"Não Toque nas Pernas do Chefe da Máfia" Capítulo 2 — Não Toque nas Minhas Pernas
Às sete em ponto da manhã seguinte, Marina descobriu que Dante Montenegro tinha transformado ser insuportável numa disciplina profissional.
— Está atrasada.
Ela olhou para o relógio.
6h59.
— Bom dia para você também.
Dante estava no escritório, diante de três telas com gráficos financeiros.
— Pedi sete horas.
— Ainda faltam quarenta segundos.
— Trinta e dois.
Marina colocou sua bolsa sobre uma cadeira.
— Preciso verificar sua pele.
— Depois.
— Agora.
— Tenho uma reunião.
— Sua panturrilha não consultou sua agenda.
Dante fechou os olhos.
Marina começava a entender por que quatro enfermeiras tinham desaparecido.
Também começava a entender por que ele as tinha demitido.
Dante detestava sentir que alguém controlava qualquer parte de sua vida.
Antes da explosão, provavelmente ninguém dizia a ele quando comer, quando dormir, quando tomar remédio ou quando mudar de posição.
Agora seu corpo inteiro obedecia a horários impostos por outras pessoas.
— Cinco minutos — disse ele.
— Dez.
— Sete.
— Fechado.
Ela empurrou uma pequena mesa para perto.
Dante imediatamente levantou os olhos.
— Não toque na cadeira.
Marina congelou.
Sua mão estava a centímetros do encosto.
— Eu estava movendo a mesa.
— Eu sei.
A resposta veio rápida demais.
Marina percebeu que não era apenas irritação.
Era medo.
Ela afastou a mão.
— Certo.
Durante a primeira semana, descobriu dezenas de pequenas regras.
Nunca mover a cadeira sem avisar.
Nunca tocar nos controles.
Nunca ajudar Dante a transferir o corpo sem que ele pedisse.
Nunca abrir a porta do banheiro.
Nunca mencionar a explosão.
E, acima de tudo:
Nunca tocar em suas pernas inesperadamente.
Marina respeitou quase todas.
Quase.
Naquela tarde, precisava trocar o curativo da panturrilha.
— Vou levantar sua perna.
— Eu consigo.
Dante tentou usar os braços para posicioná-la.
O movimento foi difícil.
Marina esperou.
Ele tentou novamente.
Nada.
O rosto dele endureceu.
Ela não disse uma palavra.
Finalmente:
— Pode fazer.
Marina apoiou uma mão sob o joelho e outra no tornozelo.
O corpo de Dante ficou rígido.
— Relaxa.
— Não diga para eu relaxar.
— Tudo bem. Fique tenso e torne meu trabalho duas vezes mais difícil.
Ela colocou a perna sobre uma almofada.
A ferida ainda era superficial.
Boa notícia.
Enquanto limpava a região, Marina percebeu outra coisa.
— Sente isso?
— Não.
Ela pressionou levemente dois pontos.
— E isso?
— Não.
Pegou uma gaze fria.
Tocou mais acima.
Dante permaneceu impassível.
— Nada?
— Nada.
Marina moveu a gaze alguns centímetros.
O abdômen dele contraiu.
Quase imperceptivelmente.
Ela parou.
— O que foi?
— Nada.
— Você sentiu.
— Não.
Marina repetiu.
Dessa vez ele segurou seu pulso.
— Eu disse que não.
— Seu corpo disse outra coisa.
— Pare.
Ela o encarou.
Havia raiva ali.
Mas novamente havia outra coisa.
Medo.
Marina afastou a mão.
— Certo.
Terminou o curativo sem falar.
Naquela noite, encontrou Augusto Ribeiro na cozinha.
O mordomo tinha cabelos grisalhos e a tranquilidade de alguém que sobrevivera a décadas dentro da mesma família.
— Café? — perguntou ele.
— Se eu beber mais um, vou começar a enxergar sons.
