"Ela Era Só Minha Faxineira. Declarei Guerra Por Ela." Capítulo 3 — Eu não vim por acaso
Capítulo 3 — Eu não vim por acaso
Meu pai atendeu na terceira chamada.
“Dante.”
Não perguntou por que eu ligava àquela hora.
“Você conhece Teresa Duarte?”
Houve uma pausa.
Curta demais para ser surpresa.
Longa demais para ser nada.
“Deveria conhecer?”
“Estou olhando para uma fotografia.”
“Então sabe mais do que eu sobre o assunto.”
Olhei para a menina entre ele e Teresa.
“Helena foi sequestrada.”
“Quem?”
“A filha dela. Trabalha na minha casa.”
Meu pai soltou o ar devagar.
“Você precisa tomar mais cuidado com quem coloca dentro da sua casa.”
“Eu preciso tomar mais cuidado com quem tem acesso às minhas autorizações.”
“Está me acusando de alguma coisa?”
“Estou perguntando sobre uma mulher desaparecida.”
“E eu estou dizendo para resolver seu problema sem criar outro.”
A chamada terminou antes que eu respondesse.
Guardei o telefone.
Raul estava à minha frente, esperando.
“Ele reconheceu o nome”, eu disse.
“Admitiu?”
“Não.”
“Então ainda não temos nada que permita agir contra ele.”
Eu encarei Raul.
Poucos homens me corrigiam daquela forma.
Era um dos motivos pelos quais ele continuava vivo e trabalhando comigo.
“Temos uma autorização falsa, uma foto antiga e alguém que sabia para onde levaríamos Leandro.”
“Vou reduzir a equipe. Tudo passa por mim.”
“E por mais ninguém.”
Ele assentiu.
Eu voltei até Bianca antes de sair do hospital. Afonso havia pedido exames, e ela estava furiosa por não poder se levantar.
“Mostra a foto”, disse.
Entreguei.
Minha irmã examinou o rosto de Teresa.
“Nunca vi essa mulher com ele.”
“Nem eu.”
“Isso não significa muita coisa. Você sabe como era.”
Sabia.
Nosso pai escolhia o que cada filho podia enxergar. Eu conhecia depósitos, reuniões e homens que baixavam a voz quando ele entrava. Bianca conhecia eventos de caridade, discursos e doações.
Nenhum de nós conhecia tudo.
Ela devolveu a fotografia.
“Helena não parecia surpresa com o nome dele.”
“Você falou de Augusto perto dela?”
“Uma vez. Disse que ele talvez aparecesse no almoço de domingo. Ela pediu para trocar o turno.”
Guardei aquela informação.
“Por que não me contou?”
“Porque achei que ela só não quisesse trabalhar no domingo, Dante.”
Era uma resposta justa.
Eu estava começando a procurar sinais em quatorze meses de coisas que nunca tinha me dado ao trabalho de perguntar.
No apartamento da Vila Mariana, Gabriel abriu a porta antes que o segurança anunciasse minha chegada.
“Ela não está mais no hospital.”
Não era uma pergunta.
“Não.”
“Onde está?”
“Ainda não sabemos.”
Teresa estava junto à mesa da cozinha. Havia uma xícara intocada diante dela.
Quando coloquei a foto sobre a mesa, ela se levantou tão rápido que precisou segurar o encosto da cadeira.
“Onde conseguiu isso?”
“No quarto da sua filha.”
“Ele veio?”
A pergunta saiu antes que ela pudesse conter.
“Quem?”
Teresa apertou os lábios.
Eu não levantei a voz.
“Dona Teresa, Helena está ferida e com pessoas que usaram meu nome para levá-la. Se a senhora sabe alguma coisa, preciso ouvir agora.”
Ela olhou para Gabriel.
O rapaz fitava a mãe com uma expressão que me dizia que aquela conversa não era inteiramente nova para ele.
“Eu trabalhei para seu pai”, Teresa falou.
“Em quê?”
“Na parte de contas. Faz muito tempo.”
