"O Filho do Chefe da Máfia Atacou 18 Babás… Até Uma Empregada Descobrir Por Que Ele Gritava" Capítulo 1 — A Décima Oitava Babá
“Eu não volto nem por dez vezes o salário.”
A mulher atravessou o saguão da mansão Montenegro com sangue escorrendo pela testa. A manga do uniforme estava rasgada, e uma das pérolas do brinco balançava presa ao cabelo.
“Aquele menino não é normal.”
Ninguém tentou detê-la.
Dois seguranças abriram os portões de ferro. A décima oitava babá em seis meses entrou no carro sem olhar para trás e desapareceu pelas ruas arborizadas do Morumbi.
Dante Montenegro observava tudo do alto da escada.
Aos trinta e sete anos, ele fazia homens adultos baixarem os olhos antes que recebesse uma ordem. Controlava transportadoras, armazéns, empresas de segurança e rotas que nenhuma auditoria conseguia mapear por completo.
Mas não conseguia se aproximar do próprio filho.
Theo tinha quatro anos. Cabelos negros e encaracolados, olhos escuros demais para um rosto tão pequeno e uma raiva que parecia ocupar cada osso do corpo.
Dois anos antes, ele estava no banco traseiro quando homens armados cercaram o carro de Bianca Montenegro. A mãe morreu antes que o motorista conseguisse tirá-lo dali.
Desde então, Theo não pronunciara uma palavra.
Gritava. Mordia. Quebrava espelhos. Arremessava qualquer coisa que alcançasse. Nenhuma babá conseguira tocá-lo por mais de alguns segundos.
“Ligue para a agência”, Dante ordenou.
Dona Celina, governanta da família havia vinte e nove anos, não se moveu.
“Não há mais agências dispostas a mandar alguém.”
“Então ofereça o dobro.”
“O senhor ofereceu o dobro para as últimas quatro.”
Dante apertou o corrimão. O silêncio dos funcionários foi pior que uma resposta.
Na entrada de serviço, Lívia Batista ainda não sabia que a vaga mais perigosa daquela casa não era a dela.
Ela vestia um uniforme vinho grande demais, emprestado de uma funcionária que pedira demissão na semana anterior. Carregava um balde, panos e uma sacola com o almoço que Dona Celina lhe permitira trazer.
O celular vibrou dentro do bolso.
HOSPITAL SANTA HELENA — SETOR DE CARDIOLOGIA.
Lívia recusou a chamada. Se atendesse, ouviria novamente que o quadro de Caíque havia piorado e que a cirurgia particular custaria perto de cento e oitenta mil reais.
Seu irmão tinha treze anos e esperava havia meses por uma transferência no SUS. O cardiologista não prometera que ele pudesse esperar muito mais.
Por isso ela precisava daquele emprego.
“Olhos baixos quando o senhor Dante passar”, advertiu Dona Celina. “Não faça perguntas. Não entre na ala norte. E, se ouvir o menino gritar, chame um segurança.”
“Ninguém tenta acalmá-lo?”
A governanta demorou a responder.
“Todos que tentaram foram embora feridos.”
Lívia molhou o pano e começou a limpar uma mesa de mogno no salão principal. Sobre ela havia fotografias de uma mulher bonita com Theo ainda bebê. Em quase todas, Bianca usava uma flor azul presa ao vestido.
O primeiro grito veio do corredor.
Não parecia birra. Parecia medo.
Lívia ergueu a cabeça no instante em que uma porta bateu. Theo surgiu correndo, vermelho, descalço e segurando uma estátua de cavalo feita de bronze.
“Theo!”, gritou um segurança.
O menino girou o corpo e lançou a peça.
O cavalo atingiu Lívia abaixo das costelas.
O ar desapareceu de seus pulmões. O balde virou, espalhando água pelo mármore. Ela se curvou, abraçando o lado do corpo enquanto uma dor aguda subia até o ombro.
“Theo!”
A voz de Dante atravessou o salão.
O menino olhou para o pai e ficou ainda mais agitado. Correu até Lívia e chutou sua perna. Uma vez. Duas. Três.
Os seguranças se aproximaram, mas Dante levantou a mão.
“Não o agarrem.”
Todos esperaram que Lívia fugisse.
