"Ele Me Rejeitou. Os Filhos do Mafioso Me Escolheram." Parte 9 — Desta Vez, Eu Escolho Ficar
Parte 9 — Desta Vez, Eu Escolho Ficar
Dante não chamou todos os funcionários para o salão.
Não gritou.
Pediu que Rafael interrompesse qualquer deslocamento relacionado a Edson e telefonou para Helena.
O homem não sairia naquele horário.
Uma nova organização seria feita sem passar pela administração da propriedade.
Eu fiquei no terraço até Dante terminar as chamadas. O beijo ainda estava na minha boca, mas tudo ao redor adquirira outra forma.
As portas.
Os corredores.
As pessoas que eu cumprimentava todos os dias.
"Preciso contar à Rosa", falei.
"Já pedi que viesse."
Ela chegou poucos minutos depois.
Dante explicou o suficiente para que entendesse a mudança de rotina. As crianças iriam passar dois dias numa casa menor, com acessos diferentes, enquanto a equipe verificava a segurança.
"Eu vou com elas", disse Rosa.
"Eu também", falei.
Dante se virou.
"Você pode ficar com Celina."
"Posso. Mas quero ajudar."
"Marina, eu não sei ainda quem passou a informação."
"Então vamos seguir o que a equipe orientar. Não vou inventar nada."
Rosa olhou para mim e assentiu.
A confirmação dela importou mais do que qualquer impulso meu.
Subimos para organizar o necessário.
Remédios, contatos, uniformes, o dinossauro de Bento, o carregador que Theo perderia se não fosse colocado na mochila diante dele.
Bianca estava acordada.
Observou Rosa entrar no quarto dos meninos e me interceptou no corredor.
"O que foi?"
"Vamos dormir em outro lugar por alguns dias."
"Por quê?"
"Seu pai está resolvendo uma questão de segurança."
"Qual?"
"Uma informação que deveria ficar reservada saiu da casa."
Bianca empalideceu.
"Alguém vai entrar aqui?"
"Não sabemos de uma tentativa de entrar. Estamos nos organizando antes."
Ela cruzou os braços.
"Isso começou depois do seu vídeo."
Fiquei quieta.
O rosto dela se contraiu, como se tivesse encontrado alguma coisa em que pudesse colocar toda a raiva.
"Antes você veio. Depois aquele homem. Agora vamos fugir de novo."
"Bianca..."
"Você devia ir embora."
A frase me atingiu com uma força que não esperava.
Dante apareceu no fim do corredor.
"Bianca."
Ela olhou para ele.
"O quê? Você também muda tudo quando ela fala."
Eu vi o pai preparar uma resposta.
Toquei de leve seu antebraço.
"Deixa."
Voltei para a menina.
"Você está com medo."
"Não fala comigo como a psicóloga."
"Está bem."
Ela respirava depressa.
"Eu não quero sair."
"Eu sei."
"Não sabe."
"Não sei como é para você."
Aquilo a fez parar por um instante.
Continuei:
"Não vou pedir que goste da ideia. Mas vou ajudar a arrumar suas coisas e vou dizer para onde estamos indo assim que seu pai puder explicar."
"Eu mandei você ir embora."
Engoli a dor antes de responder.
"Se quiser distância de mim, eu respeito. Não vou desaparecer hoje sem conversar só porque você está com raiva."
Bianca entrou no quarto e bateu a porta.
Dante ficou olhando para a madeira.
"Ela não devia ter dito isso."
"Ela tem onze anos."
"Isso não dá direito..."
"Hoje ela precisa de você mais do que eu preciso de uma defesa."
Ele me olhou.
Depois bateu à porta da filha.
"Bianca, posso entrar?"
Demorou até ouvirmos a resposta.
"Pode."
Deixei os dois.
Rosa me encontrou junto à escada.
"Ela sempre tenta descobrir o perigo antes dos irmãos."
"Percebi."
"Não precisa carregar isso sozinha."
Assenti, embora ainda sentisse a frase da menina no peito.
Saímos pouco depois.
Dante acompanhou o carro até outra propriedade, menor, do mesmo grupo familiar. Havia uma cozinha simples, quartos próximos e uma sala com marcas de uso.
Bento perguntou se era uma viagem.
"É uma mudança por alguns dias", respondeu o pai.
"Tem café amanhã?"
"Tem", falei.
Ele assentiu e se deixou levar para o quarto.
Naquela noite, Theo acordou duas vezes.
Na segunda, encontrei-o sentado no corredor com uma meia na mão.
"Não acho a outra."
Procurei com ele.
A meia estava debaixo da cama.
Não perguntei por que precisava dela às três da manhã.
No dia seguinte, Rosa manteve os contatos com os profissionais que acompanhavam as crianças e avisou a escola da ausência. Eu fiz o café com os ingredientes que encontrara.
Bianca comeu numa ponta da mesa.
Não me dirigiu a palavra.
Dante saiu depois de explicar a ela quando voltaria.
