"O Filho do Chefe da Máfia Atacou 18 Babás… Até Uma Empregada Descobrir Por Que Ele Gritava" Capítulo 2 — A Mulher da Flor Azul
Dante mandou esvaziar o salão.
Em menos de um minuto, funcionários e seguranças desapareceram pelas portas laterais. Permaneceram apenas Dona Celina, Bruno, Lívia e Theo.
O menino continuava agarrado ao uniforme da empregada.
“Pergunte o que ele viu”, Dante ordenou.
Lívia ergueu os olhos.
“Não.”
Bruno ficou imóvel. Poucas pessoas recusavam uma ordem de Dante Montenegro duas vezes na vida.
“Você entendeu quem está falando?”
“Entendi. E ele também.”
Lívia indicou Theo sem soltá-lo.
“Seu filho acabou de falar depois de dois anos. Se todos começarem a interrogá-lo, ele vai entender que abrir a boca é perigoso.”
Dante desceu o último degrau. O terno preto e as tatuagens que subiam pelo pescoço transformavam sua aproximação numa ameaça, mesmo quando ele não levantava a voz.
“Você não é médica.”
“Também não fui eu que contratei dezoito especialistas incapazes de perceber que ele estava apavorado.”
Dona Celina fechou os olhos. Bruno disfarçou uma inspiração.
Theo levantou o rosto para observar Dante. Lívia percebeu e suavizou o tom.
“Dê espaço para ele decidir se quer falar novamente.”
O celular de Dante vibrou. Ele ignorou.
“Fique com Theo até a médica chegar.”
“Eu fui contratada para limpar.”
“A partir de hoje, seu salário será cinco vezes maior.”
“Eu não disse que aceito.”
A surpresa nos olhos de Dante durou pouco, mas existiu.
Lívia precisava de dinheiro mais do que jamais precisara de qualquer coisa. Mesmo assim, reconhecia o tipo de proposta que se transformava em algema.
“Primeiro ele precisa ser examinado por causa da crise”, disse. “Depois conversamos.”
Dante assentiu para Bruno, que chamou a equipe médica.
Theo só permitiu que verificassem seus sinais vitais quando Lívia mostrou cada instrumento antes. Ao ouvir o velcro do aparelho de pressão, ele tentou se esconder, mas ela esperou.
“Quer colocar no meu braço primeiro?”
Ele assentiu.
Vinte minutos depois, a doutora Mirela Prado entrou no salão usando um conjunto bege, sapatos silenciosos e uma delicada flor azul presa à lapela.
Theo viu o broche.
Seu corpo inteiro endureceu.
Ele empurrou o aparelho de pressão, derrubou uma bandeja e recuou até bater na parede.
“Theo, sou eu”, disse Mirela, com a voz paciente. “Você conhece a doutora.”
O menino cobriu os ouvidos.
Lívia se colocou entre os dois.
“Tire a flor.”
Mirela a encarou.
“Quem é você?”
“A pessoa que ele não tentou atacar até a senhora entrar.”
“O comportamento dele é imprevisível. Não procure relações onde não existem.”
Lívia apontou para a lapela.
“Tire.”
Dante observava o filho. Quando Mirela tentou avançar, ele estendeu o braço.
“Faça o que ela pediu.”
A médica retirou o broche e o entregou a Bruno. Mesmo sem a flor, o perfume permaneceu no ar: uma mistura adocicada de gardênia e jasmim.
O mesmo cheiro preso ao cabelo de Theo.
“A senhora esteve com ele hoje?”, perguntou Lívia.
“Minha sessão foi ontem.”
“Então por que ele está com seu perfume?”
Mirela soltou um sorriso curto.
“Talvez uma funcionária use algo parecido. O trauma faz crianças criarem associações irracionais.”
“Irracional é ignorar a associação quando ela acontece na sua frente.”
Dante voltou-se para a médica.
“Você escolheu as babás?”
“Selecionei profissionais adequadas ao caso.”
“Todas?”
“Era parte do tratamento.”
Mirela abriu a pasta e falou sobre regressão, agressividade e risco de reforço emocional. Recomendou que Theo fosse sedado e levado ao quarto.
Lívia sentiu os dedos dele apertarem sua mão.
“Não.”
“Senhorita Batista”, disse Mirela, “você trabalha nesta casa há menos de uma hora.”
“E ele já falou comigo.”
O silêncio atingiu a médica. Ela olhou para Dante como se esperasse que ele corrigisse uma insolência.
“Theo disse ‘flor’”, explicou Dante. “Apontando para a ala norte.”
Por um instante, o rosto de Mirela perdeu a serenidade.
“Ecolalia tardia. Uma palavra isolada não significa comunicação consciente.”
