"A Menina na Janela da Casa Abandonada" Capítulo 1 — A Menina na Janela
A chuva começou pouco depois das quatro da tarde.
Às seis, São Paulo já parecia outra cidade.
No Ipiranga, a água descia pelas ruas com tanta força que arrastava sacos de lixo, galhos e até algumas lixeiras. Os trovões faziam os vidros tremerem, enquanto sirenes ecoavam ao longe.
Lívia Martins estava parada diante da janela da sala quando viu um carro tentar atravessar a esquina e desistir.
A água já alcançava metade das rodas.
“Eduardo, olha isso.”
O marido não respondeu.
Sentado à mesa de jantar, Eduardo Ferraz trabalhava no notebook com o celular encostado no ouvido.
“Cancela a reunião de amanhã. Ninguém vai atravessar a cidade desse jeito.”
Ele desligou e finalmente olhou para Lívia.
“Fica longe da janela.”
“Por quê?”
“Por causa dos raios.”
Lívia sorriu.
“Você administra uma construtora inteira e ainda acredita que eu vou ser atingida por um raio dentro da sala?”
“Eu administro uma construtora inteira justamente porque penso em tudo que pode dar errado.”
Era uma resposta típica de Eduardo.
Aos trinta e cinco anos, ele tinha construído uma vida baseada em controle.
Horários.
Contratos.
Planilhas.
Portas trancadas.
Lívia costumava brincar que até os imprevistos precisavam marcar horário para entrar na vida do marido.
Mas naquela noite, o imprevisto já estava esperando do outro lado da rua.
Lívia voltou os olhos para a chuva.
Foi então que viu.
Uma silhueta.
No começo, pensou que fosse uma cortina.
A casa abandonada do outro lado da rua estava vazia havia anos. Era um casarão antigo, de dois andares, cercado por um muro baixo tomado por plantas.
As janelas tinham madeira apodrecida.
Parte do telhado estava coberta por lona.
Lívia já tinha perguntado algumas vezes quem era o proprietário.
Nunca recebera uma resposta clara.
Agora havia alguém lá dentro.
Ela estreitou os olhos.
“Eduardo.”
“Hum?”
“Tem alguém naquela casa.”
Dessa vez, ele nem levantou a cabeça.
“Qual casa?”
“A abandonada.”
Eduardo parou de digitar.
Foi apenas por um segundo.
“Deve ser algum morador de rua procurando abrigo.”
“Não.”
“Como você sabe?”
“Porque é uma criança.”
Eduardo ergueu os olhos.
Lívia se aproximou mais do vidro.
Um relâmpago clareou a rua inteira.
E ela viu perfeitamente.
Era uma menina.
Devia ter seis ou sete anos.
Estava parada atrás da janela do segundo andar.
Cabelos escuros grudavam no rosto. O vestido claro parecia molhado.
Ela não batia no vidro.
Não gritava.
Não pedia ajuda.
Apenas observava.
Lívia sentiu um arrepio subir pelos braços.
“Meu Deus.”
Eduardo se levantou.
“O quê?”
“Ela está encharcada.”
“Quem?”
“A menina.”
Lívia fez sinal para que ele se aproximasse.
Mas antes que Eduardo chegasse à janela, outra coisa chamou a atenção dela.
A menina segurava alguma coisa contra o peito.
Um coelho de pelúcia branco.
Velho.
Com as orelhas compridas.
Lívia ficou imóvel.
“Não pode ser.”
Ela virou o rosto lentamente para o sofá.
Sobre uma poltrona ao lado havia outro coelho branco.
O seu.
Lívia guardava aquele brinquedo desde a infância. A mãe dizia que ela o recebera quando tinha quatro anos.
O tempo havia deixado o pelo amarelado e uma das orelhas rasgara quando Lívia ainda era pequena.
Sua mãe costurara o tecido usando um pedaço azul.
Um remendo.
Na orelha esquerda.
Lívia olhou novamente para a janela do casarão.
O coração acelerou.
O coelho da menina também tinha um remendo azul.
Na orelha esquerda.
“Eduardo.”
Agora havia algo diferente na voz dela.
Ele percebeu.
“Que foi?”
“Pega meu coelho.”
“Seu quê?”
“O coelho da poltrona.”
Eduardo franziu a testa, mas pegou o brinquedo.
Lívia o arrancou das mãos dele e ergueu perto da janela.
“Olha.”
Eduardo observou primeiro o brinquedo.
Depois a casa.
“Eu não estou entendendo.”
“A menina está segurando um igual.”
“Lívia, existem milhares desses.”
“Com o mesmo remendo?”
Eduardo se aproximou.
O relâmpago seguinte iluminou novamente o segundo andar.
A menina continuava ali.
E agora o coelho estava perfeitamente visível.
Eduardo perdeu a cor.
Não foi uma reação discreta.
