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"A Preferida do Bruto da Serra" Parte 11 — Há Lugar Para Nós Dois

正文开头

Parte 11 — Há Lugar Para Nós Dois

Davi chegou às oito e encontrou três folhas sobre a mesa.

Uma tinha as despesas da pensão. Outra, o funcionamento da cozinha do sítio. Na terceira, eu havia desenhado uma planta muito torta.

Ele puxou a cadeira.

“Você falou sério.”

“Você também falou.”

Davi olhou o desenho.

“Isso é uma janela?”

“É uma pia.”

“Entendi.”

Sentei diante dele.

Minha coragem da noite anterior estava intacta. O problema era que agora eu precisava usá-la sem uma plateia, olhando para o homem com quem queria dividir a vida.

“Quero continuar com a pensão”, comecei.

“Eu sei.”

“Quero manter a cozinha do sítio como meu trabalho. Não quero que vire uma obrigação doméstica porque vamos estar juntos.”

Davi assentiu.

“Então continua com contrato.”

“E contas separadas para os negócios.”

“Sim.”

Apontei para a segunda folha.

“Luciana pode assumir mais dias aqui. Preciso contratar ajuda para a limpeza, sem jogar tudo nas costas dela. Meu pai vai ter acompanhamento organizado, e dona Nair não vai ficar disponível toda vez que eu resolver sair.”

Ele examinou os horários.

“Você pensou em tudo.”

“Pensei no que conheço. O resto precisamos descobrir.”

Davi pegou a terceira folha.

“E a pia?”

Sorri.

“A casa do sítio precisa de uma cozinha melhor. A do trabalho continua separada. Esta seria nossa.”

Nossa.

A palavra me fez parar.

Davi percebeu.

Pousou o desenho.

“Você quer morar lá?”

“Quero experimentar. Não amanhã com duas malas e uma promessa de que tudo vai dar certo. Quero preparar as coisas.”

“Podemos fazer isso.”

“E você vai precisar participar da casa.”

Ele me olhou.

“Eu moro sozinho, Cecília.”

“Eu sei. Vi a gaveta dos talheres.”

Davi soltou uma risada.

“Estavam limpos.”

“Dentro da gaveta havia uma chave de fenda.”

“Também estava limpa.”

Ri, e a conversa deixou de parecer uma negociação em que qualquer erro poderia nos separar.

Falamos de compras, lavanderia, horários e do espaço que eu precisava para trabalhar sem alguém entrar pedindo uma refeição fora do combinado.

Davi disse que gostava de ficar sozinho depois de certos dias difíceis.

Eu disse que silêncio demais podia me fazer imaginar coisas.

Combinamos que ele diria quando precisava de tempo, e eu perguntaria antes de tomar aquilo como rejeição.

Não era romântico como uma declaração na chuva.

Ainda assim, quando ele puxou minha cadeira para perto e me beijou, eu senti que havíamos dado um passo maior do que qualquer um dos anteriores.

“Tem uma coisa que não entrou no plano”, disse.

“Qual?”

“Eu amo você.”

Olhei para ele, sem respirar.

Davi sustentou meu rosto entre as mãos.

“Não estou dizendo para acelerar nada. Só não queria continuar deixando você adivinhar.”

Minha boca tremeu antes de conseguir sorrir.

“Eu também amo você.”

Ele fechou os olhos por um instante.

Depois me abraçou tão perto que precisei levantar da cadeira.

Eu ri contra seu pescoço.

Davi me segurou pela cintura.

正文1

“Agora posso mostrar onde aquela pia cabe?”

“Pode. Mas vai ter que aceitar críticas ao desenho.”

“Já aceitei você dizendo que minha gaveta é um perigo.”

“Porque é.”

Ele me beijou outra vez.

Dessa vez, eu não tinha nenhuma pergunta guardada atrás dos dentes.

Preparar nossa vida levou meses.

Nesse tempo, a cozinha continuou funcionando, meu pai teve dias bons e ruins, e a terra não se resolveu apenas porque eu havia falado no salão.

Mariana conferiu os registros, reuniu os pagamentos e acompanhou as providências necessárias.

