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"Ela Era Só Minha Faxineira. Declarei Guerra Por Ela." Capítulo 2 — A cama vazia

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Capítulo 2 — A cama vazia

Pedi para Raul ampliar a imagem.

A caminhonete tinha um amassado na lateral traseira. Eu reconheci o veículo antes de ele terminar de abrir o registro.

“Unidade de manutenção de Santo Amaro.”

“Foi retirada de circulação há seis meses”, ele respondeu. “No sistema, consta como vendida.”

“Para quem?”

“Uma revendedora que fechou logo depois.”

Uma venda feita, uma empresa encerrada, um veículo usado numa agressão.

Não era uma ligação suficiente para apontar um culpado.

Era suficiente para eu deixar de acreditar numa provocação simples de Orlov.

“Quem autorizou?”

“O setor administrativo. Vou puxar o histórico.”

“Sem avisar o setor.”

Raul guardou o telefone quando Teresa e Gabriel saíram do elevador.

Ela veio primeiro, com passos curtos, apoiada no braço de uma mulher da minha equipe. Gabriel conduzia a cadeira sozinho.

Os dois pararam ao me ver.

Teresa olhou para meu rosto e empalideceu.

Eu estava acostumado àquela reação.

Dessa vez, não gostei.

“Helena está acordada”, eu disse. “O médico explicou que ela precisa descansar, mas vocês podem entrar.”

Gabriel me examinou de cima a baixo.

“Foi por sua causa?”

A mulher ao lado de Teresa desviou os olhos.

Eu não.

“Os homens mencionaram meu nome.”

“Eu perguntei outra coisa.”

Aproximei-me o bastante para não precisar elevar a voz.

“Estou tentando descobrir. Mas, sim, existe uma ligação com o lugar onde ela trabalha.”

Ele apertou as rodas da cadeira.

“Ela precisava desse salário.”

“Gabriel”, Teresa murmurou.

“Não. Ela precisava. Não entrou na casa dele porque achava bonito.”

Mantive o cartão de acesso entre os dedos.

“Você tem razão.”

Entreguei o cartão a ele.

“Quarto duzentos e oito. Sua irmã está esperando.”

Teresa ficou por último.

De perto, notei que sua expressão tinha algo além de medo.

Ela procurava alguma coisa no meu rosto.

“Dona Teresa?”

Seu olhar baixou.

“Obrigada por trazer meus filhos.”

Antes que eu perguntasse se já nos conhecíamos, ela entrou no quarto.

Raul se aproximou.

“Encontramos o homem da tatuagem.”

“Nome?”

“Leandro Viana. Já cobrou dívidas para gente ligada ao Orlov. Está numa oficina perto da Marginal.”

“Quem mais sabe?”

“Os homens que fizeram a identificação e os dois que estão observando o endereço.”

Dei uma última olhada na porta de Helena.

Lá dentro, Gabriel estava reclamando que ela tinha estragado o único casaco decente que possuía. Ouvi uma resposta fraca, seguida de um choro que ele tentou esconder.

“Vamos”, eu disse.

Não entrei na oficina cercado de carros.

Raul já tinha visto a saída dos fundos, a porta lateral e o movimento da rua. Esperamos Leandro sair para comprar cigarros.

Ele reconheceu o primeiro homem que se aproximou e tentou correr.

Não chegou à esquina.

Levamos Leandro para um galpão vazio usado por uma empresa de manutenção que eu controlava. Nenhum símbolo da Bellandi na fachada. Nenhum funcionário trabalhando àquela hora.

Ele estava sentado quando entrei.

O pulso marcado descansava sobre o joelho.

正文1

“Você veio mesmo”, disse.

Puxei uma cadeira.

Sentei diante dele.

“Helena Duarte.”

Ele sorriu.

“O nome eu não sabia.”

“Vai lembrar.”

O sorriso diminuiu, mas não desapareceu.

“Se você queria conversar, precisava mandar seus homens fazerem esse teatro?”

“Você consegue falar sem eles encostarem em você.”

“E se eu não quiser?”

Olhei para o pulso dele.

“Foi essa mão?”

Raul se moveu atrás de mim.

Eu ergui dois dedos, impedindo que avançasse.

Leandro acompanhou o gesto. Percebeu que eu ainda me controlava.

E decidiu testar quanto tempo aquilo duraria.

“Ela chorou por um irmão. Foi a única coisa que falou direito.”

A cadeira rangeu sob minha mão.

“Quem pagou?”

“Pergunta para o russo.”

“Não.”

Pela primeira vez, ele hesitou.

Coloquei sobre a mesa a fotografia da caminhonete.

