"O Filho do Chefe da Máfia Atacou 18 Babás… Até Uma Empregada Descobrir Por Que Ele Gritava" Capítulo 5 — A Voz de Bianca
Dante deixou o telefone tocar três vezes.
Theo olhava para o nome de Augusto no visor. O medo silencioso do menino dizia mais que qualquer relatório médico.
Na quarta chamada, Dante atendeu e colocou no viva-voz.
“Você me procurou?”, perguntou Augusto.
A voz era calma, quase afetuosa. Durante três décadas, fora aquela voz que Dante ouvira em aniversários, enterros e reuniões onde homens decidiam o destino de bairros inteiros.
“Quero que venha à mansão.”
“Agora?”
“Agora.”
Houve uma pausa curta.
“Algum problema com Theo?”
O menino escondeu o rosto no uniforme de Lívia.
Dante viu.
“Por que perguntou por ele?”
“Porque Mirela me ligou. Disse que uma empregada sem formação está interferindo no tratamento e colocando ideias perigosas na sua cabeça.”
Lívia aproximou-se do telefone.
“A doutora também contou sobre as gotas sem rótulo?”
Augusto não respondeu de imediato.
“Quem está falando?”
“Lívia Batista. A empregada sem formação que encontrou o alto-falante atrás da parede.”
A ligação terminou.
Dante encarou a tela apagada. Augusto nunca desligava antes dele.
“Ele não virá”, disse Bruno.
“Então traga.”
O chefe da segurança não se moveu.
“Se Augusto estiver envolvido, seus homens também estão. Não sabemos quem ainda responde a ele.”
Era a primeira vez que Bruno aconselhava Dante a não usar força. Talvez porque o perigo estivesse dentro da própria estrutura que ele comandava.
Dona Celina surgiu na porta da biblioteca segurando uma caixa branca.
“Há uma coisa que o senhor precisa ouvir.”
A caixa continha um pequeno music box de madeira clara. Na tampa, uma bailarina girava diante de flores azuis pintadas à mão.
Theo se encolheu ao vê-lo.
“Onde encontrou isso?”, perguntou Dante.
“Bianca me entregou dois dias antes de morrer. Pediu que eu escondesse fora da ala norte e só devolvesse quando Theo começasse a falar sobre uma flor.”
Dante levantou-se tão depressa que a cadeira tombou.
“Você guardou uma mensagem da minha mulher por dois anos?”
“Guardei uma caixa. Ela não explicou o que havia dentro.”
“E nunca abriu?”
“Prometi que não abriria antes da hora.”
Dante avançou, mas Lívia colocou-se no caminho.
“Gritar com ela não vai devolver os dois anos.”
“Saia da frente.”
“Não enquanto Theo estiver vendo.”
O menino observava o pai com os ombros tensos. Dante percebeu e recuou. Pegou a cadeira do chão, respirou uma vez e tornou a olhar para Celina.
“Mostre.”
A governanta girou a chave. A melodia que saía da caixa era a mesma reproduzida na parede, mas a voz de Bianca não apareceu.
Bruno examinou o fundo. Havia dois parafusos diferentes dos demais, porém o compartimento interno não se abriu.
“Caíque conserta aparelhos”, disse Lívia. “Ele desmonta rádio desde pequeno.”
“Seu irmão está hospitalizado”, respondeu Dante.
“E entediado o bastante para desmontar o hospital inteiro.”
Levaram a caixa ao Santa Helena sob escolta discreta. Caíque recebeu o objeto numa sala reservada, reclamando que ninguém lhe explicava por que um chefe da máfia precisava de um menino de treze anos.
“Ele não precisa”, disse Lívia. “Eu preciso.”
Caíque removeu a base com ferramentas emprestadas da manutenção. Sob o mecanismo musical havia um gravador digital protegido por cera e uma entrada antiga de cartão.
“A bateria morreu, mas a memória pode estar boa.”
Ele conectou o dispositivo ao notebook. Três arquivos apareceram. Dois estavam corrompidos. O terceiro tinha onze minutos.
Dante pediu que Theo fosse levado para fora.
O menino recusou. Abraçou o leão de pelúcia e sentou-se ao lado de Lívia.
“É a voz da mãe dele”, explicou Dante.
Theo tocou a caixa. Depois apontou para si mesmo e permaneceu sentado.
Lívia colocou fones protetores ao alcance dele.
“Se ficar ruim, você pode parar.”
Caíque iniciou o áudio.
