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"O Menino Que Reconheceu a Fotografia" Capítulo 11 — Depois da Chuva

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Capítulo 11 — Depois da Chuva

O nome na página era de Vicente.

Não sua assinatura. Seu nome, colocado por Rafael ao lado da data em que um funcionário da empresa consultara meu endereço e a escola de Tomás.

No caminho para encontrar meu filho, pedi a Ana que não me dissesse o que pensar daquela anotação. Queria ouvir Rafael e queria ver os registros antes de voltar a conversar com Vicente.

Ana concordou.

Dois dias depois, Rafael me explicou por que escrevera a frase.

"Eu não sabia se Vicente tinha pedido a consulta", disse. "Sabia apenas que alguém usara uma credencial ligada a ele. Queria que você descobrisse antes de confiar nele."

A investigação mostrou que Leandro tivera acesso à credencial por intermédio de um gerente. A autorização digital no caderno fora emitida do mesmo terminal de trabalho. Vicente entregou seus aparelhos e os registros da empresa para comparação. Nada daquilo apagava sua decisão de me observar e de esconder que Rafael estava vivo. Mas a página não provava que ele mandara procurar Tomás.

Mostrei a anotação a Vicente quando nos encontramos, com Ana presente.

"Rafael tinha razão em desconfiar", ele disse.

"Eu também."

"Você ainda desconfia?"

"De algumas coisas. Confiança não volta porque um documento foi explicado."

Ele aceitou sem pedir que eu suavizasse a resposta.

As semanas seguintes não tiveram a ordem limpa de uma vitória. Leandro continuou detido enquanto as ameaças, o cárcere de Rafael e as operações no porto eram investigados. O gerente que tentara alterar a declaração do contêiner foi afastado e ouvido. Caio prestou depoimento, entregou as mensagens sobre seu irmão e respondeu pela entrada que liberara na casa Ferraz.

Neide voltou a cuidar de Lívia. Pediu desculpas mais de uma vez por ter aberto a porta aos homens de Leandro. Eu sabia o que tinham usado para obrigá-la. Ainda assim, demos um tempo antes de voltar a deixá-la sozinha com Tomás. Ela entendeu.

Vicente afastou os responsáveis pelas empresas envolvidas e aceitou uma revisão externa dos contratos. Quando me ofereceu outro emprego, recusei.

"Você não precisa mais trabalhar na minha casa", disse.

"É por isso que não vou."

Com a ajuda de Ana, organizei o que podia fazer a seguir. Consegui trabalho regular numa empresa de serviços menor, com horário que me permitia buscar Tomás na escola. Mudei-o de instituição depois de conversar com a coordenadora e de receber as gravações do dia da festa. Na nova escola, ele sabia quem podia buscá-lo. Mais importante, os adultos também sabiam.

Rafael começou a se recuperar fora do hospital. Enviou a mensagem de voz que havíamos combinado.

"Oi, Tomás. Meu nome é Rafael. Eu conheço a sua mãe há muito tempo. Ela disse que você gosta de dinossauros."

Tomás pediu para ouvi-la três vezes. Depois quis saber por que Rafael parecia triste.

"Talvez ele esteja aprendendo a falar com você", respondi.

Procurei orientação para contar o restante sem exigir que meu filho entendesse escolhas de adultos. Algumas semanas depois, mostrei a ele uma fotografia recente de Rafael. Disse que aquele era seu pai e que ficara longe durante muito tempo. Tomás olhou a imagem em silêncio.

正文1

"Ele é o homem da outra foto?"

"É."

"Ele vai embora de novo?"

Não prometi o que não podia garantir.

"Ele quer conhecer você. Vamos começar devagar, e eu estarei junto."

O primeiro encontro foi num parque pequeno, numa manhã de sol. Rafael chegou cedo e ficou esperando junto a uma mesa de concreto. Trazia um livro sobre dinossauros, mas o deixou fechado ao lado do banco. Não tentou conquistar Tomás com um presente antes de ouvi-lo.

Meu filho se escondeu atrás da minha perna. Rafael se agachou a alguns passos de distância.

"Oi", disse.

"Você sabe o nome dele?" Tomás ergueu Sir Dente.

"Não sei."

"Sir Dente. Mas ele não morde de verdade."

Rafael sorriu. A covinha apareceu na bochecha esquerda. Tomás a notou; vi seus olhos irem do rosto dele para a fotografia que ainda guardava no bolso do meu casaco.

Ficamos vinte minutos. No fim, Tomás perguntou se Rafael voltaria ao parque outra vez. Rafael olhou para mim antes de responder.

"Se você quiser, eu volto."

Voltamos na semana seguinte.

Vicente não participou daqueles encontros. Respeitou a distância que eu pedi. Algumas vezes perguntou por Tomás por intermédio de Júlia; deixei que ela dissesse que ele estava bem.

Meses depois, cruzei com Vicente ao sair de uma reunião com Ana sobre os documentos do porto. Ele estava do lado de fora, sem seguranças por perto.

"Tomás ainda fala do relógio?", perguntou.

"Às vezes. Também pergunta se você continua com cara de bravo."

Vicente soltou uma risada breve, parecida com a da noite em que o conheci.

"Depende de quem chega atrasado."

Eu sorri antes de conseguir evitar. Ele não se aproximou. A escolha de transformar aquela conversa em outra coisa poderia esperar. Pela primeira vez, esperar não parecia uma ameaça.

Naquela noite, choveu em São Paulo.

Tomás espalhou os brinquedos no chão da sala enquanto eu preparava o jantar. O ventre de Sir Dente estava fechado outra vez. Havia uma pequena linha no plástico onde eu o abrira, mas meu filho não parecia se importar. Para ele, continuava sendo o dinossauro que carregava para todo lugar.

"Mãe, ele ficou quebrado?", perguntou, vendo-me olhar.

"Ficou por um tempo."

"E agora?"

Abaixe-me ao lado dele e apertei delicadamente a peça consertada.

"Agora está inteiro o bastante para brincar."

Tomás fez o dinossauro atravessar o tapete em direção à luz da janela. Lá fora, a chuva caía sobre uma rua comum. Desta vez, quando alguém passou pelo portão do prédio, não prendi a respiração.

"Ele pode ir até lá?", meu filho perguntou.

"Pode", respondi. "Eu vou com você."

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