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"A Dançarina Que Voltou Para Si" Capítulo 1 — A Segunda Chance de Lara

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Capítulo 1 — A Segunda Chance de Lara

O farol vermelho se abriu diante de mim como uma ferida na madrugada.

Eu corria sem saber para onde, com uma mala pequena batendo contra a minha perna e o celular vibrando na mão. Na tela, o último áudio de Célia ainda estava aberto.

“Você vai me agradecer quando chegar lá. O Renato é um homem bom. O Gabriel nunca soube te fazer feliz.”

Mentira.

Eu sabia disso tarde demais.

Renato Lobo não era o homem que minha tia dizia ser. Era o homem que ela tinha posto no meu caminho quando eu já não confiava em ninguém. O mesmo homem que tinha usado minhas fotos, meus desabafos e a minha fragilidade para me convencer de que fugir era liberdade.

No banco de trás do carro que eu tinha roubado dele, havia uma bolsa com documentos, dinheiro e um pendrive. Eu não sabia o que havia no pendrive. Só sabia que Renato tinha mudado de expressão quando percebeu que eu o pegara.

Então ele me perseguiu.

Os faróis atrás de mim se aproximaram. O carro avançou. Eu virei o volante para escapar, ouvi o grito do metal, o estalo do vidro e uma buzina longa demais.

Depois, nada.

Nem dor. Nem chão. Nem ar.

Quando abri os olhos, uma luz branca queimou minhas pupilas.

“Calma, Lara. Não tenta levantar de uma vez.”

O cheiro de álcool hospitalar entrou no meu peito. Uma mulher de jaleco inclinava-se sobre mim, segurando uma lanterna pequena.

“Onde eu estou?” Minha voz saiu rouca.

“Na enfermaria do Teatro Municipal. Você desmaiou durante o ensaio.”

Meu coração parou por um segundo.

Teatro Municipal.

Ensaio.

Virei o rosto e encontrei, sobre uma cadeira, minha bolsa antiga. A que eu não via havia dez anos. Ao lado dela, um programa amassado da Companhia Estadual de Dança de São Paulo anunciava a temporada de inverno.

Ano: 2016.

Minhas mãos começaram a tremer.

Não. Não podia ser.

Eu tinha morrido aos trinta e oito, numa estrada escura, com o gosto de sangue na boca e a certeza de que minha própria família tinha ajudado a me destruir.

Mas ali eu tinha vinte e oito anos outra vez. Os joelhos sem cicatrizes. O cabelo comprido, preso no coque de ensaio. Nenhuma marca de uma década inteira de arrependimento.

Na vida que eu perdera, eu fora uma bailarina promissora e uma mulher profundamente infeliz. Ou, pelo menos, era o que Célia Viana repetia sempre que eu reclamava do meu casamento.

Ela dizia que Gabriel Nogueira era frio. Que ele tinha se casado comigo por culpa, depois que um vídeo cortado de uma festa virou assunto em todos os grupos. Dizia que ele me olhava como um problema. Dizia que eu merecia alguém que me deixasse “respirar”.

Eu acreditei.

Comecei a chegar tarde em casa. Quebrei coisas. Gritei com Gabriel até ele aprender a não responder. Rejeitei cada tentativa silenciosa que ele fazia de cuidar de mim. Quando Célia apresentou Renato, eu já estava tão cheia de raiva que confundi manipulação com acolhimento.

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Só depois de morrer eu soube o que Gabriel fizera.

Ele reconheceu meu corpo no IML. Pagou meu enterro. Visitou minha mãe quando ela já mal conseguia andar. E, durante anos, guardou uma foto minha dançando em cima da mesa, mesmo depois de eu ter transformado a nossa casa num lugar impossível.

Uma lágrima caiu no travesseiro.

“Está sentindo dor?” perguntou a enfermeira.

“Não.” Respirei fundo. “Só… tive um sonho horrível.”

Ela sorriu com gentileza, sem desconfiar de que eu acabara de receber de volta uma vida inteira.

A porta abriu de repente.

Gabriel entrou antes que alguém pudesse anunciar seu nome.

Ele usava o uniforme escuro da Polícia Militar, a postura reta e aquele rosto fechado que, por tantos anos, eu tinha escolhido interpretar como desprezo. O cabelo castanho estava molhado de chuva. Havia pressa nos olhos dele, embora a boca permanecesse dura.

Meu peito apertou.

Ele estava vivo.

Mais jovem. Inteiro. A poucos metros de mim.