A área deixada por minha mãe foi regularizada no inventário. Os documentos de Otávio não sustentaram a tentativa de tratá-la como parte já disponível para o empreendimento.

As contas do meu pai foram separadas da proposta de compra. O que havia sido pago foi reconhecido. O saldo que realmente restava entrou num acordo que podíamos cumprir.

Eu contribuía com uma parcela definida. Meu pai contribuía com a renda que recebia. Ninguém precisava fingir que o passado havia desaparecido.

Também terminei de pagar Davi pelo valor adiantado ao fornecedor.

No dia da última transferência, entreguei-lhe o comprovante.

Ele leu e colocou ao lado do contrato de refeições.

“Tudo certo.”

“Tudo certo.”

Então me puxou para perto.

“Posso comemorar sem parecer que estou cobrando juros?”

“Depende da comemoração.”

Ele olhou para minha boca.

Aproximamo-nos rindo.

Otávio não desapareceu da cidade.

Continuou tendo parentes, contatos e planos. Mas o empreendimento, da forma como havia sido apresentado, não pôde prosseguir. Os envolvidos teriam de rever a área e os acessos, sem contar com minha assinatura.

Ele enviou uma última proposta, menor e mais cuidadosa.

Mariana me perguntou se queria avaliar.

Eu avaliei.

Depois recusei.

Não porque vender fosse sempre errado. Porque, naquele momento, eu sabia o que queria fazer com a terra e podia decidir sem o medo das contas sobre minha cabeça.

A passagem permaneceu aberta, com as responsabilidades de manutenção organizadas entre os usuários. A área próxima à nascente recebeu cuidados definidos, sem promessa de que um único proprietário resolveria todos os problemas.

Davi não precisou construir o acesso mais difícil. Ainda assim, guardou os estudos.

“É bom ter opção”, disse quando perguntei.

Concordei.

Eu também estava aprendendo a gostar delas.

Meu pai demorou a aceitar a casa mais vazia.

Na primeira semana em que passei quatro noites no sítio, ligou três vezes numa tarde para perguntar sobre coisas que sabia resolver.

Na quarta ligação, percebeu antes de mim.

“Eu só queria falar com você”, confessou.

Sentei na varanda.

“Então pergunte como foi meu dia.”

Ele ficou quieto.

Depois perguntou.

Contei que uma fornada tinha crescido demais, que Ícaro havia derrubado uma bandeja e que Davi tentara convencer todo mundo de que aquilo não era culpa de ninguém enquanto segurava uma vassoura.

Meu pai riu.

Falamos por vinte minutos.

Quando desliguei, não senti que tivesse deixado alguma obrigação incompleta.

Na semana seguinte, ele começou a almoçar com outros dois moradores da rua. Voltou a consertar pequenos objetos na bancada do depósito e assumiu parte das reservas da pensão, nos horários em que se sentia bem.

正文2

Um dia, ao conferir uma lista comigo, tirou os óculos.

“Eu devia ter confiado mais em você.”

Olhei para ele.

“Devia.”

Antônio assentiu.

“Não vou pedir que diga que passou.”

“Não passou tudo. Mas estamos fazendo diferente.”

Ele voltou a colocar os óculos.

“Então me mostre como funciona essa planilha.”

Sentei ao seu lado.

Patrícia continuou fornecendo doces para eventos.

Alguns clientes voltaram à pensão. Outros nunca voltaram.

Eu não persegui cada ausência como se precisasse recuperar a aprovação de toda a cidade.

Quando Patrícia me procurou para dividir um pedido grande, discutimos preço, prazo e responsabilidade. O trabalho deu certo.

Não nos tornamos confidentes.

Podíamos colaborar sem reescrever o que havia acontecido.

Viviane deixou de administrar sozinha as publicações da associação. Dona Lurdes organizou uma revisão das mensagens e das prestações de contas.

Ao me encontrar na feira, Viviane dizia bom dia.

Eu respondia.

Não precisava de sua amizade para escolher meu vestido ou segurar a mão de Davi.

No Alto do Cedro, minha cozinha ganhou prateleiras novas, um forno confiável e uma pequena placa com meu nome.

