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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 1 — A Voz do Outro Lado da Porta

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Capítulo 1 — A Voz do Outro Lado da Porta

"Abra a porta, Helena. A gente só quer o menino."

O homem do outro lado sabia meu nome.

Meu filho dormia encostado no meu peito, com um dinossauro de plástico apertado na mão. Eu havia trancado a porta apenas alguns minutos antes. No andar de baixo, alguém tinha disparado duas vezes.

Até aquela noite, eu achava que o pior que podia acontecer era perder o emprego.

Quarenta minutos antes, cheguei à casa dos Ferraz encharcada, atrasada e carregando Tomás nos braços. A chuva tinha atravessado meu casaco e transformado meus tênis baratos em duas esponjas. A bolsa escorregava do meu ombro a cada passo. Meu celular, sem bateria, não servia nem para avisar que eu estava chegando.

Vicente Ferraz me esperava no alto dos degraus da entrada.

Eu trabalhava naquela casa havia três semanas. Tempo suficiente para saber que ninguém o fazia esperar e que as portas fechadas do corredor oeste continuavam fechadas mesmo durante a faxina.

Oficialmente, Vicente administrava empresas de transporte entre São Paulo e o porto de Santos. Sobre o resto, as pessoas falavam baixo.

Seus olhos desceram até Tomás.

"Quem é?"

"Meu filho." Ajustei o peso dele no quadril. "A senhora Neide precisou levar a filha ao hospital. Eu procurei outra pessoa, mas o senhor pediu que eu voltasse, e..."

"Você trouxe uma criança para cá."

"Eu sei que não podia. Deixe-me preparar a sala de jantar. Ele fica comigo, não vai tocar em nada."

Vicente olhou para as poças que eu deixava sobre a pedra clara. Depois, para o menino adormecido.

"Você mal consegue segurar a bolsa. Me dê a criança."

"Não precisa."

"Helena."

Ele estendeu os braços, sem se aproximar mais. Aquilo me deu a chance de recusar. Também me fez perceber que Tomás estava escorregando.

Passei meu filho para ele com o cuidado de quem entrega tudo o que tem.

Vicente o acomodou contra o peito. Sua mão grande sustentou as costas de Tomás antes mesmo que eu terminasse de soltá-lo. O menino abriu um olho.

"Você é o dono da casa?", perguntou.

"Sou."

"Então por que está com cara de bravo?"

Meu rosto queimou. "Tomás, desculpe."

Vicente soltou uma risada curta. Atrás dele, um dos seguranças virou a cabeça como se também nunca tivesse ouvido aquele som.

"Porque sua mãe chegou quarenta minutos atrasada", respondeu Vicente.

"Foi a chuva. Ela correu comigo no colo."

A expressão dele mudou.

Tomás tocou o relógio em seu pulso. "Você pode comprar outro tênis pra ela?"

"Tomás."

"O dela está fazendo barulho."

Vicente olhou para meus pés. Quando voltou a erguer os olhos, Tomás já tinha apoiado a cabeça em seu ombro. Sua mão ainda segurava o dinossauro verde, a boca de plástico aberta contra a camisa preta de Vicente.

Eu estendi os braços para pegá-lo de volta.

Nesse instante, três pares de faróis atravessaram o portão.

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Vi os carros pela porta aberta. Não desaceleraram diante da guarita. Um deles parou atravessado na entrada principal; os outros seguiram para as laterais da casa.

Vicente entregou Tomás a mim.

"Suba com ele."

"Quem são essas pessoas?"

"Agora, Helena."

Um segurança surgiu ao meu lado. Segui-o pela escada, prendendo Tomás contra mim. Antes de alcançarmos o corredor, ouvi Vicente dizer a outro homem:

"Feche a saída dos fundos. Ninguém se aproxima dela."

O segurança abriu um quarto no fim do andar superior. Havia uma cama enorme, cortinas pesadas e uma janela voltada para a entrada.

"Fique aqui. Tranque por dentro."

"Meu filho está em perigo?"

Ele hesitou por um segundo. Foi resposta suficiente.

Assim que saiu, girei a chave e empurrei uma poltrona para junto da porta. Deitei Tomás na cama, ainda de sapatos, e fui à janela. Os motores continuavam ligados sob a chuva. Dois homens discutiam nos degraus com os seguranças da casa.

Um disparo cortou a voz deles.

Afastei-me do vidro. Tomás sentou na cama.

"Mãe?"

"Vem comigo."

Peguei-o no colo e procurei outra saída. O banheiro tinha uma janela pequena demais para nós dois. A varanda ficava sobre a entrada, diretamente acima dos carros. Voltei ao quarto, abri o guarda-roupa e vi espaço atrás dos casacos.

Outro disparo.

Coloquei Tomás ali com a bolsa e me ajoelhei à sua frente.

"Você vai ficar quietinho até eu chamar. É uma brincadeira de esconder, está bem?"

Ele olhou para o meu rosto. "Você está com medo."

"Estou tentando pensar."

Tomás levou Sir Dente, como chamava o dinossauro, até o queixo. Fechei parcialmente as portas do armário, deixando uma fresta para que pudesse respirar e me ver.

Passos correram pelo corredor.

A maçaneta baixou. Alguém empurrou a porta uma vez, testando a fechadura. Na segunda, bateu com o ombro.

"Helena Duarte!"

Meu estômago se contraiu.

Eu tinha sido contratada por uma administradora de serviços. Não conhecia aquele homem, mas ele conhecia meu nome inteiro.

"Abra. A gente só quer o menino."

Dentro do armário, Tomás apertou os olhos. Levei um dedo aos lábios.

"Afaste-se dessa porta", disse uma voz no corredor.

Vicente.

Houve um baque pesado, o ruído de algo arrastado pelo chão e, depois, silêncio.

"Helena, sou eu."

Não tirei a poltrona imediatamente. Pedi que ele dissesse quantas pessoas estavam consigo. Pedi que deixasse a arma no chão antes de eu abrir.

"Uma pessoa", respondeu. "E a arma está no chão."

Espiei pela fresta. Vicente estava sozinho. Havia sangue na manga de sua camisa. A pistola repousava perto da parede, fora do alcance imediato de sua mão.

Afastei a poltrona o suficiente para abrir.

"Por que ele quer Tomás?"

Vicente entrou, olhando primeiro para a cama vazia, depois para o armário. Ao ver meu filho, respirou de um jeito estranho, como se só então conseguisse fazê-lo.

"Por causa do pai dele."

"Rafael morreu antes de Tomás nascer."

"Foi o que disseram a você."

Senti o chão perder firmeza. Vicente foi até uma cômoda antiga e retirou de uma gaveta uma fotografia dobrada. Eu conhecia aquele rosto melhor do que o meu: o cabelo escuro caindo sobre a testa, o sorriso torto, a covinha na bochecha esquerda.

Rafael.

Ele estava ao lado de Vicente, os dois mais jovens, diante de um armazém perto do mar.

"Ele é meu irmão", disse Vicente.

Olhei da foto para ele. Rafael nunca me contara que tinha um irmão. Nunca mencionara o sobrenome Ferraz.

Tomás saiu do armário antes que eu pudesse impedi-lo. Viu a fotografia em minha mão e apontou para Vicente.

"Mãe, por que o tio está na foto do papai?"

Vicente empalideceu.

Eu jamais havia mostrado a Tomás uma fotografia de Rafael.

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