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"Ele Me Rejeitou. Os Filhos do Mafioso Me Escolheram." Parte 1 — Três Dias Antes do Sim

正文开头

Parte 1 — Três Dias Antes do Sim

"Eu preciso de uma mulher que combine com a vida que vou ter."

Otávio disse isso olhando para a farinha na manga do meu vestido.

Depois, seus olhos desceram até minha cintura.

Atrás dele, um fotógrafo organizava os convidados sob o letreiro dourado da Rede Sampaio. A três dias do nosso casamento, meu noivo parecia mais preocupado com a possibilidade de alguém nos fotografar juntos do que com o que acabara de dizer.

Apoiei a assadeira no balcão.

"Repete."

"Marina, não começa."

"Você quer cancelar o casamento?"

Ele olhou por cima do meu ombro. Duas funcionárias recolhiam taças a poucos metros. Uma delas parou.

"Podemos conversar como adultos?"

"Foi você que escolheu conversar aqui."

Havia passado onze horas naquela cozinha. Quando a câmara de fermentação apresentou defeito, recuperei uma fornada inteira que serviria de amostra para os investidores. Não almoçara. Meu cabelo estava preso com uma caneta porque o elástico arrebentara às cinco da tarde.

Otávio chegara uma hora antes, com o terno que eu ajudara a escolher.

"A empresa está entrando em outra fase", disse. "Vamos abrir mais três lojas. Minha família vai aparecer na imprensa. Haverá eventos, viagens, encontros com gente importante."

"E você descobriu na quarta-feira que eu não sirvo para a sua agenda de sábado?"

"Não reduz tudo a isso."

"Então explica."

Ele passou a mão pela gravata.

"Você não gosta desse ambiente. Não se preocupa com essas coisas. Olha para você, Marina."

Olhei.

O vestido preto era o mesmo da nossa última comemoração de aniversário. Ele dissera que eu estava linda. Agora havia farinha no tecido e uma pequena queimadura no meu pulso.

"Eu estava salvando o lançamento da sua padaria."

"Não estou desmerecendo seu trabalho."

"Está desmerecendo a mulher que fez o trabalho."

Seu rosto endureceu.

"É exatamente disso que estou falando. Você transforma qualquer conversa numa acusação."

Puxei a aliança de noivado.

Ela prendeu na articulação inchada. Por um segundo, achei que não conseguiria tirá-la, e aquela possibilidade me pareceu insuportável. Girei o aro até sentir a pele arder.

Coloquei a aliança ao lado de uma taça com o nome Sampaio gravado.

"Então comece essa vida sem mim."

Otávio segurou meu antebraço.

"Não precisa fazer uma cena."

Olhei para a mão dele até que me soltasse.

"Eu ainda nem comecei."

Peguei minha bolsa sob a bancada e atravessei o salão de serviço. Tinha de passar pela seção de pães para chegar ao vestiário. Foi ali que vi o cartaz.

Uma fotografia dos meus brioches ocupava quase toda a placa.

Abaixo, em letras brancas, estava escrito:

Uma criação de Teresa Sampaio. O sabor das nossas tradições.

Parei tão bruscamente que uma funcionária quase bateu em mim com um carrinho.

Teresa nunca havia pesado farinha na minha presença.

A receita levara sete meses para ficar pronta. Eu testara proporções depois do expediente, anotara perdas, ajustara o tempo de descanso. Otávio acompanhara tudo. Até reclamara das vasilhas espalhadas na nossa cozinha.

正文1

A mãe dele surgiu entre duas prateleiras com uma taça na mão.

"Marina, querida. Você deveria ter trocado de roupa."

Apontei para o cartaz.

"O que é isso?"

Teresa acompanhou meu gesto e sorriu sem alegria.

"A campanha."

"A receita é minha."

"A receita foi desenvolvida para a empresa."

"Então por que não diz isso? Por que diz que foi criada pela senhora?"

Ela chegou mais perto.

"Hoje não é uma boa noite para discutir detalhes."

Eu conhecia aquele tom. Teresa o usava quando queria que alguém menor que ela desaparecesse sem obrigá-la a pedir.

"Para mim, parece a noite perfeita."

Otávio nos alcançou.

"Marina, vamos para o escritório."

"Vocês mandaram imprimir isso quando?"

Nenhum dos dois respondeu.

Olhei outra vez para o cartaz. Impressão profissional. Fotografia tratada. Estrutura montada.

Não fora uma decisão daquela tarde.

Otávio sabia que não ia se casar comigo enquanto eu ainda experimentava flores para o buquê.

E, mesmo assim, pedira que eu terminasse a receita do lançamento.

Senti vontade de vomitar.

Em vez disso, tirei uma fotografia do cartaz.

Teresa baixou a taça.

"Não faça nada de que vá se arrepender."

"Eu já fiz. Foram quatro anos."

