"As Chaves Que Ele Jogou no Chão" Capítulo 1 — As Chaves no Chão
Capítulo 1 — As Chaves no Chão
"Pega."
O molho de chaves caiu entre os sapatos de Caio e a roda dianteira de sua bicicleta. O chaveiro de metal bateu no piso do pátio com um estalo que fez três estudantes virarem a cabeça.
Caio olhou para as chaves. Depois, para o homem que as tinha jogado.
"Você deixou cair", disse.
Tomás Brandão sorriu, satisfeito por ter atraído uma plateia.
"Eu joguei. Tem diferença."
Ele apontou para o carro preto estacionado diante do bicicletário. O veículo ocupava parte da faixa de passagem, obrigando quem vinha da portaria a contorná-lo.
"Vai lá, pega para mim."
Caio apoiou a bicicleta no suporte. A corrente tinha escapado duas vezes no trajeto até a Universidade Horizonte, e uma mancha de graxa ainda marcava seu polegar. Ele a limpou num lenço de papel antes de responder.
"Suas chaves estão onde você colocou."
O sorriso de Tomás desapareceu um pouco.
Naquela manhã, o pátio estava mais cheio do que de costume. Havia uma faixa anunciando a chegada de uma nova gestão para a fundação mantenedora da universidade. Funcionários carregavam caixas de taças para o prédio administrativo; estudantes paravam para fotografar a decoração.
Tomás escolhera justamente aquele lugar para fazer seu espetáculo.
"Você é entregador?" perguntou, percorrendo com os olhos a mochila de lona de Caio. "Se for, a entrada de serviço fica do outro lado."
"Eu sei onde fica."
"Então usa."
Uma garota ao lado de Tomás soltou uma risada curta. Ela segurava o celular na altura do peito, com a câmera apontada para os dois.
"Tomás, deixa", disse ela, sem baixar o aparelho.
"Agora você quer que eu deixe? Foi você que perguntou por que tinha uma bicicleta enferrujada ao lado do meu carro."
A garota fechou a expressão. Caio percebeu que ela estava gravando havia mais tempo do que Tomás imaginava.
Atrás deles, uma voz feminina discutia com um funcionário junto à entrada da secretaria.
"Meu boleto vence hoje. Vocês disseram que a bolsa estava confirmada."
"A informação no sistema mudou, senhora."
"Ontem à noite?"
Caio virou o rosto. A jovem segurava uma pasta transparente cheia de papéis. Vestia calça jeans, tênis gasto e o jaleco dobrado sobre o braço. O crachá preso à alça da bolsa dizia
Lívia Nascimento — Medicina
.
Tomás estalou os dedos diante dele.
"Estou falando com você."
"Eu ouvi."
"Então se abaixa."
O pátio ficou mais quieto. Um rapaz de camisa azul ergueu o celular; outros dois se aproximaram. Caio pensou em simplesmente passar por Tomás e seguir para a reitoria. Sua reunião começaria em quinze minutos.
Mas a estudante junto à secretaria acabara de ouvir que perderia a bolsa sem receber uma explicação. E o homem que bloqueava sua passagem tratava aquilo como parte da paisagem.
Caio empurrou a bicicleta para dentro do suporte e prendeu a roda com um cadeado.
"Qual é o seu nome?" perguntou a Tomás.
O rapaz deu uma gargalhada.
"Você entrou aqui sem saber quem eu sou?"
"Prefiro ouvir de você."
"Tomás Brandão."
Caio conhecia o sobrenome. Augusto Brandão ocupava uma das cadeiras do conselho da fundação havia oito anos. Na pasta que Caio lera na noite anterior, o nome dele aparecia como responsável pelo comitê que supervisionava o programa de bolsas.
"Entendi", disse Caio.
Tomás interpretou o silêncio como medo. Ergueu o braço para mostrar o relógio.
"Isso aqui custa mais que a sua bicicleta, seu celular e o salário de um ano inteiro do seu pai. Você consegue entender por que não quero sua sucata encostada no meu carro?"
"Consigo entender que estacionou na passagem."
Um assobio veio da roda de estudantes. Tomás avançou um passo.
"Última chance. Pega as chaves."
Caio não se moveu.
"Tomás."
A voz veio da escadaria da reitoria. Helena Duarte desceu os degraus depressa, acompanhada por uma assistente que consultava o celular. A reitora viu os estudantes reunidos, as chaves no chão e a bicicleta presa ao suporte.
Tomás abriu os braços.
"Professora Helena, ainda bem. Tem um sujeito causando confusão aqui."
Helena parou diante de Caio.
"Senhor Azevedo, peço desculpas. A equipe deveria ter sido avisada da sua chegada."
Tomás olhou primeiro para ela, depois para Caio.
"Senhor... quem?"
"Caio Azevedo", respondeu Helena. "Presidente da Fundação Azevedo, mantenedora da Universidade Horizonte."
Alguns celulares subiram mais alto. A garota ao lado de Tomás abaixou o seu.
Caio não gostou da súbita mudança no modo como as pessoas o olhavam. A bicicleta continuava a mesma. A graxa ainda estava em seu polegar. Só haviam descoberto seu sobrenome.
"Não precisa pedir desculpas pela minha chegada", disse ele a Helena.
Tomás tentou rir.
"Foi um mal-entendido. Eu não sabia..."
"Que eu presidia a fundação?" Caio perguntou.
Tomás abriu a boca, mas não encontrou uma resposta que ajudasse.
Caio apontou para as chaves.
"Isso não muda de dono quando você descobre meu nome."
Então caminhou até a secretaria. Lívia ainda estava junto ao balcão, imóvel, com uma folha de pagamento nas mãos. Ela vira a revelação; não parecia impressionada.
"Você disse que sua bolsa foi cancelada ontem?" perguntou Caio.
"Às oito e quarenta e sete da noite. Recebi um e-mail automático."
"Tem o número do processo?"
Ela hesitou.
"Tenho. Mas já falei com três pessoas."
"Eu sou a quarta. Posso ao menos verificar o que aconteceu."
Lívia mostrou a tela do celular. Caio anotou o número e pediu à assistente de Helena que abrisse o registro de concessões. A mulher digitou rapidamente. Sua testa se contraiu.
"O sistema informa que o repasse do semestre foi concluído."
Lívia ergueu o boleto.
"Então por que estão me cobrando dezessete mil e oitocentos reais?"
Helena se aproximou para olhar a tela. A assistente rolou mais uma linha e empalideceu.
"Há uma confirmação de pagamento vinculada ao processo", disse. "Mas o benefício aparece como encerrado."
"Quem confirmou?" perguntou Caio.
A assistente olhou de relance para Tomás, ainda parado no pátio, e depois para Helena.
"Preciso abrir a autorização interna."
"Abra."
Ela tocou na tela. Por um instante, os quatro ficaram em silêncio.
O nome do setor responsável surgiu acima da data da noite anterior:
Comitê de Bolsas — supervisão de Augusto Brandão
.
Caio guardou o número do processo no celular e encarou Helena.
"Adie a cerimônia."
"Caio, o conselho inteiro está esperando."
"E uma estudante recebeu uma cobrança por uma bolsa que consta como paga." Ele devolveu o telefone a Lívia. "Quero saber para onde foi esse dinheiro antes de assinar qualquer coisa."
Do outro lado do pátio, Tomás finalmente se abaixou para apanhar as próprias chaves. Ao ouvir o nome do pai, parou com a mão a poucos centímetros do chão.
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