Augusto sorriu.
Marina abriu a geladeira.
— Ele sempre foi assim?
— Assim como?
— Como se cada pergunta fosse uma tentativa de golpe de Estado.
Augusto riu.
— Não.
Marina esperou.
— Antes do acidente, senhor Dante era difícil. Depois...
Augusto olhou para a porta.
— Depois ficou diferente.
— Porque perdeu os movimentos.
— Porque perdeu o controle.
A frase ficou na cabeça dela.
Mais tarde, Marina entrou na pequena sala usada para guardar materiais médicos.
Encontrou uma pasta grossa.
**DANTE MONTENEGRO — REABILITAÇÃO**
Abriu.
Os primeiros relatórios eram do Hospital Santa Cecília.
Trauma grave.
Fraturas.
Lesão medular.
Cirurgias.
Ela continuou.
Uma anotação da primeira semana chamou sua atenção.
**Resposta reflexa presente em membro inferior direito.**
Marina franziu o cenho.
Virou a página.
Duas semanas depois:
**Ausência de resposta neurológica significativa.**
Mais páginas.
Sempre a mesma coisa.
Nenhuma resposta.
Nenhuma sensibilidade.
Nenhuma evolução.
Todos os documentos posteriores estavam assinados pelo mesmo médico.
**Dr. Henrique Sampaio.**
— Procurando alguma coisa?
Marina quase derrubou a pasta.
Dante estava na porta.
— Seus registros.
— Sem autorização.
— Sou sua enfermeira.
— Não sua investigadora.
— Seu histórico faz parte do meu trabalho.
Ele entrou.
— Feche.
Marina não fechou.
— Aqui diz que você teve reflexo na perna direita depois da cirurgia.
— Reflexo não significa movimento voluntário.
— Eu sei.
— Então qual é o problema?
Marina levantou os olhos.
— Hoje você sentiu alguma coisa.
Dante ficou completamente imóvel.
Isso foi resposta suficiente.
— O quê?
— Não senti.
— Seu abdômen contraiu.
— Espasmo.
— Talvez.
— Não “talvez”.
Marina fechou a pasta.
— Por que isso deixa você tão nervoso?
Dante aproximou a cadeira.
— Porque passei seis meses ouvindo pessoas me dizerem o que meu corpo deveria fazer.
A voz dele baixou.
— Primeiro disseram que eu voltaria a andar.
Marina não falou.
— Depois disseram que talvez.
Ele continuou.
— Depois pararam de dizer qualquer coisa.
A raiva desapareceu.
— Então não venha até mim com um pedaço de gelo e uma expressão esperançosa.
Marina sentiu algo apertar dentro do peito.
— Eu não vou prometer que você vai andar.
Dante olhou para ela.
— Mas também não vou ignorar uma reação só porque alguém escreveu “nenhuma resposta” numa folha.
Silêncio.
Ela colocou a pasta no lugar.
— Amanhã vamos fazer alguns testes simples.
— Não.
— Ótimo. Às oito.
— Marina.
Ela chegou à porta.
— Boa noite, Dante.
— Não vai acontecer.
— Oito e meia, então.
Saiu.
Dante permaneceu sozinho na sala.
Seu olhar caiu sobre a pasta.
Naquela madrugada, Marina acordou com sede.
Desceu até a cozinha.
Ao passar pelo corredor principal, viu uma luz acesa.
Dante estava sozinho diante da janela.
A manta não cobria suas pernas.
Ele olhava fixamente para o pé direito.
Marina ficou escondida pela parede.
Não queria invadir aquele momento.
Então viu.
O pé se contraiu.
Pequeno.
Mas real.
Dante agarrou o braço da cadeira.
Marina prendeu a respiração.
Ele não estava imaginando.
Ela também não.
Alguma coisa naquelas pernas ainda respondia.
E nenhum dos relatórios dos últimos cinco meses dizia isso.
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