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"Não Toque nas Pernas do Chefe da Máfia" Capítulo 5 — O Prontuário Que Não Devia Existir

正文开头

Às seis e vinte da manhã, Marina ainda estava no terceiro andar.

A chuva tinha diminuído, mas ninguém na mansão Montenegro dormira.

Dois homens de Bruno verificavam janelas, portas e sensores. Outro recolhia impressões digitais da sala de arquivos.

Dante permanecia diante da mesa.

Os relatórios médicos estavam espalhados sobre a madeira.

Marina já havia lido as mesmas páginas três vezes.

— Aqui.

Ela apontou.

— Primeira semana depois da cirurgia: “resposta reflexa presente no membro inferior direito”.

Dante não respondeu.

Marina puxou outro documento.

— Onze dias depois: “resposta reduzida”.

Outro.

— Vinte e três dias: “ausência de resposta significativa”.

Mais um.

— E depois disso simplesmente desaparece.

Dante apoiou o cotovelo no braço da cadeira.

— Eu estava piorando.

— Talvez.

Ele ergueu os olhos.

— Talvez?

— É isso que estou tentando entender.

— Você acha que meus médicos mentiram?

— Eu acho que registros médicos não deveriam mudar sem uma razão documentada.

Bruno entrou.

— Ninguém saiu da propriedade durante a invasão.

Dante franziu o cenho.

— Então ainda está aqui?

— Ou saiu antes de fecharmos tudo.

— Quantas pessoas tinham acesso à chave de serviço?

— Seis.

— Nomes.

Bruno hesitou.

— Eu. Augusto. Marcelo. Valentina. Henrique.

— Cinco.

— E você.

Dante ficou em silêncio.

Marina fechou uma pasta.

— Henrique esteve aqui ontem?

Bruno respondeu:

— De manhã.

— E Marcelo?

— À tarde.

Dante virou a cadeira.

— Chega.

— Não chega — disse Marina.

— Isso agora é assunto meu.

— Seus remédios são assunto meu.

— Não quando envolvem uma invasão.

— Principalmente quando envolvem uma invasão.

Dante bateu a mão no braço da cadeira.

— Marina.

Ela não recuou.

— Alguém entrou numa mansão cheia de dinheiro e armas e foi direto atrás dos seus registros médicos. Se você acha que vou voltar para o quarto, trocar seu curativo e fingir que isso não aconteceu, contratou a enfermeira errada.

Dante soltou o ar.

— Isso eu já percebi.

Bruno quase sorriu.

Dante apontou para os documentos.

— Leve o que precisar.

Marina piscou.

— Sério?

— Antes que eu mude de ideia.

Ela juntou os relatórios.

— Quero também todas as medicações.

— Você já tem acesso.

— Não. Quero as caixas originais, prescrições, datas de compra, tudo.

— Para quê?

— Comparar.

Dante a observou por alguns segundos.

— Bruno.

— Vou providenciar.

Marina passou a manhã na sala médica.

Espalhou sobre uma mesa caixas de comprimidos, prescrições e planilhas.

Baclofeno.

Gabapentina.

Analgésicos.

Relaxantes musculares.

Sedativos prescritos durante períodos específicos.

Nada parecia absurdo isoladamente.

O problema era o conjunto.

As doses haviam aumentado justamente quando os registros de resposta neurológica diminuíram.

Marina pegou o celular.

Queria ligar para alguém.

Parou.

Não podia discutir dados de um paciente com qualquer pessoa.

E Dante deixara claro que não confiava em Henrique.

A porta abriu.

Valentina Montenegro entrou sem bater.

正文1

Marina já a tinha visto duas vezes.

Vinte e sete anos, cabelo castanho comprido, roupas que provavelmente custavam mais que três meses do aluguel de Marina.

— Você é a enfermeira nova.

— Já faz duas semanas.

— Para o meu irmão, isso é praticamente um casamento.

Marina fechou uma caixa.

— Posso ajudar?

Valentina olhou para os remédios.

— O que aconteceu ontem?

— Pergunte ao Dante.

— Ele não me conta nada.

— Então temos isso em comum.

Valentina puxou uma cadeira.

— Ele sempre foi controlador.

— Percebi.

— Mas não era assim.

Marina esperou.

— Depois da explosão, parou de confiar em todo mundo.

— Inclusive em você?

A expressão de Valentina mudou.

— Principalmente em mim.

— Por quê?

— Porque eu estava no carro que deveria ter explodido.

Marina ficou imóvel.

— O quê?

Valentina olhou para a porta antes de continuar.

— Naquela noite, Dante ia para Santos. Eu deveria usar outro carro da família para um evento.

— E?

— Quinze minutos antes de sair, ele mudou de carro.

Marina sentiu um arrepio.

— Por quê?

— O motorista disse que havia um problema elétrico no veículo dele.

— Quem era o motorista?

— Morreu na explosão.

Silêncio.

— Dante nunca contou isso.

— Dante não conta nada sobre aquela noite.

Valentina levantou.

Antes de sair, olhou para as caixas.

— Se está procurando alguma coisa errada nos remédios dele...

Marina ergueu os olhos.

— Por que acha isso?

Valentina hesitou.

— Porque eu também achei estranho.

— O quê?

