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"As Chaves Que Ele Jogou no Chão" Capítulo 5 — Quem Pagou Pelo Silêncio

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Capítulo 5 — Quem Pagou Pelo Silêncio

Helena chamou a secretária do conselho e ditou o pedido de Caio para a ata. Augusto concordou em ouvir os estudantes por dez minutos, desde que os dados dos demais bolsistas não fossem discutidos na presença deles.

Lívia aceitou a condição. Não precisava falar pelos outros para mostrar o que havia em seu próprio processo.

"Consta que fui atendida por quarenta e cinco minutos no dia do meu estágio", disse, entregando uma cópia do registro do hospital. "Quero saber quem declarou esse atendimento e por que isso terminou com a cobrança da minha mensalidade."

André apresentou seu histórico de chamadas: não recebera ligação da Integra Campus no dia indicado. Joana mostrou que a suposta reunião presencial ocorrera quando o prédio acadêmico estava fechado.

Augusto examinou os papéis sem alterar a expressão.

"Se há erros no relatório da contratada, ela terá de corrigi-los. Isso não prova desvio de recursos."

"Concordo", disse Caio. "Por isso solicitei a comprovação dos pagamentos e dos serviços. Meu acesso foi suspenso antes de eu receber a resposta."

Um conselheiro mais velho, que ainda não falara, pediu a Augusto que justificasse a suspensão. Augusto disse que fora uma medida de proteção, diante da circulação do vídeo do pátio e de possíveis vazamentos.

"Quem publicou aquele vídeo não fui eu", respondeu Caio.

Tomás ergueu o rosto.

"Está me acusando de alguma coisa?"

"Estou dizendo que ele circulou antes de a fundação se pronunciar."

Caio não mencionou Bianca nem a gravação completa. Ela ainda decidia como permitiria o uso do material, e Raquel não podia ser exposta por uma disputa sobre o pátio.

Ao fim dos dez minutos, os estudantes saíram. O conselho manteve provisoriamente a restrição de acesso, mas aprovou o envio dos documentos solicitados a uma comissão composta por Helena, um conselheiro independente e um representante jurídico da fundação. Augusto votou contra.

No corredor, Lívia esperava por Caio.

"Não conseguimos uma resposta."

"Conseguimos que três contestações entrassem na ata. Antes, o relatório dizia que ninguém reclamara."

"Minha mensalidade continua em disputa."

"Helena vai confirmar por escrito a suspensão da cobrança até a revisão. Se não confirmar hoje, me avise."

Lívia cruzou os braços.

"Você fala como alguém que sempre pode pedir mais um documento."

Caio percebeu o cansaço por trás da irritação.

"É justo. Para você, cada dia conta. Vou buscar uma decisão sobre as matrículas dos quinze, não apenas sobre o meu acesso."

Ela assentiu, sem lhe agradecer.

Naquela tarde, Caio recebeu uma chamada de uma mulher que se apresentou como

Marina Ferraz

, ex-analista de pagamentos da fundação. Ela soubera da investigação por um antigo colega e não queria voltar à universidade.

Encontraram-se em uma cafeteria movimentada, do outro lado da cidade. Marina chegou com uma pasta vazia.

"Não trouxe documentos", avisou. "Não vou entregar arquivo de empresa em uma mesa de café."

"Não pedi que trouxesse. Quero entender o que você viu."

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Marina contara seis anos de trabalho na fundação. Saíra três meses antes, depois de questionar pagamentos à Integra Campus. Segundo ela, o contrato tinha duas etapas: a universidade registrava os estudantes atendidos; a fundação validava o relatório e liberava o valor à empresa.

"Eu só fazia a conciliação", explicou. "Vi os mesmos alunos aparecerem em relatórios sucessivos, com atendimentos quase idênticos. Pedi confirmação à equipe acadêmica. Meu supervisor disse que o comitê já tinha conferido."

"Augusto?"

"Não sei quem conferia pessoalmente. A assinatura de validação vinha do setor dele."

Marina escreveu num guardanapo os números de três ordens de pagamento.