A voz de Bianca surgiu entre ruídos.
“Dante, se você está ouvindo isto, alguma coisa aconteceu comigo.”
Dante fechou os olhos.
“Eu encontrei transferências da Fundação Montenegro para empresas que não existem. Os pagamentos passam pela Vértice e terminam em contas ligadas a agentes públicos e homens dos Ferraz.”
Bruno começou a registrar a reprodução com outro aparelho.
“Não confronte ninguém antes de encontrar o livro azul. Está escondido onde Theo guarda o leão quando tem medo.”
Theo apertou o brinquedo.
“Eu queria acreditar que era um contador. Não é. Augusto assinou a autorização original.”
Dante abriu os olhos.
“Não confie no meu tio”, continuou Bianca. “Ele sabe que eu descobri. E Theo viu o anel quando Augusto entrou no carro ontem. Se alguma coisa acontecer, proteja nosso filho dele.”
O áudio terminou com uma respiração apressada e o som de uma porta abrindo.
Ninguém falou.
Caíque foi o primeiro a quebrar o silêncio.
“Há um ruído atrás da voz. Parece comunicação de rádio.”
Ele aumentou o volume. Entre as frases de Bianca, alguém repetia códigos e nomes de posições de carga.
“Terminal de contêineres”, disse Bruno. “Frequência antiga da Baixada Santista.”
Dante apoiou as mãos na mesa.
“Augusto dirigia as operações no porto quando Bianca morreu.”
Theo retirou os fones e apontou para uma palavra desenhada na base do music box: LEOA.
“O livro azul está no leão”, concluiu Lívia.
O brinquedo, porém, não estava mais em suas mãos.
Theo olhou para o colo vazio.
Durante a reprodução, um enfermeiro entrara para verificar o monitor de Caíque. Bruno correu ao corredor. Nenhum funcionário admitiu ter recolhido o brinquedo.
As câmeras mostraram um homem de máscara levando o leão num saco hospitalar e entrando no elevador de serviço.
“Eles nos seguiram”, disse Lívia.
Dante fechou a porta da sala.
“A partir de agora, ninguém sai sozinho.”
Augusto telefonou novamente.
Dante atendeu sem viva-voz.
“Você ouviu uma mulher morta”, disse o tio. “Não confunda gravação com verdade.”
“Onde está o leão?”
“Pergunte à empregada por que trouxe seu filho a um hospital sem controlar as entradas.”
Lívia viu o golpe atingir Dante. Augusto tentava transformar cada falha em culpa, exatamente como fizera com Theo.
“Se tocar no meu filho...”
“Seu filho precisa de tratamento. Você precisa aceitar que não consegue protegê-lo.”
A ligação caiu.
Dante ordenou que Bruno levasse Caíque para outra ala e voltou à mansão com Lívia e Theo. Durante o trajeto, o menino não dormiu. Desenhava círculos negros na condensação do vidro.
No banco da frente, Dante solicitou uma auditoria completa da Fundação Montenegro e congelou todos os pagamentos autorizados pela Vértice. A medida alcançaria hospitais e projetos legítimos, mas ele determinou que uma equipe independente mantivesse os tratamentos ativos. Não permitiria que outra criança pagasse pelo desvio de Augusto.
Na propriedade, sensores independentes cobriam o túnel. Nenhum fora acionado.
O quarto de Theo estava intacto. A cama, arrumada. Sobre o travesseiro havia um novo leão de pelúcia, idêntico ao anterior, mas sem a costura azul.
Preso à pata estava um cartão.
VOCÊ NÃO PODE SALVAR UMA CRIANÇA DEPOIS DE DESTRUÍ-LA.
Dante rasgou o papel.
Theo começou a chorar sem som. Lívia o levou à sala de brinquedos, longe do quarto. Dona Celina ficou com eles enquanto Dante e Bruno revistavam a ala norte.
Às duas e quinze, todas as luzes se apagaram.
O alarme disparou.
Lívia procurou Theo no escuro e encontrou apenas Dona Celina caída junto à porta. A governanta respirava, mas alguém a atingira por trás.
“Theo!”
As luzes de emergência acenderam.
A janela permanecia fechada. A porta dava para um corredor cheio de seguranças. Mesmo assim, o menino desaparecera.
No centro do tapete estava o leão substituto.
Da barriga aberta do brinquedo saía uma tira de papel azul.
Nela, uma frase havia sido escrita à mão:
AGORA ELE VAI CONTAR QUEM MATOU A MÃE.
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