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"A Menina na Janela da Casa Abandonada" Capítulo 3 — A Irmã Que Morreu

正文开头

Eduardo subiu a escada correndo.

“Marina!”

O nome saiu de sua boca antes que pudesse impedir.

Lívia correu atrás.

“Eduardo!”

Ele abriu a primeira porta.

Vazia.

A segunda.

Nada.

“Marina!”

“Eduardo, espera.”

Ele entrou no quarto infantil.

Vazio.

Abriu o armário.

Nada.

Olhou debaixo da cama.

Ninguém.

A voz não voltou.

Eduardo apoiou as duas mãos na cômoda.

Respirava rápido.

Lívia permaneceu na porta.

“Você chamou por Marina.”

Ele fechou os olhos.

“Foi impulso.”

“Você achou que era ela.”

“Não.”

“Achou.”

Eduardo se virou.

“Minha irmã teria trinta e um anos.”

“Eu sei.”

“Aquela menina tem sete.”

“Eu sei.”

“Então não é Marina.”

Lívia colocou o coelho sobre a cama.

“Mas você ouviu a voz.”

“Sim.”

“E ela chamou você de Dudu.”

Eduardo olhou para o brinquedo.

“Sim.”

“Então explica.”

“Eu não posso.”

“Não pode ou não quer?”

Ele se sentou na beirada da cama.

Durante alguns segundos, parecia novamente o menino das fotografias.

“Eu tinha dez anos.”

Lívia não interrompeu.

“Marina tinha oito.”

A chuva começou a bater com mais força no telhado.

“Naquela época, quando chovia muito, meu pai ficava obcecado. Mandava fechar tudo. Portões, portas, janelas.”

“Por quê?”

“Ele dizia que era perigoso.”

“E naquela noite?”

Eduardo apertou as mãos.

“Houve uma tempestade.”

Lívia esperou.

“Eu lembro de procurar Marina. Lembro de ouvir meu pai gritando. Depois…”

Ele parou.

“Depois o quê?”

“Não sei.”

“Como não sabe?”

“Porque eu não lembro.”

“Você lembra de sua irmã desaparecer, mas não lembra do que aconteceu?”

Eduardo levantou.

“Há coisas daquela noite que nunca consegui organizar.”

“Você fez terapia?”

Ele soltou uma risada amarga.

“Meu pai não acreditava em terapia.”

“E sua mãe?”

“Minha mãe acreditava no meu pai.”

A frase carregava mais ressentimento do que Lívia esperava.

“Você disse que Marina morreu na enchente.”

“Foi o que todos disseram.”

“Quem disse?”

“Meu pai.”

“Você viu Marina entrar na água?”

Eduardo ficou calado.

“Viu?”

“Não.”

“Então por que acreditou?”

“Porque eu era uma criança!”

A voz dele ecoou.

Dessa vez, Lívia não recuou.

“Exatamente.”

Eduardo olhou para ela.

“Você era uma criança. Talvez tenham contado uma versão e você passou a vida acreditando.”

“Não.”

“Como pode ter certeza?”

“Porque eu lembro de uma coisa.”

Ele baixou a voz.

“Eu lembro de ter feito algo errado.”

“Que coisa?”

“Não sei.”

“Eduardo…”

“Eu só sei que foi minha culpa.”

Lívia sentiu o peito apertar.

“Você tinha dez anos.”

“Não importa.”

“Importa muito.”

Eduardo caminhou até a janela.

“Na manhã seguinte, Marina tinha desaparecido. Meu pai dizia que ela tinha saído durante a tempestade.”

“Por quê?”

“Não sei.”

“Uma menina de oito anos simplesmente saiu sozinha durante uma enchente?”

“Foi o que disseram.”

“E vocês procuraram?”

“Sim.”

“Por quanto tempo?”

Ele hesitou.

“Alguns dias.”

“Alguns dias?”

“Polícia, bombeiros, vizinhos.”

“E depois?”

“Meu pai decidiu que precisávamos ir embora.”

Lívia o encarou.

“Logo depois?”

“Sim.”

“Isso não faz sentido.”

“Eu sei.”

Aquela resposta a surpreendeu.

正文1

Eduardo também sabia.

Talvez sempre tivesse sabido.

Um ruído no térreo interrompeu a conversa.

Os dois desceram.

Não encontraram ninguém.

Lívia insistiu para chamarem a polícia.

Dessa vez, Eduardo não impediu.

Uma equipe apareceu algumas horas depois, quando o nível da água permitiu acesso à rua.

Revistaram a casa.

Nenhuma criança.

Nenhum adulto.

O policial que conversou com eles pareceu desconfiado.

“Tem certeza de que a menina estava aqui?”

Lívia mostrou o coelho.

“Ela deixou isso.”

“Pode estar aqui há anos.”

“Estava molhado.”

Eduardo permaneceu em silêncio.

O policial anotou os dados.

Prometeu registrar a ocorrência.