“Ele apontou para uma porta.”
“Crianças apontam.”
“A senhora parece determinada a provar que meu filho não sabe o que faz.”
Mirela fechou a pasta.
“Estou determinada a impedir que uma reação casual destrua dois anos de tratamento.”
Ela recomendou afastar Lívia imediatamente. Dante respondeu que tomaria a decisão depois de revisar os relatórios.
Quando a médica saiu, Theo respirou melhor.
Dona Celina levou o menino à cozinha, com Lívia ao lado. Preparou leite morno, mas Theo recusou até ver Lívia beber um gole de outro copo.
“Alguém sempre prova o que ele consome?”, perguntou ela.
“Não”, respondeu a governanta. “A doutora diz que rituais alimentam a desconfiança.”
“Ou evitam que uma criança desconfie sozinha.”
Dona Celina estudou o rosto de Lívia.
“Cuidado com as perguntas. Nesta casa, respostas costumam custar caro.”
“Mais caro que uma criança vivendo com medo?”
A mulher baixou os olhos.
Depois do almoço, Theo adormeceu num sofá próximo à lavanderia, ainda segurando dois dedos de Lívia. Dante apareceu sem o paletó, com as mangas dobradas e o olhar mais cansado do que ameaçador.
“Quanto custa a cirurgia?”
Lívia ficou rígida.
“Quem contou?”
“Meu chefe de segurança sabe quem entra na minha casa.”
“Então sabe que meu irmão não está à venda.”
“Eu posso pagar o hospital hoje.”
“E amanhã, quando eu discordar do senhor, vai lembrar que comprou a vida dele?”
Dante se calou.
Lívia ajeitou a manta de Theo.
“Se quer que eu permaneça, haverá condições. Avaliação de outro médico. Ninguém toca nele sem avisar. E a ala norte será aberta.”
“A ala está fechada desde a morte de Bianca.”
“Seu filho apontou para lá.”
“Há lembranças que podem destruí-lo.”
“Talvez seja o que está escondido entre essas lembranças que já esteja fazendo isso.”
Dante olhou para Theo durante vários segundos.
“Você fica por sete dias. Como acompanhante, não como médica. Seu irmão será transferido para uma equipe cardiológica independente. Sem dívida comigo.”
“E a porta?”
“Amanhã.”
Foi o máximo que ela conseguiu.
Naquela tarde, Lívia pediu os registros das antigas babás. Bruno entregou uma pasta digital, alegando que os contratos eram confidenciais. Ela não precisava dos contratos.
Queria as fotografias de identificação.
Dezoito mulheres apareceram na tela. Idades diferentes, cabelos diferentes, formações diferentes.
Na primeira foto, uma flor azul estava presa ao uniforme branco.
Na segunda também.
Lívia ampliou as demais.
Todas usavam o mesmo broche.
Lívia abriu os depoimentos de saída. As justificativas oficiais eram quase idênticas: risco físico, impossibilidade de vínculo e recusa da criança ao contato feminino. Nas anotações particulares, porém, aparecia outro padrão.
A terceira babá relatara que Theo entrou em crise depois que alguém borrifou perfume em seu travesseiro. A sétima ouvira uma mulher andando no corredor durante a madrugada. A décima segunda encontrara a porta do quarto aberta, embora tivesse certeza de que a trancara.
“Por que essas observações não chegaram ao senhor Dante?”
Bruno verificou os destinatários.
“Chegaram primeiro à doutora Mirela. Ela classificou tudo como interpretação causada por estresse.”
“Dezoito mulheres tiveram a mesma interpretação?”
Uma gravação curta acompanhava o relatório da décima quinta babá. A mulher chorava enquanto dizia que Theo não tentara machucá-la até sentir o perfume em seu uniforme. Depois da crise, alguém lhe oferecera dinheiro para assinar um termo afirmando que o menino era incontrolável.
“Quem ofereceu?”
Bruno ampliou a assinatura no documento.
O pagamento saíra do escritório jurídico da Vértice Engenharia.
“Isso fazia parte do uniforme?”, perguntou.
Bruno franziu a testa.
“Não existe esse item no uniforme da casa.”
“Quem entregava?”
Ele abriu os arquivos de admissão. Em cada ficha havia a mesma assinatura de autorização.
Dra. Mirela Prado.
Theo surgiu à porta com uma folha e três lápis de cera. Colocou o desenho no colo de Lívia.
Era a mansão. Ele havia feito o salão em amarelo, o jardim em verde e o quarto em azul.
No fim do corredor, desenhara uma porta completamente preta.
Atrás dela havia uma mulher com uma flor azul.
Ao lado da mulher, um homem muito alto estendia a mão.
No dedo dele, Theo pintara um círculo negro.
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