"Não Toque nas Pernas do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — Três da Manhã
A tempestade chegou a São Paulo pouco depois das duas.
Às três e sete, Marina acordou com um som que não combinava com a chuva.
Uma pancada.
Depois outra.
Ela abriu os olhos.
Silêncio.
Então ouviu um gemido abafado.
Levantou imediatamente.
Correu pelo corredor.
A porta do quarto de Dante estava entreaberta.
— Dante?
Nenhuma resposta.
Marina entrou.
Ele estava na cama.
As mãos agarravam os lençóis.
O rosto estava molhado de suor.
Sob o tecido, sua perna direita se movia violentamente.
— Merda.
Marina puxou o lençol.
A coxa estava rígida.
O joelho dobrava involuntariamente.
Outro espasmo atravessou a perna.
Dante soltou um som entre os dentes.
— Há quanto tempo?
— Não sei.
— Dante.
— Dez minutos.
— Dez minutos?
Outro espasmo.
Marina subiu na cama.
— O que está fazendo?
— Impedindo você de machucar o joelho.
Ela apoiou o peso sobre a coxa dele e segurou a panturrilha.
— Sai de cima de mim.
— Não.
— Marina...
— Pode me demitir amanhã.
O corpo dele se contraiu.
Marina quase perdeu o equilíbrio.
— Respira.
— Não manda eu respirar.
— Então prende a respiração e desmaia. Facilita meu trabalho.
Mesmo sofrendo, Dante lançou um olhar assassino.
— Você é péssima em confortar pacientes.
— E você é péssimo em ser paciente.
Outro espasmo.
Mais forte.
— Porra!
— Olha para mim.
— Não para.
A frase saiu diferente.
Sem raiva.
Sem autoridade.
Apenas medo.
Marina segurou a perna com mais força.
— Vai parar.
— Você não sabe.
— Então vou ficar aqui até descobrir.
Ele fechou os olhos.
Marina precisava distraí-lo.
— O que tem nos três quartos do terceiro andar?
Dante abriu os olhos.
— O quê?
— Bruno disse que não posso entrar.
— E sua reação foi perguntar o que tem lá?
— Exatamente.
Outro espasmo.
Dante respirou entre os dentes.
— Armas.
— Isso era previsível.
— Dinheiro.
— Também.
— Arquivos.
Marina arqueou uma sobrancelha.
— Arquivos?
— Sim.
— Palavra elegante para chantagem?
Dante soltou um som estranho.
Marina olhou.
Ele estava rindo.
Não muito.
Mas estava.
— Você está rindo?
— Não.
— Está.
— Foi dor.
— Claro.
O próximo espasmo veio.
Dante bateu a cabeça contra o travesseiro.
Marina mudou a posição.
— Fala comigo.
— Sobre o quê?
— Qualquer coisa.
— Você faz isso com todos os pacientes?
— Subo na cama deles às três da manhã? Só nos especiais.
— Que honra.
— Qual era seu primeiro carro?
Dante respirou fundo.
— Opala.
— Mentira.
— Por quê?
— Você tem cara de quem nasceu dentro de uma Mercedes.
— Meu pai tinha um Opala 1978.
— E deixou você dirigir?
— Aos quinze.
— Agora entendi a origem dos seus problemas.
Ele quase riu novamente.
Aos poucos, os espasmos começaram a perder força.
Cinco minutos depois, a perna relaxou.
Marina permaneceu ali por mais alguns segundos.
— Melhor?
Dante assentiu.
Ela desceu da cama.
Pegou o aparelho de pressão.
— Não precisa.
— Precisa.
— Estou bem.
— Você estava quase quebrando o próprio joelho há cinco minutos.
Ela verificou os sinais vitais.
Depois abriu a gaveta.
Pegou o baclofeno.
Dante viu.
— Não.
— Sim.
— Amanhã tenho reuniões.
— E?
— Isso me deixa lento.
— Uma dose prescrita não vai transformar você num vegetal.
— Não quero.
Marina colocou o comprimido na mesa.
— Você prefere passar por aquilo outra vez?
— Prefiro conseguir pensar.
Ela olhou para ele.
— Você tem medo de perder o controle.
Dante não respondeu.
— Da cadeira.
Silêncio.
— Dos remédios.
Silêncio.
— Das pessoas tocando em você.
— Chega.
— Tudo porque durante alguns minutos você não consegue controlar o próprio corpo.
Os olhos dele ficaram frios.
Marina quase recuou.
Quase.
— Eu não vou assistir você sofrer por causa do seu orgulho.
— Você não entende.
— Então explica.
Dante olhou para o teto.
A chuva batia nas janelas blindadas.
— Quando eu estava no hospital, me davam coisas sem perguntar.
Marina permaneceu quieta.
— Eu acordava sem saber que dia era.
Ele engoliu em seco.
— Às vezes não sabia onde estava.
A voz ficou mais baixa.
— Todo mundo decidia por mim.
Marina olhou para o comprimido.
Finalmente entendeu.
Ela não o colocou na boca dele.
Não insistiu.
Apenas deixou sobre a mesa junto de um copo d'água.
— A decisão é sua.
Dante virou o rosto.
Marina começou a arrumar os lençóis.
— Um.
Ela parou.
— O quê?
— Um comprimido.
Marina pegou a medicação.
Entregou na mão dele.
Dante olhou para o pequeno comprimido.
Depois para ela.
Tomou.
— Viu? — disse Marina. — Ainda manda em alguma coisa.
— Você fala demais.
— Também está no contrato.
Ela puxou a manta até a cintura dele.
Dante fechou os olhos.
Parecia exausto.
Muito diferente do homem que comandava reuniões e fazia seguranças se endireitarem apenas com um olhar.
Marina se levantou.
— Vou ficar aqui até o remédio começar a agir.
— Não precisa.
— Não perguntei.
Ela sentou na poltrona.
Cinco minutos passaram.
Depois dez.
Dante abriu os olhos.
— Marina.
— Hum?
— Você viu meu pé ontem à noite?
O coração dela bateu mais forte.
— Vi.
Silêncio.
— E você?
Dante não respondeu.
Não precisava.
Marina se inclinou.
— Precisamos investigar isso.
— Ainda não.
— Por quê?
— Porque não sei o que significa.
— É justamente por isso.
Dante virou o rosto para ela.
— Não conte ao Henrique.
Marina franziu o cenho.
— Seu médico?
— A ninguém.
Antes que pudesse perguntar por quê, um som seco veio do corredor.
Passos.
Rápidos.
A maçaneta girou.
A porta foi aberta violentamente.
Bruno entrou com uma pistola na mão.
Marina se levantou.
— Meu Deus!
Dante imediatamente ficou alerta.
— O que aconteceu?
Bruno fechou a porta atrás de si.
Seu rosto não tinha qualquer traço de humor.
— Cortaram as câmeras.
Dante olhou para ele.
— Quais?
— Ala leste. Jardim. Corredor de serviço.
Bruno ergueu o rádio.
Vozes tensas atravessavam o aparelho.
— Encontramos marcas no muro.
Marina sentiu o estômago afundar.
Dante não parecia mais um paciente.
Em segundos, o homem exausto desapareceu.
— Quantos?
— Ainda não sabemos.
Dante pegou o telefone.
— Tranque a mansão.
— Já tranquei.
— Ninguém entra.
Ele olhou para Marina.
Depois completou:
— E ninguém sai.
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