“Por que Helena não me contou?”
“Porque eu pedi que ficasse longe de vocês.”
Gabriel virou a cadeira.
“Você falou que ele não sabia.”
Teresa fechou os olhos.
“Gabi.”
“Falou ou não?”
Antes que ela respondesse, o telefone dele tocou.
Um número que ninguém reconheceu.
Gabriel ergueu o aparelho, olhando para mim.
Fiz sinal para que atendesse e colocasse no viva-voz.
“Alô?”
“Gabi.”
A voz de Helena.
Senti meus dedos perderem a sensibilidade.
“Lena? Onde você está?”
“Estou bem.”
A respiração dela denunciava a mentira.
“Vou demorar um pouco.”
Gabriel olhou para a mãe.
“Com quem você está?”
“Com pessoas do trabalho.”
Uma voz masculina surgiu ao fundo.
“Só avisa que está segura.”
Ela demorou a continuar.
“Você precisa comer. Tem arroz no pote azul.”
Gabriel franziu a testa.
“Lena...”
“E não esquece do casaco. Aqui faz frio. Igual quando a gente dormia na casa do seu Jorge, perto dos caminhões.”
O homem ao fundo disse:
“Acabou.”
“Minha mãe está aí?”
“Está”, Gabriel respondeu.
“Não deixa ela sair sozinha.”
A ligação caiu.
Teresa levou a mão à boca.
Gabriel já estava abrindo uma conversa no celular.
“Ela nunca guarda arroz em pote azul.”
Raul se aproximou.
“Casa do seu Jorge?”
“Um antigo vizinho. Ele foi trabalhar num depósito em Embu. A gente passou um fim de semana lá quando faltou luz na nossa rua. Tinha caminhão ligado de madrugada e uma oficina do lado.”
Ele mostrou uma fotografia antiga.
Não havia pessoas nela.
Só um portão verde e a fachada de uma oficina.
“Helena tirou porque eu tinha deixado minha mochila lá. Ela queria lembrar o endereço.”
Raul fotografou a tela.
“Isso ajuda.”
“O pote azul é a caixa onde a gente guarda os documentos”, Gabriel continuou. “Ela quer que eu pegue alguma coisa.”
“Pegue”, eu disse. “Mas fique aqui com sua mãe.”
Ele saiu em direção ao quarto.
Teresa segurou meu braço.
O gesto a surpreendeu tanto quanto a mim.
“Não leve minha filha até seu pai.”
Eu olhei para a mão dela.
“Primeiro eu vou trazer sua filha de volta.”
Demoramos quarenta minutos para encontrar o depósito.
Não era o único da região. Raul comparou o portão da foto com imagens das fachadas e o cruzamento indicado por Gabriel. Um homem da minha equipe confirmou uma ambulância branca estacionada sob uma cobertura.
Sem identificação lateral.
Na entrada, havia uma caminhonete cinza com um amassado na traseira.
Fiquei observando o local através do vidro do carro.
Uma luz acesa no andar de cima.
Dois homens perto da oficina.
A distância entre o portão e a rua.
“Não entra atirando”, eu disse.
Raul me olhou.
“Eu não ia.”
“Ela pode estar perto deles.”
“Eu sei.”
Saímos dos carros sem fazer barulho.
Raul conduziu dois homens pela lateral, onde o muro terminava num terreno com mato baixo. Eu permaneci junto à saída principal, com outro segurança.
O plano era verificar onde Helena estava antes de avançar.
Ela se moveu primeiro.
Ouvi um grito dentro do depósito.
Depois o estrondo de metal atingindo o chão.
Uma porta lateral abriu com força.
Helena apareceu descalça, apoiando a mão esquerda na parede.
Atrás dela, um homem saiu segurando um molho de chaves.
“Volta aqui!”
Ela lançou contra ele uma pequena lata.
Não acertou o rosto.
Acertou o peito e o fez parar por um segundo.
Foi o bastante.
“Helena!”
Ela virou para minha voz.
