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"A Mulher Que Ele Chamava Pelo Nome de Outra" Capítulo 11 — Uma Casa Com Janelas Abertas

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Capítulo 11 — Uma Casa Com Janelas Abertas

Na consulta seguinte, fiz à médica a pergunta que vinha evitando desde o primeiro ultrassom.

“Há alguma chance de os exames estarem errados?”

Ela não respondeu depressa. Mostrou as imagens, retomou as avaliações feitas por profissionais diferentes e explicou o alcance de cada resultado. A alteração no desenvolvimento do bebê fora confirmada. Havia também riscos importantes para minha saúde, que a equipe continuava acompanhando.

Perguntei outra vez sobre o medicamento que André me dera. Queria uma causa. Queria poder apontar para um único ato e dizer:

Foi aqui que tudo aconteceu.

Ela foi cuidadosa comigo.

“Sabemos o que você usou e sabemos o que encontramos nos exames. Não temos elementos para atribuir a condição do bebê a esse produto.”

Chorei de raiva por não receber uma resposta simples. Depois chorei porque nenhuma resposta mudaria a escolha que eu precisava fazer.

Ouvi as possibilidades, pedi tempo para conversar com a equipe e tomei minha decisão com acompanhamento médico. Clara ficou comigo durante o atendimento e me levou para casa. Não disse que eu era forte. Preparou comida, deixou água perto da cama e atendeu à porta quando minha mãe apareceu sem avisar.

“Ela quer ver a Marina”, ouvi do quarto.

“Hoje não”, Clara respondeu.

No dia seguinte, minha mãe escreveu que lamentava minha situação. Na mesma mensagem, perguntou se eu poderia falar com André para que ele cumprisse a ajuda prometida a meu pai.

Não respondi.

A apuração sobre o vídeo seguiu seu próprio caminho. Caio confirmou que André lhe pedira uma gravação do confronto e orientara o corte usado na publicação. A clínica tomou providências pelo acesso irregular ao arquivo. Patrícia recebeu uma medida disciplinar por consultar informações sem justificativa adequada, mas não foi apontada como autora da divulgação.

Quando soube disso, minha irmã me mandou uma mensagem longa. Dizia que eu destruíra nossa família, que ela agira sob pressão e que também fora enganada por André.

Respondi apenas à parte que me dizia respeito.

Você sabia onde ele estava no dia do meu aniversário de casamento. Eu passei a noite esperando vocês. Não vou fingir que não aconteceu.

Patrícia visualizou. Não voltou a escrever.

Renata prestou suas declarações depois de consultar uma advogada. Admitiu ter aceitado dinheiro para me convencer a pedir o divórcio. Também reconheceu que sabia do plano para me expor na clínica. Não recebeu a quantia maior que André lhe prometera após minha assinatura; isso não apagava sua participação.

Não quis encontrá-la outra vez.

No processo de divórcio, a herança recebida por André foi examinada separadamente dos recursos movimentados durante o casamento. Os documentos do apartamento de Marília não sustentavam a ideia de que aquela casa tivesse sido comprada com o meu pagamento antigo à imobiliária. A reserva da proposta inicial fora devolvida anos antes.

Era difícil aceitar isso depois de me lembrar da promessa feita diante daquelas janelas. Mas Clara me ajudou a manter duas coisas separadas: a casa que André me fizera imaginar e o dinheiro que eu podia demonstrar ter entregue.

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As transferências mensais para a conta dele tinham comprovantes. As despesas da vida que dividíamos também. Depois de meses de análise, propostas recusadas e novas negociações, chegamos a um acordo patrimonial formalizado junto com o fim do casamento. Recebi valores referentes às questões que conseguimos documentar e resolver. Não era a fortuna que as pessoas na internet imaginavam. Era suficiente para eu pagar meu tratamento, deixar o apartamento alugado e escolher onde morar sem pedir nada à minha família.

Recusei a cláusula de silêncio que André tentara incluir. Aceitei compromissos específicos de não expor dados privados sem necessidade. Clara leu cada página comigo antes que eu assinasse.

Quando tudo terminou, olhei para o espaço em que deveria escrever meu nome.

Marina Azevedo.

Durante anos, André me chamara de Mari porque outra mulher atendia pelo mesmo apelido. Na primeira página que assinei para sair daquele casamento, escrevi meu nome completo e não senti falta de nenhuma das duas sílabas.

Marília também deixou André. Ela me contou numa única mensagem, sem pedir amizade nem perdão. Respondi desejando que recebesse o cuidado de que precisava. A história dela, dali em diante, já não era minha.

Algumas semanas depois, voltei ao apartamento antigo acompanhada por Júlia. As caixas que restavam couberam no porta-malas do carro. Passei pela porta do escritório sem abri-la. Eu conhecia o que havia ali; não precisava olhar mais uma vez.

Júlia perguntou se eu queria que ela fotografasse a entrega das chaves. Concordei. Conferimos os cômodos, registramos o estado em que os deixávamos e descemos.

“Para onde vamos agora?”, ela perguntou.

“Para minha casa.”

Era um apartamento pequeno, alugado num bairro onde eu podia caminhar até uma padaria, uma farmácia e uma praça. A cozinha recebia sol pela manhã. A janela da sala abria com dificuldade; o proprietário prometera consertá-la na semana seguinte.

Na primeira noite, sentei no chão entre as caixas e comi pão com queijo sobre um guardanapo. Não havia mesa, cortinas nem quadros nas paredes. Quando escureceu, liguei para Clara e disse que chegara bem.

“Está conseguindo descansar?”, ela perguntou.

Olhei ao redor. A casa ainda tinha cheiro de tinta. Minha perna estava melhor, embora eu continuasse indo às consultas. No telefone, não havia nenhuma mensagem que eu precisasse responder para manter a paz de outra pessoa.

“Estou aprendendo”, falei.

Mais tarde, abri a caixa onde Júlia colocara meus cadernos antigos. Na primeira página de um deles, havia uma lista que fizera antes de me casar: coisas que queria para minha vida. Eu escrevera

uma casa clara

e, logo abaixo,

uma família que goste de voltar para ela

.

Passei o dedo sobre as palavras. Não arranquei a página.

Na manhã seguinte, a luz entrou pela cozinha antes de eu acordar completamente. Fiz café, empurrei a janela da sala até onde ela permitia e deixei o ar da rua circular.

A casa não era grande. Ainda precisava de reparos. Mas a chave estava na minha mão, e ninguém ali esperava que eu fosse outra mulher.

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