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"Ela Era Só Minha Faxineira. Declarei Guerra Por Ela." Capítulo 10 — O último dono da casa

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Capítulo 10 — O último dono da casa

Camila virou o bloco de anotações na minha direção.

“Você não vai negociar a fuga dele.”

“Não vou.”

“Nem entregar documentos em troca de outros.”

Olhei para o caderno de Paulo.

“Os originais ficam com você.”

Helena puxou a cadeira para mais perto da mesa.

“E ele não vai conseguir usar minha mãe como condição para nada.”

Teresa assentiu.

Aquela foi a primeira vez que a vi concordar sem olhar antes para a porta.

Liguei para o advogado que acompanhava os assuntos do grupo e pedi que viesse. Depois, solicitei à equipe de auditoria a separação de um conjunto de registros que eu havia evitado discutir até então.

Contratos paralelos.

Pagamentos sem serviço correspondente.

Ordens que tinham passado por mim.

Meu pai não era o único nome nos arquivos.

Camila percebeu o que eu estava fazendo antes de os documentos chegarem.

“Isso pode mudar sua situação.”

“Eu sei.”

Helena me observou do outro lado da mesa.

Não tentou me absolver.

Agradeci em silêncio por isso.

Na madrugada, meu advogado chegou com uma pasta e um rosto que foi ficando mais fechado à medida que eu falava.

“Precisamos analisar cada registro.”

“Analise. Mas preserve tudo.”

“Você entende que não basta dizer que seu pai iniciou o esquema?”

“Entendo.”

Assinei as autorizações necessárias.

Entreguei os acessos que ainda estavam sob meu controle.

Não pedi que separassem primeiro o que me favorecia.

Quando terminamos, Helena me encontrou na varanda.

O céu começava a clarear.

“Você vai perder a empresa?”

“Talvez parte dela. Talvez o controle.”

“E pode ser preso?”

Olhei para as mãos dela.

O pulso ainda estava imobilizado.

“Posso.”

Helena respirou devagar.

Eu quis tocar seu rosto.

Esperei.

Ela se aproximou primeiro.

“Eu não quero que você faça isso para eu ficar com você.”

“Não estou fazendo por uma promessa.”

“Então por quê?”

Pensei nas ordens que tinha assinado sem perguntar o bastante. Nos homens que temiam meu nome. Na facilidade com que meu pai havia transformado minhas estruturas em ferramentas contra ela.

“Porque eu não posso exigir que todo mundo conte a verdade e continuar escolhendo qual parte da minha esconder.”

Helena tocou minha mão.

Ficamos assim por alguns segundos.

Nenhum de nós prometeu que seria fácil.

Na manhã seguinte, Camila e meu advogado encaminharam os novos materiais. A ameaça de destruição no armazém foi informada às autoridades que já acompanhavam o caso.

A resposta não veio na forma de um plano que eu pudesse comandar.

Veio na forma de limites.

Eu não levaria homens armados para invadir o local. Não decidiria quando ou como ocorreria uma intervenção. Não usaria a conversa com meu pai como autorização para arrastar outras pessoas para o risco.

Ainda assim, precisava responder ao convite.

Augusto continuava telefonando.

Atendi no fim da manhã.

“Estou indo.”

“Sem Raul.”

“Você quer conversar comigo ou contar meus acompanhantes?”

“Quero saber se meu filho ainda consegue obedecer a uma instrução simples.”

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Olhei para Helena, sentada diante de mim.

“Seu filho sabe ouvir. Obedecer é outra coisa.”

Ele desligou.

O encontro ficou para o começo da tarde.

Helena não entraria no armazém.

Foi a decisão dela depois de revisar a situação com Camila. Permaneceria num ponto de apoio distante da entrada, com Raul, para ajudar a identificar qualquer material relacionado às caixas antigas.

Teresa e Gabriel ficaram na casa protegida.

Bianca permaneceu com os auditores.

Antes de sair, Gabriel me chamou.

“Você vai trazer ele vivo?”

A pergunta me fez parar.

“É o que eu quero.”

“Minha irmã também.”

“Eu sei.”

Ele assentiu e voltou para perto da mãe.

Não havia admiração no gesto.

Havia uma cobrança.

Eu a levei comigo.

O armazém tinha a fachada descascada e duas carretas estacionadas junto ao muro. Um portão menor estava aberto.

Entrei sem a pasta de documentos.

Meu pai esperava num escritório elevado, de onde se via parte do galpão.

Otávio estava junto à mesa.

Quando me viu, fechou um computador.

Augusto apontou para uma cadeira.

“Você demorou.”

Não sentei.

“Mostre o que quer entregar.”

Ele soltou uma risada curta.

“Você chega aqui como comprador?”

“Você disse que tinha documentos.”

Meu pai abriu uma gaveta e retirou uma pasta velha.

Reconheci o código na capa.

Era um dos números anotados por Paulo.

“Existem coisas que sua querida Teresa nunca entendeu”, disse. “Ela achou que meia dúzia de papéis podia derrubar uma estrutura inteira.”

“E você matou o marido dela.”

“Paulo decidiu transportar o que não devia.”

A frase fez Otávio virar o rosto.

Meu pai percebeu.

“Não fique nervoso. Dante conhece a vida.”

