"A Empregada Salvou o Filho do Chefe da Máfia" Capítulo 1 — “Foi Ele.”
A primeira taça se moveu menos de dois centímetros.
Ninguém percebeu.
Ninguém, exceto Isabela Oliveira Martins.
O salão principal da Mansão Montenegro, no Jardim Europa, estava lotado naquela noite. Empresários, políticos, socialites e homens que jamais apareciam em fotografias bebiam champanhe sob três enormes lustres de cristal.
No centro de tudo, uma torre feita com centenas de taças se erguia sobre uma mesa redonda.
E bem ao lado dela estava Gabriel Montenegro.
Cinco anos.
Terno azul-marinho.
Cabelos castanhos cuidadosamente penteados para a festa que ele já parecia cansado de suportar.
Gabriel ignorava os adultos.
Estava concentrado em fazer um pequeno carrinho vermelho correr pela borda de mármore da fonte decorativa.
Isabela atravessava o salão com uma bandeja vazia.
Era apenas uma das funcionárias temporárias contratadas para a festa.
Vestido preto simples, avental branco, cabelo preso.
Naquela sala, quase ninguém sabia seu nome.
Então ela ouviu:
“Clinc.”
Isabela parou.
Olhou para a torre.
Uma segunda taça deslizou.
Seu estômago gelou.
Aquilo não era vibração causada pela música.
A base inteira estava inclinando.
Na direção de Gabriel.
“Gabriel!”
A bandeja escapou das mãos dela.
O metal bateu no chão.
Dezenas de rostos se viraram.
Isabela já estava correndo.
Gabriel ergueu os olhos.
Não teve tempo de entender.
A torre cedeu.
Isabela atravessou os últimos metros, agarrou o menino e girou o corpo, colocando as próprias costas entre Gabriel e a avalanche de cristal.
O estrondo silenciou a festa.
Centenas de taças atingiram o mármore.
Vidro explodiu em todas as direções.
Gritos ecoaram.
Isabela caiu de joelhos, curvada sobre Gabriel.
“Não se mexe”, sussurrou, ofegante. “Não se mexe, meu amor.”
“Isa…”
“Estou aqui.”
Ela nem percebeu que o menino tinha acabado de abreviar seu nome.
Gabriel estava intacto.
Isabela não.
Um pequeno corte perto da testa deixava sangue escorrer por sua têmpora. Um dos braços ardia por causa do impacto.
Mas ela continuou protegendo a cabeça do menino.
Então ouviu passos.
Não eram passos comuns.
As pessoas simplesmente abriam caminho.
Dante Montenegro atravessou o salão.
Aos trinta e oito anos, ele era conhecido nos jornais como presidente do Grupo Montenegro.
Na Faria Lima, seu sobrenome abria portas.
Em outros lugares de São Paulo, fechava bocas.
Naquela noite, porém, Dante não parecia empresário nem chefe de coisa alguma.
Parecia apenas um pai que tinha acabado de ver centenas de taças caírem sobre seu filho.
“Gabriel!”
Ele chegou aos destroços.
Viu o menino no chão.
Viu Isabela sobre ele.
E interpretou tudo errado.
“SAI DE CIMA DO MEU FILHO!”
Dante segurou Isabela pelo braço.
Puxou-a.
Ela perdeu o equilíbrio e apoiou uma mão entre os cacos.
“Ah!”
Dante nem ouviu.
Ajoelhou-se e puxou Gabriel para os braços.
“Olha pra mim. Gabriel, olha pro papai.”
“Pai…”
“Você está machucado?”
Dante verificou o rosto, as mãos, o pescoço.
“Nada?”
Gabriel respirava depressa.
Então viu Isabela ajoelhada entre os cacos.
O sangue já alcançava sua sobrancelha.
O menino empurrou o peito do pai.
“Pai!”
“Estou aqui.”
“Ela me salvou!”
Dante parou.
“Quê?”
“Ela me salvou!”
Gabriel apontou para Isabela.
“Você empurrou ela!”
O salão ficou ainda mais silencioso.
Isabela levantou devagar.
Não pediu desculpas.
Não tentou agradá-lo.
Apenas olhou para Gabriel.
“Ele não se cortou?”
Dante a encarou.
“Você…”
“Seu filho está bem?”
Dante olhou novamente para Gabriel.
Nenhum corte.
Nenhuma gota de sangue.
Nada.
Então voltou os olhos para a mulher diante dele.
Só agora percebeu o sangue na testa dela.
E a palma da mão.
Um pequeno pedaço de vidro estava preso perto do polegar.
Dante soltou o ar lentamente.
