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"A Garçonete Que Entendeu o Segredo do Mafioso" Capítulo 5 — A rota que não existia

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Capítulo 5 — A rota que não existia

"Quero a cópia do arquivo que gerou essa rubrica", Lívia disse.

Ícaro abriu a ficha de circulação. Havia registro de envio ao setor de operações, mas o documento original em papel não constava do inventário atual.

"Pode ter sido descartado", ele disse.

"Ou retirado. Não vou escolher uma hipótese porque é mais confortável."

Dante encostou na mesa. "Quem tinha autorização para aprovar em nome de um tradutor?"

Ícaro listou os cargos daquela época: direção operacional, controle documental e administração executiva. Algumas pessoas já haviam deixado a empresa. Lívia pediu os nomes, as datas de saída e a lista das traduções feitas no mesmo mês.

Dante queria chamar os três funcionários que ainda trabalhavam ali.

"Se alguém está apagando rastros, uma reunião conjunta só lhe dá tempo para combinar versões", Lívia disse.

"Prefere que eu espere?"

"Prefiro que ninguém saiba qual erro encontramos."

Ele respirou fundo. Acostumado a resolver problemas dando instruções, tinha dificuldade em deixar a investigação nas mãos de alguém que acabara de conhecer. Lívia percebeu o esforço e não o recompensou por isso; continuou trabalhando.

Nos dias seguintes, dividiu o tempo entre a mesa emprestada na empresa, a casa da prima e uma consulta com uma advogada indicada por Celina. O contrato de prestação de serviços só foi assinado depois que a advogada incluiu regras para pagamento, confidencialidade limitada e preservação de evidências. Lívia recebeu adiantamento por horas de tradução, guardou os comprovantes e pagou duas contas vencidas.

Na primeira noite em que dormiu sem calcular juros, sonhou com o pai marcando páginas em vermelho.

Pela manhã, voltou aos arquivos.

Quatro profissionais haviam trabalhado em documentos japoneses para o grupo ao longo de seis anos. Um pedira demissão sem cumprir aviso; outra fora transferida pouco depois de registrar uma dúvida sobre horários. O terceiro ainda prestava serviços a empresas no porto. A quarta tradução tinha sido atribuída a Álvaro quando ele já estava internado.

"Isso pode ser uma inclusão tardia no sistema", Ícaro comentou.

"Pode. Precisamos do registro de quem a incluiu."

Ele concordou em buscar o histórico técnico. Quando saiu, Dante trouxe dois cafés, um sem açúcar e outro adoçado.

"Não sabia qual era o seu."

"Então por que comprou os dois?"

"Para você poder escolher."

Lívia pegou o adoçado. As mãos deles não se tocaram.

"Sua ideia de gentileza sai cara", disse.

"Já ouvi isso antes."

Foi uma conversa breve. O telefone de Dante tocou com uma ligação do setor de transporte, e ela voltou às planilhas. Ainda assim, Lívia notou que ele não perguntara onde dormira nem tentara acompanhá-la na noite anterior.

No fim da tarde, o histórico chegou. Uma credencial da diretoria tinha reaberto o arquivo atribuído a Álvaro. O sistema antigo registrava o nível de acesso, não o usuário. A descoberta reduzia os suspeitos, mas também criava um problema: Dante e Ícaro tinham credenciais equivalentes.

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Lívia pediu a Ícaro que imprimisse a tela e registrasse a hora da consulta. Ele ofereceu enviar apenas uma captura, mas ela quis ambos: a imagem para trabalhar e o histórico para localizar a origem. A falta de um nome no sistema não autorizava ninguém a preencher a lacuna com suspeitas.

"Otávio adoraria receber uma cópia disso", Ícaro disse.

"Talvez já tenha", Lívia respondeu.

Ela encontrou outra pista no caderno do pai. Ao lado de três datas de alterações, Álvaro desenhara um pequeno quadrado e escrevera

pedido recebido antes da liberação

. Alguém sabia com antecedência quais remessas passariam por fiscalização interna menos rigorosa.

Lívia propôs um teste. Escolheriam uma carga real e alterariam apenas o aviso preliminar de rota enviado a grupos diferentes dentro da empresa. Nenhuma carga seria desviada: as versões serviriam apenas para localizar quem repassava informação. O despacho verdadeiro permaneceria com a equipe responsável.

O jurídico revisou o procedimento. Dante insistiu que a operação de transporte não fosse prejudicada. Lívia preparou três avisos com horários distintos e marcas discretas no texto japonês. A versão entregue a Ícaro mencionava uma parada perto do canal. A da direção operacional apontava um pátio no interior. A terceira, disponibilizada a um núcleo da administração, falava em espera no terminal sul.

Cada aviso tinha um erro pequeno de pontuação, impossível de notar sem compará-los lado a lado.

Naquela noite, um motorista contratado por Otávio apareceu no pátio do interior e perguntou por uma carga que nunca iria para lá.

"Direção operacional", Ícaro disse quando viu a imagem da portaria.

"Ou alguém que teve acesso ao aviso deles", Lívia corrigiu.

O diretor do setor era Mateus Rangel, um homem que Dante conhecia havia dez anos. Ele controlava escalas e substituições de prestadores, mas não os pagamentos antigos ligados ao nome de Álvaro.

Dante pediu que Ícaro o trouxesse à sala.

"Ainda não", Lívia falou. "Se ele for a fonte, vamos alertá-lo. Se não for, vamos entregar ao verdadeiro responsável o nome de um inocente para usar como escudo."

"Você quer repetir o teste?"

"Quero descobrir quem viu aquele aviso depois de Mateus. E tenho outro problema."

Dante se aproximou da mesa, mas ela manteve a página virada para baixo até Ícaro fechar a porta. Não estava tentando ocultar informação de Dante; queria saber exatamente quem ouvira a conversa. Depois dos avisos vazados, até uma suspeita pronunciada no corredor poderia chegar a Otávio antes de uma prova.

Ela mostrou uma página do caderno do pai. Entre duas listas de cargas, Álvaro escrevera o nome de Helena Valença com um ponto de interrogação. Lívia sabia que Helena era a viúva do pai de Dante e mantinha uma função honorária no conselho. Seu nome não aparecia na circulação recente dos avisos.

"Isso é antigo", Dante disse.

"Por isso vou perguntar a você antes de supor qualquer coisa. Ela lidava com traduções?"

"Às vezes apresentava meu pai a clientes japoneses. Não aprovava operações."

Lívia virou a página. Havia uma nota incompleta:

Quem pediu a troca? M. ou H.?

Mateus ou Helena. Ou outras pessoas com aquelas iniciais. Ela não sabia.

Lívia perguntou se haveria atas das antigas reuniões do conselho. Ícaro encontrou um índice incompleto e ofereceu pedir as caixas ao arquivo externo. Ela marcou as datas que interessavam e acrescentou uma quarta, anterior à primeira alteração conhecida. Se a rede já funcionava antes de Álvaro notar os erros, uma ata isolada seria insuficiente.

Na manhã seguinte, alguém enviou a Dante uma mensagem anônima com a fotografia do carro de Lívia diante da casa da prima.

No corpo do texto, havia apenas uma frase:

Sua tradutora também tem família.

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