Eu conhecia.

Foi por isso que não lhe dei a reação que esperava.

“Quem alterou a rota dele?”

Augusto fechou a pasta.

“Você não veio investigar vinte anos atrás. Veio resolver seu futuro.”

Otávio colocou uma folha sobre a mesa.

Uma declaração.

Li as primeiras linhas.

O documento afirmava que as decisões administrativas e operacionais dos últimos anos haviam sido tomadas exclusivamente por mim.

Havia espaços para assinatura e data.

“Você quer que eu assuma tudo.”

“Você já dirige a empresa”, meu pai respondeu. “Eu sou um homem aposentado.”

Olhei para Otávio.

“Foi você que manteve as credenciais.”

Ele não respondeu.

“Foi você que autorizou a transferência de Helena.”

Augusto bateu dois dedos na mesa.

“Olhe para mim.”

Continuei olhando para Otávio.

“A foto. A ordem do hospital. Leandro no galpão. Quantas partes você organizou?”

O administrador puxou a folha de volta.

“Não assine se não quiser.”

Era a primeira frase dele desde minha chegada.

Havia suor junto à linha do cabelo.

Meu pai se levantou.

“Eu mandei dar uma lição na menina. Uma provocação com o nome de Orlov, e você faria o resto. Tiraria aquele homem do caminho sem que eu precisasse mexer nas minhas relações no porto.”

A confirmação veio sem a grandeza que ele provavelmente imaginava.

Não era uma estratégia brilhante.

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Era um homem ferindo alguém indefeso para empurrar outro homem contra um rival.

“E depois mandou levá-la do hospital.”

“Ela começou a falar demais. Você também.”

“Bianca estava lá.”

Augusto desviou os olhos.

“Aquilo não estava previsto.”

“Mas continuou.”

Ele aproximou-se.

“Você teria uma cidade inteira à sua disposição se não tivesse transformado uma faxineira num problema de família.”

Eu senti a raiva subir.

Não a confundi com uma ordem.

“Helena não virou um problema de família. Ela mostrou o problema que já existia.”

Meu pai olhou para a porta.

Ouvi um motor do lado de fora.

Depois vozes.

Otávio pegou o telefone.

A tela acendeu com uma sequência de mensagens.

Augusto percebeu antes que eu visse o conteúdo.

“O que você fez?”

“Entreguei os registros.”

“Quais?”

“Os seus. Os meus. Os que você queria usar para me manter calado.”

Ele me encarou.

Pela primeira vez, não tentou corrigir meu tom.

“Você entregou a própria vida.”

“Entreguei documentos.”

Augusto virou-se para Otávio.

“Acabe com isso.”

O administrador não se moveu.

Meu pai repetiu, mais alto:

“Agora.”

Otávio correu para a porta lateral.

Eu fui atrás, mas ele bateu a folha metálica entre nós.

No galpão, um homem começou a derramar líquido sobre caixas empilhadas.

Outro gritava que havia policiais na entrada.

Augusto passou por mim em direção a uma escada dos fundos.

A antiga parte de mim quis segui-lo.

Então vi um trabalhador preso entre o empilhamento e a porta fechada, tentando arrastar um colega que caíra.

Desci.

“Por aqui!”

O trabalhador me olhou, sem entender se eu era mais uma ameaça.

Peguei o braço do homem caído.

Juntos, conseguimos afastá-lo das caixas.

Um disparo estourou acima de nós.

O metal da escada vibrou.

Outro veio quase em seguida.

Senti o impacto na lateral do corpo antes da dor.

Meu joelho tocou o chão.

O trabalhador soltou um grito.

“Continua”, falei. “Leva ele.”

A fumaça começou a subir perto do corredor.

Ouvi ordens, passos e o som de uma porta sendo arrombada.

Raul apareceu na saída lateral.

Não sei quanto tempo tinha passado.

Lembro de seu braço sob o meu e de um homem de uniforme indicando o caminho.

Lembro de dizer que havia gente dentro.

“Já estão retirando”, Raul respondeu.

Lá fora, a luz me feriu os olhos.

Helena estava atrás de uma barreira, perto da equipe de atendimento.

Quando me viu, deu um passo e foi contida.

Raul me levou até a maca.

Ela se aproximou quando permitiram.

Seu rosto perdeu a cor ao ver minha camisa.

“Dante.”

Tentei dizer que estava consciente.

Saiu apenas o nome dela.

Helena segurou minha mão.

Dessa vez, fui eu quem apertou seus dedos.

Ao fundo, vi meu pai sendo conduzido para fora.

Vivo.

Um policial segurava seu braço. Outro levava uma arma dentro de um recipiente próprio.

Augusto olhou na minha direção.

Não havia sorriso.

Helena acompanhou meu olhar.

“Pegaram ele”, disse. “Você está vendo?”

Eu estava.

Também via fumaça saindo do armazém e dois trabalhadores recebendo atendimento.

Não sabia quantas caixas tinham sido salvas.

Não sabia o que aconteceria comigo depois.

Sabia que meu pai não tinha escolhido o final daquela conversa.

Tentei responder a Helena.

O rosto dela começou a perder nitidez.

Sua mão permaneceu na minha enquanto a luz se apagava.

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