"Ele Me Rejeitou. Os Filhos do Mafioso Me Escolheram." Parte 7 — Agora Todos Vão Ouvir
Parte 7 — Agora Todos Vão Ouvir
A voz de Teresa veio logo depois da de Otávio.
"Então espere até ela entregar os dois produtos que faltam."
Na tela, a assadeira continuava imóvel.
Meu antigo noivo respondeu:
"Não vou esperar até sábado."
"Você devia ter pensado nisso antes de marcar o casamento. Se ela sair com aqueles cadernos, quem termina a linha?"
Houve um ruído de passos.
Depois, Otávio disse:
"Eu converso com ela hoje. Amanhã resolvemos o trabalho."
Teresa soltou um suspiro impaciente.
"Não misture as coisas. Você pode não querer a mulher. A empresa precisa do que ela sabe."
A coordenadora levou a mão à boca.
Otávio chegou perto do equipamento, mas um funcionário do hotel se colocou entre ele e a mesa.
"Senhor, por favor."
"Desliga isso."
Ninguém desligou.
A última frase de Teresa atravessou o salão:
"E não retire meu nome da campanha. A agência já recebeu tudo."
O arquivo terminou.
Durante quatro anos, eu havia tentado compreender pequenos desconfortos. Uma piada sobre meu avental. Um comentário sobre meu prato. Um pedido para deixar outra pessoa falar quando chegassem os convidados importantes.
Agora, aquelas pequenas coisas estavam organizadas diante de mim.
Otávio não descobrira na quarta-feira que eu não cabia no futuro dele.
Só escolhera a quarta-feira para me informar.
Olhei para Teresa.
Ela segurava o corrimão da escada.
"Isso foi tirado de contexto", disse.
A mulher da agência fechou a pasta no colo.
"Qual é o contexto em que a senhora pede para manter seu nome numa receita que não criou?"
Teresa não respondeu.
Otávio virou para mim.
"Você tinha que trazer isso aqui?"
Senti os dedos frios em torno do celular.
"Você trouxe nossas fotografias para dizer que eu estava distorcendo uma discussão."
"Eu estava tentando proteger a nossa história."
"A sua versão dela."
Ele baixou a voz.
"Marina, nós podemos sair daqui e conversar."
Por muito tempo, aquela oferta teria parecido uma saída.
Uma sala reservada. Uma mão sobre meu ombro. A chance de encerrar o constrangimento sem incomodar mais ninguém.
Dessa vez, fiquei onde estava.
"Não temos mais uma relação para discutir."
A jornalista que falara com Helena ergueu a mão.
"A empresa mantém a acusação sobre os documentos?"
Teresa olhou para o filho.
Otávio procurou alguém no fundo do salão.
Um homem de terno cinza se aproximou e se apresentou como representante jurídico da Rede Sampaio. Disse que as questões seriam examinadas e pediu que nenhuma conclusão fosse antecipada.
Helena respondeu com calma:
"Então a empresa também deve parar de antecipar conclusões sobre minha cliente."
Entregou a ele uma cópia da comunicação que já havíamos enviado.
Eu não sabia qual seria o resultado de toda aquela discussão. Ainda haveria trabalho, documentos e pessoas tentando escapar das próprias palavras.
Mas ninguém naquele salão poderia dizer que eu inventara a conversa.
Uma porta lateral se abriu.
Paula apareceu com mais duas funcionárias da panificação. Eu sabia que ela viria acompanhar o evento, mas não a vira chegar.
Ela passou por Otávio sem olhar para ele.
"Marina."
Minha coragem vacilou quando ouvi sua voz.
"Você não precisava se aproximar."
"Eu queria."
Teresa deu um passo.
"Paula, vamos conversar amanhã."
Minha antiga auxiliar se virou.
"Pode ser por escrito?"
Uma das mulheres ao lado dela soltou uma risada nervosa.
Paula continuou:
"Eu vou responder pelo que gravei. Mas não vou dizer que ouvi outra coisa."
Teresa ficou olhando para as três.
Eu conhecia aquela tentativa de fazê-las se sentirem pequenas.
Só que elas não se afastaram.
