"O Filho do Chefe da Máfia Atacou 18 Babás… Até Uma Empregada Descobrir Por Que Ele Gritava" Capítulo 3 — A Canção Atrás da Parede
Bruno fotografou o desenho antes que Dante o tocasse.
Theo não gostava que retirassem objetos de suas mãos. Ainda assim, entregou a folha ao pai quando Lívia perguntou se permitia.
Dante observou a figura do homem atrás da porta preta.
“Quem usa um anel assim?”
Bruno não respondeu imediatamente.
“Muita gente.”
“Na minha família?”
“Seu tio Augusto tem um anel de ônix.”
Dante dobrou o desenho ao meio.
“Theo gosta dele.”
“Gostar de alguém não impede uma criança de ter medo”, disse Lívia.
O olhar que Dante lançou a ela teria encerrado qualquer reunião do grupo Montenegro. Lívia continuou sentada no tapete, ajudando Theo a guardar os lápis.
“Augusto me criou depois que meu pai morreu. Entraria por aquela porta sem precisar se esconder.”
“Então descubra por que seu filho o desenhou escondido.”
Dante saiu levando o desenho. Theo acompanhou cada passo até que ele desaparecesse.
Às oito da noite, Lívia deveria ter ido para casa. Dona Celina providenciara um quarto de funcionária porque Dante insistira que Theo poderia acordar em crise.
Antes de subir, Dante tentou jantar com o filho. Sentou-se na outra ponta da mesa, mantendo uma distância que parecia absurda entre pai e criança. Theo não tocou na comida enquanto o pai permaneceu ali.
“Ele sempre faz isso?”, perguntou Lívia a Dona Celina.
“Desde o enterro.”
Dante ouviu.
“Quando me aproximo, ele quebra alguma coisa.”
Lívia colocou um prato pequeno no chão, perto da cadeira de Theo, e sentou-se a dois metros.
“Talvez ele não precise que o senhor se aproxime”, disse. “Talvez precise perceber que o senhor consegue ficar sem exigir nada.”
Dante permaneceu em silêncio. Depois de vários minutos, Theo pegou um pedaço de pão. Não olhou para o pai, mas também não empurrou o prato.
Foi um avanço tão pequeno que nenhum dos homens de Dante teria percebido. Ele percebeu.
Ela telefonou para Caíque.
“A nova patroa é terrível?”, perguntou o menino.
“Meu patrão acha que pedir é uma forma demorada de mandar.”
“Então você já discutiu com ele.”
“Duas vezes.”
Caíque riu, mas a risada terminou em falta de ar. Lívia esperou até a respiração dele se estabilizar.
“A assistente social disse que surgiu uma avaliação para quinta-feira”, contou. “Talvez consigam antecipar a cirurgia.”
“Você não precisa se preocupar com dinheiro.”
“Essa frase sempre significa que você está se preocupando por nós dois.”
Lívia prometeu visitá-lo pela manhã. Não contou sobre a proposta de Dante nem sobre a dor nas costelas, agora cobertas por uma mancha roxa.
Depois da ligação, encontrou Theo sentado diante da porta preta.
Ele vestia um conjunto azul de algodão e segurava um leão de pelúcia pela pata. A maçaneta ficava muito acima de sua cabeça.
“Você quer entrar?”
Theo não reagiu.
“Ou quer ter certeza de que ninguém vai sair?”
Ele olhou para ela.
Lívia sentou-se no chão a dois passos de distância. Não tocou na porta.
“Seu pai prometeu abrir amanhã. Promessas são importantes. Vamos ver se ele sabe cumprir.”
Theo colocou o leão no espaço entre os dois.
Era a primeira vez que compartilhava voluntariamente um brinquedo.
“Ele tem nome?”
O menino passou o dedo pela juba. Havia uma costura recente perto da orelha, feita com linha azul.
Antes que Lívia pudesse examinar, Dona Celina apareceu.
“Está na hora do remédio.”
Ela carregava um pequeno frasco âmbar. O rótulo dizia VITAMINAS — 10 GOTAS.
Theo recuou.
“Foi prescrito pela doutora Mirela”, explicou a governanta. “Ele toma todas as noites.”
“Desde quando?”
“Há quase dois anos.”
Lívia leu o rótulo. Não havia nome de laboratório, lote ou composição.
“Isso não parece vitamina.”
“Dante confia na médica.”
“Theo confia?”
O menino empurrou o frasco para longe.
Lívia não insistiu. Dona Celina guardou-o, claramente desconfortável, e levou Theo para o quarto no lado sul.
Às duas e dezessete da madrugada, uma música despertou Lívia.
Era uma voz feminina cantando baixinho.
Ela abriu a porta do quarto. O corredor estava vazio, mas a canção atravessava as paredes. Vinha da direção da ala norte.
No mesmo instante, Theo gritou.
Lívia correu para o quarto dele. Encontrou-o debaixo da cama, arranhando o próprio braço e tentando tornar-se pequeno o bastante para desaparecer.
