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"Não Toque nas Pernas do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — A Enfermeira Número Cinco

正文开头

O Honda Civic 1998 de Marina Oliveira morreu a menos de três metros do portão da mansão Montenegro.

Ela girou a chave mais uma vez.

O motor tossiu.

Depois, silêncio.

— Não. Não faz isso comigo hoje.

Marina bateu a testa no volante.

Do outro lado do para-brisa, duas câmeras de segurança apontavam diretamente para ela. O portão preto tinha quase quatro metros de altura, cercado por muros de pedra que faziam a propriedade parecer menos uma mansão no Jardim Europa e mais uma fortaleza particular.

Seu celular vibrou.

**DONA CÉLIA: Preciso do aluguel até sexta, Marina. Não posso esperar mais.**

Marina fechou a mensagem.

Dentro da bolsa havia três avisos de cobrança, metade de um pão de queijo embrulhado num guardanapo, seu registro profissional e vinte e sete reais.

Ela olhou novamente para o portão.

— Pelo menos o carro escolheu um bairro bonito para morrer.

Saiu.

Antes que alcançasse o interfone, o portão se abriu.

Um homem enorme de terno preto apareceu.

Devia ter pouco mais de quarenta anos. Tinha ombros largos, cabelo curto e um nariz torto que parecia ter sido quebrado mais de uma vez.

— Marina Oliveira?

— Depende. Se for cobrança, não.

Ele não sorriu.

— Bruno Almeida. Segurança.

— Claro que é.

Bruno passou um detector de metais pelo corpo dela, abriu sua bolsa e encontrou o spray de pimenta.

— Isso fica comigo.

— Eu volto para Vila Mariana tarde da noite.

— Aqui dentro você não vai precisar.

Ele encontrou um grampo de cabelo.

Também confiscou.

Marina ergueu as sobrancelhas.

— Vai tirar meus brincos também?

— Se forem afiados.

Ela finalmente entendeu por que o salário era três vezes maior que o normal.

Não era apenas um paciente rico.

Era Dante Montenegro.

Mesmo quem nunca tinha chegado perto do submundo de São Paulo conhecia aquele sobrenome.

Empresas de logística.

Casas noturnas.

Restaurantes.

Segurança privada.

E, segundo rumores que ninguém repetia alto demais, negócios que jamais apareciam nos registros da Receita Federal.

Seis meses antes, uma explosão havia destruído o carro de Dante na região da Marginal Pinheiros.

Ele sobrevivera.

Suas pernas, não.

— Uma coisa — disse Bruno enquanto caminhavam pelo corredor de mármore. — Não faça perguntas sobre o acidente.

— Sou enfermeira. Perguntas fazem parte do trabalho.

Bruno parou.

— Não aquelas.

Continuaram.

— E não toque na cadeira sem permissão.

— Certo.

— Não entre no terceiro andar.

— Certo.

— E nunca tire a manta das pernas dele sem avisar.

Marina olhou para Bruno.

— Isso é estranhamente específico.

— As outras aprenderam do jeito difícil.

— Quantas outras?

Bruno abriu uma porta dupla.

— Quatro.

Marina parou.

— Em quanto tempo?

— Seis meses.

— Ótimo.

Bruno finalmente esboçou algo parecido com um sorriso.

— Boa sorte, enfermeira número cinco.

Dante Montenegro estava diante de uma enorme janela.

A cadeira de rodas motorizada era preta, discreta e provavelmente custava mais que o carro de Marina.

正文1

Ele tinha trinta e poucos anos, cabelo preto cuidadosamente penteado para trás e um rosto anguloso que parecia incapaz de relaxar.

Mesmo sentado, parecia grande.

Ombros largos.

Braços fortes.

Camisa preta dobrada até os antebraços.

Uma manta cinza cobria completamente suas pernas.

Dante virou a cadeira.

Seus olhos percorreram Marina dos tênis gastos ao coque preso às pressas.

Pararam numa pequena mancha de café em seu uniforme.

— Você não é a enfermeira que eu pedi.

Nem “bom dia”.

Nem “sente-se”.

Marina respirou.

Precisava daquele emprego.

— Não.

— Pedi alguém com pelo menos quinze anos de experiência em atendimento domiciliar.

— Eu tenho sete.

— Então alguém cometeu um erro.

— As enfermeiras com quinze anos de experiência recusaram.

Os olhos dele endureceram.

Bruno baixou discretamente o rosto.

Marina percebeu tarde demais que talvez aquilo não tivesse sido inteligente.

Dante aproximou a cadeira.

— Você sempre fala assim numa entrevista?

— Só quando preciso muito do emprego.

— Então precisa.

Marina pensou nas três cartas dentro da bolsa.

— Muito.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não. Só estou economizando nosso tempo.

Dante a observou.

— Por que aceitou?

— Porque o senhor paga quase três vezes o valor normal.

— Finalmente uma resposta honesta.

— Também ouvi dizer que o senhor demitiu quatro enfermeiras.

— Três.

— Bruno disse quatro.

Dante lançou um olhar para o segurança.

Bruno permaneceu imóvel.

— Uma pediu demissão — corrigiu Dante.

— Isso melhora bastante sua reputação.

A boca dele quase se moveu.

Quase.

Dante pegou um copo de cristal sobre a mesa.

