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"Ele Me Rejeitou. Os Filhos do Mafioso Me Escolheram." Parte 10 — O Último Convite

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Parte 10 — O Último Convite

"Eu deixei comida para ele naquela noite."

A frase saiu antes que eu percebesse.

Helena parou de compartilhar a tela.

Dante continuou ao meu lado, sem tocar em mim.

"Marina", disse ela, "a presença do carro não prova sozinha o que Otávio fez. Os investigadores estão cruzando os horários com os documentos e o depoimento de Edson."

Assenti.

Ainda enxergava a mensagem antiga no meu celular.

Reunião demorada. Não me espera acordada.

Eu havia deixado uma travessa coberta na geladeira e um bilhete dizendo onde estava o molho.

Enquanto isso, uma mulher morria num galpão.

Três crianças aprendiam a ter medo de cheiro de queimado.

E Otávio voltava para a nossa cama.

"Posso procurar minhas mensagens daquela data?", perguntei.

"Pode. Preserve a conversa inteira. Não só o trecho."

Abri o histórico com os dedos rígidos.

Dante se afastou para me dar espaço.

Encontramos a mensagem, o horário e uma fotografia que ele me enviara no começo da noite. Um copo de café sobre uma mesa de escritório.

Eu nunca perguntara quando a fotografia fora tirada.

Enviei o material a Helena.

Não era uma prova de tudo.

Era uma parte que eu podia entregar.

Nos dias seguintes, Edson apresentou os registros que guardara. Soube por Helena que havia ordens para manter um setor do alarme desativado, avisos sobre falhas elétricas e mensagens cobrando a liberação do espaço antes de uma entrega.

Álvaro autorizara a continuidade da operação.

Otávio participara das cobranças.

Dante entregou os registros de sua própria empresa, inclusive os que demonstravam as irregularidades que ele admitira.

Nada avançou com a velocidade que eu desejava.

Mas avançou.

Voltamos à propriedade principal depois que a equipe concluiu as primeiras mudanças de segurança. Mauro não retornou. Rosa recebeu novos procedimentos, e qualquer assunto da investigação passou a ser tratado fora da rotina da casa.

Bianca colocou o álbum da mãe numa estante da sala.

Não o escondeu mais no quarto.

Na sexta-feira, Otávio escreveu de um número diferente.

Preciso encerrar nossa situação profissional. Posso devolver tudo que você pediu.

Enviei a mensagem a Helena.

A proposta formal chegou naquela tarde.

Correção definitiva dos créditos. Pagamento pelos valores em discussão. Retirada das acusações. Um aporte para que eu abrisse minha própria loja.

Li a última parte duas vezes.

Uma loja.

Durante quatro anos, Otávio dissera que eu deveria esperar.

Esperar a empresa crescer. Esperar a próxima expansão. Esperar termos estabilidade.

Agora oferecia exatamente o que sabia que eu queria.

No fim do documento, havia uma exigência ampla de confidencialidade sobre assuntos conhecidos durante nossa convivência e o vínculo profissional.

Helena marcou o trecho.

"Uma coisa é discutir informações comerciais. Outra é tentar impedir sua colaboração numa investigação."

"Ele sabe que eu descobri."

"Talvez suspeite. Não vamos informá-lo sobre o que sabemos."

Otávio pediu uma reunião.

Aceitei conversar no escritório de Helena, com ela presente. Não haveria encontro reservado, nem visita ao apartamento.

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Dante ouviu a decisão sem gostar dela.

"Você não precisa olhar para ele de novo."

"Não preciso. Quero dizer não sem deixar uma proposta dessas pendurada sobre a minha vida."

"Helena pode dizer."

"Pode. Mas ele ainda escreve como se eu estivesse esperando que ele me devolvesse um futuro."

Dante ficou em silêncio.

Depois perguntou:

"Quer que eu vá?"

"Quero que me leve. A conversa é minha."

Ele assentiu.

No dia marcado, Otávio chegou com um advogado e um envelope grande.

Eu já estava sentada.

Helena iniciou a reunião esclarecendo que qualquer acordo profissional seria tratado separadamente e não poderia limitar depoimentos ou entrega de documentos às autoridades.

Otávio puxou o envelope para mais perto de si.

"Vocês estão dando a isso uma interpretação desnecessária."

"Então retire a cláusula", falei.

Ele olhou para o advogado.

O homem pediu alguns minutos para discutir os termos.

Otávio recusou.

"Marina, eu queria conversar com você sem transformar cada palavra num problema."

"Foi para isso que você pediu uma reunião com advogados."

"Eu queria resolver."

"Também quero. Meu trabalho, meu nome e os valores que vocês ainda me devem."

Ele abriu o envelope.

Dentro havia uma planta.

Um ponto comercial com vitrines, balcão e cozinha.

Meu nome estava escrito no alto.

Por um segundo, odiei o quanto aquilo me atingiu.

Otávio percebeu.

"Encontrei um lugar ótimo. Podemos começar sem que você se endivide. Você trabalha bem, Marina. Sempre soube disso."

Olhei para o desenho.

"Você podia ter me respeitado antes de precisar me comprar."