Quando voltaram para casa, Eduardo entrou direto no escritório.

Lívia permaneceu na sala.

O coelho antigo estava sobre a mesa.

Ela colocou seu próprio coelho ao lado.

Os dois eram assustadoramente parecidos.

Mesmo formato.

Mesmo tecido.

Mesmo remendo.

Mas havia uma diferença.

No coelho encontrado na casa, uma pequena letra estava bordada na parte inferior da pata.

M.

Lívia tocou a linha desbotada.

Marina.

Ela pegou o celular.

Fotografou.

Depois voltou à caixa de fotografias que trouxera da casa com a permissão relutante de Eduardo.

Passou uma por uma.

Aniversários.

Natal.

Férias.

Eduardo e Marina.

Então encontrou uma fotografia da família inteira.

Augusto Ferraz.

Beatriz Ferraz.

Eduardo.

Marina.

O pai estava de pé atrás das crianças.

Não sorria.

Beatriz parecia elegante e distante.

Marina segurava o coelho.

Lívia aproximou a imagem.

A menina da janela.

O rosto não era exatamente igual.

Isso seria impossível.

Mas havia algo.

O formato dos olhos.

A curva das sobrancelhas.

O pequeno queixo.

Lívia abriu outra fotografia.

Marina sorria.

Havia uma covinha discreta na bochecha direita.

Ela lembrou do relâmpago iluminando o rosto da menina na janela.

O mesmo lugar.

“Não…”

O celular vibrou.

Número desconhecido.

Lívia atendeu.

“Alô?”

Silêncio.

“Quem está falando?”

Respiração.

Depois uma voz.

Infantil.

“Ele lembra de mim?”

Lívia congelou.

“Quem é você?”

A ligação caiu.

“Eduardo!”

Ele apareceu no corredor.

“O que aconteceu?”

“Era ela.”

“Quem?”

“A menina.”

“Como você sabe?”

“Ela perguntou se você lembra dela.”

Eduardo pegou o telefone.

“Número?”

“Privado.”

Ele tentou retornar.

Impossível.

Lívia apontou para as fotografias.

“Olha isso.”

Eduardo se aproximou.

Ela colocou uma foto de Marina ao lado da imagem que havia conseguido fazer da menina através da janela.

A fotografia do celular estava ruim.

Mesmo assim, a semelhança era visível.

Eduardo ficou imóvel.

“Você está vendo?”

“Não.”

“Eduardo.”

“Não.”

“Olha os olhos.”

“Chega.”

“A covinha.”

“Eu disse chega.”

“Ela se parece com Marina.”

Eduardo empurrou as fotografias.

“Minha irmã está morta.”

“Você não sabe disso!”

“Eu sei!”

“Como?”

Ele bateu a mão na mesa.

“Porque eu estava lá!”

Lívia parou.

Eduardo percebeu o que tinha acabado de dizer.

“Onde?”

“Esquece.”

“Você disse que não lembrava.”

“Lívia…”

“O que aconteceu naquela noite?”

Ele recuou.

“Eu não consigo.”

“Você viu alguma coisa?”

“Eu não consigo!”

Eduardo saiu.

Poucos segundos depois, a porta da frente bateu.

Lívia permaneceu sozinha.

Naquela noite, Eduardo não voltou para jantar.

Às nove, a chuva recomeçou.

Lívia estava na cozinha quando sentiu aquela sensação novamente.

De estar sendo observada.

Foi até a janela.

O casarão estava escuro.

Nada.

Então um relâmpago.

A menina apareceu.

Dessa vez, estava no térreo.

Muito mais perto.

Lívia abriu a porta.

“Ei!”

A menina recuou.

“Espera!”

Lívia atravessou a rua.

A água batia nas canelas.

Quando chegou ao portão, a menina já havia desaparecido.

“Eu não vou machucar você!”

Silêncio.

“Qual é seu nome?”

Nada.

Então uma luz apareceu no segundo andar.

A menina estava novamente na janela.

Lívia ergueu o rosto.

Ela segurava uma folha branca.

Pressionou contra o vidro.

Uma palavra escrita com canetinha preta.

DUDU.

Lívia sentiu o coração acelerar.

A porta de um carro bateu atrás dela.

Eduardo havia acabado de chegar.

Ele olhou para a esposa.

Depois para a janela.

A menina abaixou a folha.

Um relâmpago iluminou seu rosto com nitidez.

Dessa vez, Eduardo viu.

Não uma sombra.

Não um reflexo.

O rosto inteiro.

Ele parou no meio da rua.

Os olhos se arregalaram.

Os lábios perderam a cor.

Lívia correu até ele.

“Eduardo?”

Ele não respondeu.

Continuava olhando para a menina.

“Eduardo, fala comigo.”

Os olhos dele se encheram de lágrimas.

Então sussurrou uma frase que Lívia jamais esperava ouvir.

“Ela tem o rosto da minha irmã.”

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