"Ele Me Rejeitou. Os Filhos do Mafioso Me Escolheram." Parte 5 — A Receita Que Eles Roubaram
Parte 5 — A Receita Que Eles Roubaram
Afastei os dedos da fotografia.
"Posso mostrar esta ao seu pai?"
Bianca puxou o álbum para mais perto.
"Por quê?"
"Conheço uma das pessoas que aparecem aqui. Quero perguntar uma coisa a ele."
"Você conhece o homem do incêndio?"
A pergunta me gelou.
"Não sei quem foi responsável pelo incêndio, Bianca."
Ela baixou os olhos.
"Eu também não."
Theo tentou virar a página, mas a irmã segurou o plástico.
Não insisti.
"A gente pode guardar o álbum agora."
Esperei que os dois recolhessem as fotografias. Depois procurei Dante no escritório.
Rafael estava saindo quando cheguei. Levava uma pasta e interrompeu a conversa no meio de uma frase.
Dante olhou para mim.
"Aconteceu alguma coisa?"
"Vi uma fotografia no álbum das crianças. Você e Elisa na frente de um galpão. Álvaro Sampaio estava lá."
Ele pousou a caneta.
"Bianca mostrou?"
"Theo queria mostrar o álbum. Não perguntei sobre o incêndio."
"Obrigado."
Entrei mais um passo.
"O pai de Otávio tinha negócios com você?"
"Tinha."
"No lugar onde Elisa morreu?"
Dante apoiou os antebraços na mesa.
"O galpão era usado por uma operação de armazenamento da qual empresas dos dois grupos participavam."
"Por que ninguém me disse?"
"Porque eu não sabia que você ia entrar na minha casa até Celina telefonar. E porque conhecer o filho dele não faz de você responsável pelo pai."
A resposta era razoável.
O silêncio depois dela, não.
"Quando Otávio viu você no portão, ficou assustado."
"Eu percebi."
"Ele sabe de alguma coisa?"
"Não posso responder por ele."
Cruzei os braços.
"Tem alguma razão para eu não continuar aqui?"
Dante se levantou, mas manteve a mesa entre nós.
"Se eu souber de um risco específico para você, vou dizer. O incêndio continua sendo uma questão que minha família não conseguiu encerrar."
"Não quero que as crianças virem fonte de informação."
"Nem eu."
Assenti.
Ao sair, ouvi meu celular vibrar.
Paula enviara uma mensagem com um link.
Não lê sozinha.
Abri assim mesmo.
A página oficial da Rede Sampaio publicara uma nota sobre o afastamento de uma profissional do setor de panificação.
Meu nome não aparecia inteiro.
Não precisava.
O texto falava em documentos internos retirados sem autorização, informações confidenciais e uma situação pessoal que teria afetado decisões profissionais.
Abaixo, alguém comentara:
É a ex do Otávio?
Outra pessoa respondera com uma fotografia minha na inauguração.
Farinha na manga. Cabelo preso. O rosto cansado.
Sentei no banco do corredor.
Ainda estava lendo quando surgiu uma mensagem de Teresa.
Você pode evitar um desgaste maior. Devolva o material e venha conversar.
Fiz capturas da publicação, dos comentários e da mensagem.
Depois telefonei para Celina.
"Não responda com raiva", disse ela.
"Já estou com raiva."
"Pode ficar. Só não entrega a sua defesa junto."
Passei o resto da tarde organizando o que tinha.
Separei os cadernos anteriores à Rede Sampaio. Anotei as datas dos testes. Salvei os e-mails em que Otávio elogiava os ajustes e pedia minha aprovação antes de mudar qualquer ingrediente.
Encontrei uma mensagem de Teresa:
Marina, envie sua receita final até sexta. O fotógrafo precisa dos pães prontos.
Sua receita.
Duas palavras que agora importavam mais que todos os elogios.
Celina veio à propriedade na terça-feira.
Bento a recebeu perguntando se ela também sabia fazer o bolo de maçã.
"Fui eu que ensinei", respondeu.
Ele me olhou, desapontado com a falta de originalidade.
Quase ri.
Rosa abraçou Celina na entrada da cozinha. As duas ficaram um tempo sem falar.
Dante apareceu pouco depois.
"Dona Celina."
"Você está magro."
Era a única pessoa que eu conhecia capaz de receber um Bellandi com uma avaliação da cintura.
Ele beijou o rosto dela.
Celina colocou uma pasta diante de mim.
