"A Menina na Janela da Casa Abandonada" Capítulo 2 — A Casa Que Eduardo Nunca Mencionou
Eduardo não dormiu.
Lívia percebeu isso às três e vinte da madrugada, quando abriu os olhos e encontrou o lado dele vazio.
A tempestade havia diminuído, mas a chuva continuava.
Ela desceu.
Eduardo estava sentado no escuro da sala.
O notebook permanecia fechado.
Na mão, ele segurava um copo de água que parecia não ter tocado.
A cortina estava fechada.
“Quem é Dudu?”
Eduardo não se virou.
“Vai dormir.”
“É você?”
Silêncio.
Lívia desceu o último degrau.
“Ela escreveu Dudu e você quase desmaiou.”
“Eu não desmaiei.”
“Não muda de assunto.”
Ele pousou o copo.
“Era como minha irmã me chamava.”
Lívia ficou parada.
“Você tem uma irmã?”
Eduardo percebeu o próprio erro.
A resposta tinha escapado.
“Eduardo?”
“Eu tinha.”
Duas palavras.
Nada mais.
Ele se levantou.
“Vamos conversar amanhã.”
“Já é amanhã.”
“Lívia.”
“Você nunca me disse que tinha uma irmã.”
“Porque ela não faz parte da minha vida.”
“Por quê?”
Ele olhou para ela.
“Porque morreu.”
A palavra encerrou a conversa.
Ou deveria ter encerrado.
Mas não encerrou nada dentro de Lívia.
Na manhã seguinte, a chuva virou garoa.
Parte da rua ainda estava alagada.
Eduardo recebeu uma ligação pouco depois das sete e saiu para resolver um problema em uma obra.
Antes de ir, parou diante da porta.
“Não atravesse a rua.”
Lívia levantou os olhos.
“Você está me dando uma ordem?”
“Estou pedindo.”
“Não parece.”
“Lívia, aquela casa não é segura.”
“Por causa da estrutura?”
Ele demorou a responder.
“Também.”
“E por causa do quê mais?”
Eduardo pegou as chaves.
“Fica longe de lá.”
A porta fechou.
Às dez e quinze, Lívia estava diante do casarão.
Ela sabia que Eduardo ficaria furioso.
Mesmo assim, atravessou.
A água alcançava seus tornozelos.
O portão de ferro estava entreaberto.
Na noite anterior, Lívia tinha certeza de que estava fechado.
Empurrou.
As dobradiças soltaram um gemido.
“Tem alguém aí?”
Nenhuma resposta.
O jardim estava tomado por mato.
Havia uma bicicleta infantil enferrujada caída perto de uma árvore.
Lívia tentou a porta principal.
Abriu.
O cheiro de umidade atingiu seu rosto.
“Olá?”
Silêncio.
Ela ligou a lanterna do celular.
A sala era enorme.
Móveis cobertos por lençóis ocupavam os cantos. Um lustre antigo pendia do teto. Fotografias haviam sido retiradas das paredes, deixando retângulos mais claros no papel envelhecido.
Aquilo não parecia apenas abandonado.
Parecia interrompido.
Como se alguém tivesse saído esperando voltar.
Lívia caminhou devagar.
Foi quando viu o chão.
Pegadas.
Pequenas.
Úmidas.
Começavam perto da porta dos fundos.
Seguiam pelo corredor.
Terminavam na escada.
O coração dela acelerou.
A menina era real.
“Ei!”
Lívia subiu.
Cada degrau rangia.
No andar superior, as pegadas continuavam.
Uma.
Duas.
Três.
Viravam à esquerda.
Lívia seguiu.
Pararam diante de uma porta branca.
Ela empurrou.
Era um quarto infantil.
O papel de parede tinha pequenas flores.
Havia uma estante vazia, uma cama de ferro e um armário.
No chão, algumas peças de quebra-cabeça.
Lívia se aproximou da parede.
Marcas de lápis indicavam altura.
Ao lado de cada risco havia datas antigas.
E um nome.
MARINA.
Lívia sentiu um aperto no peito.
“Marina…”
A porta bateu atrás dela.
Ela se virou assustada.
Ninguém.
O vento.
Tentou abrir o armário.
Dentro havia roupas antigas.
Vestidos infantis.
Um casaco.
Uma caixa de madeira.
Lívia a retirou.
Fotografias.
Na primeira, Eduardo devia ter nove ou dez anos.
Ela o reconheceu imediatamente.
O mesmo cabelo escuro.
O mesmo olhar sério.
Mas ele sorria.
Lívia quase nunca tinha visto Eduardo sorrir daquele jeito.
Ao lado dele havia uma menina.
Sete ou oito anos.
Ela abraçava o pescoço do irmão.
Lívia virou a foto.
“Eduardo e Marina — 2003.”
Marina.
A irmã.
Outra fotografia mostrava os dois no jardim.
Outra, diante de um bolo.
Outra, sentados na escada.
Então Lívia encontrou uma foto que fez seus dedos gelarem.