No vestiário, encontrei Paula, minha auxiliar, sentada no banco com o avental no colo.

"Eu ouvi", disse ela.

Não perguntou se eu estava bem. Ainda bem.

Abri meu armário e retirei os dois cadernos de receitas. Um tinha a capa presa com fita adesiva. O outro guardava, entre as páginas, um bilhete de Dona Celina:

Não coloque mais farinha só porque a massa está grudando. Algumas coisas precisam de tempo.

Fotografei as etiquetas dos testes que eu mesma havia datado. Salvei no celular os e-mails de aprovação recebidos na minha conta pessoal.

Paula apontou para o painel de produção.

"E a fornada das sete?"

"Está pronta para assar. A das nove ainda precisa descansar."

"A Teresa vai mandar acelerar."

"Não deixa. Vai estragar."

Era absurdo continuar pensando nos pães. Mas aquelas instruções eram minhas, e eu não queria que Paula pagasse pelo que Otávio fizera.

Ele apareceu à porta quando fechei a bolsa.

"Os cadernos ficam."

"São meus."

"Você anotou processos da empresa."

"Anotei receitas antes de ser contratada, durante o contrato e em casa. Se houver uma discussão sobre o que pertence a quem, vamos resolver com ajuda. Você não vai arrancar minha bolsa."

Paula se levantou.

Otávio percebeu que não estávamos sozinhos.

"Você está dificultando tudo."

"Eu não vou desenvolver mais nenhum produto para vocês. Sobre meu emprego, falamos por escrito amanhã."

Passei por ele.

Na rua, a inauguração continuava. Música, risadas, manobristas correndo sob a garoa.

Entrei num carro de aplicativo e dei o endereço de casa.

Só chorei quando o motorista perguntou se podia ligar o ar-condicionado.

Aquele cuidado minúsculo desfez o que ainda me mantinha inteira.

Cheguei ao apartamento e tirei duas bolsas do alto do armário. Separei minhas roupas, os documentos, as formas pequenas e a balança que Celina me dera aos vinte anos.

正文2

O vestido de noiva estava pendurado na porta do quarto.

Não consegui tocá-lo.

Telefonei para Celina às onze e quarenta.

Ela atendeu no terceiro toque.

"Quem morreu?"

"Meu casamento."

Houve silêncio. Depois, ouvi o colchão ranger.

"Conta."

Contei sem conseguir manter a ordem. O vestido, a farinha, o cartaz, a aliança.

Celina não interrompeu.

Quando terminei, disse:

"Você vai comer alguma coisa antes de tomar qualquer decisão."

"Não consigo."

"Então toma água. Eu fico na linha."

Fiquei sentada no chão da cozinha, segurando um copo, enquanto ela respirava do outro lado.

Não havia outra pessoa a quem ligar.

Celina me contratara aos dezessete anos, quando eu dormia de favor na casa de uma prima e dizia que não estava com fome para economizar. Ensinara-me a trabalhar, cobrar e não aceitar que um cliente gritasse comigo.

A última lição levara mais tempo.

"Tenho uma conhecida com uma pousada pequena perto de Santo Antônio do Pinhal", disse. "Ela precisa de ajuda por alguns dias. Você pode descansar lá e pensar."

"Não quero fugir."

"Descansar não é fugir. E ficar nesse apartamento esperando ele voltar também não é coragem."

Comprei a passagem antes de mudar de ideia.

Na manhã seguinte, enviei à Rede Sampaio um pedido para que qualquer comunicação profissional fosse feita por e-mail. Otávio telefonou oito vezes. Respondi apenas por mensagem:

O casamento está cancelado. Não venha me procurar.

Depois bloqueei as chamadas, mas mantive o número para receber mensagens por escrito.

Passei quatro dias na pousada de Lurdes.

Fiz bolos para o café da manhã em troca da hospedagem, procurei vagas e descobri que as poucas cozinhas da região já tinham equipes completas.

No quinto dia, Celina telefonou novamente.

"Uma família precisa de cozinheira. Trabalho com moradia. Três crianças."

"Como você conhece essa família?"

"Trabalhei para eles muitos anos atrás."

"São boas pessoas?"

Ela demorou um pouco.

"As crianças são."

Sentei na cama.

"Celina."

"O pai sabe que você vai para uma entrevista. Você pode recusar. Eu mesma vou buscar você, se precisar."

Lurdes aceitou guardar uma das minhas bolsas.

Uma hora depois, um carro preto estacionou diante da pousada.

O motorista saiu, conferiu meu nome e abriu a porta traseira.

"Senhora Marina Duarte? Vim levá-la à propriedade Bellandi."

Atrás de mim, Lurdes deixou cair a colher dentro da xícara.

Segurou meu braço antes que eu descesse o primeiro degrau.

"Bellandi?"

O motorista esperou sem demonstrar impaciência.

Lurdes baixou a voz.

"Marina, por favor. Não entre nesse carro."

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