Cozinha da Cecília.

Eu toquei as letras antes de pendurá-la.

Davi estava segurando a escada.

“Está torta?”

“Um pouco.”

Ajustei.

“Agora?”

“Agora está.”

Desci e observei a parede.

“Você poderia ter mandado fazer uma placa mais bonita.”

“Você pediu esta.”

“Pedi.”

Ele passou o braço pela minha cintura.

“Então esta é a bonita.”

Na casa, colocamos uma mesa comprida perto da janela.

Davi a fez com madeira que já possuía e pés fortes o bastante para não balançar quando eu sovasse massa. Eu escolhi as cadeiras e deixei espaço para circular.

Embaixo da pia, havia uma gaveta exclusiva para ferramentas.

Ele reclamou.

Eu não cedi.

À noite, às vezes discutíamos por coisas pequenas. Uma toalha largada, uma porta aberta, meu hábito de começar mais uma tarefa quando já era hora de deitar.

Davi continuava sério quando estava preocupado. Eu continuava me defendendo depressa demais em certos dias.

Mas aprendemos a voltar à conversa.

E, quase sempre, um de nós sabia quando o outro precisava de comida, de silêncio ou de um abraço antes de encontrar as palavras.

A primeira reunião de moradores perto da nascente aconteceu num sábado claro.

Não era uma cerimônia de vitória. Era um almoço depois da limpeza do caminho, para a qual cada família havia contribuído como podia.

Eu levei pão.

Também levei uma travessa comprada de Patrícia e deixei Luciana cuidar das bebidas.

Meu pai chegou com dona Nair. Ícaro carregava bancos. Davi ajustava uma mesa sobre o terreno irregular.

Quando pousei a panela de ferro, o som fez duas pessoas olharem.

A mesma panela.

O mesmo peso.

Desta vez, ninguém precisou explicar por que estava ali.

Abri a tampa e o cheiro do pão quente se espalhou.

Comecei a procurar a faca.

Luciana apontou para a cadeira.

“Eu corto.”

“É melhor pela lateral…”

Ela me olhou.

Parei.

“Você sabe.”

“Sei.”

Davi puxou uma cadeira junto à sua.

“Cecília.”

Sentei.

Meu pai me entregou um prato. Luciana colocou a primeira fatia nele.

Por alguns segundos, fiquei olhando para a comida que não havia servido a mim mesma.

Davi encostou o joelho no meu.

“Esfriou?”

“Não.”

“Então coma.”

Peguei o pão.

Ao redor da mesa, as pessoas conversavam, pediam água, passavam pratos. Havia trabalho para depois, contas para a semana seguinte e uma vida que ainda exigiria decisões.

Eu podia participar dela sentada.

Também podia ser alimentada.

Ao anoitecer, voltamos para casa.

Davi lavou os pratos enquanto eu guardava o que restara. Quando terminei, tirei o avental e o pendurei no gancho.

Ele fechou a torneira.

“Já acabou?”

“Por hoje.”

“Tem certeza?”

Mostrei as mãos vazias.

Ele sorriu.

Aproximei-me e coloquei os braços ao redor de sua cintura.

“Você ainda tem fome?”

Davi baixou os olhos para mim.

“Um pouco.”

“Há pão.”

“Eu sei.”

Sua mão encontrou minhas costas.

“Mas foi você que eu fiquei esperando.”

Beijei-o antes que dissesse mais alguma coisa.

Ele me levantou apenas o suficiente para me sentar na borda firme da mesa, e eu segurei seus ombros, rindo.

“A madeira aguenta?”

“Foi feita para durar.”

Passei os dedos pela cicatriz na sobrancelha.

Davi virou o rosto e beijou minha palma.

Lá fora, a serra desaparecia devagar no escuro. Dentro de casa, havia uma luz acesa sobre a pia, dois pratos secando e meu livro aberto ao lado da cadeira.

Eu ficaria ali naquela noite.

Não porque precisavam do meu trabalho.

Não porque alguém havia escolhido por mim.

Eu queria aquele homem, aquela casa e a vida que estávamos aprendendo a dividir.

Puxei Davi para mais perto.

E ele veio.

FIM

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