"As Batidas Debaixo do Chão" Capítulo 11 — Três Batidas, Duas Respostas
Quatro meses depois, o porão já não parecia o mesmo lugar.
A porta antiga desaparecera.
As paredes receberam tinta clara.
As prateleiras enferrujadas foram retiradas.
Rafael ampliou a janela e colocou iluminação nova.
No lugar onde Mariana acordara presa havia agora uma estante baixa, caixas de brinquedos e uma mesa onde Sofia espalhava lápis de cor.
Ele não transformou o espaço para obrigar a filha a esquecer.
Durante semanas, Sofia nem entrou.
Rafael nunca pediu.
Mariana também não.
Até uma tarde em que Sofia ficou parada no primeiro degrau.
“Posso descer?”
Rafael estava no corredor.
“Pode.”
“Você vem?”
“Vou.”
Ela segurou sua mão.
Desceram juntos.
Sofia olhou ao redor.
“Não parece mais.”
“Mais o quê?”
“Escuro.”
Rafael apertou seus dedos.
“Não.”
Ela apontou.
“Foi ali que mamãe ficou?”
Rafael não mentiu.
“Foi.”
Sofia ficou séria.
Depois caminhou até o local.
Bateu três vezes na parede.
Pausa.
Duas.
Nada respondeu.
Ela sorriu.
“Agora não tem ninguém preso.”
“Não.”
“Então pode ser minha sala de desenho.”
Rafael riu pela primeira vez em dias.
“Pode.”
A investigação continuava.
Otávio Brandão foi denunciado por participação no esquema financeiro e por outros crimes revelados pelas provas.
Augusto foi localizado no interior de Minas Gerais semanas depois.
Tentara usar documentos falsos.
Eduardo firmou acordo de colaboração e admitiu sua participação desde os primeiros desvios.
Nada disso apagava o que fizera.
Mas suas informações ajudaram a reconstruir anos de fraude.
Vanessa também respondeu pelos próprios atos.
A investigação confirmou que ela realmente impedira Eduardo de retirar Mariana da casa.
Também confirmou que, depois disso, mantivera Mariana presa, escondera o telefone, mentira para Rafael, abafara os pedidos de socorro e agredira Sofia.
Uma coisa não anulava a outra.
Rafael aprendeu isso da maneira mais dolorosa.
Pessoas podiam sentir amor e ainda fazer coisas terríveis.
Podiam sentir medo e ainda ser responsáveis pelas decisões tomadas com esse medo.
Podiam ajudar num momento e destruir no seguinte.
Sofia não precisava entender nada disso ainda.
Ela precisava ser criança.
Numa quarta-feira, Mariana buscou Sofia na escola.
A menina saiu correndo.
“Mãe!”
Mariana abriu os braços.
“Como foi?”
“Eu tirei dez.”
“Em quê?”
Sofia parou.
“Não sei.”
Mariana riu.
“Então foi um dez muito importante.”
No carro, Sofia falou sem parar.
Sobre a professora.
Sobre uma colega que levara um estojo novo.
Sobre o cachorro que queria ter.
Quando chegaram ao apartamento, Sofia ficou séria.
“Mãe.”
“Hum?”
“Você vai morar com o papai de novo?”
Mariana quase deixou as chaves caírem.
“Por que está perguntando?”
“Porque vocês não brigam mais.”
Mariana se abaixou.
“Seu pai e eu sempre vamos ser sua família.”
“Mas vai casar?”
“Não.”
“Por quê?”
“Porque ser família não significa que duas pessoas precisam ser casadas.”
Sofia pensou.
“Mas você gosta dele?”
“Gosto.”
“Ele gosta de você.”
Mariana sorriu.
“Também.”
“Então vocês são complicados.”
Mariana riu.
“Isso você entendeu muito rápido.”
A relação entre ela e Rafael realmente mudara.
Não houve beijo inesperado.
Não houve reconciliação conveniente.
Havia confiança sendo reconstruída.
Café compartilhado durante reuniões com advogados.
Conversas na porta da escola.
Mensagens quando Sofia tinha pesadelos.
E uma certeza que ambos haviam perdido durante o divórcio:
quando se tratava da filha, precisavam estar do mesmo lado.
Na sexta-feira, Rafael encontrou Mariana esperando diante da antiga casa de Antônio.
“Tem certeza?”
“Tenho.”
Eles entraram.
Rafael pretendia vender o imóvel.
Antes, porém, queria passar uma última vez pelo escritório.
A carta do pai estava em sua mão.
Sentou na velha cadeira.
“Passei anos achando que ele morreu decepcionado comigo.”
Mariana encostou na mesa.
“Agora sabe que não.”
“Eu devia ter percebido.”
“Não.”
“Todo mundo fala isso.”
“Porque é verdade.”
“Eduardo estava comigo todos os dias.”
“E mentia todos os dias.”
“Otávio conhecia minha família.”
“Exatamente.”
Rafael olhou para a carta.
“Meu pai escreveu para eu não confiar em alguém só porque estava ao nosso lado havia muito tempo.”
“É um bom conselho.”
“Também é uma maneira horrível de viver.”
Mariana ficou em silêncio.
“Não quero passar o resto da vida desconfiando de todo mundo.”
“Então não passe.”
“Como?”
“Aprende outra coisa.”
“O quê?”
“Confiança não é fechar os olhos.”
Ela tocou a carta.
“É poder abrir.”
Rafael sorriu discretamente.
“Desde quando você ficou filosófica?”
“Desde que fui trancada num porão.”
Ele perdeu o sorriso.
Mariana percebeu.
“Foi uma piada ruim.”