Ela pensou em Caíque no leito do hospital, tentando sorrir enquanto o monitor denunciava o coração cansado. Pensou também na própria mãe, que passara anos acordando assustada, sem conseguir explicar o que sentia.
Lívia respirou contra a dor.
Depois se ajoelhou.
Não tentou segurar Theo. Não ficou acima dele. Apenas se colocou na mesma altura e manteve as mãos abertas sobre as próprias pernas.
“Isso doeu muito”, falou.
Theo levantou o pé outra vez.
“A estátua doeu. Seus chutes também.”
O pé permaneceu suspenso.
Dante desceu um degrau, mas Dona Celina segurou discretamente seu braço.
“Espere.”
Lívia colocou uma mão sobre o coração.
“Para caber tanta raiva dentro de você, deve existir alguma coisa muito pesada aqui.”
Theo respirava rápido. Seus punhos estavam fechados. O olhar percorria o rosto dela como se procurasse a mentira escondida.
“Você pode tentar me bater de novo”, continuou Lívia. “Mas eu não vou gritar com você.”
Uma lágrima surgiu em seus olhos por causa da dor. Ela não a escondeu.
“E não vou fingir que não machucou. Machucou. Só que eu também não vou correr.”
Theo ergueu o punho.
Bruno Almeida, chefe da segurança, avançou meio passo. Dante novamente o conteve.
O pequeno punho tremia no ar.
Lívia não desviou o rosto.
“Se você não quer que eu chegue perto, eu fico aqui. Se quiser que todos saiam, pode apontar para a porta. Mas ninguém vai tocar em você sem avisar.”
Por dois anos, profissionais haviam falado sobre Theo diante dele. Transtorno de estresse pós-traumático. Mutismo traumático. Agressividade reativa. Risco de institucionalização.
Lívia foi a primeira a falar com ele como se sua decisão importasse.
O punho desceu lentamente.
O lábio inferior do menino começou a tremer.
Ele deu um passo.
Depois outro.
Então se lançou contra Lívia.
Ela quase caiu para trás. Theo passou os braços pelo pescoço dela e se agarrou com uma força desesperada.
O grito que saiu dele não era de raiva.
Era um choro profundo, irregular, antigo. O choro de uma criança que aprendera a atacar antes que alguém pudesse abandoná-la.
Lívia envolveu o corpo pequeno com cuidado.
“Tudo bem”, sussurrou. “Eu não vou apertar. Você escolhe quando soltar.”
Uma taça escapou da mão de Dante e se partiu no degrau.
Theo não permitia contato desde a morte da mãe. Nem mesmo o pai conseguia abraçá-lo durante uma crise.
Agora chorava no colo de uma mulher cujo nome Dante ainda não conhecia.
“Quem é ela?”, perguntou.
“Lívia Batista”, respondeu Dona Celina. “Começou hoje na equipe de limpeza.”
“Ela não é babá?”
“Não.”
O choro diminuiu. Theo afastou o rosto apenas o suficiente para respirar. Lívia percebeu um cheiro doce em seus cabelos, parecido com flores brancas, mas havia outra coisa presa à gola do pijama.
Um pequeno fio azul.
Ela o retirou com dois dedos. Parecia ter se soltado de uma flor de tecido.
Theo viu o fio e se enrijeceu.
“Está tudo bem”, disse Lívia.
O menino encarou a fotografia de Bianca sobre a mesa. Depois olhou para o corredor por onde tinha surgido.
Sua boca abriu, mas o som não veio.
Dante desceu o restante da escada.
“Theo.”
O menino se agarrou novamente a Lívia.
O gesto atingiu Dante como uma acusação. Ainda assim, ele parou a três metros, respeitando a distância que o filho sempre exigia.
“Você está seguro”, falou, sem convicção.
Theo começou a sacudir a cabeça.
Lívia sentiu o pequeno coração disparado contra o peito. Seguiu o olhar dele até o andar superior. No fim do corredor havia uma porta preta, diferente das demais.
A porta da ala norte.
“O que tem lá?”, perguntou Lívia.
“Nada que diga respeito a você”, respondeu Dante.
Theo apertou os dedos no uniforme dela. Então inspirou de forma trêmula e forçou a voz através de dois anos de silêncio.
“Flor.”
Ninguém se moveu.
Dante perdeu a cor.
O menino apontou para a porta preta.
“Flor”, repetiu, com medo.
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