"Recibos da sua balança, fotos dos cursos e cópias das receitas que você me mandava quando ainda trabalhava na padaria."
Folheei os papéis.
Uma fotografia mostrava uma Marina de vinte e dois anos segurando uma assadeira. Na parede, atrás de mim, havia um calendário antigo.
Meus primeiros brioches estavam ali.
"Você guardou isso?"
"Você achou que eu jogaria fora?"
A garganta fechou.
Celina tocou meu braço.
"Agora me mostra o que eles estão dizendo."
Dante ofereceu o contato de uma advogada, Helena Prado.
Aceitei uma consulta e pedi que qualquer trabalho adicional fosse combinado diretamente comigo.
Ele concordou sem discussão.
Helena me ouviu por videochamada, examinou o material e pediu que eu não retirasse conclusões antes de reunir os documentos do vínculo profissional.
"Você não precisa provar tudo hoje", disse. "Precisa preservar o que existe e parar de negociar por mensagens soltas."
Com a ajuda dela, enviei uma resposta formal à empresa. Pedi que esclarecessem quais documentos alegavam ter sido retirados e registrei minha contestação à campanha.
Depois fechei o computador.
Não queria passar os próximos meses apenas defendendo o passado.
Na minha folga, voltei à pousada de Lurdes.
Ela precisava de quatro bolos por semana e perguntou quanto eu cobraria.
Antes, eu teria dito para pagar o que achasse justo.
Dessa vez, fiz as contas.
Ingredientes. Embalagem. Gás. Trabalho.
Lurdes leu o valor.
"Fecha."
Fiquei olhando para a folha.
Uma encomenda pequena.
Meu nome.
Meu preço.
Quando contei a Celina, ela pediu vinte pães para uma antiga cliente. Outra pessoa perguntou se eu faria um aniversário.
Não aceitei tudo.
Montei uma agenda que cabia nas minhas folgas e combinei com Rosa o uso da cozinha. Os ingredientes particulares ficariam separados. Nada seria pago pela casa.
Dante me encontrou colando etiquetas numa caixa.
"Marina Duarte", leu.
"Meu nome ainda está disponível."
Ele pegou uma etiqueta sem arrancá-la da folha.
"Gostei."
"Do nome?"
"De você ter colocado."
Seu olhar demorou em mim.
Desviei para a caixa antes que ele percebesse o efeito.
Naquela noite, Paula pediu para telefonar.
Atendi no quarto.
"A Teresa está procurando tudo que você fazia sozinha", disse. "Mandou apagar suas anotações do mural."
"Você está bem?"
"Estou trabalhando."
Não era a mesma coisa.
Paula respirou fundo.
"Tem um arquivo que preciso mandar. Eu gravei os pães antes da inauguração, lembra? Para fazer aquele vídeo curto."
Lembrava. Eu mesma pedira que mostrasse a textura do miolo.
"O celular ficou apoiado perto da porta do serviço. Gravei mais do que pretendia."
Sentei na cama.
"O quê?"
"Olha primeiro."
O arquivo chegou minutos depois.
Nos primeiros segundos, só havia uma assadeira e a voz de Paula perguntando onde estava a faca.
Depois alguém chamava seu nome.
A imagem permanecia parada.
Reconheci duas vozes fora do enquadramento.
Assisti até o fim.
Voltei ao começo.
Meu dedo estava tão rígido que errei o botão três vezes.
Telefonei novamente.
"Você guardou o original?"
"Guardei."
"Não apaga. Nem manda para mais ninguém por enquanto. Vou falar com a Helena."
Paula ficou em silêncio.
"Eu devia ter contado antes."
"Você não sabia o que significava."
"Agora sei."
No dia seguinte, Teresa publicou um convite para a apresentação da nova linha de panificação.
Meu nome aparecia na lista de convidados especiais.
Não haviam pedido minha autorização.
Pouco depois, Otávio escreveu:
Você pode encerrar isso com elegância. Compareça, devolva o material e diga que houve um mal-entendido. Ainda podemos resolver.
A segunda mensagem chegou antes que eu terminasse de ler.
Se não vier, a empresa vai continuar tomando as medidas necessárias.
Enviei tudo a Helena.
Então procurei Dante.
Ele leu a tela e me devolveu o celular.
"Você não precisa ir."
"Eu sei."
"E vai?"
Olhei para meu nome na publicação.
Eles ainda acreditavam que poderiam escrevê-lo onde quisessem.
"Vou."
Dante apoiou uma mão na bancada.
"Para fazer o quê?"
"Corrigir a apresentação."
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