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"Ele Me Rejeitou. Os Filhos do Mafioso Me Escolheram." Parte 2 — A Casa Onde Ninguém Comia

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Parte 2 — A Casa Onde Ninguém Comia

"Por quê?"

Lurdes olhou para o motorista antes de responder.

"Você não sabe quem é Dante Bellandi?"

Conhecia o sobrenome.

Já o vira em notícias que Otávio fechava depressa no celular. Empresas de transporte, uma investigação, fotografias de homens entrando em carros com os rostos cobertos.

"Vou fazer uma entrevista", falei.

"Na casa dele."

O motorista tirou um cartão do bolso.

"Meu nome é Sérgio. O endereço e o telefone da administração estão aqui. A senhora pode enviar para quem quiser."

Peguei o cartão.

Ele não tentou me apressar. Isso me ajudou mais do que qualquer garantia teria ajudado.

Telefonei para Celina diante dos dois.

"Você me mandou para a casa de um mafioso?"

Sérgio voltou os olhos para a rua.

Celina suspirou.

"Eu mandei você conhecer três crianças que precisam de alguém competente na cozinha."

"E esqueceu a parte do pai?"

"Não esqueci. Sabia que você desligaria antes de ouvir."

"Talvez eu tivesse razão."

"Talvez. Você não deve nada a ele, Marina. Nem a mim."

Olhei para minhas mãos. Ainda havia uma pequena ferida no dedo onde a aliança raspara.

"Vou conhecer o lugar. Só isso."

Enviei a localização para Celina e Lurdes antes de entrar.

A estrada subia entre árvores e terrenos cercados. Depois de vinte minutos, um portão de ferro apareceu numa curva.

Dois homens se aproximaram do carro.

Um deles carregava uma arma.

Meu estômago apertou.

Sérgio desligou o motor.

"Pode desistir agora. Eu levo a senhora de volta."

A oferta era tão direta que fiquei procurando o truque.

Não encontrei.

"Quero saber o que vão fazer com a minha bolsa."

"Conferir o conteúdo."

"Na minha frente."

Ele assentiu.

Desci segurando a alça com força. O segurança examinou minhas formas, minha balança e os cadernos.

"Facas?"

"Não trouxe."

Ele ergueu o saco de canela.

"Isso?"

"Canela. Se quiser, pode cheirar."

Sérgio virou o rosto. Não soube se escondia um sorriso.

A casa era grande, feita de pedra clara, com janelas altas e um terraço voltado para o vale. Nada ali parecia improvisado. Nem os homens posicionados nas entradas.

Uma mulher de cabelos grisalhos me recebeu.

"Sou Rosa. Administro a casa."

Conduziu-me por um corredor onde não havia brinquedos, sapatos esquecidos ou marcas nas paredes.

A cozinha parecia uma fotografia de revista.

Panelas de cobre. Bancadas limpas. Uma cesta de frutas intocadas.

Perto da janela, três crianças me observavam.

A menina estava à frente dos meninos, um braço estendido de leve, como se pudesse impedir minha aproximação.

"Oi. Eu sou Marina."

O menor se escondeu atrás dela.

"Bianca", disse a menina. Apontou com o queixo. "Theo. Bento."

"Vocês querem que eu fique aqui ou preferem que eu comece do outro lado?"

Bianca franziu a testa.

"Você é que vai cozinhar."

"É. Mas posso cozinhar sem ficar em cima de vocês."

Coloquei minha bolsa numa bancada distante.

Rosa entregou uma pasta fina. Havia orientações alimentares, horários, contatos e uma lista do que Bento vinha aceitando.

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"Médica e nutricionista", explicou. "A psicóloga também acompanha."

Li antes de tocar em qualquer ingrediente.

Bento não estava sem comer. Aceitava pequenas quantidades de alguns alimentos e um complemento, mas recusava as refeições com uma frequência que preocupava a equipe.

"Ele não precisa provar nada hoje", falei.

Bianca me observou com mais atenção.

"O último cozinheiro disse que ele só estava fazendo birra."

Fechei a pasta.

"Eu não estava aqui. Mas não vou dizer isso."

Escolhi maçãs, farinha e manteiga.

"O que vai fazer?", perguntou Theo.

"Um bolo pequeno."

"Com cobertura?"

"Sem. Se vocês quiserem, separo um pouco de maçã antes de misturar."

"Eu não gosto de canela", disse Bianca.

Peguei duas tigelas.

"Então uma parte fica sem."

Ela pareceu desconfiar daquela solução simples.

Enquanto eu trabalhava, Bento saiu de trás da irmã. Primeiro ficou junto à mesa. Depois, perto do armário.

Não o chamei.

Theo subiu num banco para enxergar a tigela.

"Você faz isso sem receita?"

"Algumas coisas. Outras eu consulto."

"Minha mãe tinha um caderno."

A faca parou por um instante sobre a maçã.

"Eu também tenho."

Bianca segurou o ombro dele.