— Nos primeiros dias depois do hospital, ele melhorava.

Marina ficou completamente imóvel.

— Melhorava como?

— Conseguia ficar sentado por mais tempo. Tinha espasmos. Uma vez jurou que sentiu pressão no pé.

— E depois?

— Henrique mudou os remédios.

— E?

Valentina deu de ombros.

— Dante começou a dormir quase o dia inteiro.

Marina sentiu o coração acelerar.

— Por quanto tempo?

— Semanas.

A porta abriu.

Dante estava ali.

— Valentina.

Ela se virou.

— Bom dia para você também.

— O que está fazendo?

— Conversando.

— Vá conversar em outro lugar.

Valentina revirou os olhos.

Passou pelo irmão.

— Continua encantador.

Quando saiu, Dante encarou Marina.

— Não envolva minha irmã.

— Ela se envolveu sozinha.

— O que disse?

Marina fechou a porta.

— Que você apresentou melhora no começo.

Dante não respondeu.

— E que piorou depois que Henrique mudou sua medicação.

— Isso não prova nada.

— Eu sei.

Marina se aproximou.

— Quero fazer um teste.

— Não.

— Nem sabe qual.

— Com você, a resposta preventiva é não.

Ela pegou um pequeno instrumento neurológico.

— Só reflexos.

— Marina...

— Cinco minutos.

Dante olhou para ela.

— Três.

— Quatro.

— Três.

— Fechado.

Ela retirou a manta.

Dessa vez, ele não tentou impedir.

Marina começou pela perna esquerda.

Nada incomum.

正文2

Depois a direita.

Tocou pontos diferentes.

— Sente?

— Não.

— Aqui?

— Não.

Ela mudou a pressão.

Dante franziu levemente o cenho.

— O quê?

— Nada.

— Não minta.

— Eu não senti.

Marina passou o polegar pela lateral do pé.

Os dedos dele se contraíram.

Os dois olharam.

Silêncio.

Marina repetiu.

Nada.

— De novo — disse Dante.

Ela repetiu.

O dedão moveu.

Dante prendeu a respiração.

Marina olhou para ele.

— Você fez isso?

— Não sei.

— Tenta.

Dante encarou o próprio pé.

Nada.

A mandíbula dele travou.

— Dante, relaxa.

— Não consigo.

— Não tenta mexer. Só pensa no movimento.

— Isso é ridículo.

— Faz.

Ele fechou os olhos.

Dez segundos.

Vinte.

Nada.

Então o segundo dedo se contraiu.

Dante abriu os olhos.

— Você viu?

Marina sorriu involuntariamente.

— Vi.

Ela colocou a mão sobre a canela.

— Isso não significa que você vai voltar a andar.

O sorriso desapareceu do rosto dele.

— Eu sei.

— Mas significa que precisamos descobrir exatamente o que ainda está funcionando.

Dante olhou para a perna.

Por alguns segundos, Marina viu algo que nunca tinha visto nele.

Esperança.

Pequena.

Perigosa.

— Chame Henrique — disse ele.

Marina congelou.

— Não.

Dante levantou o rosto.

— Não?

— Ontem você disse para eu não contar a ele.

— Ontem alguém tinha acabado de entrar na minha casa.

— E hoje os documentos continuam estranhos.

— Henrique é meu médico há seis anos.

— Então mais uma razão para esperar até sabermos o que aconteceu.

Dante ficou irritado.

— Você está sugerindo que eu esconda uma mudança clínica do meu médico?

— Estou sugerindo que por quarenta e oito horas ninguém saiba além de nós.

— Bruno sabe.

— Bruno viu alguma coisa?

— Não.

— Então não sabe.

Dante ficou em silêncio.

Marina cobriu novamente suas pernas.

— Quarenta e oito horas.

— Vinte e quatro.

— Trinta e seis.

Ele quase sorriu.

— Você negocia até prazo médico?

— Aprendi com você.

Dante estendeu a mão.

— Trinta e seis.

Marina apertou.

— Fechado.

No instante em que seus dedos se tocaram, alguém bateu à porta.

Bruno entrou.

Trazia um envelope.

— Encontramos isso na sala de segurança.

Dante pegou.

— O que é?

— Não sei. Estava atrás do servidor que controla as câmeras.

Dante abriu.

Dentro havia uma cópia de um relatório médico.

Marina reconheceu imediatamente a data.

Era da primeira semana após a explosão.

Mas aquela versão tinha uma frase que não aparecia em nenhuma das cópias da sala de arquivos.

Ela puxou o papel.

Leu.

Depois leu novamente.

**“Paciente apresenta resposta motora mínima voluntária no pé direito. Prognóstico neurológico ainda indeterminado.”**

Marina sentiu o estômago gelar.

— Dante...

Ele leu.

Seu rosto perdeu a cor.

— Isso nunca esteve no meu prontuário.

Marina virou a página.

No rodapé havia duas assinaturas.

Uma era do neurocirurgião responsável pela operação.

A outra:

**Dr. Henrique Sampaio.**

Dante apertou o papel.

— Ele sabia.

Marina não respondeu.

Dante olhou para a própria perna escondida pela manta.

Quando falou novamente, sua voz estava baixa.

— Ele sabia desde o começo.

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