“Theo, sou eu.”
Ela se deitou no tapete, mantendo o rosto na altura dele.
“Não vou puxar você. Pode ficar aí.”
A canção continuava.
Theo apertou as mãos contra os ouvidos.
Lívia pegou dois travesseiros e colocou um de cada lado da cabeça dele, abafando o som sem tocá-lo. A respiração do menino desacelerou um pouco.
Passos fortes vieram pelo corredor. Dante entrou acompanhado de Bruno e três seguranças.
“O que aconteceu?”
“Escute.”
Todos ficaram quietos.
A melodia atravessava a parede. Dante reconheceu a voz antes dos outros.
“Bianca.”
Ele saiu do quarto como se alguém o puxasse. Seguiu a música até a porta preta e digitou um código no painel lateral.
A luz ficou vermelha.
“Código recusado”, anunciou o sistema.
Dante tentou novamente.
“Quem alterou meu acesso?”
Bruno chamou a central. As câmeras do corredor tinham parado de transmitir às duas e quinze.
Lívia permaneceu com Theo. A música terminou exatamente às duas e vinte e sete.
Assim que o silêncio voltou, o menino saiu debaixo da cama. Estava pálido e coberto de suor.
Dante retornou com uma ferramenta de emergência. Dois seguranças forçaram a fechadura até o mecanismo ceder.
A ala norte cheirava a poeira, madeira fechada e gardênia.
O perfume da doutora Mirela.
Lívia segurou a mão de Theo apenas depois que ele a ofereceu. Dante quis impedir que o filho entrasse, mas o menino apontou para o corredor escuro.
“Ele precisa ver que a música acabou”, disse ela.
Os cômodos haviam pertencido a Bianca: um escritório, um closet e uma pequena sala de leitura. Lençóis cobriam os móveis. Fotografias continuavam sobre as prateleiras como se alguém esperasse que a dona voltasse.
No fundo estava o antigo quarto infantil.
A música parecia ter vindo dali.
Bruno examinou tomadas, armários e luminárias. Nada estava ligado. Lívia caminhou devagar pelo cômodo até perceber pequenas perfurações na moldura de madeira atrás do berço antigo.
“Aqui.”
Um segurança removeu a moldura.
Dentro da parede havia um alto-falante recente, conectado a um receptor sem fio. O aparelho não tinha número de série.
Dante segurou a peça com tanta força que as articulações ficaram brancas.
“Alguém entrou na minha casa, instalou isso e reproduziu a voz da minha mulher.”
“Não entrou uma vez”, corrigiu Lívia. “Theo sabia quando a música começaria.”
Bruno encontrou pegadas leves na poeira do closet. Não vinham da entrada principal. Terminavam diante de uma estante embutida.
Atrás dela, o ar se movia.
Dante empurrou a madeira. A estante girou alguns centímetros, revelando uma passagem estreita de serviço.
O corredor seguia para baixo, na direção do subsolo.
“Esta passagem não aparece na planta atual”, disse Bruno.
“Mas alguém conhece”, respondeu Lívia.
Theo começou a tremer novamente. Não olhava para o túnel, e sim para o leão de pelúcia que carregara consigo.
Lívia percebeu que a costura azul perto da orelha estava aberta. Algo metálico brilhava entre o enchimento.
Ela mostrou a Dante.
Bruno calçou luvas e retirou um pequeno transmissor.
O leão não era apenas um brinquedo. Alguém o usava para saber quando Theo estava acordado, chorando ou sozinho.
Bruno acionou uma varredura de radiofrequência. Encontrou dois sensores adicionais: um sob a cabeceira da cama e outro dentro do abajur. Nenhum transmitia continuamente. Eles despertavam apenas quando recebiam um comando externo, o que explicava por que inspeções anteriores não haviam detectado atividade.
“Quem autorizou os aparelhos do quarto?”, perguntou Dante.
“A doutora Mirela instalou um monitor de sono no primeiro mês”, respondeu Dona Celina. “Disse que retirou tudo depois.”
Lívia examinou a base do abajur. Havia um resíduo azul preso a um parafuso, da mesma cor da linha usada para fechar a orelha do leão.
“A pessoa que costurou o brinquedo também mexeu aqui.”
Dante olhou para o quarto do filho como se nunca o tivesse visto. Câmeras, sensores e homens armados protegiam a mansão inteira, mas o espaço onde Theo deveria estar seguro havia sido transformado numa armadilha.
Dante virou-se para o filho.
“Eu vou encontrar quem fez isso.”
Theo recuou.
“Não precisa responder”, disse Lívia. “Só precisa saber que nós ouvimos.”
O menino segurou o pulso dela.
Seus olhos se fixaram na passagem secreta.
“Ela”, murmurou, arranhando a palavra com uma voz enferrujada.
Lívia se inclinou.
“A mulher da flor?”
Theo assentiu.
Depois olhou para Dante e completou:
“Ela vem quando o papai dorme.”
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