Vi o terror mudar para alguma coisa que ainda não era confiança.
Abri o portão menor por dentro depois que Raul alcançou a entrada. Corri até ela enquanto meu segurança bloqueava o homem que a perseguia.
Helena tentou dar mais um passo.
O joelho cedeu.
Eu a segurei antes que caísse, mantendo o braço longe das costelas.
“Sou eu.”
“Eu sei”, ela respondeu, ofegante. “Não aperta.”
Afrouxei imediatamente.
Raul passou por nós e apontou para o carro.
“Pode sair. Nós terminamos aqui.”
Ouvi uma ordem, o som de alguém sendo colocado contra uma parede e, mais adiante, outro motor tentando ligar.
Não fiquei para assistir.
Coloquei Helena no banco traseiro e sentei ao lado dela.
“Hospital”, falei ao motorista.
Ela agarrou meu punho.
“Outro.”
“Como?”
“Não me leva para o mesmo.”
Olhei para o motorista.
“Ligue para Afonso. Ele indica.”
Só depois de o carro entrar na estrada percebi que Helena tremia inteira.
Peguei uma manta do compartimento lateral. Mostrei antes de cobri-la.
Ela assentiu.
“Meu irmão entendeu?”
“Entendeu.”
Fechou os olhos.
“Eu achei que iam desligar antes.”
“Você conseguiu.”
O ar escapou pela boca ferida.
Esperei até que a respiração ficasse menos irregular.
“Como abriu a porta?”
“Disse que precisava ir ao banheiro. A janela dava para uma área de serviço.”
Olhei para os pés sujos.
Ela acompanhou meu olhar.
“Eu não pulei. Tinha uma bancada do outro lado.”
“E o barulho?”
“Derrubei uma prateleira. Achei que o homem fosse sair pela frente para ver.”
Não deu certo como ela esperava.
Ainda assim, tinha encontrado uma saída.
“Helena, deixaram uma fotografia.”
O rosto dela se fechou.
“Com minha mãe?”
“E meu pai.”
Ela puxou a manta até o peito.
“Eu devia ter contado antes.”
“Então conta agora.”
Olhou para a estrada através do vidro.
“Eu sabia o sobrenome quando mandei meu currículo.”
Senti a velha parte de mim despertar: a que ouvia uma omissão e procurava imediatamente uma ameaça.
Forcei-a a esperar.
“Por quê?”
“Minha mãe guardava um comprovante de pagamento. Do fundo da sua família. Depois de uma discussão, achei o papel dentro de um envelope com notícias sobre o acidente do meu pai.”
“Você veio investigar.”
“Vim tentar entender.”
“Durante quatorze meses?”
“Eu limpava sua casa, Dante. Não tinha acesso aos seus arquivos. E precisava do trabalho. Não podia sair fazendo perguntas.”
Ela ergueu o rosto.
“Eu também precisava saber se você era igual a ele.”
A estrada iluminou seus olhos por um instante.
“E descobriu?”
“Descobri que todo mundo tinha medo de você. Não é a mesma coisa que descobrir por quê.”
Não havia inocência naquela resposta.
Nem crueldade.
Só uma honestidade que eu não podia exigir e rejeitar ao mesmo tempo.
“Gabriel está com o documento?”
“Sim. Pedi para guardar quando minha mãe começou a mexer nas coisas antigas.”
Meu telefone vibrou.
Uma mensagem dele.
Abri a imagem do comprovante.
Papel amarelado. Uma transferência antiga. Teresa Duarte como destinatária.
No campo de autorização, a assinatura do meu pai.
Outra mensagem chegou, desta vez de Raul.
Ele havia conseguido uma cópia da ordem usada para tirar Helena do hospital.
Mostrei a tela a ela.
O documento tinha data daquela noite, instruções de remoção e uma autorização validada.
Helena leu devagar.
Quando chegou ao final, se afastou de mim.
Não havia o nome de Augusto ali.
Havia o meu.
E, logo abaixo, o código de acesso do meu escritório.
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