“Eu pensei…”
“Eu sei o que o senhor pensou.”
A resposta foi seca.
Sem medo.
Aquilo o surpreendeu quase tanto quanto o que ela tinha feito.
Um homem alto atravessou o círculo de convidados.
Bruno Almeida.
Chefe da segurança de Dante.
“Dante.”
Bruno examinou os destroços.
“Isso não deveria ter acontecido.”
“Eu sei.”
“A estrutura foi inspecionada duas vezes.”
Dante virou o rosto.
“Feche o salão.”
Alguns convidados imediatamente protestaram.
“Dante, isso é absurdo.”
“Temos compromissos.”
“Foi um acidente.”
Dante nem levantou a voz.
“Ninguém sai.”
As portas começaram a ser fechadas.
Foi então que Gabriel se mexeu nos braços do pai.
“Não foi acidente.”
Dante olhou para ele.
“O quê?”
Gabriel estava olhando para cima.
Para o mezanino.
Seu rosto havia mudado.
O menino parecia assustado.
“Filho?”
Gabriel levantou a mão.
Apontou.
Todos acompanharam o gesto.
No andar superior, perto de uma das colunas, um homem grande, de cabeça raspada, começou a recuar.
Usava o uniforme preto da equipe de segurança.
No lado esquerdo do pescoço, uma tatuagem de cobra desaparecia sob a gola.
Gabriel apontou diretamente para ele.
“Foi ele.”
O homem congelou.
Bruno levou a mão ao rádio.
Dante estreitou os olhos.
“Gabriel, o que você viu?”
O menino engoliu em seco.
“Ele mexeu lá.”
Apontou para os restos da torre.
“Ele empurrou.”
O homem tatuado deu outro passo para trás.
Bruno falou no rádio:
“Porta norte. Agora.”
O homem se virou.
E correu.
“Pega ele!”, alguém gritou.
Dois seguranças avançaram pelo mezanino.
O homem derrubou uma mesa, atravessou um grupo de convidados e correu para a escada lateral.
Isabela se abaixou para tirar um caco preso no avental.
Foi quando viu alguma coisa brilhando sob os vidros.
O objeto não combinava com nada ao redor.
Ela afastou dois cacos.
Pegou-o.
Uma abotoadura de ouro.
Pesada.
Cara.
Na parte da frente havia um brasão.
Isabela já tinha visto aquele símbolo naquela noite.
Nas taças.
Nos guardanapos.
Nos portões.
Era o brasão dos Montenegro.
“Senhor Montenegro.”
Dante estava dando ordens a Bruno.
Não ouviu.
“Senhor Montenegro.”
Dessa vez ele se virou.
Isabela mostrou a abotoadura.
A expressão de Dante mudou.
Ele caminhou até ela.
“Me dá isso.”
Isabela não entregou imediatamente.
Virou a peça.
Havia algo gravado atrás.
Muito pequeno.
Ela aproximou a abotoadura da luz.
E parou.
“Que foi?”, Dante perguntou.
Isabela ergueu os olhos.
Depois olhou para o ponto onde Gabriel estava quando a torre caiu.
Olhou para a posição de Dante durante a festa.
E entendeu.
“Meu Deus…”
“Fala.”
Ela mostrou o verso da peça.
Gravado no ouro estava o perfil do rosto de Dante Montenegro.
Dante ficou imóvel.
Isabela olhou novamente para os destroços.
“Ele não estava tentando matar o Gabriel.”
A voz de Dante ficou baixa.
“O que você disse?”
Isabela apontou para o chão.
“Seu filho estava ali.”
Depois apontou para o outro lado do salão.
“E o senhor estava ali.”
Dante começou a compreender.
“Se a torre caísse…”
“Você correria até ele.”
Bruno parou ao lado deles.
Isabela fechou a mão em torno da abotoadura.
“Gabriel era a isca.”
Dante olhou para o filho.
Depois para o homem tatuado que tentava alcançar a saída.
Seu rosto perdeu qualquer traço de emoção.
“Bruno.”
“Sim.”
“Pegue ele vivo.”
As portas do salão bateram.
O homem tatuado percebeu que estava cercado.
Dante tirou Gabriel do chão e colocou o menino nos braços de Teresa, a governanta que acabara de chegar correndo.
Então caminhou na direção do homem.
Sem pressa.
Isabela observou.
E pela primeira vez naquela noite compreendeu por que, quando Dante Montenegro entrava em um lugar, até homens poderosos paravam de falar.
A festa tinha acabado.
Mas alguém dentro daquela mansão ainda queria Dante morto.
E essa pessoa estava entre eles.
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