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"A Garçonete Que Entendeu o Segredo do Mafioso" Capítulo 3 — A caixa de Álvaro

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Capítulo 3 — A caixa de Álvaro

Às duas e dezessete da manhã, Lívia retirou debaixo da cama a caixa de madeira que não abria desde o enterro.

Seu apartamento ficava sobre uma lavanderia, a poucas ruas da casa onde crescera. O ventilador batia de leve na parede a cada volta. Sobre a mesa, ela havia espalhado recibos do hospital, fotografias antigas e o cartão de Dante Valença.

Álvaro morrera de câncer. Lívia acompanhara consultas, remédios e dias em que ele mal tinha força para terminar uma frase. Nada no cartão alterava isso. O que mudava era o pouco que ela soubera sobre os anos anteriores.

Passou os dedos pelas laterais da caixa até encontrar uma chave pequena presa sob a base com fita já amarelada.

"Pai, você era insuportável", murmurou, sentindo falta dele com uma intensidade que quase a fez parar.

Dentro havia três cadernos, dois dispositivos de armazenamento e um envelope com seu nome. Ela abriu primeiro a carta.

Álvaro começava brincando com a teimosia da filha. Depois falava de coisas comuns: impostos, uma fotografia guardada numa gaveta, a receita de um arroz que Lívia nunca conseguira acertar. Perto do fim, a letra diminuía.

Trabalhei para empresas ligadas à família Valença. Traduzi reuniões e contratos entre o Brasil e o Japão. Durante algum tempo, acreditei que meu trabalho terminava nas palavras.

Ela levou a mão à boca.

Descobri alterações em documentos que passaram por mim. Rotas, horários e nomes de responsáveis mudavam entre uma versão e outra. Não sei quem autorizava todas elas. Reuni o que pude antes de adoecer.

A frase seguinte a fez voltar ao começo da página.

Se Dante procurar você, escute o que ele tem a dizer. Depois confira. Eu mesmo nunca soube quanto ele conhecia do que acontecia dentro da empresa.

Lívia não gostou de imaginar o pai convivendo com aquela dúvida durante o tratamento. Continuou lendo. Ele pedia desculpas por deixar perguntas, explicava que os cadernos continham datas para comparar com arquivos digitais e lembrava que ela podia entregar tudo a alguém de confiança. Não lhe exigia que concluísse o trabalho.

"Mesmo assim você sabia que eu ia olhar", ela disse ao papel.

Ligou o computador. Um dos dispositivos pedia uma senha que não conseguiu descobrir. O outro continha fotografias de listas de carga, recibos e trechos de mensagens em japonês. Os arquivos estavam organizados por mês; algumas imagens saíam tortas, como se Álvaro as tivesse feito às pressas.

Lívia pegou o primeiro caderno e comparou uma data. Uma carga de peças industriais aparecia numa lista com destino ao interior de São Paulo. Num segundo documento, a mesma remessa passava horas num terminal que não constava da rota autorizada.

Ela anotou os dois nomes de arquivo e fez cópias em uma pasta separada. Seu pai deixara marcas de tinta junto a alguns registros. No terceiro, sublinhara o nome da transportadora responsável pelo trecho desviado.

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Brandão Transportes.

Lívia buscou a razão social em dois comprovantes antigos e encontrou o mesmo número de cadastro, embora o nome usado nas listas variasse. Anotou a correspondência no caderno sem riscar as páginas do pai. Se os documentos acabassem nas mãos de investigadores, queria preservar os originais.

Otávio estivera à mesa de Dante pedindo mais acesso às rotas. Lívia apoiou os cotovelos sobre a mesa e tentou separar o que sabia do que suspeitava. As alterações tinham ocorrido anos antes. A presença de Otávio no jantar não provava que Dante as conhecesse. Também não o inocentava.

O telefone vibrou. Número desconhecido.

Ela deixou tocar duas vezes antes de atender e acionou a gravação disponível no aparelho.

"Alô?"

Houve um ruído de trânsito. Uma voz masculina falou baixo:

"Você devia ter continuado invisível."

A chamada caiu.

Lívia salvou o número e fez uma captura da tela com o horário. Mandou à colega do restaurante uma mensagem curta:

Recebi uma ameaça. Estou em casa e vou ligar para a polícia.

Em seguida, telefonou para a polícia e informou o endereço, a ligação e a presença da arma no restaurante. Não tentou explicar documentos que ainda mal entendia.

Um som de vidro partido veio da rua.

Ela apagou a luz e se aproximou da janela pelo lado. Junto à entrada da lavanderia, um homem examinava a porta de ferro. Mais adiante, um utilitário escuro ocupava metade da vaga de carga. O farol de um carro que passava iluminou por um instante a lapela do homem.

Uma pequena serpente prateada.

Lívia se afastou. Enviou a foto do cartão de Dante e a localização para a colega, explicando quem o entregara e por quê. Depois fotografou os documentos mais claros do pai e guardou a caixa numa mochila. Se alguém entrasse, ela precisava poder sair sem voltar ao quarto.

Abriu a conversa com Dante. Desta vez não apagou a mensagem.

Otávio aparece nos arquivos do meu pai. Há um homem com o broche dele na porta do meu prédio. Já chamei a polícia. Como você conhecia Álvaro Azevedo?

O indicador de leitura apareceu quase imediatamente. Antes da resposta, Lívia ouviu um golpe contra a porta de ferro lá embaixo.

Ela segurou a mochila junto ao peito e foi para o corredor, longe da janela. O telefone vibrou em sua mão.

Conheci seu pai por causa dos contratos. Estou a caminho. Fique onde a polícia possa encontrá-la.

Lívia leu a frase enquanto outro golpe ecoava pelo prédio. Dante podia estar dizendo a verdade. Seu pai a avisara para conferir.

No bolso da mochila, ela sentiu a borda rígida do caderno. Quem quer que estivesse descendo do utilitário não sabia que ela já encontrara o nome de Otávio nas páginas. E Dante ainda não sabia quais documentos ela havia copiado.

Lívia manteve o telefone pronto para atualizar a polícia. Quando o ruído na porta cessou, ouviu passos na escada. Não conseguiu distinguir se subiam ou desciam.

Só então o celular recebeu uma segunda mensagem de Dante:

Não entregue a caixa a ninguém antes de falarmos.

Ela apertou a alça da mochila. Aquela ordem vinha de um homem que conhecia seu pai e comandara uma ameaça em outro idioma, acreditando que ela não entenderia.

Lívia respondeu com duas palavras:

Por que não?

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