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"As Chaves Que Ele Jogou no Chão" Capítulo 3 — O Vídeo Inteiro

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Capítulo 3 — O Vídeo Inteiro

Bianca mostrou a mensagem antes que Caio pudesse perguntar mais.

Apaga tudo antes que seu nome apareça no meio disso.

O remetente era Tomás.

"Ele sabe que você gravou?" Caio perguntou.

"Ele sabe que eu gravo sempre. A página é minha."

Bianca guardou o celular e olhou para os seguranças. Caio pediu a Lívia que os acompanhasse até uma sala de estudos vazia, perto da biblioteca. Deixou a porta entreaberta.

"Você não precisa entregar o telefone", disse a Bianca. "Também não vou publicar nada sem entender quem aparece no vídeo."

"Tomás já publicou a versão dele."

"Quero ver a sua."

Bianca abriu a galeria. O arquivo tinha seis minutos. Começava antes de Caio entrar no pátio: Tomás estacionava sobre a faixa de passagem, saía do carro e encontrava dois amigos. Bianca filmava a decoração ao fundo.

No áudio, um dos amigos mencionava uma estudante de Medicina que discutia sua bolsa na secretaria.

Tomás respondera: "Meu pai avisou que hoje ia ter gente reclamando. Se alguém perguntar, a lista ainda está em revisão."

Lívia apoiou a mão na mesa.

Bianca pausou.

"Eu não tinha prestado atenção nisso quando gravei", disse. "Só ouvi depois que vi a postagem."

"Continue", pediu Caio.

Na gravação, Tomás percebia a bicicleta de Caio, aproximava-se, jogava as chaves e mandava que ele as pegasse. O vídeo mostrava a cena inteira, inclusive a chegada de Helena e o momento em que Tomás se abaixava por conta própria.

Caio pediu a Bianca que não editasse nem encaminhasse o arquivo por enquanto. Perguntou se ela concordaria em fornecer uma cópia original à apuração, com registro de recebimento. Ela balançou a cabeça.

"Tem outra pessoa no início. Não aparece o rosto, mas dá para reconhecer a voz."

Caio voltou alguns segundos. Uma jovem carregando uma caixa de materiais passava atrás de Tomás. Ao ouvir a conversa sobre as bolsas, parava e olhava na direção dele.

"Quem é?" perguntou Lívia.

"Raquel. Trabalha meio período no atendimento. Foi ela que me disse ontem que eu precisava verificar minha renovação", Bianca respondeu. "O emprego ajuda a pagar o aluguel dela. Se Tomás descobrir que foi ela quem me alertou, o pai dele faz a chefia cortar o contrato."

Lívia olhou novamente para a tela.

"Ela sabia que havia um problema antes de o meu e-mail chegar."

"Talvez soubesse apenas que estavam mexendo na lista", disse Caio. "Precisamos perguntar a ela. Sem expô-la."

Bianca soltou uma risada sem humor.

"Fácil falar quando você preside a fundação."

Caio aceitou a crítica.

"Então vamos fazer do jeito que ela escolher. Eu não vou usar o nome dela numa nota nem pedir que você publique o vídeo para me defender."

"Enquanto isso, todo mundo acredita que você fez Tomás se ajoelhar."

"Uma postagem sobre mim pode esperar algumas horas. A matrícula de quinze estudantes, não."

Bianca o encarou, tentando descobrir se era uma frase preparada. Caio abriu o bloco de notas e escreveu o nome de Raquel apenas para si, sem pedir o telefone dela.

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"Pode perguntar se ela aceita conversar com Lívia primeiro?" disse. "Ela decide se quer falar com alguém da fundação."

Bianca concordou em mandar uma mensagem.

Naquela tarde, Caio e Helena reuniram os responsáveis pelo financeiro e pela central de bolsas. O relatório enviado à fundação registrava os vinte e três repasses como concluídos. A central, porém, só conseguia confirmar oito benefícios ativos.

"Para onde foram lançados os outros quinze?" Caio perguntou.

O gerente financeiro, Sérgio Mota, virou uma página da planilha.