“Foi.”
“Desculpa.”
Rafael olhou para ela.
“Você ainda tem medo?”
Mariana não fingiu.
“Tenho.”
“Do porão?”
“De algumas portas fechadas.”
“E Sofia?”
“Também.”
“Ela não demonstra.”
“Ela tem cinco anos. Às vezes demonstra perguntando três vezes se eu vou buscá-la.”
Rafael baixou a cabeça.
“Ela pergunta para mim também.”
“Então a gente responde quatro.”
Ele sorriu.
“Quatro?”
“Até ela cansar.”
Naquela noite, Sofia dormiu na casa do pai.
Às duas e dezessete da manhã, Rafael acordou com passos no corredor.
Abriu a porta.
Sofia estava ali.
“Pesadelo?”
Ela assentiu.
“Quer dormir comigo?”
“Não.”
“Quer que eu fique no seu quarto?”
Ela pensou.
“Só até eu dormir.”
Rafael acompanhou.
Sofia deitou.
Ele sentou ao lado.
“Pai.”
“Oi.”
“Vanessa vai sair da cadeia?”
“Um dia, os adultos responsáveis vão decidir o que acontece.”
“Ela era ruim?”
A pergunta era difícil.
Rafael poderia responder sim.
Seria fácil.
Mas não seria completamente verdadeiro.
“Ela fez coisas muito ruins.”
“Mas ela fazia chocolate quente.”
“Fazia.”
“E penteava meu cabelo.”
“Sim.”
“Então ela gostava de mim?”
Rafael respirou.
“Acho que gostava.”
Sofia ficou confusa.
“Então por que bateu?”
“Porque gostar de alguém não dá para essa pessoa o direito de machucar você.”
Sofia permaneceu em silêncio.
“Você pode lembrar das coisas boas”, Rafael continuou. “E também saber que o que ela fez foi errado.”
“Não preciso escolher?”
“Não.”
“Posso ficar brava?”
“Pode.”
“E sentir saudade?”
Rafael engoliu em seco.
“Também.”
Sofia fechou os olhos.
Poucos minutos depois dormiu.
No sábado seguinte, Mariana chegou às nove em ponto.
Sofia já estava com a mochila roxa.
Dessa vez o coelho não ficou preso no zíper.
“Panquecas!”
“Você não esqueceu.”
“Eu nunca esqueço.”
Sofia correu para o carro.
Rafael ficou na porta.
Mariana olhou para ele.
“Domingo às seis?”
“Seis.”
“Sem mudar os planos.”
“Prometo.”
Sofia gritou do carro:
“Vocês vão ficar conversando?”
Mariana riu.
“Estamos indo!”
Naquela tarde, Rafael terminou de organizar o novo espaço no porão.
Colocou desenhos de Sofia na parede.
Um deles mostrava três pessoas de mãos dadas.
Ele.
Mariana.
Sofia.
Ao lado havia uma casa.
Debaixo dela, cinco pequenos riscos.
Três juntos.
Dois separados.
Rafael ficou olhando.
Sofia apareceu atrás dele.
“Gostou?”
“Muito.”
“É o barulho.”
“Eu percebi.”
“Foi assim que eu achei a mamãe.”
“Foi.”
Sofia ficou ao lado.
“Se eu não tivesse ouvido...”
Rafael se ajoelhou imediatamente.
“Não.”
Ela olhou.
“Você nunca precisa pensar no que teria acontecido.”
“Mas—”
“Você ouviu. Você contou. E nós encontramos ela.”
“Vanessa falou que eu estava inventando.”
“Eu sei.”
“Eu quase acreditei.”
Rafael segurou suas mãos.
“Escuta uma coisa.”
Sofia ficou séria.
“Quando alguma coisa assusta você, você sempre pode contar para mim ou para sua mãe.”
“Mesmo se parecer boba?”
“Principalmente.”
Ela assentiu.
Naquela noite, Sofia voltou para o apartamento de Mariana.
Depois do banho, entrou no quarto.
Mariana terminou de guardar roupas na sala.
Alguns minutos depois, ouviu.
**Toc. Toc. Toc.**
Mariana congelou.
Por um instante, voltou ao porão.
Concreto frio.
Escuridão.
Sede.
Medo.
Então veio a pausa.
**Toc. Toc.**
Mariana sorriu.
Caminhou até a porta do quarto.
Não abriu.
Bateu do lado de fora.
**Toc. Toc. Toc.**
Pausa.
**Toc. Toc.**
A porta se abriu.
Sofia estava sorrindo.
“Você lembrou.”
Mariana se abaixou.
“Eu sempre vou lembrar.”
Sofia abraçou o pescoço dela.
“Posso terminar aquele livro?”
“O das panquecas?”
“Não. O que estava na mochila naquele dia.”
Mariana reconheceu.
O livro que deveriam ter terminado no sábado em que ela desapareceu.
“Claro.”
Deitaram juntas.
Mariana abriu na página marcada meses antes.
Sofia encostou a cabeça em seu ombro.
“Você ainda tem medo do escuro?”
Mariana pensou.
“Às vezes.”
“Eu também.”
“Então somos duas.”
“Mas agora a gente sabe a batida.”
Mariana beijou seu cabelo.
“Agora a gente sabe.”
Começou a ler.
Lá fora, São Paulo continuava acesa.
Carros passavam.
Prédios brilhavam.
Uma sirene distante desapareceu pela avenida.
E, naquela casa, cinco pequenas batidas já não significavam que uma mulher estava presa debaixo do chão.
Significavam apenas:
Estou aqui.
E a resposta:
Eu ouvi você.
Fim.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 10 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4