Marina percebeu antes dele.

Um tremor.

Pequeno.

Na mão direita.

Os dedos perderam força.

O copo caiu.

Quebrou no piso de madeira.

Uísque se espalhou entre os cacos.

O silêncio mudou.

Marina olhou para a mão dele.

Dante percebeu.

Fechou-a imediatamente.

— Limpe.

Ela não se moveu.

— Marina.

Ela passou por cima dos cacos.

Dante franziu o cenho.

— Eu mandei limpar.

Marina caminhou diretamente até a cadeira.

— Sua mão está tremendo.

— Não está mais.

— Quando isso começou?

— Não é da sua conta.

— Se eu trabalhar aqui, literalmente será.

Ela se agachou.

Dante imediatamente ficou tenso.

— O que está fazendo?

Marina segurou a borda da manta.

Bruno deu um passo.

— Marina...

Ela puxou.

A manta caiu.

A transformação no rosto de Dante foi imediata.

— Que porra você pensa que está fazendo?

A mão dele fechou-se no pulso dela.

Forte.

Muito forte.

Marina sentiu os dedos pressionarem seus ossos.

Mas não desviou os olhos.

Pela primeira vez, viu as pernas de Dante Montenegro.

E entendeu por que ele as escondia.

Eram muito mais finas do que o restante do corpo.

Meses de imobilidade tinham consumido músculos que um dia provavelmente haviam sido fortes.

Marina aproximou-se da perna direita.

— Solte meu braço.

— Cubra minhas pernas.

— Depois.

Os olhos dele ficaram gelados.

正文2

— Ninguém toca em mim sem minha permissão.

— Então me demita.

Dante pareceu surpreso.

Marina apontou para uma pequena área avermelhada na lateral da panturrilha.

— Isso aqui está começando a abrir.

Ele olhou.

— É só irritação.

— Não. É pressão.

Ela pressionou cuidadosamente a pele ao redor.

— Há quanto tempo isso está assim?

Silêncio.

Marina olhou para Bruno.

— Há quanto tempo?

— Alguns dias — respondeu ele.

— E ninguém fez nada?

— Minha última enfermeira disse que não era grave — disse Dante.

— Sua última enfermeira estava errada.

Ela finalmente puxou o pulso.

Dante soltou.

Uma marca vermelha ficou na pele.

— O senhor passa horas nessa cadeira, esconde as pernas debaixo de uma manta e provavelmente odeia qualquer pessoa que sugira mudar de posição.

— Você me conhece há sete minutos.

— E já acertei?

Bruno virou o rosto para esconder uma reação.

Dante percebeu.

— Saia, Bruno.

O segurança hesitou.

— Agora.

Bruno saiu.

Marina ficou sozinha com ele.

Dante olhou para as próprias pernas expostas.

Pela primeira vez desde que ela entrara, parecia desconfortável.

Não perigoso.

Não poderoso.

Apenas desconfortável.

Marina pegou a manta e a colocou novamente sobre ele.

Dessa vez devagar.

— Não estou aqui para tratar o senhor como criança — disse ela. — Mas também não vou fingir que está tudo bem só porque todo mundo tem medo de irritá-lo.

Dante levantou os olhos.

— Todo mundo?

— Seu segurança parece ter medo de respirar alto perto do senhor.

— Bruno não tem medo de mim.

— Então ele tem prisão de ventre.

Silêncio.

Dante soltou uma risada curta pelo nariz.

Marina quase sorriu.

Quase.

Ele voltou a ficar sério.

— Quanto tempo você precisa para tratar isso?

— A ferida?

— Sim.

— Depende de o senhor colaborar.

— Eu não colaboro.

— Percebi.

Dante apoiou a mão no controle da cadeira.

— Começa amanhã às sete.

Marina piscou.

— Isso significa...

— Você está contratada.

Ela demorou um segundo para acreditar.

— Certo.

— Não me faça me arrepender.

Marina pegou a bolsa.

— O senhor provavelmente vai se arrepender umas três vezes por dia.

Ela chegou à porta.

— Marina.

Virou-se.

Dante apontou para os cacos no chão.

— Agora você pode mandar alguém limpar.

Ela sorriu.

— Está aprendendo.

Saiu antes que ele pudesse responder.

Dante ficou sozinho.

Olhou para a porta fechada.

Depois para a manta.

Sua mandíbula travou.

Muito lentamente, puxou o tecido para o lado.

Ficou olhando para a própria perna direita.

Durante o exame, quando Marina pressionara a pele abaixo do joelho, ele sentira alguma coisa.

Não dor.

Não exatamente.

Uma pressão distante.

Impossível.

Os médicos tinham sido claros.

Lesão completa.

Nenhuma sensibilidade funcional.

Nenhum movimento voluntário.

Dante fixou os olhos no pé.

Esperou.

Nada.

Soltou o ar.

Então aconteceu.

O dedão do pé direito se moveu.

Apenas alguns milímetros.

Mas se moveu.

Dante ficou imóvel.

Olhando.

O telefone estava ao alcance de sua mão.

Ele poderia ligar para Henrique.

Poderia chamar Bruno.

Poderia chamar Marina de volta.

Em vez disso, puxou a manta rapidamente sobre as pernas.

E não contou a ninguém.

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