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"As Chaves Que Ele Jogou no Chão" Capítulo 4 — A Conta Vazia

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Capítulo 4 — A Conta Vazia

"Tomás abriu uma reclamação antes de eu receber o aviso?", Lívia perguntou.

Raquel baixou o celular, mas a imagem continuou acesa entre seus dedos.

"Não foi uma reclamação comum. O campo dizia que os alunos poderiam contestar a reclassificação e que a resposta deveria ser encaminhada ao comitê."

"Ele sabia que haveria contestação", disse Bianca.

Caio pediu que Raquel lesse o registro completo. Havia um número de protocolo, a data, o nome de Tomás e uma orientação para a equipe de atendimento: não prometer a manutenção das bolsas sem autorização do comitê. Nada ali provava que ele tivesse alterado a lista, mas impedia que alegasse desconhecer o problema.

"Você consegue consultar esse protocolo amanhã sem usar sua conta pessoal?", Caio perguntou.

Raquel negou com a cabeça.

"Hoje à tarde tiraram meu acesso a esse módulo. Disseram que era uma atualização."

Lívia soltou o ar devagar.

"Depois que você falou comigo."

"Não sei se foi por isso."

Caio também não sabia. Anotou a hora em que Raquel perdera o acesso e pediu que ela guardasse a captura original no aparelho. Não queria que a única cópia passasse de mão em mão por mensagens.

Quando saíram da padaria, já era noite. Raquel tomou o ônibus primeiro. Bianca ficou ao lado de Lívia na calçada, acompanhando a circulação dos carros.

"Tomás me mandou mais três mensagens", disse. "Quer saber onde estou."

"Você não precisa responder", Lívia falou.

"Se eu sumir, ele vai saber que conversei com vocês."

Caio sugeriu uma resposta simples: ela estivera editando material da página e não queria discutir o vídeo naquele momento. Bianca digitou, mostrou às duas pessoas ao lado e enviou. Não era uma armadilha; apenas lhe dava tempo.

O telefone de Caio tocou antes que atravessassem a rua. Era Helena.

"Sérgio encontrou o contrato vinculado aos pagamentos", disse a reitora. "Você precisa vir amanhã cedo. Augusto convocou uma reunião extraordinária do conselho para as nove."

"Qual é o objeto do contrato?"

"Serviços de permanência estudantil. Orientação financeira, acompanhamento acadêmico, apoio a alunos em risco de evasão."

"Algum dos quinze recebeu esses serviços?"

"Não tenho essa resposta."

Lívia ouvira a pergunta.

"Eu nunca falei com essa empresa", disse quando Caio desligou. "Se usaram meu nome para dizer que me atenderam, quero ver onde assinei."

Na manhã seguinte, ela levou mais dois bolsistas à universidade. André, aluno de Engenharia, recebera um boleto de onze mil reais. Joana, de Enfermagem, descobrira o cancelamento ao tentar renovar o acesso ao laboratório. Ambos autorizaram, por escrito, que seus processos fossem examinados na presença deles.

Caio reuniu os três com Helena, Sérgio e uma funcionária da central. Sobre a mesa havia um contrato de quarenta páginas firmado com a

Integra Campus Serviços Educacionais

. A empresa deveria identificar estudantes em risco de abandono e oferecer acompanhamento individual. Seu pagamento dependia de relatórios mensais de atendimento.

"Quero ver um relatório", pediu Caio.

正文1

Sérgio abriu uma pasta digital. O arquivo trazia quinze números de matrícula, datas e a marcação

atendimento concluído

.

Lívia procurou o seu.

"Na terça-feira às dezesseis horas eu estava no estágio do hospital", disse. "Há registro de entrada e saída. Ninguém me atendeu."

Joana apontou para outra linha.

"Este dia foi feriado municipal. O campus estava fechado."

Sérgio aproximou o rosto da tela.

"Alguns atendimentos poderiam ter sido remotos."

"Por telefone, mensagem, vídeo?", Caio perguntou. "Há comprovantes?"

"Vou solicitar à contratada."

"Solicite hoje. E preserve os arquivos que já estão no sistema."

A funcionária da central hesitou antes de falar.

"Os bolsistas não receberam comunicado sobre essa empresa. Eu teria visto os modelos de mensagem."

Helena pediu que ela registrasse aquilo por escrito. A mulher concordou, embora seus olhos se movessem para a porta fechada.

Às oito e cinquenta, chegaram dois e-mails quase ao mesmo tempo. O primeiro informava que os acessos de Caio aos contratos anteriores à sua posse estavam temporariamente suspensos, até deliberação do conselho. O segundo comunicava a Lívia que a suspensão de seu boleto seria revista por "inconsistência na autorização".

Ela mostrou a mensagem a Helena.

"Ontem você assinou que eu podia continuar estudando."

"Assinei", respondeu a reitora, já pegando o telefone. "E essa declaração continua válida enquanto eu não a retirar. Não autorizei esta mensagem."

Caio leu novamente o e-mail sobre seus acessos. A decisão fora solicitada por Augusto Brandão e aprovada de forma provisória por dois conselheiros. Ele ainda podia comparecer à reunião, mas não consultar novos arquivos pelo sistema.

"Querem que eu entre lá sem documentos", disse.

Lívia fechou a pasta.

"Eu tenho os meus. André e Joana também."

Caio olhou para os três estudantes. Não pediria que expusessem suas histórias diante do conselho só porque perdera uma senha.

"Vocês podem escolher se querem participar", disse. "Antes disso, vou usar os registros que já foram obtidos regularmente. E pedir uma cópia formal do que foi retirado do meu acesso."

Ele encaminhou a solicitação à secretaria do conselho, identificando cada documento necessário e a razão do pedido. Depois fotografou, com autorização dos estudantes, apenas os trechos dos próprios processos que eles haviam levado.

Às nove, Augusto entrou na sala de reuniões com uma pasta fina. Tomás vinha atrás dele, sem o sorriso do pátio.

"Espero que finalmente possamos discutir a conduta do novo presidente", disse Augusto ao se sentar.

Caio colocou sobre a mesa os três relatórios de atendimento.

"Podemos. Começando por explicar por que a universidade pagou por reuniões que esses estudantes afirmam nunca ter tido."

Augusto não tocou nos papéis.

"Você perdeu acesso ao sistema por uma razão. Esse contrato exige análise técnica."

"E esses alunos exigem uma resposta."

O conselheiro apoiou as mãos na mesa.

"Não vou permitir que transforme uma divergência administrativa em espetáculo."

Antes que Caio respondesse, Lívia abriu a porta, acompanhada por André e Joana. Ela não entrou até Helena lhe fazer um sinal.

"Eu também preferia resolver isso sem plateia", disse Lívia. "Mas ontem à noite tentaram me cobrar de novo. Se a reunião é sobre o que fizeram com a minha bolsa, eu quero ouvir a resposta."

Tomás desviou o olhar. Augusto fechou a pasta que trouxera.

"Estudantes não participam desta deliberação", disse ele.

"Então registre em ata", pediu Caio, "que os três vieram contestar atendimentos lançados em seus nomes e que você se recusou a ouvi-los."

Pela primeira vez desde que Caio o conhecera, Augusto pareceu precisar de alguns segundos para escolher as palavras.

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