"Há um código de execução. Preciso consultar o contrato vinculado."

"Faça isso."

Sérgio lançou um olhar a Helena.

"Esse contrato passou pelo comitê do conselheiro Brandão."

"É justamente por isso que preciso vê-lo", respondeu Caio.

O homem explicou que parte dos pagamentos era processada como serviço de apoio estudantil. Não soube dizer, naquele momento, que serviço fora prestado a Lívia. Caio pediu comprovantes de recebimento, contratos e registros de autorização, com prazo até a manhã seguinte.

Quando a reunião terminou, Augusto Brandão aguardava no corredor.

Era um homem alto, de cabelos grisalhos, que cumprimentou Helena com familiaridade e ignorou Lívia, parada perto da porta.

"Caio", disse ele. "Seu pai e eu discordávamos de muita coisa, mas sempre conversávamos antes de criar um escândalo."

"Estou tentando entender os números antes de falar em público."

"Meu filho me disse que você o constrangeu diante de dezenas de alunos."

"Há uma gravação do começo da conversa."

A expressão de Augusto não mudou, mas seus olhos foram para o celular na mão de Bianca, que vinha pelo corredor.

"Gravações podem ser interpretadas de muitas maneiras."

"E os repasses?"

"Também. Você acaba de assumir. Seria prudente conhecer o funcionamento da casa antes de pôr funcionários sob suspeita."

Lívia deu um passo à frente.

"Eu conheço o funcionamento. Estudei aqui por cinco anos. Ontem minha bolsa existia; hoje tenho uma dívida que não consigo pagar."

Augusto finalmente olhou para ela.

"Senhorita, questões individuais devem seguir os canais adequados."

"Eu segui. Foi por isso que estava na secretaria quando seu filho me ouviu reclamar."

O conselheiro não respondeu. Ajustou o punho da camisa e voltou-se para Caio.

"Falaremos na reunião do conselho."

Ele se afastou. Helena esperou que dobrasse a esquina antes de dizer:

"Augusto tem influência sobre parte dos conselheiros. Vamos precisar de documentos que resistam a uma contestação."

"Por isso pedi os comprovantes", Caio respondeu.

Bianca mostrou o celular. Raquel aceitara conversar, desde que seu nome não fosse citado a Augusto e que Lívia estivesse presente. Marcara um encontro numa padaria perto do terminal de ônibus, depois do expediente.

Às seis e meia, os três se sentaram numa mesa ao fundo. Raquel chegou ainda com o uniforme da universidade e uma mochila pequena. Não tocou no café que pediu.

"Eu não vi ninguém tirar dinheiro", começou. "Trabalho no atendimento. Só vi as mudanças de cadastro."

Ela contou que recebera uma lista de estudantes para contatar sobre supostas pendências. Ao tentar abrir os processos, encontrara a mensagem de que os repasses estavam concluídos. Sua supervisora ordenara que não mencionasse aquele campo nas ligações.

"Quem enviou a lista?" perguntou Caio.

"Veio pelo sistema do comitê. Mas eu fiz uma captura de tela antes que retirassem meu acesso."

Raquel abriu uma imagem no celular. Mostrava os quinze números de processo e um campo comum: todos haviam sido vinculados a um mesmo código de contrato.

Lívia encontrou seu número na oitava linha.

"Posso guardar a imagem?" perguntou Caio.

Raquel hesitou.

"Se chegar ao meu chefe, vão saber que fui eu."

"Então não envie agora. Você pode anotá-la como documento que viu, e decidimos depois como apresentá-la com sua autorização."

Raquel respirou fundo.

"Há outra coisa. Quando a supervisora mandou fechar os chamados, um deles já tinha uma resposta preparada. A reclamação tinha sido feita antes de os alunos receberem o aviso."

"Por quem?" perguntou Lívia.

Raquel ampliou a captura. No campo de solicitante, aparecia um nome que Caio reconheceu da lista de convidados da cerimônia:

Tomás Brandão

.

O pedido fora registrado na véspera, às quatro da tarde.

Tomás sabia que os estudantes reclamariam antes que soubessem que suas bolsas haviam sido encerradas.

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