tinha dois botões abertos sob o paletó escuro. O relógio no pulso provavelmente custava mais do que eu ganharia em anos.

Ele olhou para mim, depois para o segurança.

“Caio, mantenha esse tipo de gente longe da entrada.”

Eu estava com o currículo na mão.

Ele não olhou.

Entrei pela porta de serviço porque precisava de trabalho, não da aprovação dele.

Márcia explicou que a vaga de atendimento só seria preenchida na semana seguinte. Naquela noite, faltava uma das artistas da apresentação.

“Não precisa tirar roupa. Tem um figurino fechado, máscara e uma sequência simples. Eu mostro antes. Se não quiser, tudo bem.”

Pedi para ver.

Experimentei os sapatos.

Negociei o pagamento antecipado.

E subi naquele palco repetindo que dez minutos não decidiam o resto da minha vida.

Agora, com a música encerrada, um homem de ombros largos surgiu no corredor.

“Lívia?”

“Depende de quem quer saber.”

“Caio Nunes. O senhor Valença gostaria de conversar.”

Márcia terminou de afrouxar a fita, mas eu mantive a máscara no rosto.

“Diga que esse tipo de gente já está indo embora.”

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Caio apertou os lábios.

Não consegui decidir se segurava uma risada.

“Posso transmitir.”

“Ótimo.”

Ele virou, mas não chegou à porta.

Henrique apareceu atrás dele.

O corredor ficou pequeno.

De perto, vi a sombra da barba, uma linha discreta entre as sobrancelhas e olhos castanhos tão escuros que pareciam pretos.

Ele olhou para Caio.

“Pode nos deixar.”

“Não”, eu disse.

Henrique voltou o rosto para mim.

“Como?”

“Márcia fica.”

A gerente cruzou os braços e permaneceu ao meu lado.

Um silêncio curto.

Então ele assentiu.

“Márcia fica.”

Guardei o dinheiro na bolsa e puxei a ponta do robe sobre o figurino.

“O que você quer?”

“Conversar em um lugar menos movimentado.”

“Aqui está ótimo.”

“Há funcionários passando.”

“Você não se preocupou com plateia quando me humilhou lá fora.”

Ele ficou imóvel.

Caio baixou os olhos.

Eu esperava uma ameaça. Um comentário sobre quem pagava as contas daquele lugar. Talvez outra ordem.

Henrique olhou para o currículo amassado que saía da minha bolsa.

“Você veio procurar emprego.”

“Você teria descoberto se tivesse perguntado.”

“Eu deveria ter perguntado.”

A resposta me pegou desprevenida.

Ele continuou:

“O que eu disse foi grosseiro. Não tenho justificativa.”

Márcia me lançou um olhar discreto.

Eu não facilitei.

“Está pedindo desculpa ou descrevendo o ocorrido?”

A mandíbula dele endureceu.

Depois relaxou.

“Estou pedindo desculpa.”

“Então peça.”

Henrique sustentou meu olhar.

“Me desculpe.”

Foi tão direto que perdi a frase seguinte.

Recuperei rápido.

“Vou pensar.”

Algo mudou no canto da boca dele.

“Justo.”

Aquilo me irritou. Eu estava preparada para um homem insuportável, não para um homem insuportável que sabia reconhecer quando perdia.

“Agora pode explicar por que interrompeu a noite inteira?”

Ele olhou para a máscara.

“Posso ver seu rosto?”

“Não vai descobrir que eu era rica o tempo todo.”

“Não estou esperando isso.”

“Nem que sou filha de alguém importante.”

“Lívia.”

Meu nome na voz dele saiu baixo, sem impaciência.

“Por favor.”

Márcia tocou meu cotovelo.

“Você decide.”

Tirei a máscara.

Henrique perdeu a cor.

Foi rápido, mas eu vi.

A mão dele, que estava solta ao lado do corpo, se fechou.

“Qual é o seu sobrenome?”

“Duarte.”

Ele repetiu, quase para si:

“Duarte.”