“O carro saiu de uma empresa minha. Quero saber quem entregou a chave.”

Leandro olhou para a imagem.

Depois para a porta.

A mudança foi pequena, mas Raul também percebeu.

“Agora você entendeu por que está aqui”, eu disse.

Ele engoliu em seco.

“Eu recebi um serviço.”

“De quem?”

“Não trato com dono de empresa.”

“Então me dê o nome do intermediário.”

“Não tinha nome.”

“Telefone?”

Ele ficou quieto.

Raul colocou o celular apreendido ao lado da fotografia.

Leandro olhou para o aparelho como se fosse um animal prestes a atacá-lo.

“Você acha que era para matar a mulher?”

Minha garganta se fechou.

“O que você quer dizer?”

“Se fosse, ela não tinha saído de lá.”

Raul segurou o encosto da minha cadeira.

Não para me conter.

Para se conter.

Leandro continuou:

“Mandaram deixar ela perto. Com o uniforme. Mandaram falar Orlov.”

“Por quê?”

Ele soltou uma risada curta, sem o prazer de antes.

“Para você fazer exatamente o que está fazendo.”

Levantei-me.

Não para bater nele.

Para pegar meu telefone.

Foi nesse momento que a luz apagou.

Raul me atingiu com o ombro e me derrubou atrás da mesa.

O disparo veio de cima, seguido pelo estrondo de vidro.

Ouvi a cadeira de Leandro tombar.

Depois, passos na cobertura.

Meus homens reagiram. Um deles gritou sobre a saída lateral. Raul me puxou para a parede enquanto eu tentava enxergar o chão.

Quando as luzes de emergência acenderam, Leandro não se movia.

Havia um corte de luz na janela alta, justamente de onde o tiro tinha vindo.

Raul chamou dois homens e ordenou que verificassem o telhado.

Meu telefone vibrou.

Número desconhecido.

Atendi.

Uma voz eletronicamente alterada disse:

“Volte para buscar sua resposta.”

A chamada terminou.

Disquei para Bianca.

Nada.

Liguei para o segurança do hospital.

Ele atendeu no segundo toque.

“Senhor?”

“O quarto de Helena.”

“Ela foi transferida.”

O galpão inteiro pareceu se afastar.

“Por quem?”

“Equipe de remoção. Com autorização do seu escritório.”

“Eu não autorizei nada.”

Raul já corria para o carro.

No caminho, o segurança começou a falar mais depressa.

Disse que o acesso havia sido validado. Que Bianca acompanhara os profissionais até uma sala de preparação. Que tinham apresentado documentos com o nome de Afonso.

Mandei que fechasse as saídas e acionasse a administração.

Liguei para o médico.

“Não pedi transferência”, ele respondeu.

“Bianca está com eles.”

“Estou indo agora.”

Não contei os sinais que atravessamos.

Raul dirigia. Eu telefonava.

Teresa e Gabriel já tinham voltado para o apartamento protegido. Confirmei os dois com a equipe, ouvi Gabriel ao fundo e só então consegui respirar sem sentir o peito travado.

No hospital, encontrei dois seguranças junto à entrada de serviço.

Um deles começou a explicar.

Passei por ele.

Afonso estava ajoelhado ao lado de Bianca numa sala de apoio.

Minha irmã tinha uma compressa na cabeça e estava consciente.

“Eles disseram que você tinha mandado”, falou ao me ver.

Ajoelhei-me diante dela.

“Você consegue me contar?”

“Helena desconfiou. Pediu para ligarem para você. O homem disse que você estava numa reunião.”

Bianca fechou os olhos.

“Ela tentou levantar da maca. Eu peguei meu telefone. Ele me bateu.”

Afonso segurou o ombro dela.

“Chega por enquanto.”

Toquei a mão da minha irmã.

“Eu vou buscar Helena.”

Ela me agarrou.

“Não confia na autorização. Estava tudo certo no sistema.”

Levantei-me.

O quarto duzentos e oito estava vazio.

A bolsa que Bianca trouxera permanecia sobre a poltrona. Uma meia de Helena estava caída ao lado da cama.

Sobre o travesseiro, havia uma fotografia.

Peguei pelas bordas.

Meu pai aparecia mais jovem, usando uma camisa clara. Ao lado dele estava Teresa, sem o lenço, segurando o ombro de uma menina.

A criança tinha os mesmos olhos de Helena.

No verso, alguém havia escrito:

“Pergunte a ela por que entrou na sua casa.”

Raul parou à porta.

“Dante?”

Virei a fotografia.

Meu pai sorria.

Eu conhecia aquele sorriso.

Era o que ele usava quando queria que uma ameaça parecesse um favor.

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