"Mexe no seu desenho, Theo."

Ele desceu do banco sem discutir.

Não perguntei pela mãe.

Quando o bolo começou a perfumar a cozinha, Bento encostou dois dedos na ponta do meu avental.

"Vai demorar?"

"Uns dez minutos. Depois precisa esfriar."

"Eu posso comer?"

"Não."

A voz veio da porta.

O menino soltou meu avental.

Virei com a espátula na mão.

Dante Bellandi ocupava a entrada sem precisar se apoiar em nada. Terno escuro, camisa aberta no pescoço, cabelo preto cortado curto. Uma linha de tinta desaparecia sob a gola.

Eu o reconheci das fotografias.

Ao vivo, o que impressionava não era o tamanho. Era o efeito que sua chegada provocava.

Rosa se endireitou. Theo recuou. Bianca apertou os lábios.

"O senhor está proibindo um pedaço de bolo?", perguntei.

Seu olhar veio para mim.

"Estou perguntando o que há nele."

"Não. O senhor disse não."

Houve uma pausa.

Ouvi o relógio sobre a geladeira.

"A orientação dele está na pasta", disse Dante.

"Eu li. A Rosa conferiu os ingredientes comigo. Não vou oferecer nada sem seguir o que foi combinado."

Ele olhou para Rosa, que confirmou.

Abaixou-se diante do filho.

"Bento, eu precisava conferir."

O menino esfregou a ponta do sapato no piso.

"Eu quero o dela."

Dante ficou imóvel.

Era uma frase pequena. Mesmo assim, Rosa levou os dedos à boca.

O homem olhou para o forno e depois para mim.

"Ele não pede uma comida nova há seis dias."

"Então vamos deixar o pedido continuar sendo dele."

Esperei o bolo esfriar. Cortei uma lasca e coloquei num prato pequeno, ao lado de uma cadeira vazia.

Bento olhou para o pai.

Dante se afastou da bancada.

Sentei do outro lado da cozinha e comecei a lavar a tigela.

O menino cheirou o bolo. Tocou com a unha. Tirou um farelo.

正文2

Ninguém falou.

Quando levou o primeiro pedaço à boca, Bianca virou para a janela. Vi seus ombros baixarem.

Bento comeu três pedacinhos.

Depois empurrou o prato.

"Chega."

"Está bem", respondi.

Dante olhou para a fatia restante como se precisasse se impedir de insistir.

Acabou apenas perguntando:

"Água?"

O menino assentiu.

Mais tarde, as crianças saíram com Rosa. Dante permaneceu comigo.

"Celina disse que você é boa."

"Em cozinhar?"

"Em perceber quando alguém está mentindo que não tem fome."

A referência me atingiu num lugar antigo.

"Ela fala demais."

"Falou o suficiente."

Ele colocou uma proposta impressa sobre a bancada.

Doze mil reais por mês. Quarto privativo. Alimentação. Folgas.

Li o valor duas vezes.

"É muito dinheiro para fazer bolo."

"É para organizar uma cozinha que funcione, morar numa propriedade com restrições de segurança e atender três crianças com necessidades diferentes."

"Eu não sou terapeuta."

"Não estou contratando uma."

"Nem babá."

"Rosa coordena os cuidados. Há outros profissionais."

Passei os olhos pelo restante.

"Quero os horários definidos. Folgas reais. Meu telefone comigo. E não vou pedir autorização para falar com as pessoas da minha vida."

"Pode acrescentar."

"Eu ainda não disse que aceito."

"Eu ouvi."

Havia algo desconcertante em precisar discutir menos com aquele homem do que discutira durante anos com Otávio.

Pedi uma noite para pensar.

Rosa mostrou um quarto de hóspedes. Avisei Celina, conversei com Lurdes e combinei buscar minha bolsa no dia seguinte, caso ficasse.

Pouco antes das seis da manhã, desci para preparar um teste de café.

Bianca já estava na cozinha.

"Ele pediu você", disse.

Bento apareceu atrás dela, de pijama, carregando um dinossauro. Theo vinha logo depois.

Fiz pequenos pães macios, conforme as orientações, e deixei opções separadas.

Quando Dante chegou, os três estavam sentados à bancada.

Bento segurava meio pão.

Dante parou na porta.

Não sorriu. Mas seu rosto perdeu, por um instante, aquela rigidez que parecia fazer parte dos ossos.

Colocou um envelope ao lado da proposta.

"Adiantamento, se aceitar."

Empurrei-o de volta.

"Primeiro o contrato."

Ele assentiu.

Um homem entrou depressa. Aproximou-se de Dante e falou baixo, mas a cozinha estava silenciosa.

Reconheci o nome antes de ouvir o resto.

Otávio Sampaio.

Dante olhou para mim.

"Há um homem no portão dizendo que veio buscar a noiva."

Bianca soltou o pão.

Dante continuou, com uma calma que não tranquilizava ninguém:

"Por que ele está dizendo que você vai embora com ele?"

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