Seu rosto endureceu.

"É uma proposta de negócio."

"Então por que exige meu silêncio?"

Helena colocou a folha sobre a mesa.

"Podemos seguir com os itens profissionais. Esse trecho será retirado."

Otávio passou a mão pelo cabelo.

"Eu não quero você envolvida nos problemas de Bellandi."

"Você quer que eu pare de responder perguntas?"

"Quero que tenha cuidado com o que está ajudando a construir."

O advogado dele se inclinou.

"Otávio, vamos manter..."

"Ela não entende."

Olhei para o homem com quem dividira uma casa.

"Então explica."

Ele soltou uma risada sem humor.

"Você acha que Dante Bellandi entrou numa operação como aquela porque era um homem bom? Acha que meu pai inventou tudo sozinho?"

"Não."

A resposta pareceu surpreendê-lo.

"Eu sei que Dante também tem responsabilidades."

"Então por que está do lado dele?"

"Estou do lado de quem precisa responder pelo que fez. Isso inclui você, se for o caso."

Otávio afastou a planta.

"O que te disseram?"

"Não vou discutir a investigação."

"Você não sabe como foi."

O advogado dele tocou seu braço.

Otávio se soltou.

"Todo mundo queria aquele lote liberado. Todo mundo. Meu pai, Bellandi, os distribuidores. O alarme estava dando problema, a entrega tinha horário..."

"Otávio", advertiu o advogado.

Ele me encarou.

"Você sempre faz parecer simples. Como se bastasse parar uma operação inteira porque alguém mandou um aviso."

Senti meu coração bater nos ouvidos.

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"Você recebeu um aviso de risco?"

O rosto dele mudou.

Por um instante, reconheci o homem do portão.

A mesma pressa de recolher uma frase que já saíra.

"Eu não disse isso."

"Acabou de dizer."

Helena interrompeu:

"Marina, não vamos conduzir essa conversa como uma investigação."

Otávio se levantou.

"Está vendo? Você veio me fazer falar."

"Eu vim rejeitar a sua proposta."

"Você me conhece. Sabe que eu não teria deixado aquela mulher lá se achasse que..."

Ele parou.

Eu também me levantei.

"Se achasse o quê?"

O advogado dele recolheu os documentos.

"A reunião terminou."

Otávio olhou para a planta, depois para mim.

"Eu mandei tirarem a mercadoria primeiro. Havia gente para ajudar as crianças. Eu achei que ela também tinha saído."

Minha mão encontrou o encosto da cadeira.

Ninguém falou.

Otávio pareceu ouvir as próprias palavras tarde demais.

"Eu não causei o incêndio."

Helena manteve a voz firme.

"Não vamos prosseguir. Qualquer assunto profissional será encaminhado por escrito."

O advogado levou Otávio até a porta.

Antes de sair, ele se virou.

"Marina."

Eu não respondi.

Olhei para o desenho da loja.

Depois o empurrei para o lado da mesa que ele havia ocupado.

Helena permaneceu comigo até que eu conseguisse sentar.

Registramos o que fora dito e encaminhamos a informação pelo canal adequado. Não havia uma confissão mágica que encerrasse tudo.

Havia mais uma peça.

As mensagens de Edson.

Os registros.

As imagens.

Os avisos.

E um homem que acabara de admitir que escolhera salvar mercadoria antes de verificar se todos estavam seguros.

Dante me esperava no carro.

Bastou olhar para meu rosto.

"O que aconteceu?"

Contei.

Ele saiu do veículo e caminhou até uma parede da garagem.

Apoiou as duas mãos no concreto.

Não disse nada por um tempo.

Depois pegou o telefone.

"Rafael."

Dei um passo.

Dante fechou os olhos.

A ligação ainda não havia sido atendida.

"Você vai voltar para casa", falei. "Seus filhos estão esperando."

Ele apertou o telefone.

"Ele sabia."

"Agora outras pessoas também sabem."

Dante olhou para mim.

Havia uma raiva tão grande em seu rosto que senti medo do que ela poderia custar.

"Se você for atrás dele, seus filhos vão perder mais alguém."

A chamada começou a tocar.

Dante encerrou.

Ficou parado até a respiração mudar.

Quando voltou para o carro, suas mãos tremiam.

Segurei uma delas.

Naquela noite, ele sentou com as crianças e ouviu Theo contar uma história comprida sobre um trabalho de escola.

Não saiu durante a história.

Mais tarde, chamou-me ao escritório.

"Meu advogado disse que eu preciso me preparar para as consequências do que entreguei."

Sentei diante dele.

"Você está arrependido?"

"De entregar, não."

Dante colocou uma chave sobre a mesa.

"Rosa tem os documentos do seu trabalho. Seu salário, seus direitos e sua saída não dependem de nós."

Olhei para a chave.

"O que é isso?"

"O carro para levar você onde quiser, quando quiser. Sérgio pode acompanhar. Pode ficar com Celina, alugar um lugar, seguir com a sua vida."

"Você está pedindo que eu vá?"

Ele demorou a responder.

"Estou tentando não pedir que você pague pelas escolhas que eu fiz."

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