Ao meio-dia, Rafael trouxe uma notícia para Rosa e para mim.
A equipe identificara um auxiliar administrativo, Mauro, que tivera acesso à transferência da chamada de Helena. Confrontado com os registros, admitira ter repassado a informação a um antigo superior da empresa que o contratara antes.
Esse homem trabalhava para um prestador ligado à Rede Sampaio.
Mauro dizia que não sabia que se tratava de uma testemunha.
Não cabia a nós decidir se era verdade.
Dante encaminhara o que havia sido apurado aos advogados. Mauro fora afastado do acesso à casa. Os aparelhos e registros seriam tratados pelos responsáveis pela investigação.
"Edson está bem?", perguntei.
"Falou com a Helena", respondeu Rafael. "A família também."
Só então percebi o quanto aguardava aquelas palavras.
À tarde, Theo se sentou perto de mim enquanto eu fechava uma caixa de biscoitos.
Não tinha interesse neles.
Ficou virando um carrinho sobre a mesa.
"O carro dele não era assim", disse.
Parei de dobrar o papel.
"De quem?"
Ele olhou para a porta.
"Do lugar da fumaça."
Deixei a caixa.
"Você quer falar com a Rosa?"
"Quero falar com você."
Meu coração bateu mais forte.
Sentei.
"Está bem."
Theo empurrou o carrinho até a borda.
"A mamãe falou para eu olhar. Ela estava no telefone. Disse que, se ela perguntasse depois, eu tinha que lembrar do carro."
"O que você lembra?"
Não ofereci uma cor, um modelo ou um nome.
Theo precisava falar com as próprias palavras.
"Era escuro. Tinha um pedaço vermelho atrás. Aqui."
Indicou a lateral do carrinho.
"Parecia um machucado."
Assenti.
Ele respirou pela boca.
"A mamãe disse uns números. Eu repeti. Depois teve barulho e eu esqueci."
"Não precisa lembrar agora."
"Mas eu lembro do vermelho."
"Está bem."
Theo me olhou, aflito.
"Eu fiz errado?"
"Não."
A resposta saiu firme.
"Você era uma criança num lugar assustador. Não tinha obrigação de resolver nada."
Ele ficou me olhando por alguns segundos.
Depois empurrou o carrinho para mim.
Guardei cada palavra sem pedir que contasse de novo.
Avisei Rosa e registrei, por escrito, o que ouvira. Dante recebeu a informação quando voltou. A equipe que acompanhava Theo ajudaria a decidir a forma adequada de lidar com aquilo.
Não houve perguntas no jantar.
Nem um desfile de fotografias para que o menino escolhesse um suspeito.
Dante beijou a cabeça do filho e perguntou sobre o desenho que ele fizera naquele dia.
Bianca assistiu a tudo.
Mais tarde, apareceu à porta da cozinha.
"Você contou para o papai?"
"Contei que Theo quis falar de uma lembrança. Não fiquei perguntando."
Ela encostou no batente.
"Eu achei que você ia embora."
Larguei o pano.
"Você pediu."
"Eu sei."
Sua voz falhou.
"Não queria que ele ouvisse."
Aproximei uma cadeira, mas não a obriguei a sentar.
"Você pode ficar com raiva de mim sem ter medo de que eu suma."
Bianca cobriu o rosto com uma mão.
Foi um gesto rápido, quase escondido.
Esperei.
Ela atravessou a cozinha e encostou a testa no meu ombro.
Não a abracei com força.
Só deixei os braços ao redor dela até que parasse de tentar respirar sem fazer barulho.
"Eu não quero outra mãe", sussurrou.
"Não precisa querer."
"Mas queria que você ficasse."
Fechei os olhos.
"Hoje eu fico."
Na noite seguinte, Dante me chamou para uma sala pequena, longe dos quartos.
Helena estava na tela do computador.
Explicou que a descrição de Theo fora encaminhada como uma possível pista, sem tratá-la como prova. Havia registros antigos preservados de um comércio próximo ao galpão.
Alguém já os havia recolhido na época, mas uma câmera lateral mostrava pouco e não recebera a mesma atenção das imagens da entrada principal.
Agora procuravam um detalhe específico.
Um carro escuro.
Uma marca vermelha junto à traseira.
Helena compartilhou uma imagem.
Granulada.
Parcial.
Ainda assim, reconheci a faixa vermelha cobrindo um reparo na lateral.
Eu estivera naquele carro.
Otávio dissera que alguém o atingira no estacionamento e que demoraria a trocar a peça.
Dante olhou para mim.
"Você conhece?"
"Conheço."
Helena manteve a voz calma.
"A placa foi confrontada com outros registros. O veículo era da empresa, mas estava destinado ao uso de uma pessoa naquele período."
Ela abriu a segunda página.
Meu antigo noivo aparecia numa autorização de retirada.
Otávio Sampaio.
Olhei para a data.
Naquela noite, ele me mandara uma mensagem dizendo que ficaria até tarde numa reunião.
Eu deixara comida pronta para quando chegasse.
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