Marina estava sozinha.
Sentada na cama daquele mesmo quarto.
Nos braços, segurava um coelho branco.
Na orelha esquerda havia um remendo azul.
Lívia levou a mão à boca.
“Meu Deus…”
“Eu mandei você não entrar aqui.”
A voz masculina veio atrás dela.
Lívia quase derrubou a caixa.
Eduardo estava na porta.
Encharcado.
Furioso.
“Você me seguiu?”
“Voltei e você não estava em casa.”
“Então resolveu me procurar aqui?”
“Você prometeu que ficaria longe.”
“Não. Você mandou.”
Eduardo entrou e tirou a fotografia da mão dela.
Ao olhar a imagem, sua expressão endureceu.
“Quem é Marina?”
Ele guardou a foto na caixa.
“Você já sabe.”
“Quero ouvir de você.”
“Minha irmã.”
“Que morreu.”
“Sim.”
“Como?”
Eduardo virou de costas.
“Vamos embora.”
“Como ela morreu?”
“Lívia.”
“E por que a menina de ontem tem o brinquedo dela?”
Eduardo parou.
“Não é o mesmo.”
“É idêntico.”
“Era um brinquedo comum.”
“Com o mesmo remendo?”
Ele não respondeu.
Lívia se aproximou.
“Por que aquela menina chamou você de Dudu?”
“Ela não me chamou.”
“Ela escreveu no vidro.”
“Você não sabe se era para mim.”
“Você acabou de admitir que sua irmã chamava você assim.”
Eduardo fechou a caixa com força.
“Chega.”
“Não.”
“Eu disse chega.”
“E eu sou sua esposa.”
Ela apontou para a parede.
“Estou descobrindo que você teve uma irmã porque uma menina apareceu na janela da casa onde você cresceu.”
Eduardo respirou fundo.
“Marina desapareceu durante uma enchente.”
Lívia ficou imóvel.
“Desapareceu?”
“Sim.”
“Ontem você disse que ela morreu.”
“Porque é isso que aconteceu.”
“Encontraram o corpo?”
Silêncio.
“Eduardo.”
Ele desviou os olhos.
“Não.”
A resposta mudou tudo.
Lívia sentiu o coração bater mais rápido.
“Então você não sabe se ela morreu.”
“Ela tinha oito anos. Houve uma enchente. Ela desapareceu.”
“Isso não é a mesma coisa.”
“Depois de vinte e três anos, é.”
Lívia observou o marido.
Ele não parecia apenas triste.
Parecia culpado.
“Você estava aqui naquela noite?”
Eduardo apertou os olhos.
“Vamos embora.”
“Você viu o que aconteceu?”
“Lívia.”
“Você estava com Marina?”
A voz dele explodiu.
“Eu disse que vamos embora!”
O grito ecoou pelo quarto.
Lívia recuou.
Eduardo percebeu.
A raiva desapareceu imediatamente.
“Desculpa.”
Ela não respondeu.
Ele passou as mãos pelo cabelo molhado.
“Eu não deveria ter gritado.”
“Não.”
“Só não quero voltar a isso.”
“Você nunca saiu disso.”
Eduardo ergueu os olhos.
Lívia apontou para a casa.
“Você comprou um imóvel exatamente em frente à casa onde sua irmã desapareceu.”
“Eu não comprei por isso.”
“Tem certeza?”
Ele não respondeu.
Lívia pegou novamente a fotografia.
Dessa vez, virou.
Havia algo escrito no verso.
Caligrafia infantil.
Ela leu:
“Dudu prometeu que nunca vai me deixar sozinha.”
Eduardo arrancou a foto da mão dela.
Seu rosto ficou pálido.
Então ouviram um barulho.
Um rangido.
Vindo do corredor.
Lívia virou.
“Tem alguém aqui.”
Eduardo fez sinal para que ela permanecesse atrás dele.
Saiu do quarto.
“Quem está aí?”
Nada.
Ele avançou pelo corredor.
Uma porta no final estava aberta.
Lívia tinha certeza de que antes estava fechada.
Eduardo chegou perto.
Empurrou.
Vazio.
Quando os dois voltaram para o corredor, Lívia olhou para o chão.
Havia novas pegadas molhadas.
Pequenas.
Elas não estavam ali antes.
As marcas seguiam até a escada.
“Ela está aqui.”
Eduardo desceu correndo.
“Espera!”
Lívia foi atrás.
Chegaram à sala.
A porta da frente estava aberta.
Na soleira havia alguma coisa.
O coelho branco.
Eduardo parou.
Lívia se abaixou.
Na orelha esquerda, o remendo azul.
Ela o pegou.
Ainda estava molhado.
“Eduardo…”
Ele não respondeu.
Porque naquele instante uma voz infantil veio do andar de cima.
Baixa.
Quase um sussurro.
“Dudu?”
Eduardo ergueu lentamente o rosto.
E o medo em seus olhos respondeu antes que ele pudesse dizer qualquer palavra.
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