"Essas operações constam no relatório anual. Você pode pedir as vias oficiais. A terceira foi dividida em duas parcelas no mesmo dia. Foi aí que comecei a desconfiar."

"Por que saiu?"

"Meu contrato não foi renovado. Disseram que estavam reduzindo a equipe."

Ela olhou para Caio com franqueza.

"Se pretende me chamar para depor, primeiro mostre os documentos. Não quero transformar uma suspeita minha em certeza só porque seu adversário é Brandão."

Caio guardou os números.

"É exatamente o que vou fazer."

Ao voltar à universidade, encontrou Lívia com Bianca na escadaria da biblioteca. Bianca finalmente concordara em fornecer à comissão uma cópia do arquivo original do pátio, acompanhada de uma declaração sobre quando e como gravara. Pediu que o trecho em que Raquel aparecia fosse protegido durante a análise.

"Quero corrigir a mentira que publiquei", disse Bianca. "Mas não vou colocar o emprego dela num vídeo."

Caio sugeriu que entregassem o arquivo completo à comissão e publicassem, separadamente, apenas o trecho necessário para esclarecer as chaves. Bianca teria acesso à versão antes de qualquer divulgação. Ela concordou.

Na manhã seguinte, a correção apareceu na página estudantil. Mostrava Tomás jogando as chaves e ordenando a Caio que as pegasse. Não continha a conversa sobre as bolsas.

Os comentários mudaram depressa. Alguns estudantes pediram desculpas por terem compartilhado a primeira versão. Outros perguntaram por que o filho de um conselheiro falara em nome do pai sobre a lista.

Tomás telefonou para Bianca cinco vezes. Na sexta, ela bloqueou o número.

A comissão, porém, continuava sem os comprovantes centrais. A Integra Campus enviara relatórios de atividade, não registros que demonstrassem os atendimentos. Sérgio prometeu buscar os anexos dos pagamentos no arquivo financeiro.

No fim da tarde, a secretária do conselho informou que Marina não atendia às ligações da comissão. Caio mandou uma única mensagem, dizendo que os números fornecidos por ela haviam permitido localizar as ordens oficiais e que respeitaria sua decisão sobre participar. Não recebeu resposta.

Augusto aproveitou o silêncio. Convocou uma nova reunião para aprovar um acordo de continuidade com a Integra Campus, alegando que a interrupção do serviço prejudicaria estudantes vulneráveis.

Lívia leu a convocação no celular de Caio.

"Ele vai renovar a empresa antes de mostrar o que ela fez?"

"É o que pretende."

"Então não espere Marina."

Caio observou as três ordens de pagamento já localizadas pela comissão. Havia outro caminho: confrontar os relatórios da empresa com os registros dos próprios estudantes e exigir a identificação formal de quem recebera o dinheiro.

Naquela noite, Lívia, André e Joana contataram outros bolsistas sem divulgar seus dados em grupo. Oito aceitaram conversar; seis autorizaram por escrito que suas contestações fossem levadas ao conselho. Bianca organizou os depoimentos em arquivos separados, sem publicar nenhum.

Caio preparou um pedido para suspender a votação do novo acordo até a conclusão da conferência. Helena leu o texto e fez uma observação:

"Você tem elementos para interromper a renovação. Ainda não tem prova suficiente para afirmar quem ficou com o dinheiro."

"Não vou afirmar antes de saber."

"Augusto vai dizer que você está protegendo sua imagem depois do vídeo."

Caio guardou os documentos na pasta.

"Então vamos entrar com os estudantes, os registros e uma pergunta que ele não pode responder com um discurso."

Às onze e quarenta e três da noite, Marina finalmente escreveu.

Não posso comparecer amanhã. Mas confira quem autorizou a segunda parcela da ordem 3187. A data não é a mesma do relatório apresentado ao conselho.

Caio abriu a cópia recebida pela comissão. A ordem 3187 tinha duas datas visíveis: uma no relatório de serviços, outra no comprovante de autorização.

Entre elas havia vinte e seis dias.

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