“Está na minha identidade. E no currículo que você ignorou.”

“Quantos anos você tem?”

“Vinte e cinco. E, se isso virar entrevista, eu gostaria de trocar de roupa.”

“Claro.”

Ele se afastou da porta.

Nem tentou me acompanhar.

No vestiário, tirei os saltos, lavei o rosto e vesti minha calça jeans. Márcia me emprestou uma sacola para guardar os sapatos que eu havia trazido.

“Ele costuma pedir desculpa assim?”, perguntei.

“Assim como?”

“Parecendo que arrancaram um dente.”

Ela riu.

“Não costuma precisar ouvir uma resposta dessas.”

“Talvez esteja na hora.”

Quando saí, Henrique estava esperando a vários passos da porta.

Caio permanecia perto.

“Tenho uma proposta de trabalho”, Henrique disse.

Olhei para Márcia.

Ela não pareceu preocupada, apenas curiosa.

“Que trabalho?”

“Organização de documentos. Um acervo antigo foi recuperado durante a reforma de um imóvel. Fotografias, correspondência, registros administrativos.”

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“Você tem dinheiro para contratar alguém especializado.”

“Também tenho.”

“Então por que eu?”

Ele olhou para o meu rosto de novo.

Dessa vez, pareceu conter uma pergunta.

“Pode haver materiais que você reconheça.”

“Que materiais?”

“Preciso confirmar algumas coisas antes de explicar.”

Dei um passo para trás.

“Essa frase não ajuda.”

“Eu sei.”

“Você sabe bastante coisa depois que alguém aponta.”

Márcia tossiu.

Caio olhou para o teto.

Henrique ignorou os dois.

“Trinta dias. Seis mil reais. Hospedagem opcional, em quarto separado. Horários definidos. Tudo por escrito.”

Seis mil.

Fiquei tão quieta que ele acrescentou:

“Você poderá analisar o contrato antes de aceitar.”

“E a hospedagem?”

“Minha casa tem espaço e fica perto de onde o material está sendo organizado.”

“Você oferece quarto para toda mulher que entrevista?”

“Não.”

“Percebe como continua sem ajudar?”

Dessa vez, ele sorriu.

Pouco.

O suficiente para eu desejar que não tivesse feito aquilo.

“Percebo.”

Eu ajustei a bolsa no ombro.

“Não vou sair daqui com você esta noite.”

“Não pedi isso.”

“Pediu para me levarem. Achei melhor esclarecer.”

Ele tirou um cartão do bolso e entregou a Márcia.

“Meu contato. Ela pode encaminhar a proposta.”

Gostei de ele não insistir em pegar meu número.

Não gostei de perceber que gostei.

“Vou ler”, falei. “Sem promessa.”

“Sem promessa.”

Ao pegar o cartão das mãos de Márcia, o robe escorregou do meu braço. Henrique baixou os olhos para a cicatriz fina no dorso da minha mão esquerda.

O sorriso desapareceu.

“Como você fez isso?”

Escondi a mão.

“Um acidente.”

Ele deu um passo, depois parou.

“Você tinha dez anos?”

Meu estômago se contraiu.

Márcia olhou de mim para ele.

Eu conhecia aquela cicatriz melhor do que qualquer parte do meu corpo. Lembrava da madeira quebrada, do sangue e da minha mãe segurando um pano contra a minha pele.

Não havia contado nada disso.

“Quem falou com você sobre mim?”

Henrique não respondeu.

“Eu perguntei quem falou.”

Ele fitou minha mão escondida contra a bolsa.

Quando voltou a olhar para mim, já não parecia o homem que mandava naquela boate.

Parecia alguém tentando reconhecer uma pessoa que nunca esperava encontrar.

“Você se lembra do que estava tentando salvar?”

O ar faltou.

Porque não tinha sido um acidente qualquer.

Tinha sido um gatinho preso embaixo da varanda.

E minha mãe havia me chamado de corajosa enquanto fazia o curativo.

“Como você sabe disso?”

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