Dante veio até mim quando os convidados começaram a sair das fileiras. Não tomou meu celular, não falou por cima de Helena.
Perguntou apenas:
"Terminou o que veio fazer?"
Olhei para a tela sem meu rosto ao lado de Otávio.
"Terminei."
Na saída, uma mulher pediu meu contato para encomendar pães para um café. Anotei o número, mas não fiz promessas.
Não queria transformar aquele momento numa feira de oportunidades.
Precisava sair antes que minhas pernas percebessem o quanto tinham tremido.
Otávio nos alcançou junto ao corredor dos elevadores.
"Você vai mesmo embora com ele?"
Dante parou.
Eu me virei primeiro.
"Vou embora com quem veio comigo."
"Você não conhece esse homem."
"Conheci você por quatro anos."
Otávio apertou a mandíbula.
"Vai descobrir que dinheiro não muda o que uma pessoa é."
"Eu descobri isso na sua família."
Ele olhou para Dante.
Esperou uma ameaça, talvez. Alguma coisa que lhe permitisse sair dali como vítima.
Dante apenas chamou o elevador.
As portas se abriram.
Entrei.
Quando se fecharam, minhas mãos começaram a tremer.
Dante percebeu.
"Posso?"
Indicou a mão que eu mantinha sobre a pasta.
Assenti.
Seus dedos envolveram os meus sem apertar.
Eu olhei para aquele gesto até chegar à garagem.
No carro, chorei.
Sem delicadeza. Sem conseguir explicar o que doía mais.
Dante permaneceu ao meu lado enquanto Helena telefonava para confirmar que Paula chegara em segurança à casa de uma colega.
Depois me entregou um lenço.
"Eu achei que ia me sentir melhor", falei.
"Você acabou de ouvir o que ele sabia enquanto você planejava um casamento."
Passei o lenço pelo rosto.
"Eu devia ter percebido."
"Ele devia ter sido honesto."
Fechei os olhos.
Foi a primeira frase daquela noite que não me pediu nada.
Quando chegamos à propriedade, havia uma luz acesa na cozinha.
Bianca estava à mesa com Rosa.
Levantou assim que entrei.
"Demorou."
"Demorou."
Ela examinou meu rosto inchado.
"Deu errado?"
Deixei a pasta numa cadeira.
"Algumas coisas deram certo. Outras ainda vão levar tempo."
Bianca assentiu, aceitando uma resposta que não fingia resolver tudo.
Pegou uma caneca.
"Tem chá."
Segurei a alça com as duas mãos.
Ela havia escolhido a caneca azul que eu usava de manhã.
Não comentou.
Na manhã seguinte, a Rede Sampaio retirou a nota anterior e publicou uma correção breve. A autoria da linha seria revista. As questões profissionais estavam em discussão.
Helena me pediu paciência com o restante.
Passei o dia entre o trabalho, mensagens de clientes e uma conversa longa com Paula, que não pretendia voltar à loja antes de receber orientação sobre sua situação.
À tarde, um número desconhecido ligou.
Não atendi.
Uma mensagem apareceu.
Meu nome é Edson Ferreira. Trabalhei no galpão onde Elisa Bellandi morreu.
Fiquei imóvel diante da pia.
Outra mensagem veio.
Vi o vídeo do evento. Preciso falar, mas não com ele me procurando.
Enviei a conversa a Helena e telefonei.
Ela pediu que eu não marcasse nenhum encontro sozinha.
Respondi ao homem apenas depois de combinarmos como proceder.
Ele aceitou uma chamada breve com nós duas.
Sua voz era áspera, cansada.
"Eu cuidava da manutenção. Naquela semana, me mandaram deixar uma parte do sistema de alarme desligada."
Helena perguntou se ele tinha algo além da lembrança.
"Mensagens. Ordens de serviço. Eu guardei porque achei que iam jogar tudo nas minhas costas."
Apertei o telefone contra a orelha.
"Por que agora?"
"Porque ontem eu vi a Teresa dizendo que a senhora estava confusa. Eles fizeram isso comigo também."
Edson respirou fundo.
"Eu entrego o que tenho. Mas primeiro vocês precisam me dizer quem vai impedir que eles cheguem à minha família."
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