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"A Garçonete Que Entendeu o Segredo do Mafioso" Capítulo 4 — As condições de Lívia

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Capítulo 4 — As condições de Lívia

A resposta de Dante não apareceu.

Lívia estava no patamar entre seu apartamento e a escada quando ouviu uma voz masculina lá embaixo.

"A porta está aberta."

Outra voz, mais distante, respondeu algo que ela não entendeu. O telefone de Lívia ainda mostrava a ligação feita à polícia. Ela enviou uma atualização curta com a descrição do homem, pegou o extintor preso à parede do corredor e recuou até a porta da vizinha.

Não pretendia enfrentar ninguém com aquilo. Só precisava de uma saída caso chegassem ao patamar.

"Dona Celina", chamou baixinho.

A senhora do apartamento ao lado abriu uma fresta.

"Tem gente tentando entrar no prédio. Chame a polícia também e não abra para desconhecidos."

Celina viu a mochila, o extintor e não pediu explicações. Trancou a porta para fazer a ligação.

Lá embaixo, passos aceleraram. Lívia segurou o ar. Um homem subiu até o primeiro lance. Então vieram pneus freando do lado de fora e uma ordem gritada na rua.

O homem desceu correndo.

Lívia não se moveu até ouvir Ícaro pelo telefone.

"Estamos na entrada. A polícia está virando a esquina. Não desça ainda."

"Quantos vieram com você?"

"Eu e Dante. Mais ninguém."

"E os homens de Otávio?"

"Um fugiu pelo estacionamento. O outro entrou no carro."

Ela olhou pela janela do corredor. Dois veículos escuros bloqueavam a saída da vaga de carga, mas o utilitário já não estava lá. Uma viatura parou do outro lado da rua. Lívia pousou o extintor no chão, abriu a porta para Celina saber que estava bem e desceu com a mochila junto ao corpo.

Dante estava na calçada, sem paletó. Ao vê-la, examinou primeiro seu rosto, depois a mochila. Lívia notou a ordem e parou a alguns passos dele.

"Por que não devo entregar a caixa a ninguém?", perguntou.

"Porque não sei quem teve acesso aos arquivos que seu pai reuniu. Quero que você possa escolher a quem mostrá-los."

"Sua mensagem parecia uma ordem."

"Foi um erro."

Não era um pedido de desculpas suficiente. Pelo menos ele não fingiu que ela tinha entendido mal.

Ícaro conversava com os policiais. Lívia fez seu próprio relato: a ameaça por telefone, o carro, os golpes na porta e a tentativa de entrada. Mostrou a gravação da chamada sem entregar o aparelho. Contou que possuía documentos antigos relacionados à empresa de Otávio e pediu orientação para apresentá-los depois de organizar os arquivos. Recebeu o número do registro da ocorrência.

Dante esperou até ela guardar o papel.

"Conheci Álvaro quando ele traduzia contratos para meu pai", disse. "Depois trabalhou em algumas negociações comigo. Fazia perguntas que meus diretores detestavam."

"E você?"

"Eu devia ter prestado mais atenção às respostas."

Lívia abriu a mochila apenas o bastante para retirar uma cópia impressa da carta. Conservou o original dentro da caixa.

"Ele escreveu que encontrou alterações nas rotas. Você sabia?"

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"Sabia que havia divergências de carga. Não sabia que ele tinha ligado isso a traduções modificadas."

"Isso é uma resposta estreita."

"É a resposta que posso provar hoje."

Ela lhe mostrou a fotografia do manifesto em que aparecia Brandão Transportes. Dante reconheceu o número do terminal; Ícaro, ao se aproximar, identificou uma antiga autorização de acesso que deveria ter sido encerrada.

"Antes de reconhecer esse número, diga quando viu o manifesto pela última vez", Lívia pediu. Dante indicou o ano e a equipe que administrava o terminal. Ela anotou a resposta na frente dele. Se a memória dos dois divergisse mais tarde, haveria ao menos uma versão registrada naquele dia.

"Se ele ainda usa esse código, quero saber como", Ícaro disse.

"Comece pedindo a lista de pessoas que podiam renová-lo", Lívia respondeu. "Brandão não assina autorizações da sua empresa."

Dante olhou para ela por um instante. "Preciso que venha conferir os documentos."

"Eu decido isso amanhã, depois de dormir."

"Otávio pode tentar de novo."

"Por isso fiz o registro. E vou dormir em outro lugar esta noite. Não preciso informar o endereço a você."

O maxilar dele se contraiu, mas ele concordou. Lívia escolheu a casa de uma prima em São Vicente. Antes de partir, enviou à colega do restaurante outra cópia das fotos e avisou que estava segura. Não enviou os cadernos a ninguém; preservou os originais na mochila.

Na manhã seguinte, encontrou Ícaro e Dante numa sala de reunião da Valença Logística, no centro de Santos. Havia câmeras nos corredores, recepção com funcionários e janelas amplas. Lívia preferiu aquilo a uma conversa na casa de qualquer um deles.

Colocou um papel sobre a mesa.

"Se eu trabalhar nisso, haverá pagamento pelo serviço de tradução, acesso aos documentos que eu precisar consultar e uma forma de registrar o que me entregarem. Posso sair quando quiser. Não quero motorista, segurança ou mudança de endereço sem me perguntarem."

Ícaro leu as condições. "Você preparou um contrato."

"Uma proposta. O advogado de vocês pode revisar, e eu também vou procurar alguém para revisar a versão final."

Dante não pegou o papel de imediato.

"Não posso prometer acesso irrestrito a toda a empresa."

"Então diga o que consegue oferecer. Não vou descobrir depois que só vi os arquivos escolhidos para me convencer."

Ele pediu a Ícaro uma relação dos setores com acesso aos horários, às traduções e às chaves dos terminais. Discutiram a forma de registrar cópias sem alterar originais. Lívia concordou em começar pelos arquivos do pai; os documentos da empresa viriam mediante uma autorização por escrito.

Ao meio-dia, Ícaro trouxe dois contratos antigos. Lívia colocou a versão japonesa ao lado da portuguesa. A primeira indicava uma janela de entrega após as dezoito horas. A segunda antecipava a carga para antes do amanhecer e a mandava para outro pátio.

As assinaturas dos fornecedores eram iguais nas duas versões digitalizadas. A rubrica de conferência interna era diferente.

Lívia ampliou a imagem até os traços começarem a se desfazer.

"Quem aprovou esta tradução?"

Ícaro procurou o registro. Seu rosto perdeu a cor.

"O arquivo diz que foi seu pai."

Lívia colocou o caderno de Álvaro ao lado da tela. Na mesma data, ele anotara:

Não aprovei. Pedir original ao setor.

Ela ergueu os olhos para Dante.

"Alguém usou o nome dele depois que ele contestou a mudança."

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