“Lara?” A voz dele saiu baixa.

Eu me levantei depressa demais e quase caí. Gabriel deu um passo, segurou meu cotovelo e logo retirou a mão, como se o toque pudesse provocar outra briga.

“Você não precisa fingir preocupação”, ele disse. “A diretora me ligou porque você apagou no meio da coreografia.”

Eu queria dizer que sentia falta dele. Queria pedir desculpas por cada porta batida, por cada noite em que ele voltou do trabalho e encontrou silêncio, louça quebrada e uma esposa determinada a feri-lo antes de ser ferida.

Mas um pedido desesperado não apagaria dez anos.

“Obrigada por vir”, falei.

Gabriel franziu a testa.

“O que você quer?”

Doeu mais do que eu esperava. Ainda assim, assenti.

“Nada. Eu só queria agradecer.”

Ele me observou como se eu fosse uma desconhecida usando o rosto da mulher dele.

“Ontem você disse que se arrepende de ter casado comigo.”

Eu me lembrei. No fim do ensaio de gala, diante de duas colegas, eu tinha repetido exatamente as frases que Célia plantara em mim: que Gabriel me sufocava, que eu tinha nojo da nossa vida, que acabaria com aquele casamento.

O rosto queimou de vergonha.

“Eu disse coisas cruéis.”

“Você costuma dizer.”

“Eu sei.” Olhei nos olhos dele. “Não vou pedir que você acredite em mim hoje. Só quero que saiba que vou mudar o que depende de mim.”

Por um instante, o olhar de Gabriel vacilou. Então ele se fechou outra vez.

“Mudar para quê, Lara? Para me convencer a ficar e depois me castigar por isso?”

Antes que eu respondesse, a porta se abriu com violência.

“Minha menina!”

Célia entrou perfumada, impecável, com uma bolsa cara pendurada no braço. Atrás dela vinha Bruna, minha prima, bonita demais para parecer tão satisfeita com a própria maldade.

Meu estômago revirou.

Eu conhecia aquela expressão de Bruna. Era a expressão que ela usava quando acreditava que Gabriel estava perto de desistir de mim.

Célia notou a mão de Gabriel próxima ao meu braço e fez um teatro perfeito de indignação.

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“Major Nogueira, por que está aqui? Lara acabou de passar mal. Ela não precisa de mais pressão.”

Gabriel se afastou um passo.

Na outra vida, eu teria deixado Célia falar por mim. Teria assistido a Gabriel sair, em silêncio, e depois telefonado para minha tia para chorar que ele não me amava.

Desta vez, ergui a voz antes que ele alcançasse a porta.

“Ele é meu marido, tia. Ele veio porque se preocupou comigo.”

Célia piscou, surpresa.

“Lara, querida, não comece com isso. Você mesma disse que não aguenta mais…”

“Eu estava errada.”

Bruna cruzou os braços. “Você está bem? Parece até outra pessoa.”

Talvez eu fosse.

Gabriel não respondeu. Apenas assentiu para a enfermeira e saiu, levando consigo o cheiro de chuva e a distância que eu ainda precisaria atravessar.

Fui liberada uma hora depois. O apartamento parecia menor do que eu lembrava. Havia roupas espalhadas pelo sofá, copos no chão, uma moldura quebrada perto da estante. Eu tinha feito aquilo para que Gabriel nunca se sentisse em casa.

Passei a tarde limpando. Não para impressioná-lo. Para encarar a mulher que eu tinha sido.

Fotografei os cacos, as contas atrasadas, a garrafa de vinho vazia e a parede marcada por uma cadeira arremessada numa discussão. Criei uma pasta no celular com um nome simples: “Provas”.

Depois, encontrei uma pasta parda no escritório dele.

Dentro, havia um rascunho de acordo de separação. Sem assinatura. Sem acusação. Só uma divisão objetiva de despesas e a frase: “Para que ambos possam seguir em paz.”

Minha garganta fechou. Eu fotografei também.

Quando anoiteceu, meu celular vibrou.

Era uma notificação de um perfil anônimo no Instagram. A imagem era escura, tremida, mas eu reconheci imediatamente a rua e o vestido vermelho que usaria três dias depois.

Na legenda, uma contagem regressiva:

AMANHÃ: A VERDADE SOBRE A BAILARINA CASADA E O FOTÓGRAFO.

Meu sangue gelou.

Renato já estava vindo.

E, desta vez, eu não esperaria a mentira destruir tudo antes de lutar.

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