Os ombros ficaram rígidos.
Os dedos se fecharam.
Por alguns segundos, ele simplesmente parou de respirar.
Lívia olhou para o marido.
“Você conhece essa menina?”
“Não.”
A resposta saiu rápido demais.
“Então por que você está assim?”
“Assim como?”
“Branco.”
“É a luz.”
“Eduardo.”
Ele desviou os olhos da janela.
“Não tem ninguém naquela casa.”
Lívia soltou uma pequena risada de incredulidade.
“Eu estou olhando para ela.”
“Você pode estar vendo um reflexo.”
“Um reflexo segurando um coelho?”
“Com essa chuva, com os relâmpagos…”
“Eu sei diferenciar uma criança de um reflexo.”
Eduardo fechou a cortina.
Lívia imediatamente a abriu.
“Que você está fazendo?”
“Chega.”
“Chega?”
“Não fica olhando.”
Ela virou para ele.
“Tem uma criança sozinha dentro de uma casa abandonada e você quer que eu feche a cortina?”
“Eu quero que você fique aqui.”
“Eu vou chamar a polícia.”
Lívia pegou o celular.
Eduardo segurou o pulso dela.
Não com força.
Mas com urgência.
“Não.”
O silêncio entre os dois ficou mais pesado do que o barulho da tempestade.
Lívia olhou para a mão dele.
Depois para o rosto.
“Por que não?”
Eduardo a soltou.
“Porque com a cidade alagada eles não vão mandar uma viatura por causa de uma sombra numa janela.”
“Você acabou de dizer que era um reflexo. Agora é uma sombra?”
“Lívia…”
“Você conhece aquela casa.”
Ele não respondeu.
Foi o bastante.
“Eduardo.”
“Não começa.”
“Há seis anos eu moro com você.”
Ela apontou para o casarão.
“Você nunca me disse uma palavra sobre aquele lugar. Agora aparece uma menina na janela e você parece que viu um morto.”
O maxilar dele endureceu.
“Não tem ninguém lá.”
“Como você pode ter tanta certeza?”
Ele olhou para o casarão.
Por um momento, Lívia não reconheceu o homem diante dela.
Não era o empresário frio.
Não era o marido que resolvia problemas.
Havia medo em seus olhos.
Um medo antigo.
“Porque aquela casa está vazia.”
“Como você sabe?”
Eduardo fechou os olhos.
Um trovão explodiu tão perto que as luzes piscaram.
Quando ele tornou a abri-los, a voz saiu baixa.
“Porque eu cresci lá.”
Lívia não disse nada.
O som da chuva preencheu a sala.
“Você o quê?”
“Aquela casa era da minha família.”
Lívia olhou para o casarão.
Depois para ele.
“Você cresceu naquela casa?”
“Sim.”
“E nunca me contou?”
“Não havia motivo.”
“Moramos em frente a ela.”
“Foi coincidência.”
“Coincidência?”
Ela quase riu.
“Você escolheu este imóvel.”
Eduardo virou de costas.
“Eu não quero falar sobre isso.”
“Pois eu quero.”
“Não hoje.”
“Por quê?”
Ele passou a mão pelo rosto.
“Porque não.”
Lívia conhecia aquele tom.
Era a porta que Eduardo fechava quando alguém se aproximava demais de alguma coisa.
Mas aquela noite era diferente.
Do outro lado da rua havia uma criança.
“Vou chamar alguém.”
“Lívia.”
“Você pode esconder o que quiser sobre sua infância. Mas se existe uma menina lá dentro, eu não vou fingir que não vi.”
Ela pegou novamente o celular.
Então parou.
Seus olhos se fixaram na janela.
“Eduardo…”
Ele se virou.
A menina ainda estava lá.
Mas agora não abraçava mais o coelho.
Ela o segurava com apenas uma mão.
A outra estava levantada.
O dedo indicador apontava através do vidro.
Diretamente para Eduardo.
Lívia sentiu o estômago se contrair.
“Ela está apontando para você.”
Eduardo não se mexeu.
A menina inclinou lentamente a cabeça.
Então aproximou a mão do vidro.
O dedo percorreu a superfície embaçada.
Uma letra.
Depois outra.
Lívia tentou enxergar.
Mas a chuva distorcia tudo.
Eduardo enxergou antes.
Seu rosto mudou.
Ele deu um passo para trás.
“Fecha a cortina.”
“Ela escreveu alguma coisa.”
“Fecha.”
“Eduardo, o que ela escreveu?”
Ele não respondeu.
Lívia apertou os olhos.
No vidro embaçado da velha janela havia apenas quatro letras.
D.
U.
D.
U.
Lívia leu em voz baixa.
“Dudu.”
Ao seu lado, Eduardo deixou cair o celular.
E pela primeira vez desde que o conhecia, Lívia viu o marido realmente assustado.
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